Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga
Deixarmo-nos ondular pelo vento, tão simples como tudo o que nasce, seja das nossas mãos, seja do coração, seja da terra que nos acolhe sempre, generosa.
30/04/07
27/04/07
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
2ª estrofe de "Ode à Noite", Álvaro de Campos, 1914.
Receio, tantas vezes, que as distâncias impossíveis de percorrer se revelem, enquanto tal, subitamente.
Receio, cada vez mais, que a vida possa converter-se em distância impossível de percorrer, subitamente, como numa revelação.
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
2ª estrofe de "Ode à Noite", Álvaro de Campos, 1914.
Receio, tantas vezes, que as distâncias impossíveis de percorrer se revelem, enquanto tal, subitamente.
Receio, cada vez mais, que a vida possa converter-se em distância impossível de percorrer, subitamente, como numa revelação.
20/04/07
Sentiu falta do calor do corpo, o calor que emana da pele de quem se ama ou se odeia, daquele que se esvanece com a morte, lentamente, dando lugar ao frio da ausência. Sentiu que a memória conserva tudo vivo, talvez, mas não essa sensação de que tudo se joga naquele toque. Talvez a morte seja isso mesmo, a viagem do calor ao frio, a perda do abraço que securiza e aquece, como se o sangue de uns e de outros se fundisse. Como se o tempo ficasse suspenso.
07/04/07
finais de dia com sabor a fim II
Deitou-se de costas a olhar o branco do tecto ou o azul do céu, ou o cinzento da água pesada por chover. Fechou os olhos e escreveu: Se estivesse numa guerra qualquer, tenho a certeza que me ocorreria oferecer-te flores e beijos. Lembrar-te-ia todos os dias como um lugar por detrás do calor do sol, abrigado dos ventos do furacão. Falaria contigo como se estivesses ali, olhos nos olhos e mão na mão. Dir-te-ia coisas, muitas sem sentido. Faria todas as promessas possíveis. Afagar-te-ia o cabelo como se fosse a última vez, antes da guerra.
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