29/06/07

Entre o ir e o ficar, o sentir-se prisioneiro e o tão vulgar soltar das amarras, pouco resta, nada dista. Nada pára à nossa espera e essa impossibilidade de suspender o mundo, enquanto se decide o próximo passo, torna-nos senhores de nós mesmos, rasgando os tratados, fulminando a ponderação a golpes de aventura, gritando ao desconhecido ainda que seja apenas para o não ouvirmos, por temermos o escuro que nos dizem que seguramente encontraremos. Seremos sempre ingénuos e crédulos anarquistas, sem escolha nem redenção, de coração dilacerado, talvez, mas vivos, talvez.

Apetece-me, hoje, reler...

"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura. [...]"

Excerto de Orpheu Rebelde, Miguel Torga

15/06/07

finais de dia com sabor a fim IV

Chegaste agora a casa. Tomaste a tua decisão, declaraste-a como irreversível porque nada faz sentido, a tua vida não vale nada e não suportas mais dor, especialmente a que não consegues identificar, a que é difusa, a que te devora e te levará à implosão, a uma qualquer implosão sem rasto.
Dá-me apenas um segundo. Deixa-me tentar apenas convencer-te do quanto vales a pena. No final, se quiseres, podes continuar a pensar que o teu valor é o mais absoluto zero, que o movimento dos astros é indiferente ao que dizes, fazes, sentes, pensas, que o facto de respirares não interfere com o ciclo das marés, nem com a órbita da lua, que o pulsar do teu coração e o fluir do teu sangue nas tuas veias não altera o sentido do curso dos rios, nem provoca as chuvas, que o teu choro não inverterá a seca, nem acabará com a dor ou a fome no mundo. Dá-me um segundo, apenas um para isto tudo.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Sinto, contudo, que um segundo não chega, porque uma vida toda também não chegaria. Estás convencido de que sabes o que vales, de que nasceste com um nó no cordão umbilical e que terás de viver, o tempo que tiver de ser, com um nó na garganta. Estás convencido de que vives uma vida só tua, de que as raízes e os ramos da tua árvore não estão ligadas a nada nem a ninguém.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.

13/06/07

Sentes que perdes folhas, não é? Por cada dia que passa, sentes que te expões, que mostras mais do que o rosto, que a tua nudez se te vai impor e que as tuas raízes não permitem que fujas, que te ocultes dos olhos de quem passa por ti. Sentes que nada podes fazer para que isso não aconteça... Também sei o que isso é... Nada disso me é estranho, sabias? Sinto também que o frio me perturba cada vez mais, que o calor me torna os dias quase insupotáveis, que nem sempre consigo ler as cartas de amor que o orvalho acaba por ir escrevendo em mim. E temo a chuva, sabes? Temos que me desfaça, como ao papel, que me converta em algo informe por onde a seiva deixe de encontrar motivos para correr e decida sair de vez, toda. Temo tanta coisa, como tu, provavelmente. Sabias?

08/06/07

finais de dia com sabor a fim III

Tomaste a parte pelo todo, o todo pela parte, saiste e regressaste, foste longe demais. Equivocaste-te mais uma vez, muitas vezes, sem o pudor de magoar com pensamentos, com palavras, actos e omissões... por tua culpa, tua tão grande culpa. Devoraste, cedo e tarde demais, fora de tempo, os segredos e mistérios, as raivas, as compaixões. Digeriste a entrega com a sofreguidão dos animais há muito famintos. Rasgaste-lhe os sonhos com as garras afiadas da tua falta de amor e nem à hiena que te habita resta o banquete necrófago no sortilégio da noite. Foste longe demais, foste até ao fim. Agora, enquanto entras em casa, cansado de mais um pseudo-fatigante dia de trabalho, aliviado da carga, de algo que nunca quiseste, imagina apenas o vazio e o desespero. Terás de carregá-los para o resto da tua vida, apenas não o sabes ainda. Chegará o dia em que até a mais inofensiva e reconfortante brisa te provocará dor ao roçar a pele da tua face. Até lá, vive... como se nada de importante tivesse terminado.