31/12/07

Levanta-te e anda

Levanta os braços, por um dia que seja. Ergue-te da sombra que sobre ti criaste e deixa que alguma luz, tímida, vá escorrendo pelos teus cantos mais obscuros e secretos. Levanta a tua fronte, para que se veja que os teus olhos brilham mesmo na noite. Ergue-te da sombra e caminha pelos trilhos que se abrem à tua frente. Levanta-te e anda, mesmo que não te creias capaz de o conseguires fazer. Anda, mesmo que caias e voltes ao teu canto sombrio e nele tornes a ocultar tudo o que és. Por um dia operaste o teu milagre e posso afirmar-te, como num acto de fé, que o sol nasceu só para ti, nesse dia. Talvez te voltes a erguer e a andar de novo. Podes confiar que ficaremos à espera, pelo menos o sol e eu.

26/12/07

não posso dizer que isto é uma história de Natal, embora me apetecesse

Seguia ao longo das paredes fias das casas. A rua mal iluminada, luzes amareladas a lembrar que nem tudo deve ser visto em todo o esplendor das suas cores. Dentro de algumas casas, o cenário previsível do Natal, os ruídos das festas, pouco lhe interessava. Cá fora, a brisa cortante. Passo após passo, mais uma noite passada sem dormir a vaguear e sempre o regresso a casa, uma visita à última morada mas sem levar flores. Sempre a brisa cortante, sempre o frio. Subiu as escadas e entrou. Atirou as chaves para cima de uma cadeira, atirou-se para dentro da cama e deixou que o peso da roupa da cama se fizesse sucedâneo de amor. O frio não passaria, aquele gelo que lhe tomara conta da vida. Se lhe perguntasse, dir-me ia que, nessa noite, sonhara com cores diferentes do cinzento frio dos seus dias, com o amor a envolvê-lo, com o vento frio e seco a soprar-lhe lucidez. Desejar-me-ia um feliz Natal, provavelmente. Olhar-me-ia com os olhos de quem se despede, uma e outra vez, ainda que não saiba sequer por que razão o faz. Seguiria no seu passo, a certeza entregue ao caos, apenas porque sim.
Talvez haja quem se sinta uma andorinha a rasgar o frio do Inverno, a vida toda. Talvez tenha de partir para outro sítio.
Alguns partem mesmo. Nunca os compreenderemos, talvez. Pergunto-me se seria relevante se faria a diferença, se alguma vez saberemos o que seria fazer a diferença para alguém a quem o ar não chega para que possa respirar. Esperemos, por tudo o que foram, que não façam a sua viagem em vão.

11/12/07

Tdos os dias mais um, todos os dias. Todos os dias uma palavra que afasta, que torna evidente o que sempre foi. Hoje, é mais uma perspectiva de colheita permatura de frutos que vimos lentamente despertar para o raio de sol matinal que lha dá côr. Amanhã, provavelmente, já não estará na árvore e será mais uma memória de como se cumpriu um fruto que nem teve tempo de amadurecer. Estou cansado destes ocasos ao meio-dia, estou cansado cedo demais.