29/07/07

Reparei que a primeira vez que coloquei um post neste blog (antes de tê-lo apagado e ressuscitado...) foi dia 27 de Julho. Há coisas...

25/07/07

Diluis-te no cinzento ou em outra cor qualquer. Deixas-te ficar com um sabor amargo nos lábios, como se nunca tivesses beijado o amor. Deixas que saia de ti a tua essência sem que, de ti, exale o teu perfume irrepetível.
Deixas-te ficar à espera, como se esperar fosse tudo o que sabes e queres fazer, tudo o que toda a gente faz à tua volta. Olhas para uma luz que já não brilha, que nunca brilhou. Contempla-la como se estivesses frente a uma epifania redentora.
Vives como se esperasses pouco mais que nada, talvez a terra húmida por cima da tua pele nua, como uma consolação, como o caloroso regresso à casa que nunca tiveste.
Não dizes de ti nem sequer que gostas que olhem para ti, que vejam o negro fundo dos teus olhos, o natural desalinho dos teus cabelos, o teu corpo delicado.
Esperas, apenas, como se esperasses uma revolução, uma metamorfose, um beijo qualquer desde que te desperte, que não te faça sentir como uma ferida que não pode, não quer, nem sabe sarar.
Como se nunca fosse tarde demais, esperas.

23/07/07

Leva-me onde saibas que me encontras.
Diz-me que me levante,
Que ande,
Que estou vivo.
Dá-me uma mão, a tua.
Diz-me que confie,
Que o que não vale a pena
Não merece que se perca a vida nele.
Dá-me da tua água.
Diz-me que não mais terei sede,
Que não mais terei aquele calor que tudo queima.
Leva-me ao cimo da colina.
Ainda que seja uma pequena colina
Na imensidão da planície devorada pelo sol e pela vida.
Sabes que estou lá.
Que sempre estive, ali,
Onde mil palavras valem todas as imagens,
Mil, se quiseres. As tuas.

21/07/07

Guarda-me um segredo,
Ainda que ele seja apenas um qualquer eco de mim,
Ainda que não to tenha ainda confessado.
Guarda-me aquele segredo
Que te parecer ter mais de mim lá dentro,
Mais amargura, mais dor,
Mais sorriso, mais cor.
Guarda-mo e nem me digas nada acerca disso.
Deixa que eu perceba a cumplicidade,
Que sinta que me possuis.
Deixa que o jogo se vá revelando.
Guarda-me um segredo,
Ainda que já ambos saibamos de tudo,
Como se brincássemos,
Ingenuamente,
A um qualquer jogo de escondidas,
Cumplice e amorosamente viciado.
A.

19/07/07

Se não for antes, no dia em que partires, saberás, porque saberás tudo, que sempre te amei, desde o mais fundo do meu medo, à confiança de saber que fomos tudo para ti. Dar-te-ás conta de que foste mais nós do que tu e que, hoje, colhemos, todos, os frutos disso, do gostar desmedido, do proteger, como a árvore que se entrega aos frutos e se esquece de si própria até ao momento em que a raíz lhe faz sentir que é pouco mais do que um ténue fio que a liga à terra. Ficarás a saber o quanto sempre foi importante podermos saborear a sombra e o conforto da árvore, para mim e para os meus frutos, e que, quando te pedia que cuidasses de ti, desejava apenas que te desses mais valor, que não confundisses a procura de outras sombras e o crescer do meu tronco e dos meus ramos, com coisas sem sentido, com falta de amor. Saberás que nunca quis distância, apenas espaço. Saberás que nunca recebeste falta de respeito nem ira, mas sede de perfeição, de querer que tudo fosse melhor e de que nada fosse votado a essa morte abjecta e absurda da indiferença. Saberás então que continuaste a pegar-me ao colo muitas vezes, provavelmente sem que ambos dessemos por isso. Saberás que és insubstituível e que, no dia em que partires, não deitarei uma lágrima porque já antes o fiz, mas saberás igualmente que, das muitas cores que pintam a vida, faltará a tua para traçar os riscos e escrever as palavras de que são feitos os meus dias. Ficará tudo o resto, o inominável, ficarão os frutos. Dizem que as árvores morrem de pé... começo a acreditar nisso. Ficarás a saber tudo isso um dia, se não for hoje, porque o tempo que parece ser o que nos falta é, talvez, aquilo que mais nos sobra e sobrará, sempre. Gastámos a passado a aprender e o presente a fazer não sei bem o quê. Teremos sempre, pelo menos, o futuro. Amanhã será um novo dia, com sol e tudo.
18/07

16/07/07

rewind/replay: pequeno requiem relâmpago e possivelmente patético para Lúcia (Lúcia III)

"We know a place where no planes go
We know a place where no ships go
No Cars Go![...] Where we know [...]

Between the click of the light
and the start of the dream."


"No cars go", Neon Bible, The Arcade Fire

10/07/07

Lúcia II

Já não se lembrava bem de como tinha começado tudo aquilo. Provavelmente, teria começado por vítimas de guerras pornograficamente exibidas em noticiários, com todo o seu sangue, todo o seu vazio, todo o ódio e toda a anulação, todas as fomes, todas as amputações, toda a terra seca, toda a mãe incapaz de manter vivo o filho que lhe saíra das entranhas. Teria começado por aí, provavelmente. E deu-lhes nomes. Deu nome a todos os rostos que se cruzaram com o dela, ainda que em sonhos ou pesadelos ou no chão à saída de casa. Teria passado por muitos outros, filhos e pais de muitas guerras e catástrofes e teria desaguado no imenso mar dos que lutam consigo próprios, contra si próprios. Lembrava-se agora de que teria sido algo assim. Especializou-se em observar essas guerras civis a uma só voz e num só corpo e deu-lhes nomes, a todos, em pequenos pedacitos de papel cortados irregularmente, à mão. Chegara assim aos que estão sós. Tinha feito esse percurso do sofrimento mais óbvio para o menos óbvio e não notava que os nomes sentissem a diferença.
Levantou-se um dia. Arranjou-se como de costume, simples. Bebeu uma chávena de leite e pegou na caneta de tinta permanente. Virou todos os nomes, os mais recentes de cada uma das pilhas, para baixo, como se estivessem completas aquelas tarefas. Escreveu um último nome e colocou-o num dos pequenos pilares de papel. Murmurou algo e sorriu tranquila. Saiu de casa, deixando a porta entreaberta.
Provavelmente todos morremos por razões estúpidas. Provavelmente, há quem consiga aguardar.

Lúcia I

Gostava de escrever nomes próprios em pequeninos pedacitos de papel que sobrepunha, em pilhas distribuídas concentricamente, na mesa que tinha sido a dos pequenos-almoços. Dava quase a impressão de que construía as fundações de uma qualquer pequena torre de Babel à sua escala, à escala da sua pequenez, da sua tolhida e encolhida mundividência, da ininteligibilidade que sentia rodeá-la, como que uma bolsa de um líquido amniótico envenenado e sufocante.
Todos os dias subiam um pouco mais, as ditas pilhas de papel, a dita torre de aparente desnorte. Todas as pessoas tiveram um nome e, para ela, os nomes davam corpo e alma de papel à memória de todas as pessoas que, no mundo, vão morrendo por razões estúpidas, sejam elas quais forem.
De entre as razões mais estúpidas para morrer, Lúcia elegera a solidão como a mais evidentemente desprovida de dignidade. Morrer porque se está só é algo que, numa crua lógica, racionalmente, não faz sentido ou faz tanto sentido como parar de respirar só porque é repetitivo, porque aborrece. Aborrece o ritmo da respiração, a dois tempos, o inspirar que obriga ao expirar, e tudo se repete inexoravelmente até ao fim e nem por isso, só por isso, decidimos interromper esse desígnio mecânico e vital.
Encarava a solidão como um jogo de xadrez a sós, um contemplar das peças imóveis porque quem ataca o rei já delineou a sua defesa e tudo está consumado antes ainda do mover do primeiro peão. A solidão é o jogo do não valer a pena. A solidão aborrecia-a. Tinha, aliás, começado a aborrecê-la no dia em que, pela primeira vez, acordou ao pé do marido com a sensação de que tinha o corpo moído. Começou a ficar só no dia em que decidiu que ele não lhe bateria mais, que não lhe retiraria o último fio de dignidade da alma. Confirmou a solidão no dia em que se consumou a separação e as vidas continuaram. Lentamente, a solidão começou a alimentar-se dela, resignou-se.
Começou então a empilhar os pedacinhos de papel.

03/07/07

As pedras acutilantes, pedras de dois gumes por debaixo dos pés.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.