21/10/07

Seria o teu vigésimo aniversário. Estarias hoje aqui, sabe-se lá como, com quem a teu lado, connosco, assim o esperaríamos. Contentámo-nos e adormecemos a perda com aquelas certezas que vamos construindo, que pensamos serem consoladoras mas pouco mais fazem do que ajudar o tempo a passar e, com ele, a aumentar o medo de esquecer-te. Estarias aqui, sabe-se lá com que humor, se calhar num daqueles dias em que te cairia por sobre os ombros o peso do mundo, do teu mundo, as neblinas de ontem, as tempestades da tua infância que nunca chegaremos a imaginar, a euforia de uma qualquer conquista. Nunca o saberemos. Estarias e isso contaria mais do que todos as velas que pudesses soprar, todos os aplausos que por ti se ouviriam. Estarias e teríamos alguém a quem envolver nos nossos braços. Sopramos, hoje, por ti, as tuas velas e esperaremos sempre que, no final do dia, possas ser tu a bater à porta.
17 de Outubro. Parabéns J.

11/10/07

Foges da vida como se ela insistisse em te perseguir, como um refugiado no teu corpo, um apátrida do afecto que roubou tempo à morte. Cresceste dentro de ti, maligno, tumor que te consome em metástases que não podes mais controlar, sem redenção. Sonhas com o dia em que te libertarás de ti, seja como for, nem que isso te leve para longe daqui, onde tudo te é estranho, quase tão estranho como tu.

10/10/07

Fazes-te à estrada, preparado, o cantil com água, talvez, a sede à espreita. A estrada é a saída, já o sabes há muito. Sabes que, à tua volta, o ar está seco, como a terra debaixo dos teus pés. Vês no espelho o desalento, observas as lágrimas que lentamente escorrem pela tua face, desafiando a gravidade e teimando em percorrer o máximo de pele antes de cair no chão. Vês, pelo espelho, a estrada nas tuas costas e avanças. Sabia que não terias medo, que chegado o momento, serias tu a desafiar as leis da física e a trocá-las pelas do desespero, queda por palavras, terra seca por tempestade violenta, vida por sonho, certezas por amor. Sabia que serias capaz de voar, apenas porque nunca quiseste olhar para o chão olhos nos olhos. Sabia que partirias um dia Apenas não queria que tivesse sido hoje. Fazes-me falta, ainda que sejas eu.

01/10/07

Nos sonhos de sua mãe, nunca foi feia, nunca foi má, nunca acordou com a necessidade de se lavar para que dela saísse o cheiro da miséria, da dignidade perdida. Aos olhos de sua mãe, foi sempre a mesma, criança indefesa, esperança, mistério, candura, enlevo deitado num colo feito ninho. No leito de sua mãe jazem todas as esperanças, mortas, as últimas a morrer, diz o povo. Nos olhos fechados de sua mãe ficam os sonhos, encerrados, história terminada, resgate negado ad eternum. Nas mãos de sua mãe, placidamente colocadas sobre o peito, nas veias que a pele deixa ver e onde apenas o frio corre, fica o segredo, o sortilégio de uma doçura ainda possível, feita de lágrimas, transmutadas nos sonhos de sua mãe.