30/12/08
Finais de dia com sabor a fim VI
Saíu da cama, sentiu que era tarde demais. Abriu a janela e sentiu o frio cortante. Vestiu-se à pressa e saltou. Correu toda a noite pela cidade. Buscou-a por todos os recantos, seguiu-lhe o cheiro, o riso, a fala, a cor das roupas. Correu até ser dia, até não sentir-se mais. Adormecera no momento errado e dormira em excesso. Restava-lhe agora o sonhar acordado e o dar de beber à dor de uma insónia sem fim.
28/12/08
podia ser uma carta... gostava que fosse
"Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Partiu o meu avô materno pouco menos de duas semanas antes do Natal de 1997.
"Lembro-me, avô, de que, tão direito quanto possível, entrou pelo seu pé no hospital de onde não voltou a sair, com a sua pequena mala e a também sua pouca esperança na possibilidade de adiar a grande viagem, que pressentia com resignação. Falámos muitas vezes, outras tantas discutimos, em algumas ocasiões desabridamente, como dois adolescentes inseguros. Reconstruímos sempre o caminho pedregoso que nos permitia fazer ao menos a metade que, nem que fosse teoricamente competia a cada um, de igual para igual. Estou convencido disso.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Ainda assim, no limite das suas forças, recordo a forma enternecedora como se despediu da nossa primeira filha que nasceria em Abril com um firme 'já não a vejo mas cuidem bem dela'. Tentou, como sempre, esconder a emoção e a lucidez de que seria o último adeus.
Encontrámo-nos logo nessa noite, quando, já
de viagem, cruzou o meu sonho, onde eu já o aguardava. E estivemos por alguns momentos, os necessários para que ficasse clara a natureza da visita, na praia do Monte Clérigo, do lado certo das 'Margaridas' e, vigilante, observava a forma como eu, para aí com uns sete ou oito anos, saltava destemido e dominador as ondas, seguindo as normas, bom aprendiz.
E, com os seus calções azuis escuros e o seu cabelo branco a começar a aparecer e a cobrir-lhea cabeça e o corpo como a espuma de uma qualquer maré, as mãos atrás das costas, despedimo-nos. Acordei a meio da noite, com os olhos rasos de lágrimas ou de toda aquela água salgada e, pela manhã, nada foi surpresa.
Também o tenho ido fundindo no meu pai, quer pelo que foram um para o outro, quer porque necessito de todos, os que cá estão e os que já não posso abraçar fisicamente, cada vez mais perto. A sua partida não me deixou mágoa. E tenho acordado, ao longo destes anos, com a memória de sonhos reconfortantes mas estranhos, porque quase do dia-a-dia, nos quais falamos, ou porque chego a casa e estão lá os dois, e me desabafa os mais recentes caprichos da avó ou porque eu ou nós vos fomos visitar e ficamos a conversar um bocadinho neste mesmo sítio em que agora escrevo e onde tanta coisa de bom se passa cá em casa. "Tens a certeza que não queres comer nada?" "Tenho... acha que eu só penso em comer?" "Pronto, já estás a desconversar, não tens remédio!"
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
(a foto foi tirada por mim em fevereiro de 2008. o sonho descrito decorreu exactamente ali, naquele cenário e não em outro qualquer, parecido. as rochas estavam, como em muitos outras alturas, muito menos cobertas de areia: detalhes...)
25/12/08
É dia de Natal. Apesar de tudo, é dia de Natal. Apesar da lareira apagada, da manta húmida por sobre os joelhos a fingir o calor, a simular um conforto feito de nada. Ficou para trás o naco de pão e a malga com o caldo enregelado. Vem-lhe à memória a abundância de que ouvira falar na catequese, no banco duro da escola: o ouro, o incenso e a mirra. Se deram valor àquilo, é porque já teriam comida, mesmo que fosse apenas o leite da vaca ou da burra, ou de alguma cabra ou ovelha que tivesse vindo mirar o menino nascido no meio das bestas e do seu calor, e do seu cheiro, com o enlevo e a devoção possíveis a uma cabra ou a uma ovelha. Lembra-se depois de outra coisa que o Menino prometeu mas... ensinaram-lhe que tinha sido na Páscoa. Era igual, palavra de Deus, Homem ou Menino, não tem época nem tempo propícios, como a fruta, como as tangerinas no pino do Inverno frio. "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso." Sabe-lhe a redenção, esta frase. Ecoa-lhe como 'glória a Deus' sob o brilho prenhe de vida da estrela que trouxe ouro e insenso e tudo o resto. Amanhã, acordará, talvez no paraíso, com uma estrela que guiará até si gente vinda de todas as partes a dar-lhe coisas, um beijo que seja, um abraço. E, Páscoa ou Natal, terá sido tudo o mesmo porque a vida e a morte correm lado-a-lado, como dois companheiros de escola, no recreio, com as mãos a cheirar a casca de tangerina.
23/12/08
não é bem uma carta...
Nunca te perguntei certas coisas. Nem sei mesmo se o farei agora, não te quero magoar. Seria sempre de forma não intencional mas, ainda assim, não quero correr o risco. Já é suficientemente penosa a ideia de que, em breve, mais depressa do que todos pensamos, estaremos todos, de uma forma ou de outra, impedidos de nos abraçarmos e de dizermos quão importantes fomos uns para os outros. Por isso, não te quero perguntar por que razão te fechavas no quarto e, pela mesma fresta que me deixava entrever a hera do lado de lá da janela, no jardim do vizinho, te via com uma almofada por sobre a cabeça, o corpo de bruços, prostrado. Não te pergunto também porque, fechada a porta, gemias e gritavas contra uma qualquer dilacerante dor que nunca soube ser do corpo ou da alma mas tão funda era que ainda hoje me dói o ter que esperar que passasse e não perceber a assumida impotência para te libertar.
Sabes que não te pergunto as razões de tudo isso, se é que as conheceste alguma vez, porque também eu já me abriguei debaixo de uma almofada parecida e, de bruços sobre a cama, já gritei do mais fundo de mim sem saber se era do corpo, da alma ou de ambos o que me rasgava a vida, ali. E também eu já li nos olhos dos que me espreitam pela fresta da porta essa mesma impotência, essa espera que para sempre dialogará connosco. Também tu tiveste a tua fresta por onde espreitar e será esse o nosso cordão umbilical, aquele que, se calhar, nunca cortaremos.
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
08/12/08
da importância de ir escrevendo cartas
Caíam gotas de água errante, chuva ambiente. Os semáforos, o cruzamento, testemunhos de toda a gente a querer ir para todos os lados e todos sob um mesmo céu cinzento. Tomava-o a inércia, essa pouca vontade de sobreviver mais um dia. Sentado no carro, enquanto esperava, deixava qua as gotas se acumulassem, paulatinamente, no vidro e apeteceu-lhe que fosse essa a metáfora dos seus últimos dias. Cada vez menos detalhe, cada vez mais difuso e caleidoscópico, cada vez mais longe. Ouvira em fado antigo que gaivota que não voa, esmorece e cai no mar. Apetecia-lhe também que fosse essa outra metáfora dos seus últimos dias, povoados de abundante autocomiseração e água mole. Escreveria uma carta.
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