26/03/08

Fazes hoje o luto por ninguém que tenha morrido. Não foi ninguém hoje para debaixo da terra fria deste frio fim de Março. Contudo, as lágrimas percorrem o teu rosto e a perda ensombra-te o olhar. Abriste hoje os olhos, de manhã, e quiseste fechá-los de novo, ignorar o que te faz sentir mais velho. Estás hoje mais velho, garantidamente, do que ontem. Se estás mais maduro... duvido. O teu mundo perfeito quis mostrar-se imperfeito e nascer para que todos o vissem. Rebentaram as águas e, do útero da tua fantasia saíu uma violência muda, surda, velha e amarga, pequenina e mesquinha, com modos de quem não é lobo mas está a adorar ter-lhe vestido a pele. É assim mesmo. E, como por tantos outros partos indesejados de coisas indesejadas, choras. Choras e fazes luto. Choras porque não és mais do que uma criança que a vida protegeu cegamente. E fazes luto, um luto carregado por ti, por aquilo que não és capaz de manter vivo no pálido sol coberto de nuvens cobardes que és tu e a tua vida. No teu mundo, tudo deveria fazer sentido. Talvez sejas tu a peça errada do puzzle que se foi tecendo à tua volta, talvez te leves demasiado a sério, prenhe de narcisismo e autocomiseração. Paciência. Já nasceste. Aguenta-te com o resto. Consola-te: isto não dura sempre. É irónico, não é? Lembras-te de teres desejado a imortalidade na tua infância? Ainda bem que cresceste, pelo menos nisto.