Pedes esmola, sentada ao colo do teu pai e nos seus olhos vazios temo ver os teus, só não sei quando. Ele, o teu pai, sentado no chão e tu sentada no ninho que as pernas dele fazem. Sorris a troco de uns trocos. Sorris e serias feliz se não te fosse impossível.
Vi-te ontem a tocar uma concertina à beira de um rio, à espera que te dessem uns trocos em troca do requiem resignado que à tua volta vais entretecendo enquanto as tuas costas curvadas e os teus olhos negros, enormes pediriam para seres criança, se tivesses alguma vez sabido o que isso é. Mas não sabes. Nasceste com a amargura no rosto, a concertina na mão e eras um homem.
O que será de ti que sorris ao colo do teu pai com os teus cabelos de ouro?
O que será de ti que tocas sozinho, ou do teu irmão, na outra margem, com outra concertina e os mesmos olhos?
O que será de ti daqui a cinco, daqui a dez, daqui a vinte anos, se ainda por aqui estiveres?
Continuaremos a cruzar-nos, todos impotentes, todos com as mesmas moedas no bolso, as que te matarão a fome e as que não me fazem falta, as que me sobram e te dou para poder dormir melhor?
Não te servirá de consolo mas deixa-me que te diga que não te esquecerei e que falarei de ti aos meus filhos, quando os tiver ao colo, para que saibam que há quem tenha de sorrir e tocar concertina no chão frio e sujo da rua sem perguntar porquê.
Nessa noite, dormiremos pior. Onde estarás?
(Varsóvia, 28 maio 2008; evocando Berlin, 5 agosto 2008)
28/05/08
10/05/08
Sobre o meu corpo, duplicou, triplicou, hoje, a força da gravidade.
E tudo, mesmo tudo, pesa demais, até a chuva, até o ar que inspiro.
Tudo esmaga, tudo comprime, tudo deprime, quase tudo magoa por sobre a dor cinzenta e o cansaço.
E tudo, mesmo tudo à minha volta, me parece saido de uma fotografia envelhecida pelo tempo e pela falta de cuidados.
Dias pesados, sombrios, estes.
Um passo atrás do outro, até amanhã.
Espero cores, amanhã. Cores e nitidez.
E um ar que não se debata tanto comigo ao inspirar.
E tudo, mesmo tudo, pesa demais, até a chuva, até o ar que inspiro.
Tudo esmaga, tudo comprime, tudo deprime, quase tudo magoa por sobre a dor cinzenta e o cansaço.
E tudo, mesmo tudo à minha volta, me parece saido de uma fotografia envelhecida pelo tempo e pela falta de cuidados.
Dias pesados, sombrios, estes.
Um passo atrás do outro, até amanhã.
Espero cores, amanhã. Cores e nitidez.
E um ar que não se debata tanto comigo ao inspirar.
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