24/05/09

Gosto de começar muitas destas pequenas tentativas de textos por "Um dia..." Se calhar encarna a minha frustração pelo que ainda não é, mais do que a esperança no que está por vir. Pouco importa, não é? Um dia sentirei menos a gravidade, o seu peso, a forma como encurta a distância entre o céu e a terra, como os fará inexoravelmente colidir. E tudo isto me faz ter vontade de correr para um mar em tons de azul e chumbo e mergulhar, enquanto a chuva cai torrencialmente, água sobre água, ficar por lá. Atrás de mim, todo o mundo, sem que isso importe.
Quando me olho e vejo o que sou no dia-a-dia, nunca sei se tema se agradeça. Estreita é a fronteira entre a sanidade e a loucura, seja lá isso o que for, e todos os dias essa fronteira muda, se dissolve, se materializa em outros sítios, formas, contextos. Penso nisto quando vejo as marcas que as ondas deixam na areia antes de recuar, depois de terem percorrido a sua viagem final. Fica aquela linha, irregular que podemos seguir com o olhar ou com os nossos passos. Logo vem outra e outra e outra. Será sempre assim. Lugar comum? Claro, como tantos outros que aqui deixo. Paciência. Fica sempre a dúvida: entre a melancolia mais funda e dolorosa e a euforia mais exuberante e excêntrica, tem de haver uma postura séria de adulto maduro, previsível? Talvez. Talvez um dia cheguemos a uma praia qualquer, à nossa praia, caminhemos descalços na areia ainda húmida da noite. Sentar-nos-emos a observar esse lugar onde as ondas têm a sua petite mort e, se o que virmos forem marcas de linhas rectas, correctas na sua intenção e geometria, nesse dia tentarei voar, só ainda não faço ideia como. Um dia, mais uma vez, um dia saberei isto tudo, ou talvez não.