12/03/07
Regressar...
Regressar a esta página, na qual escrevo, claro sobre o escuro do suporte, mais claro em palavras do que o pouco claro do meu coração... volto a casa.
15/1/2007
Quase sem dar por isso, deixámos para trás aquela dor que só a perda pode inflingir. Fomos guardando o aroma da presença, a memória menos recorrente, mais o eco que a voz, mais o olhar que o calor das mãos. Quase sem dar por isso, como quem esquece. Quase sem dar por isso, como os sinais que nos percorrem a pele, para sempre.
5/1/2007
Fechar os olhos e continuar a ver. Fechar os olhos e voltar a sentir tudo de novo, como se nascêssemos outra vez, tudo de novo. Fechar os olhos sem contornar a ilusão de que tudo pode ficar igual. Fechar os olhos, apenas para que sonhar seja mais confortável. Fechar os olhos para que tudo, filtrado pela doçura das pálpebras, seja mais suportável. Fechar os olhos para poder sentir, pouco a pouco, a luz, as cores, e voltar a sentir tudo de novo, como se nascêssemos outra vez. Fechar os olhos, mesmo que seja para voltar a abri-los, assim, pela última vez.
You can taste your fear
It's gonna lift you up and take you out of here...
Intervention, Neon Bible, The Arcade Fire
You can taste your fear
It's gonna lift you up and take you out of here...
Intervention, Neon Bible, The Arcade Fire
5/12/2006
O homem avançava. Fazia-o sem se preocupar com o que as pessoas em seu redor pudessem pensar. As calças estavam rasgadas no joelho esquerdo e tinham manchas de uma terra cor de barro perto do rasgão. Olhando para ele, teríamos a sensação de que o homem teria caído mas o seu andar não denunciava que por debaixo das calças rasgadas pudesse estar uma qualquer ferida, resultante de uma qualquer queda. Estranhar-se-ia apenas o facto de não haver, naquele sítio, qualquer terra vermelha, a única seria a do pequeno jardim público em frente ao quiosque onde me encontrava e essa era escura, quase negra. Segui-o, com o olhar, mais algum tempo. Ao meu lado, um velho com um casaco a cheirar a bafio fumava um cigarro, com a avidez de um esfomeado, ao mesmo tempo que folheava as primeiras páginas de um jornal desportivo. Ao ver passar o homem, em voz baixa e olhando de lado, comentou com o dono, suponho eu, do quiosque:- Estás a ver, Inácio, andam para aqui estes estrangeiros a fingir que trabalham e a gente a pagar!- Como é que sabes que o gajo é estrangeiro?- Pela cabeça em baixo, para não terem de falar. Parece que têm medo que a gente os coma. E viste as calças, não viste? Nem se lavam. Andam para aí nas obras e...O dito Inácio, apoiando-se nos jornais, esgueirou-se para poder ainda avistar o homem que passava, antes de ele virar à esquerda, na próxima esquina. Comentou que efectivamente tinha ar de estrangeiro, daqueles de Leste, com mau aspecto e que constava que alguns andavam sempre armados para se poderem defender uns dos outros, porque com a bebida não têm mão sobre si próprios.Deixei discretamente o jornal que ia comprar em cima dos outros. Não me apetecia mais ter de ouvir aqueles dois, o Inácio e o seu conhecido, a especular sobre o tal supostamente estrangeiro. Contornando o quiosque e seguindo a rua até ao fim, virando à direita, podia cruzar-me com o homem das calças rasgadas e, pelo menos, ver-lhe a cara. Pelo tempo transcorrido, deveríamos cruzar-nos quando eu estivesse a virar. Talvez, se eu esperasse um pouco, conseguisse obrigá-lo a desviar-se de mim ou a pedirmos desculpa, caso fossemos um contra o outro. Esperei uns segundos e avancei. Reparei que o homem estava em frente a uma porta, continuei a andar, lentamente, como quem passeia, de forma tão natural quanto possível. Falava com alguém para dentro da casa, uma voz de mulher. Eram ambos portugueses e a mulher chorava enquanto lhe perguntava se tinha a certeza. De dentro da casa vinha um cheiro a sopa. O homem baixou a cara e respondeu que sim. Deixei cair a carteira e baixei-me para a apanhar, tentando ganhar tempo para entrar naquela privacidade que me tinha enfeitiçado. Ficaram calados. Apenas a borracha dos meus sapatos a chiar na calçada já húmida e um latido de cão numa varanda qualquer, nada mais se ouviu.- Entra, estou a fazer uma sopa, sempre aqueces.- Obrigado.Ele deu-lhe um beijo na face e pude ver-lhe a cara molhada pelas lágrimas.- Fiz o que pude.- Eu sei.Ouvi o ruído seco do fechar da porta já depois de passar frente à porta. Continuei, voltei à direita em direcção ao quiosque. Passei pelos dois fulanos, o Inácio e o companheiro do casaco bafiento. Baixei a cara ao passar por eles. Também eu era um estrangeiro, daqueles de Leste, também eu tinha medo que me comessem.Como nos filmes, nessa noite sonhei com o irmão daqueles dois, do homem das calças rasgadas e da mulher que chorava. Sonhei como ele tinha caído do andaime e como o irmão procurara mantê-lo agarrado à vida. Sonhei com o homem a olhar para os olhos do irmão, já fechados e a deixar cair umas lágrimas grossas enquanto lhe afagava a cara ainda quente com a barba rala mal feita. Sonhei com um desfecho para aquela cena que me absorvera, um final tão estrangeiro quanto o homem que passou por nós naquele fim de tarde, frio, sem chuva.
30/11/2006
Ao fundo, o barco não era mais do que um ponto esverdeado no azul também esverdeado do mar. Ao fundo, ao linha do horizonte, escura, anunciava muitas coisas, entre elas mau tempo, não necessariamente uma tempestade, mas mau tempo.
No barco, o pescador e o seu filho olhavam para a falésia e para a praia. Os pescadores sabem ler todos os sinais que o cenário vai dispondo em seu redor e este não era excepção. Olhou para o filho e este compreendeu. Começaram a preparar o regresso. Não tinha sido particularmente proveitoso, o dia. Alguns sargos, outras tantas douradas e meia dúzia de bodiões nem sequer renderiam grande coisa. Com mais umas horas conseguiriam fazer mais um dinheiro mas, desde que o tio e o avô tinham sido engolidos por uma onda que lhes virara o barco a umas duas milhas dali, nem havia muito a pensar. À medida que o chumbo das nuvens avançava sobre o mar e o sol morria na linha do horizonte, o escuro tomava conta de tudo. Estavam à vontade. O vento ainda nem sequer tinha começado a soprar com uma força digna do nome. A rebentação começava a ouvir-se nas rochas e deixava uma espuma mais e mais visível, mesmo de longe, uma espécie de neve do mar colada às rochas.
Ao fundo, o barco era o mesmo ponto esverdeado no azul também esverdeado do mar. E isso bastava-me. Como visão de fim do dia era fantástica, na sua dimensão pictórica. Parecia que o barco procurava encaminhar-se para a rebentação e, pela lógica, atingir a costa, agora que o escuro das nuvens avançava decididamente sobre mar, tomando conta de tudo. Olhei para trás e a estrada que dava acesso à praia vizinha estava deserta. Daqui da falésia, a praia estava também ao fundo, apenas um pouco menos do que o barco. O dia terminava com o regresso daquele barco. Por uma noite mais ninguém teve de se despedir para sempre.
No barco, o pescador e o seu filho olhavam para a falésia e para a praia. Os pescadores sabem ler todos os sinais que o cenário vai dispondo em seu redor e este não era excepção. Olhou para o filho e este compreendeu. Começaram a preparar o regresso. Não tinha sido particularmente proveitoso, o dia. Alguns sargos, outras tantas douradas e meia dúzia de bodiões nem sequer renderiam grande coisa. Com mais umas horas conseguiriam fazer mais um dinheiro mas, desde que o tio e o avô tinham sido engolidos por uma onda que lhes virara o barco a umas duas milhas dali, nem havia muito a pensar. À medida que o chumbo das nuvens avançava sobre o mar e o sol morria na linha do horizonte, o escuro tomava conta de tudo. Estavam à vontade. O vento ainda nem sequer tinha começado a soprar com uma força digna do nome. A rebentação começava a ouvir-se nas rochas e deixava uma espuma mais e mais visível, mesmo de longe, uma espécie de neve do mar colada às rochas.
Ao fundo, o barco era o mesmo ponto esverdeado no azul também esverdeado do mar. E isso bastava-me. Como visão de fim do dia era fantástica, na sua dimensão pictórica. Parecia que o barco procurava encaminhar-se para a rebentação e, pela lógica, atingir a costa, agora que o escuro das nuvens avançava decididamente sobre mar, tomando conta de tudo. Olhei para trás e a estrada que dava acesso à praia vizinha estava deserta. Daqui da falésia, a praia estava também ao fundo, apenas um pouco menos do que o barco. O dia terminava com o regresso daquele barco. Por uma noite mais ninguém teve de se despedir para sempre.
16/11/6006
Há dias assim, em que todos somos peixes e barcos fora de água, num porto qualquer.
Há dias assim, em que por mais estranho que pareça, não conseguimos fazer aquilo que de nós seria esperado.
Há dias assim, dias em que quase aceitamos que a morte nos surpreendeu, doce e serenamente, pela madrugada de um novo dia que nasceu.
Há dias assim, dias que me fazem desejar que morrer possa ser algo como acordar e estar quase tudo igual. Só o mar partiu, nada mais.
Há dias assim, em que por mais estranho que pareça, não conseguimos fazer aquilo que de nós seria esperado.
Há dias assim, dias em que quase aceitamos que a morte nos surpreendeu, doce e serenamente, pela madrugada de um novo dia que nasceu.
Há dias assim, dias que me fazem desejar que morrer possa ser algo como acordar e estar quase tudo igual. Só o mar partiu, nada mais.
9/11/2006
No próximo ano
Não deixes que o sangue se veja,
Que ele corra por entre o verdeDa relva onde caíste.
No próximo anoPensa apenas no que não vais fazer,Pensa que estás mais perto.
No próximo ano
Não sintas que a luz te corta,
Que ela te fere.
No próximo ano
Não sintas o calor que te sufoca.
No próximo ano
Não te deixes esmagar pelo ar
Que não tens, que não inspiras.
No próximo ano
Pensa apenas que sobreviveste.
Não deixes que o sangue se veja,
Que ele corra por entre o verdeDa relva onde caíste.
No próximo anoPensa apenas no que não vais fazer,Pensa que estás mais perto.
No próximo ano
Não sintas que a luz te corta,
Que ela te fere.
No próximo ano
Não sintas o calor que te sufoca.
No próximo ano
Não te deixes esmagar pelo ar
Que não tens, que não inspiras.
No próximo ano
Pensa apenas que sobreviveste.
29/10/2007
Nunca te falei do vento que sopra por mim, nem das asas que sinto ter, nem do meu sonho de voar por sobre o mar, tocando ao de leve na espuma das ondas. Nunca te falei do medo, do meu medo de que o escuro seja o não voltar mais, o não encontrar o caminho de volta.Nunca te disse que por vezes não estou onde posso ser visto, estou longe de mim mesmo.Nunca te falei do quanto estou cansado do meu eco, de discutir com os meus lamentos, do impulso adiado, do amanhã igual ao hoje, da espera pelo fim, um fim qualquer, das amarras ansiosas de uma angústia que não controlo.Nunca te falei do sonho de que um dia vou acordar na areia da minha praia, exausto do voo, molhado pela água salgada, finalmente livre.Nunca te contei o quanto gosto de flores.Nunca te disse que estás no meu sonho, a afagar com doçura as minhas asas, ou a falta delas, as minhas lágrimas ou a falta delas.Nunca te disse nada.
Para aquela que me completa, para sempre.
Para aquela que me completa, para sempre.
21/10/2007
Um dia, iremos ficar a conversar pela noite fora, sempre que queiras. Falaremos sobre tudo aquilo que não tivemos tempo de falar, sobre as nossas vidas, sobre as nossas lágrimas, sobre o muito que nos custou ficar sem ti, sobre as memórias e as fotografias, os sorrisos. Ficaremos por aqui, sem pressa, como se tivessemos estado sempre debaixo do mesmo céu. Um dia, encontrar-nos-emos algures para esta conversa, sem que as perdas sejam cicatrizes.
Para uma estrela cadente que percorreu, fulgurante, o nosso céu.
Para uma estrela cadente que percorreu, fulgurante, o nosso céu.
3/10/2007
Despedi-me dizendo "Até amanhã..."Respondeu-me: "Pois... até amanhã..."Senti que estava consciente de que não nos veria mais. E tinha razão. Despedimo-nos ali, com aquele até amanhã. E enquanto, noite cerrada, ele partia, eu pude rever na minha memória o nosso filme, feito de cumplicidades e carinho, de ensinamentos e desencontros. Adormecemos ambos a certa altura, ele para sempre, eu, até amanhã. Em sonhos, continua a preencher os meus dias, como todos os que partem, com o vivido e o que não tivemos tempo de viver. Porque a nossa existência se constrói todos os dias, com a vida e com a morte...Em memória de JML.
29/09/2006 finais de dia com sabor a fim I
"Chegou a casa. Deixou numa cadeira as chaves e as coisas do dia que acabava. Lavou lentamente as mãos com a água fria que saía da torneira. Lavou a face também. Deixou-se ficar um pouco em frente ao espelho. As lágrimas correram-lhe pelo rosto sem chegar a saber porquê. Secou as mão e o rosto. Sentou-se no sofá e adormeceu. Sonhou que estava feliz e que não estava só. Acordou no dia seguinte, já na cama. Levantou-se e olhou a janela. Chovia. Fechou os olhos e sonhou que dormia e que sonhava que era feliz."
25/09/2006
Se há dias em que parece que voamos acima de qualquer obstáculo e nada nos faz recear a velocidade vertiginosa e o ar sufocante a contornar-nos o corpo num túnel de vento, hoje não é um desses dias. Hoje, o vento magoa e o simples respirar provoca uma dor quase insuportável. Hoje, sinto a minha pele com desconforto. Amanhã talvez seja um dia melhor. Talvez amanhã as palavras não ecoem com estrondo na memória. Talvez amanhã não deseje ir ao encontro daqueles que partiram. Mas hoje nem as palavras mitigam o cansaço de existir.
31/01/07
15 set 2006
Das palavras nasce a vida. E a vida não é mais do que as palavras que gravamos e deixamos gravar no nosso corpo e no nosso espírito, a sangue, a fogo e mitigadas pela água que refresca e cura com o pó da terra, barro de que somos feitos todos nós. Vivo como se tatuasse a minha vida com a dor e a alegria de existir, em solidão. Todos os dias mais tinta e pergaminho porque só as palavras interessam, só as palavras.
O início
"eo Baudolino de Galiaudo de los Aularios... "Baudolino raspava pergaminhos para ter onde escrever. É o que faço. Com todos os suportes contaminados, resta-me raspar e escrever por cima. Veremos ao que estou destinado. (27 jul 2006)
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