18/05/07

boomerang

Parabéns.
Aceita os meus votos e os meus conselhos. Perdoa, se conseguires e quiseres, a minha intromissão no teu percurso de vida.
Celebra todos os teus dias. Celebra-os como se fossem únicos. Celebra, de forma especial, aqueles dias que o resto do mundo escolheu para comemorar algo, por mais idiota que seja. Converte esses dias nas tuas pequeninas e íntimas efemérides pessoais, únicas e irrepetíveis. Chora por tudo aquilo que o mundo faz para que te sintas a mais. Insulta todos aqueles que te rodeiam. Arrepende-te do amor e da amizade. Saboreia cada segundo da mais profunda e competente auto-comiseração. Sente-te mal até não poderes mais contigo, até te tornares insuportável, até à náusea. Odeia-te como se tivesses subido a um qualquer Calvário numa qualquer Via Sacra sem redenção, como se fosses o teu Herodes, o teu Pilatos, o teu Barrabás, sem caíres na tentação nefasta de quereres ser o teu Cristo. Sente-te como Sísifo, como a pedra, como a montanha.
Provavelmente, já fizeste tudo o que, por ti, podias fazer. Foste talhado para grandes voos. Estiveste à tua altura.
Mais uma vez, parabéns.

15/05/07

Porque te sentes como se tivesses perdido as pétalas, choras, deixas que a tua raiz só tenha esse mar como alimento. Porque a chuva não consegue penetrar o denso da tua ramagem, agora inútil, as folhas ásperas com que vestiste o coração, terás de viver da nascente da tua dor. Será ela quem te matará a fome e a sede, quem te dirá que basta já, quem te fará seguir os pontos cardeais, quem conduzirá os teus passos na morna terra fértil que tu sentirás como terra árida de ninguém, como numa qualquer guerra sem inimigo definido. Apenas tu para combater e, nos teus lábios, o sabor do sal errado da vida.

14/05/07

Quantas vezes me revi nos teus olhos, na ternura, no orgulho, na reprovação cúmplice. Quantas vezes olhei para ti e senti a urgência de ser melhor, de ver mais longe, de ver por ti. Quantas vezes rever-me nos teus olhos não foi um adiar da solidão. Quantas vezes me pareceu impossível que pudesses não estar ali, que o teu olhar pudesse não ser mais um espelho meu, com as respostas possíveis a perguntas por formular. Quantas vezes me pareceu ouvir-te ao longe e esperei que fosses tu.

05/05/07

Incendeia-me, se quiseres,
Mas fá-lo como se acendesses uma vela num quarto escuro,
De forma a que apenas os nossos vultos possam ser vistos
E não as cores.
E as nossas sombras,
Tímidas,
Serão quase independentes de nós,
Volúveis e imprevisíveis, como a chama.

Passa a tua mão pelo meu cabelo,
Como costumas fazer,
E demora-te por lá.

Se quiseres, podemos usar as frases feitas,
De que habitualmente prescindimos,
E dir-te-ei que gosto de olhar para ti enquanto dormes,
E que gosto de demorar o meu olhar em ti.

Pede-me que fale menos,
Que não tente dar todos os nomes
Àquilo que sentimos,
Que não antecipe tanto o que está por vir,
Que viva mais o nascer que o pôr-de-sol,
Mais manhã, menos noite.

Hoje é outro dia.

Para A.

03/05/07

Quero errar as palavras,
Torná-las obsoletas,
Retirar-lhes o cinzento,
Trazer à tona o seu vermelho-cor-de-sangue.

Não há palavras cinzentas.

Quero que as palavras desapareçam,
Todas,
Pulverizadas em explosão violenta,
Atiradas ao inferno das palavras,
Sem possibilidade de redenção.
Hoje.
Amanhã será outro dia.

02/05/07

Olhar a rua vazia, como se tudo estivesse suspenso. Tudo menos os meus sentidos, adormecidos ainda assim. Olhar os olhos daqueles que sorriem com confiança. Olhar os olhos daqueles que desejariam não viver já. Sentir que aquele carro está suspenso, com três pessoas lá dentro a rir do comentário que o condutor fez a propósito de alguém ou de alguma coisa. Sentir que aquele pai, que atravessa a rua com o filho, vai ter um qualquer encontro violento com o carro. Sentir que o chocolate que suja a boca quente da criança se vai fundir, provavelmente com o sangue que o embate fez correr. Sentir que do calor ao frio não dista nada. Sentir que nada acontece e tudo pode acontecer sem que possamos fazer mais do que assistir, como se tudo estivesse suspenso.

"Between the click of the light and the start of the dream..."

No cars go, Neon Bible, The Arcade Fire

30/04/07

Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

Deixarmo-nos ondular pelo vento, tão simples como tudo o que nasce, seja das nossas mãos, seja do coração, seja da terra que nos acolhe sempre, generosa.

27/04/07

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
2ª estrofe de "Ode à Noite", Álvaro de Campos, 1914.

Receio, tantas vezes, que as distâncias impossíveis de percorrer se revelem, enquanto tal, subitamente.
Receio, cada vez mais, que a vida possa converter-se em distância impossível de percorrer, subitamente, como numa revelação.

20/04/07

Sentiu falta do calor do corpo, o calor que emana da pele de quem se ama ou se odeia, daquele que se esvanece com a morte, lentamente, dando lugar ao frio da ausência. Sentiu que a memória conserva tudo vivo, talvez, mas não essa sensação de que tudo se joga naquele toque. Talvez a morte seja isso mesmo, a viagem do calor ao frio, a perda do abraço que securiza e aquece, como se o sangue de uns e de outros se fundisse. Como se o tempo ficasse suspenso.

07/04/07

finais de dia com sabor a fim II

Deitou-se de costas a olhar o branco do tecto ou o azul do céu, ou o cinzento da água pesada por chover. Fechou os olhos e escreveu: Se estivesse numa guerra qualquer, tenho a certeza que me ocorreria oferecer-te flores e beijos. Lembrar-te-ia todos os dias como um lugar por detrás do calor do sol, abrigado dos ventos do furacão. Falaria contigo como se estivesses ali, olhos nos olhos e mão na mão. Dir-te-ia coisas, muitas sem sentido. Faria todas as promessas possíveis. Afagar-te-ia o cabelo como se fosse a última vez, antes da guerra.

21/03/07

Sonhei-te terra,
A respirar, como se o vento passasse sobre ti
E te levasse apenas o que deixas ver.
Sonhei-te terra,
A receber, como se não fosse possível semear em ti
Mas de ti tudo nascesse,
Até a vida.
Sonhei-te pó das estrelas,
Para regressar a ti,
Como se sempre tivesses estado comigo e
Como se tocar o céu estivesse à distância de estender a mão
E tocar a terra.


12/03/07

Voltou a casa, aos odores do costume, aos ruídos e silêncios que lhe confirmavam que tinha chegado. Deitou-se no sofá, como se quisesse apenas descansar. Não longe dali, alguém partia e levava consigo páginas e páginas de um amor escrito a sangue, de um vermelho muito vivo, indelével. Restava-lhe agora o tempo, tempo para escrever sabe-se lá o quê, talvez a tinta negra, como uma tatuagem.

Regressar...

Regressar a esta página, na qual escrevo, claro sobre o escuro do suporte, mais claro em palavras do que o pouco claro do meu coração... volto a casa.

15/1/2007

Quase sem dar por isso, deixámos para trás aquela dor que só a perda pode inflingir. Fomos guardando o aroma da presença, a memória menos recorrente, mais o eco que a voz, mais o olhar que o calor das mãos. Quase sem dar por isso, como quem esquece. Quase sem dar por isso, como os sinais que nos percorrem a pele, para sempre.

5/1/2007

Fechar os olhos e continuar a ver. Fechar os olhos e voltar a sentir tudo de novo, como se nascêssemos outra vez, tudo de novo. Fechar os olhos sem contornar a ilusão de que tudo pode ficar igual. Fechar os olhos, apenas para que sonhar seja mais confortável. Fechar os olhos para que tudo, filtrado pela doçura das pálpebras, seja mais suportável. Fechar os olhos para poder sentir, pouco a pouco, a luz, as cores, e voltar a sentir tudo de novo, como se nascêssemos outra vez. Fechar os olhos, mesmo que seja para voltar a abri-los, assim, pela última vez.

You can taste your fear
It's gonna lift you up and take you out of here...

Intervention, Neon Bible, The Arcade Fire

5/12/2006

O homem avançava. Fazia-o sem se preocupar com o que as pessoas em seu redor pudessem pensar. As calças estavam rasgadas no joelho esquerdo e tinham manchas de uma terra cor de barro perto do rasgão. Olhando para ele, teríamos a sensação de que o homem teria caído mas o seu andar não denunciava que por debaixo das calças rasgadas pudesse estar uma qualquer ferida, resultante de uma qualquer queda. Estranhar-se-ia apenas o facto de não haver, naquele sítio, qualquer terra vermelha, a única seria a do pequeno jardim público em frente ao quiosque onde me encontrava e essa era escura, quase negra. Segui-o, com o olhar, mais algum tempo. Ao meu lado, um velho com um casaco a cheirar a bafio fumava um cigarro, com a avidez de um esfomeado, ao mesmo tempo que folheava as primeiras páginas de um jornal desportivo. Ao ver passar o homem, em voz baixa e olhando de lado, comentou com o dono, suponho eu, do quiosque:- Estás a ver, Inácio, andam para aqui estes estrangeiros a fingir que trabalham e a gente a pagar!- Como é que sabes que o gajo é estrangeiro?- Pela cabeça em baixo, para não terem de falar. Parece que têm medo que a gente os coma. E viste as calças, não viste? Nem se lavam. Andam para aí nas obras e...O dito Inácio, apoiando-se nos jornais, esgueirou-se para poder ainda avistar o homem que passava, antes de ele virar à esquerda, na próxima esquina. Comentou que efectivamente tinha ar de estrangeiro, daqueles de Leste, com mau aspecto e que constava que alguns andavam sempre armados para se poderem defender uns dos outros, porque com a bebida não têm mão sobre si próprios.Deixei discretamente o jornal que ia comprar em cima dos outros. Não me apetecia mais ter de ouvir aqueles dois, o Inácio e o seu conhecido, a especular sobre o tal supostamente estrangeiro. Contornando o quiosque e seguindo a rua até ao fim, virando à direita, podia cruzar-me com o homem das calças rasgadas e, pelo menos, ver-lhe a cara. Pelo tempo transcorrido, deveríamos cruzar-nos quando eu estivesse a virar. Talvez, se eu esperasse um pouco, conseguisse obrigá-lo a desviar-se de mim ou a pedirmos desculpa, caso fossemos um contra o outro. Esperei uns segundos e avancei. Reparei que o homem estava em frente a uma porta, continuei a andar, lentamente, como quem passeia, de forma tão natural quanto possível. Falava com alguém para dentro da casa, uma voz de mulher. Eram ambos portugueses e a mulher chorava enquanto lhe perguntava se tinha a certeza. De dentro da casa vinha um cheiro a sopa. O homem baixou a cara e respondeu que sim. Deixei cair a carteira e baixei-me para a apanhar, tentando ganhar tempo para entrar naquela privacidade que me tinha enfeitiçado. Ficaram calados. Apenas a borracha dos meus sapatos a chiar na calçada já húmida e um latido de cão numa varanda qualquer, nada mais se ouviu.- Entra, estou a fazer uma sopa, sempre aqueces.- Obrigado.Ele deu-lhe um beijo na face e pude ver-lhe a cara molhada pelas lágrimas.- Fiz o que pude.- Eu sei.Ouvi o ruído seco do fechar da porta já depois de passar frente à porta. Continuei, voltei à direita em direcção ao quiosque. Passei pelos dois fulanos, o Inácio e o companheiro do casaco bafiento. Baixei a cara ao passar por eles. Também eu era um estrangeiro, daqueles de Leste, também eu tinha medo que me comessem.Como nos filmes, nessa noite sonhei com o irmão daqueles dois, do homem das calças rasgadas e da mulher que chorava. Sonhei como ele tinha caído do andaime e como o irmão procurara mantê-lo agarrado à vida. Sonhei com o homem a olhar para os olhos do irmão, já fechados e a deixar cair umas lágrimas grossas enquanto lhe afagava a cara ainda quente com a barba rala mal feita. Sonhei com um desfecho para aquela cena que me absorvera, um final tão estrangeiro quanto o homem que passou por nós naquele fim de tarde, frio, sem chuva.

30/11/2006

Ao fundo, o barco não era mais do que um ponto esverdeado no azul também esverdeado do mar. Ao fundo, ao linha do horizonte, escura, anunciava muitas coisas, entre elas mau tempo, não necessariamente uma tempestade, mas mau tempo.
No barco, o pescador e o seu filho olhavam para a falésia e para a praia. Os pescadores sabem ler todos os sinais que o cenário vai dispondo em seu redor e este não era excepção. Olhou para o filho e este compreendeu. Começaram a preparar o regresso. Não tinha sido particularmente proveitoso, o dia. Alguns sargos, outras tantas douradas e meia dúzia de bodiões nem sequer renderiam grande coisa. Com mais umas horas conseguiriam fazer mais um dinheiro mas, desde que o tio e o avô tinham sido engolidos por uma onda que lhes virara o barco a umas duas milhas dali, nem havia muito a pensar. À medida que o chumbo das nuvens avançava sobre o mar e o sol morria na linha do horizonte, o escuro tomava conta de tudo. Estavam à vontade. O vento ainda nem sequer tinha começado a soprar com uma força digna do nome. A rebentação começava a ouvir-se nas rochas e deixava uma espuma mais e mais visível, mesmo de longe, uma espécie de neve do mar colada às rochas.
Ao fundo, o barco era o mesmo ponto esverdeado no azul também esverdeado do mar. E isso bastava-me. Como visão de fim do dia era fantástica, na sua dimensão pictórica. Parecia que o barco procurava encaminhar-se para a rebentação e, pela lógica, atingir a costa, agora que o escuro das nuvens avançava decididamente sobre mar, tomando conta de tudo. Olhei para trás e a estrada que dava acesso à praia vizinha estava deserta. Daqui da falésia, a praia estava também ao fundo, apenas um pouco menos do que o barco. O dia terminava com o regresso daquele barco. Por uma noite mais ninguém teve de se despedir para sempre.

16/11/6006

Há dias assim, em que todos somos peixes e barcos fora de água, num porto qualquer.
Há dias assim, em que por mais estranho que pareça, não conseguimos fazer aquilo que de nós seria esperado.
Há dias assim, dias em que quase aceitamos que a morte nos surpreendeu, doce e serenamente, pela madrugada de um novo dia que nasceu.
Há dias assim, dias que me fazem desejar que morrer possa ser algo como acordar e estar quase tudo igual. Só o mar partiu, nada mais.

9/11/2006

No próximo ano
Não deixes que o sangue se veja,
Que ele corra por entre o verdeDa relva onde caíste.
No próximo anoPensa apenas no que não vais fazer,Pensa que estás mais perto.
No próximo ano
Não sintas que a luz te corta,
Que ela te fere.
No próximo ano
Não sintas o calor que te sufoca.
No próximo ano
Não te deixes esmagar pelo ar
Que não tens, que não inspiras.
No próximo ano
Pensa apenas que sobreviveste.

29/10/2007

Nunca te falei do vento que sopra por mim, nem das asas que sinto ter, nem do meu sonho de voar por sobre o mar, tocando ao de leve na espuma das ondas. Nunca te falei do medo, do meu medo de que o escuro seja o não voltar mais, o não encontrar o caminho de volta.Nunca te disse que por vezes não estou onde posso ser visto, estou longe de mim mesmo.Nunca te falei do quanto estou cansado do meu eco, de discutir com os meus lamentos, do impulso adiado, do amanhã igual ao hoje, da espera pelo fim, um fim qualquer, das amarras ansiosas de uma angústia que não controlo.Nunca te falei do sonho de que um dia vou acordar na areia da minha praia, exausto do voo, molhado pela água salgada, finalmente livre.Nunca te contei o quanto gosto de flores.Nunca te disse que estás no meu sonho, a afagar com doçura as minhas asas, ou a falta delas, as minhas lágrimas ou a falta delas.Nunca te disse nada.
Para aquela que me completa, para sempre.

21/10/2007

Um dia, iremos ficar a conversar pela noite fora, sempre que queiras. Falaremos sobre tudo aquilo que não tivemos tempo de falar, sobre as nossas vidas, sobre as nossas lágrimas, sobre o muito que nos custou ficar sem ti, sobre as memórias e as fotografias, os sorrisos. Ficaremos por aqui, sem pressa, como se tivessemos estado sempre debaixo do mesmo céu. Um dia, encontrar-nos-emos algures para esta conversa, sem que as perdas sejam cicatrizes.
Para uma estrela cadente que percorreu, fulgurante, o nosso céu.

3/10/2007

Despedi-me dizendo "Até amanhã..."Respondeu-me: "Pois... até amanhã..."Senti que estava consciente de que não nos veria mais. E tinha razão. Despedimo-nos ali, com aquele até amanhã. E enquanto, noite cerrada, ele partia, eu pude rever na minha memória o nosso filme, feito de cumplicidades e carinho, de ensinamentos e desencontros. Adormecemos ambos a certa altura, ele para sempre, eu, até amanhã. Em sonhos, continua a preencher os meus dias, como todos os que partem, com o vivido e o que não tivemos tempo de viver. Porque a nossa existência se constrói todos os dias, com a vida e com a morte...Em memória de JML.

29/09/2006 finais de dia com sabor a fim I

"Chegou a casa. Deixou numa cadeira as chaves e as coisas do dia que acabava. Lavou lentamente as mãos com a água fria que saía da torneira. Lavou a face também. Deixou-se ficar um pouco em frente ao espelho. As lágrimas correram-lhe pelo rosto sem chegar a saber porquê. Secou as mão e o rosto. Sentou-se no sofá e adormeceu. Sonhou que estava feliz e que não estava só. Acordou no dia seguinte, já na cama. Levantou-se e olhou a janela. Chovia. Fechou os olhos e sonhou que dormia e que sonhava que era feliz."

25/09/2006

Se há dias em que parece que voamos acima de qualquer obstáculo e nada nos faz recear a velocidade vertiginosa e o ar sufocante a contornar-nos o corpo num túnel de vento, hoje não é um desses dias. Hoje, o vento magoa e o simples respirar provoca uma dor quase insuportável. Hoje, sinto a minha pele com desconforto. Amanhã talvez seja um dia melhor. Talvez amanhã as palavras não ecoem com estrondo na memória. Talvez amanhã não deseje ir ao encontro daqueles que partiram. Mas hoje nem as palavras mitigam o cansaço de existir.

31/01/07

15 set 2006

Das palavras nasce a vida. E a vida não é mais do que as palavras que gravamos e deixamos gravar no nosso corpo e no nosso espírito, a sangue, a fogo e mitigadas pela água que refresca e cura com o pó da terra, barro de que somos feitos todos nós. Vivo como se tatuasse a minha vida com a dor e a alegria de existir, em solidão. Todos os dias mais tinta e pergaminho porque só as palavras interessam, só as palavras.