Chegaste agora a casa. Tomaste a tua decisão, declaraste-a como irreversível porque nada faz sentido, a tua vida não vale nada e não suportas mais dor, especialmente a que não consegues identificar, a que é difusa, a que te devora e te levará à implosão, a uma qualquer implosão sem rasto.
Dá-me apenas um segundo. Deixa-me tentar apenas convencer-te do quanto vales a pena. No final, se quiseres, podes continuar a pensar que o teu valor é o mais absoluto zero, que o movimento dos astros é indiferente ao que dizes, fazes, sentes, pensas, que o facto de respirares não interfere com o ciclo das marés, nem com a órbita da lua, que o pulsar do teu coração e o fluir do teu sangue nas tuas veias não altera o sentido do curso dos rios, nem provoca as chuvas, que o teu choro não inverterá a seca, nem acabará com a dor ou a fome no mundo. Dá-me um segundo, apenas um para isto tudo.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Sinto, contudo, que um segundo não chega, porque uma vida toda também não chegaria. Estás convencido de que sabes o que vales, de que nasceste com um nó no cordão umbilical e que terás de viver, o tempo que tiver de ser, com um nó na garganta. Estás convencido de que vives uma vida só tua, de que as raízes e os ramos da tua árvore não estão ligadas a nada nem a ninguém.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.