Entre o ir e o ficar, o sentir-se prisioneiro e o tão vulgar soltar das amarras, pouco resta, nada dista. Nada pára à nossa espera e essa impossibilidade de suspender o mundo, enquanto se decide o próximo passo, torna-nos senhores de nós mesmos, rasgando os tratados, fulminando a ponderação a golpes de aventura, gritando ao desconhecido ainda que seja apenas para o não ouvirmos, por temermos o escuro que nos dizem que seguramente encontraremos. Seremos sempre ingénuos e crédulos anarquistas, sem escolha nem redenção, de coração dilacerado, talvez, mas vivos, talvez.
Apetece-me, hoje, reler...
"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura. [...]"
Excerto de Orpheu Rebelde, Miguel Torga