Se não for antes, no dia em que partires, saberás, porque saberás tudo, que sempre te amei, desde o mais fundo do meu medo, à confiança de saber que fomos tudo para ti. Dar-te-ás conta de que foste mais nós do que tu e que, hoje, colhemos, todos, os frutos disso, do gostar desmedido, do proteger, como a árvore que se entrega aos frutos e se esquece de si própria até ao momento em que a raíz lhe faz sentir que é pouco mais do que um ténue fio que a liga à terra. Ficarás a saber o quanto sempre foi importante podermos saborear a sombra e o conforto da árvore, para mim e para os meus frutos, e que, quando te pedia que cuidasses de ti, desejava apenas que te desses mais valor, que não confundisses a procura de outras sombras e o crescer do meu tronco e dos meus ramos, com coisas sem sentido, com falta de amor. Saberás que nunca quis distância, apenas espaço. Saberás que nunca recebeste falta de respeito nem ira, mas sede de perfeição, de querer que tudo fosse melhor e de que nada fosse votado a essa morte abjecta e absurda da indiferença. Saberás então que continuaste a pegar-me ao colo muitas vezes, provavelmente sem que ambos dessemos por isso. Saberás que és insubstituível e que, no dia em que partires, não deitarei uma lágrima porque já antes o fiz, mas saberás igualmente que, das muitas cores que pintam a vida, faltará a tua para traçar os riscos e escrever as palavras de que são feitos os meus dias. Ficará tudo o resto, o inominável, ficarão os frutos. Dizem que as árvores morrem de pé... começo a acreditar nisso. Ficarás a saber tudo isso um dia, se não for hoje, porque o tempo que parece ser o que nos falta é, talvez, aquilo que mais nos sobra e sobrará, sempre. Gastámos a passado a aprender e o presente a fazer não sei bem o quê. Teremos sempre, pelo menos, o futuro. Amanhã será um novo dia, com sol e tudo.
18/07