Leva-me onde saibas que me encontras.
Diz-me que me levante,
Que ande,
Que estou vivo.
Dá-me uma mão, a tua.
Diz-me que confie,
Que o que não vale a pena
Não merece que se perca a vida nele.
Dá-me da tua água.
Diz-me que não mais terei sede,
Que não mais terei aquele calor que tudo queima.
Leva-me ao cimo da colina.
Ainda que seja uma pequena colina
Na imensidão da planície devorada pelo sol e pela vida.
Sabes que estou lá.
Que sempre estive, ali,
Onde mil palavras valem todas as imagens,
Mil, se quiseres. As tuas.
23/07/07
21/07/07
Guarda-me um segredo,
Ainda que ele seja apenas um qualquer eco de mim,
Ainda que não to tenha ainda confessado.
Guarda-me aquele segredo
Que te parecer ter mais de mim lá dentro,
Mais amargura, mais dor,
Mais sorriso, mais cor.
Guarda-mo e nem me digas nada acerca disso.
Deixa que eu perceba a cumplicidade,
Que sinta que me possuis.
Deixa que o jogo se vá revelando.
Guarda-me um segredo,
Ainda que já ambos saibamos de tudo,
Como se brincássemos,
Ingenuamente,
A um qualquer jogo de escondidas,
Cumplice e amorosamente viciado.
A.
Ainda que ele seja apenas um qualquer eco de mim,
Ainda que não to tenha ainda confessado.
Guarda-me aquele segredo
Que te parecer ter mais de mim lá dentro,
Mais amargura, mais dor,
Mais sorriso, mais cor.
Guarda-mo e nem me digas nada acerca disso.
Deixa que eu perceba a cumplicidade,
Que sinta que me possuis.
Deixa que o jogo se vá revelando.
Guarda-me um segredo,
Ainda que já ambos saibamos de tudo,
Como se brincássemos,
Ingenuamente,
A um qualquer jogo de escondidas,
Cumplice e amorosamente viciado.
A.
19/07/07
Se não for antes, no dia em que partires, saberás, porque saberás tudo, que sempre te amei, desde o mais fundo do meu medo, à confiança de saber que fomos tudo para ti. Dar-te-ás conta de que foste mais nós do que tu e que, hoje, colhemos, todos, os frutos disso, do gostar desmedido, do proteger, como a árvore que se entrega aos frutos e se esquece de si própria até ao momento em que a raíz lhe faz sentir que é pouco mais do que um ténue fio que a liga à terra. Ficarás a saber o quanto sempre foi importante podermos saborear a sombra e o conforto da árvore, para mim e para os meus frutos, e que, quando te pedia que cuidasses de ti, desejava apenas que te desses mais valor, que não confundisses a procura de outras sombras e o crescer do meu tronco e dos meus ramos, com coisas sem sentido, com falta de amor. Saberás que nunca quis distância, apenas espaço. Saberás que nunca recebeste falta de respeito nem ira, mas sede de perfeição, de querer que tudo fosse melhor e de que nada fosse votado a essa morte abjecta e absurda da indiferença. Saberás então que continuaste a pegar-me ao colo muitas vezes, provavelmente sem que ambos dessemos por isso. Saberás que és insubstituível e que, no dia em que partires, não deitarei uma lágrima porque já antes o fiz, mas saberás igualmente que, das muitas cores que pintam a vida, faltará a tua para traçar os riscos e escrever as palavras de que são feitos os meus dias. Ficará tudo o resto, o inominável, ficarão os frutos. Dizem que as árvores morrem de pé... começo a acreditar nisso. Ficarás a saber tudo isso um dia, se não for hoje, porque o tempo que parece ser o que nos falta é, talvez, aquilo que mais nos sobra e sobrará, sempre. Gastámos a passado a aprender e o presente a fazer não sei bem o quê. Teremos sempre, pelo menos, o futuro. Amanhã será um novo dia, com sol e tudo.
18/07
16/07/07
rewind/replay: pequeno requiem relâmpago e possivelmente patético para Lúcia (Lúcia III)
"We know a place where no planes go
We know a place where no ships go
No Cars Go![...] Where we know [...]
Between the click of the light
and the start of the dream."
"No cars go", Neon Bible, The Arcade Fire
We know a place where no ships go
No Cars Go![...] Where we know [...]
Between the click of the light
and the start of the dream."
"No cars go", Neon Bible, The Arcade Fire
10/07/07
Lúcia II
Já não se lembrava bem de como tinha começado tudo aquilo. Provavelmente, teria começado por vítimas de guerras pornograficamente exibidas em noticiários, com todo o seu sangue, todo o seu vazio, todo o ódio e toda a anulação, todas as fomes, todas as amputações, toda a terra seca, toda a mãe incapaz de manter vivo o filho que lhe saíra das entranhas. Teria começado por aí, provavelmente. E deu-lhes nomes. Deu nome a todos os rostos que se cruzaram com o dela, ainda que em sonhos ou pesadelos ou no chão à saída de casa. Teria passado por muitos outros, filhos e pais de muitas guerras e catástrofes e teria desaguado no imenso mar dos que lutam consigo próprios, contra si próprios. Lembrava-se agora de que teria sido algo assim. Especializou-se em observar essas guerras civis a uma só voz e num só corpo e deu-lhes nomes, a todos, em pequenos pedacitos de papel cortados irregularmente, à mão. Chegara assim aos que estão sós. Tinha feito esse percurso do sofrimento mais óbvio para o menos óbvio e não notava que os nomes sentissem a diferença.
Levantou-se um dia. Arranjou-se como de costume, simples. Bebeu uma chávena de leite e pegou na caneta de tinta permanente. Virou todos os nomes, os mais recentes de cada uma das pilhas, para baixo, como se estivessem completas aquelas tarefas. Escreveu um último nome e colocou-o num dos pequenos pilares de papel. Murmurou algo e sorriu tranquila. Saiu de casa, deixando a porta entreaberta.
Provavelmente todos morremos por razões estúpidas. Provavelmente, há quem consiga aguardar.
Lúcia I
Gostava de escrever nomes próprios em pequeninos pedacitos de papel que sobrepunha, em pilhas distribuídas concentricamente, na mesa que tinha sido a dos pequenos-almoços. Dava quase a impressão de que construía as fundações de uma qualquer pequena torre de Babel à sua escala, à escala da sua pequenez, da sua tolhida e encolhida mundividência, da ininteligibilidade que sentia rodeá-la, como que uma bolsa de um líquido amniótico envenenado e sufocante.
Todos os dias subiam um pouco mais, as ditas pilhas de papel, a dita torre de aparente desnorte. Todas as pessoas tiveram um nome e, para ela, os nomes davam corpo e alma de papel à memória de todas as pessoas que, no mundo, vão morrendo por razões estúpidas, sejam elas quais forem.
De entre as razões mais estúpidas para morrer, Lúcia elegera a solidão como a mais evidentemente desprovida de dignidade. Morrer porque se está só é algo que, numa crua lógica, racionalmente, não faz sentido ou faz tanto sentido como parar de respirar só porque é repetitivo, porque aborrece. Aborrece o ritmo da respiração, a dois tempos, o inspirar que obriga ao expirar, e tudo se repete inexoravelmente até ao fim e nem por isso, só por isso, decidimos interromper esse desígnio mecânico e vital.
Encarava a solidão como um jogo de xadrez a sós, um contemplar das peças imóveis porque quem ataca o rei já delineou a sua defesa e tudo está consumado antes ainda do mover do primeiro peão. A solidão é o jogo do não valer a pena. A solidão aborrecia-a. Tinha, aliás, começado a aborrecê-la no dia em que, pela primeira vez, acordou ao pé do marido com a sensação de que tinha o corpo moído. Começou a ficar só no dia em que decidiu que ele não lhe bateria mais, que não lhe retiraria o último fio de dignidade da alma. Confirmou a solidão no dia em que se consumou a separação e as vidas continuaram. Lentamente, a solidão começou a alimentar-se dela, resignou-se.
Começou então a empilhar os pedacinhos de papel.
03/07/07
As pedras acutilantes, pedras de dois gumes por debaixo dos pés.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.
29/06/07
Entre o ir e o ficar, o sentir-se prisioneiro e o tão vulgar soltar das amarras, pouco resta, nada dista. Nada pára à nossa espera e essa impossibilidade de suspender o mundo, enquanto se decide o próximo passo, torna-nos senhores de nós mesmos, rasgando os tratados, fulminando a ponderação a golpes de aventura, gritando ao desconhecido ainda que seja apenas para o não ouvirmos, por temermos o escuro que nos dizem que seguramente encontraremos. Seremos sempre ingénuos e crédulos anarquistas, sem escolha nem redenção, de coração dilacerado, talvez, mas vivos, talvez.
Apetece-me, hoje, reler...
"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura. [...]"
Excerto de Orpheu Rebelde, Miguel Torga
15/06/07
finais de dia com sabor a fim IV
Chegaste agora a casa. Tomaste a tua decisão, declaraste-a como irreversível porque nada faz sentido, a tua vida não vale nada e não suportas mais dor, especialmente a que não consegues identificar, a que é difusa, a que te devora e te levará à implosão, a uma qualquer implosão sem rasto.
Dá-me apenas um segundo. Deixa-me tentar apenas convencer-te do quanto vales a pena. No final, se quiseres, podes continuar a pensar que o teu valor é o mais absoluto zero, que o movimento dos astros é indiferente ao que dizes, fazes, sentes, pensas, que o facto de respirares não interfere com o ciclo das marés, nem com a órbita da lua, que o pulsar do teu coração e o fluir do teu sangue nas tuas veias não altera o sentido do curso dos rios, nem provoca as chuvas, que o teu choro não inverterá a seca, nem acabará com a dor ou a fome no mundo. Dá-me um segundo, apenas um para isto tudo.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Sinto, contudo, que um segundo não chega, porque uma vida toda também não chegaria. Estás convencido de que sabes o que vales, de que nasceste com um nó no cordão umbilical e que terás de viver, o tempo que tiver de ser, com um nó na garganta. Estás convencido de que vives uma vida só tua, de que as raízes e os ramos da tua árvore não estão ligadas a nada nem a ninguém.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.
13/06/07
Sentes que perdes folhas, não é? Por cada dia que passa, sentes que te expões, que mostras mais do que o rosto, que a tua nudez se te vai impor e que as tuas raízes não permitem que fujas, que te ocultes dos olhos de quem passa por ti. Sentes que nada podes fazer para que isso não aconteça... Também sei o que isso é... Nada disso me é estranho, sabias? Sinto também que o frio me perturba cada vez mais, que o calor me torna os dias quase insupotáveis, que nem sempre consigo ler as cartas de amor que o orvalho acaba por ir escrevendo em mim. E temo a chuva, sabes? Temos que me desfaça, como ao papel, que me converta em algo informe por onde a seiva deixe de encontrar motivos para correr e decida sair de vez, toda. Temo tanta coisa, como tu, provavelmente. Sabias?
08/06/07
finais de dia com sabor a fim III
Tomaste a parte pelo todo, o todo pela parte, saiste e regressaste, foste longe demais. Equivocaste-te mais uma vez, muitas vezes, sem o pudor de magoar com pensamentos, com palavras, actos e omissões... por tua culpa, tua tão grande culpa. Devoraste, cedo e tarde demais, fora de tempo, os segredos e mistérios, as raivas, as compaixões. Digeriste a entrega com a sofreguidão dos animais há muito famintos. Rasgaste-lhe os sonhos com as garras afiadas da tua falta de amor e nem à hiena que te habita resta o banquete necrófago no sortilégio da noite. Foste longe demais, foste até ao fim. Agora, enquanto entras em casa, cansado de mais um pseudo-fatigante dia de trabalho, aliviado da carga, de algo que nunca quiseste, imagina apenas o vazio e o desespero. Terás de carregá-los para o resto da tua vida, apenas não o sabes ainda. Chegará o dia em que até a mais inofensiva e reconfortante brisa te provocará dor ao roçar a pele da tua face. Até lá, vive... como se nada de importante tivesse terminado.
18/05/07
boomerang
Parabéns.
Aceita os meus votos e os meus conselhos. Perdoa, se conseguires e quiseres, a minha intromissão no teu percurso de vida.
Celebra todos os teus dias. Celebra-os como se fossem únicos. Celebra, de forma especial, aqueles dias que o resto do mundo escolheu para comemorar algo, por mais idiota que seja. Converte esses dias nas tuas pequeninas e íntimas efemérides pessoais, únicas e irrepetíveis. Chora por tudo aquilo que o mundo faz para que te sintas a mais. Insulta todos aqueles que te rodeiam. Arrepende-te do amor e da amizade. Saboreia cada segundo da mais profunda e competente auto-comiseração. Sente-te mal até não poderes mais contigo, até te tornares insuportável, até à náusea. Odeia-te como se tivesses subido a um qualquer Calvário numa qualquer Via Sacra sem redenção, como se fosses o teu Herodes, o teu Pilatos, o teu Barrabás, sem caíres na tentação nefasta de quereres ser o teu Cristo. Sente-te como Sísifo, como a pedra, como a montanha.
Provavelmente, já fizeste tudo o que, por ti, podias fazer. Foste talhado para grandes voos. Estiveste à tua altura.
Mais uma vez, parabéns.
15/05/07
Porque te sentes como se tivesses perdido as pétalas, choras, deixas que a tua raiz só tenha esse mar como alimento. Porque a chuva não consegue penetrar o denso da tua ramagem, agora inútil, as folhas ásperas com que vestiste o coração, terás de viver da nascente da tua dor. Será ela quem te matará a fome e a sede, quem te dirá que basta já, quem te fará seguir os pontos cardeais, quem conduzirá os teus passos na morna terra fértil que tu sentirás como terra árida de ninguém, como numa qualquer guerra sem inimigo definido. Apenas tu para combater e, nos teus lábios, o sabor do sal errado da vida.
14/05/07
Quantas vezes me revi nos teus olhos, na ternura, no orgulho, na reprovação cúmplice. Quantas vezes olhei para ti e senti a urgência de ser melhor, de ver mais longe, de ver por ti. Quantas vezes rever-me nos teus olhos não foi um adiar da solidão. Quantas vezes me pareceu impossível que pudesses não estar ali, que o teu olhar pudesse não ser mais um espelho meu, com as respostas possíveis a perguntas por formular. Quantas vezes me pareceu ouvir-te ao longe e esperei que fosses tu.
05/05/07
Incendeia-me, se quiseres,
Mas fá-lo como se acendesses uma vela num quarto escuro,
De forma a que apenas os nossos vultos possam ser vistos
E não as cores.
E as nossas sombras,
Tímidas,
Serão quase independentes de nós,
Volúveis e imprevisíveis, como a chama.
Passa a tua mão pelo meu cabelo,
Como costumas fazer,
E demora-te por lá.
Se quiseres, podemos usar as frases feitas,
De que habitualmente prescindimos,
E dir-te-ei que gosto de olhar para ti enquanto dormes,
E que gosto de demorar o meu olhar em ti.
Pede-me que fale menos,
Que não tente dar todos os nomes
Àquilo que sentimos,
Que não antecipe tanto o que está por vir,
Que viva mais o nascer que o pôr-de-sol,
Mais manhã, menos noite.
Hoje é outro dia.
Para A.
Mas fá-lo como se acendesses uma vela num quarto escuro,
De forma a que apenas os nossos vultos possam ser vistos
E não as cores.
E as nossas sombras,
Tímidas,
Serão quase independentes de nós,
Volúveis e imprevisíveis, como a chama.
Passa a tua mão pelo meu cabelo,
Como costumas fazer,
E demora-te por lá.
Se quiseres, podemos usar as frases feitas,
De que habitualmente prescindimos,
E dir-te-ei que gosto de olhar para ti enquanto dormes,
E que gosto de demorar o meu olhar em ti.
Pede-me que fale menos,
Que não tente dar todos os nomes
Àquilo que sentimos,
Que não antecipe tanto o que está por vir,
Que viva mais o nascer que o pôr-de-sol,
Mais manhã, menos noite.
Hoje é outro dia.
Para A.
03/05/07
Quero errar as palavras,
Torná-las obsoletas,
Retirar-lhes o cinzento,
Trazer à tona o seu vermelho-cor-de-sangue.
Não há palavras cinzentas.
Quero que as palavras desapareçam,
Todas,
Pulverizadas em explosão violenta,
Atiradas ao inferno das palavras,
Sem possibilidade de redenção.
Hoje.
Amanhã será outro dia.
Torná-las obsoletas,
Retirar-lhes o cinzento,
Trazer à tona o seu vermelho-cor-de-sangue.
Não há palavras cinzentas.
Quero que as palavras desapareçam,
Todas,
Pulverizadas em explosão violenta,
Atiradas ao inferno das palavras,
Sem possibilidade de redenção.
Hoje.
Amanhã será outro dia.
02/05/07
Olhar a rua vazia, como se tudo estivesse suspenso. Tudo menos os meus sentidos, adormecidos ainda assim. Olhar os olhos daqueles que sorriem com confiança. Olhar os olhos daqueles que desejariam não viver já. Sentir que aquele carro está suspenso, com três pessoas lá dentro a rir do comentário que o condutor fez a propósito de alguém ou de alguma coisa. Sentir que aquele pai, que atravessa a rua com o filho, vai ter um qualquer encontro violento com o carro. Sentir que o chocolate que suja a boca quente da criança se vai fundir, provavelmente com o sangue que o embate fez correr. Sentir que do calor ao frio não dista nada. Sentir que nada acontece e tudo pode acontecer sem que possamos fazer mais do que assistir, como se tudo estivesse suspenso.
"Between the click of the light and the start of the dream..."
No cars go, Neon Bible, The Arcade Fire
30/04/07
Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga
Deixarmo-nos ondular pelo vento, tão simples como tudo o que nasce, seja das nossas mãos, seja do coração, seja da terra que nos acolhe sempre, generosa.
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga
Deixarmo-nos ondular pelo vento, tão simples como tudo o que nasce, seja das nossas mãos, seja do coração, seja da terra que nos acolhe sempre, generosa.
27/04/07
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
2ª estrofe de "Ode à Noite", Álvaro de Campos, 1914.
Receio, tantas vezes, que as distâncias impossíveis de percorrer se revelem, enquanto tal, subitamente.
Receio, cada vez mais, que a vida possa converter-se em distância impossível de percorrer, subitamente, como numa revelação.
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
2ª estrofe de "Ode à Noite", Álvaro de Campos, 1914.
Receio, tantas vezes, que as distâncias impossíveis de percorrer se revelem, enquanto tal, subitamente.
Receio, cada vez mais, que a vida possa converter-se em distância impossível de percorrer, subitamente, como numa revelação.
20/04/07
Sentiu falta do calor do corpo, o calor que emana da pele de quem se ama ou se odeia, daquele que se esvanece com a morte, lentamente, dando lugar ao frio da ausência. Sentiu que a memória conserva tudo vivo, talvez, mas não essa sensação de que tudo se joga naquele toque. Talvez a morte seja isso mesmo, a viagem do calor ao frio, a perda do abraço que securiza e aquece, como se o sangue de uns e de outros se fundisse. Como se o tempo ficasse suspenso.
07/04/07
finais de dia com sabor a fim II
Deitou-se de costas a olhar o branco do tecto ou o azul do céu, ou o cinzento da água pesada por chover. Fechou os olhos e escreveu: Se estivesse numa guerra qualquer, tenho a certeza que me ocorreria oferecer-te flores e beijos. Lembrar-te-ia todos os dias como um lugar por detrás do calor do sol, abrigado dos ventos do furacão. Falaria contigo como se estivesses ali, olhos nos olhos e mão na mão. Dir-te-ia coisas, muitas sem sentido. Faria todas as promessas possíveis. Afagar-te-ia o cabelo como se fosse a última vez, antes da guerra.
21/03/07
Sonhei-te terra,
A respirar, como se o vento passasse sobre ti
E te levasse apenas o que deixas ver.
Sonhei-te terra,
A receber, como se não fosse possível semear em ti
Mas de ti tudo nascesse,
Até a vida.
Sonhei-te pó das estrelas,
Para regressar a ti,
Como se sempre tivesses estado comigo e
Como se tocar o céu estivesse à distância de estender a mão
E tocar a terra.
A respirar, como se o vento passasse sobre ti
E te levasse apenas o que deixas ver.
Sonhei-te terra,
A receber, como se não fosse possível semear em ti
Mas de ti tudo nascesse,
Até a vida.
Sonhei-te pó das estrelas,
Para regressar a ti,
Como se sempre tivesses estado comigo e
Como se tocar o céu estivesse à distância de estender a mão
E tocar a terra.
12/03/07
Voltou a casa, aos odores do costume, aos ruídos e silêncios que lhe confirmavam que tinha chegado. Deitou-se no sofá, como se quisesse apenas descansar. Não longe dali, alguém partia e levava consigo páginas e páginas de um amor escrito a sangue, de um vermelho muito vivo, indelével. Restava-lhe agora o tempo, tempo para escrever sabe-se lá o quê, talvez a tinta negra, como uma tatuagem.
Regressar...
Regressar a esta página, na qual escrevo, claro sobre o escuro do suporte, mais claro em palavras do que o pouco claro do meu coração... volto a casa.
15/1/2007
Quase sem dar por isso, deixámos para trás aquela dor que só a perda pode inflingir. Fomos guardando o aroma da presença, a memória menos recorrente, mais o eco que a voz, mais o olhar que o calor das mãos. Quase sem dar por isso, como quem esquece. Quase sem dar por isso, como os sinais que nos percorrem a pele, para sempre.
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