As pedras acutilantes, pedras de dois gumes por debaixo dos pés.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.