31/12/07

Levanta-te e anda

Levanta os braços, por um dia que seja. Ergue-te da sombra que sobre ti criaste e deixa que alguma luz, tímida, vá escorrendo pelos teus cantos mais obscuros e secretos. Levanta a tua fronte, para que se veja que os teus olhos brilham mesmo na noite. Ergue-te da sombra e caminha pelos trilhos que se abrem à tua frente. Levanta-te e anda, mesmo que não te creias capaz de o conseguires fazer. Anda, mesmo que caias e voltes ao teu canto sombrio e nele tornes a ocultar tudo o que és. Por um dia operaste o teu milagre e posso afirmar-te, como num acto de fé, que o sol nasceu só para ti, nesse dia. Talvez te voltes a erguer e a andar de novo. Podes confiar que ficaremos à espera, pelo menos o sol e eu.

26/12/07

não posso dizer que isto é uma história de Natal, embora me apetecesse

Seguia ao longo das paredes fias das casas. A rua mal iluminada, luzes amareladas a lembrar que nem tudo deve ser visto em todo o esplendor das suas cores. Dentro de algumas casas, o cenário previsível do Natal, os ruídos das festas, pouco lhe interessava. Cá fora, a brisa cortante. Passo após passo, mais uma noite passada sem dormir a vaguear e sempre o regresso a casa, uma visita à última morada mas sem levar flores. Sempre a brisa cortante, sempre o frio. Subiu as escadas e entrou. Atirou as chaves para cima de uma cadeira, atirou-se para dentro da cama e deixou que o peso da roupa da cama se fizesse sucedâneo de amor. O frio não passaria, aquele gelo que lhe tomara conta da vida. Se lhe perguntasse, dir-me ia que, nessa noite, sonhara com cores diferentes do cinzento frio dos seus dias, com o amor a envolvê-lo, com o vento frio e seco a soprar-lhe lucidez. Desejar-me-ia um feliz Natal, provavelmente. Olhar-me-ia com os olhos de quem se despede, uma e outra vez, ainda que não saiba sequer por que razão o faz. Seguiria no seu passo, a certeza entregue ao caos, apenas porque sim.
Talvez haja quem se sinta uma andorinha a rasgar o frio do Inverno, a vida toda. Talvez tenha de partir para outro sítio.
Alguns partem mesmo. Nunca os compreenderemos, talvez. Pergunto-me se seria relevante se faria a diferença, se alguma vez saberemos o que seria fazer a diferença para alguém a quem o ar não chega para que possa respirar. Esperemos, por tudo o que foram, que não façam a sua viagem em vão.

11/12/07

Tdos os dias mais um, todos os dias. Todos os dias uma palavra que afasta, que torna evidente o que sempre foi. Hoje, é mais uma perspectiva de colheita permatura de frutos que vimos lentamente despertar para o raio de sol matinal que lha dá côr. Amanhã, provavelmente, já não estará na árvore e será mais uma memória de como se cumpriu um fruto que nem teve tempo de amadurecer. Estou cansado destes ocasos ao meio-dia, estou cansado cedo demais.

17/11/07















Alvito da Beira, set 2007

14/11/07

finais de dia com sabor a fim V

Nunca a chave lhe tinha parecido tão grande, tão desproporcionada relativamente à porta. Nunca a sua vida custara tanto a abrir, como a porta. Conseguiu, com esforço, abrir a porta. Sentou-se na varanda. A brisa arrefecia e a madrugada já ia longa. Sentou-se e tentou abrir a vida, como fizera à porta. Pensou que talvez não valesse a pena forçar. Da porta, ainda tinha a chave, da vida, nem por isso. Adormeceu por ali, até que os primeiros raios de luz lhe aqueceram os pés colocados sobre o muro. Da noite ficou o frio de mais uma cicatriz.

21/10/07

Seria o teu vigésimo aniversário. Estarias hoje aqui, sabe-se lá como, com quem a teu lado, connosco, assim o esperaríamos. Contentámo-nos e adormecemos a perda com aquelas certezas que vamos construindo, que pensamos serem consoladoras mas pouco mais fazem do que ajudar o tempo a passar e, com ele, a aumentar o medo de esquecer-te. Estarias aqui, sabe-se lá com que humor, se calhar num daqueles dias em que te cairia por sobre os ombros o peso do mundo, do teu mundo, as neblinas de ontem, as tempestades da tua infância que nunca chegaremos a imaginar, a euforia de uma qualquer conquista. Nunca o saberemos. Estarias e isso contaria mais do que todos as velas que pudesses soprar, todos os aplausos que por ti se ouviriam. Estarias e teríamos alguém a quem envolver nos nossos braços. Sopramos, hoje, por ti, as tuas velas e esperaremos sempre que, no final do dia, possas ser tu a bater à porta.
17 de Outubro. Parabéns J.

11/10/07

Foges da vida como se ela insistisse em te perseguir, como um refugiado no teu corpo, um apátrida do afecto que roubou tempo à morte. Cresceste dentro de ti, maligno, tumor que te consome em metástases que não podes mais controlar, sem redenção. Sonhas com o dia em que te libertarás de ti, seja como for, nem que isso te leve para longe daqui, onde tudo te é estranho, quase tão estranho como tu.

10/10/07

Fazes-te à estrada, preparado, o cantil com água, talvez, a sede à espreita. A estrada é a saída, já o sabes há muito. Sabes que, à tua volta, o ar está seco, como a terra debaixo dos teus pés. Vês no espelho o desalento, observas as lágrimas que lentamente escorrem pela tua face, desafiando a gravidade e teimando em percorrer o máximo de pele antes de cair no chão. Vês, pelo espelho, a estrada nas tuas costas e avanças. Sabia que não terias medo, que chegado o momento, serias tu a desafiar as leis da física e a trocá-las pelas do desespero, queda por palavras, terra seca por tempestade violenta, vida por sonho, certezas por amor. Sabia que serias capaz de voar, apenas porque nunca quiseste olhar para o chão olhos nos olhos. Sabia que partirias um dia Apenas não queria que tivesse sido hoje. Fazes-me falta, ainda que sejas eu.

01/10/07

Nos sonhos de sua mãe, nunca foi feia, nunca foi má, nunca acordou com a necessidade de se lavar para que dela saísse o cheiro da miséria, da dignidade perdida. Aos olhos de sua mãe, foi sempre a mesma, criança indefesa, esperança, mistério, candura, enlevo deitado num colo feito ninho. No leito de sua mãe jazem todas as esperanças, mortas, as últimas a morrer, diz o povo. Nos olhos fechados de sua mãe ficam os sonhos, encerrados, história terminada, resgate negado ad eternum. Nas mãos de sua mãe, placidamente colocadas sobre o peito, nas veias que a pele deixa ver e onde apenas o frio corre, fica o segredo, o sortilégio de uma doçura ainda possível, feita de lágrimas, transmutadas nos sonhos de sua mãe.

22/09/07

Não me entregues a alma,
Tu a dor,
Eu o ópio nas veias,
Tuas e minhas.
Não te entrego a minha
Para que a nós não nos envolva o vício,
Teu e meu,
Como um sono informe e incolor,
Como um torpor,
Uma quase morte consentida.
Talvez mereçamos mais,
Tu e eu,
Talvez o amor.

27/08/07

Efeitos colaterais do Muro: onde a Friedrichstraβe e a Schützenstraβe se cruzam.

Olhou-o nos olhos, enquanto esperavam as bebidas. Fez uma longa pausa. Ele sorriu. Parecia feliz e tranquilo ali, na esplanada, a noite a começar, menos carros na avenida larga, mais pausas nos ruídos do dia-a-dia. Olhou-o nos olhos e disse-lhe que seria a última vez que o veria, à excepção de alguma coincidência, talvez. Disse-lhe que nunca mais o veria à mesa, a escolher com o garfo a comida, meticulosamente, guardando o melhor para o fim. Disse-lhe que nunca mais veria o seu acordar tranquilo, a sua calma perante a adversidade. Ele perguntou-lhe se teria feito ou dito algo que pudesse tê-la magoado. Ela respondeu-lhe que não, que ele nunca a tinha magoado, apenas não suportava mais a sua presença. Disse-lhe que, se ele estivesse a pensar se ela ainda o amava, a resposta seria sim, sem hesitação. Disse-lhe que podia não se suportar aquilo que se ama, quer ele compreendesse, quer ele achasse um absurdo e que, para ela, absurdo seria continuar a fazer amor com alguém apenas porque se ama. Ele perguntou-lhe, tenso, se fazer amor não seria isso mesmo, corpo a corpo com alguém que se ama. Ela fitou-o nos olhos e disse-lhe não lhe importava muito se as suas frases estavam a ser coerentes. Disse-lhe isto e molhou os lábios na bebida fresca que entretanto chegara, o quente dos lábios vermelhos no frio do copo incolor, o sumo cor-de-sol, poente. Ele perguntou-lhe se era recente esta aversão. Ela respondeu que não era uma aversão, que apenas queria nunca mais olhar para o fundo dos seus olhos negros e que tinha decidido isso segundos antes de pedir o sumo de toranja que agora bebia. Ele baixou ligeiramente a cabeça. Segundos depois, pediu-lhe desculpa e levantou-se. Caminhou ao longo da muito longa avenida. Percorreu-a toda. Chorou. Chorou como choram os homens que choram. Sentiu que algumas pessoas afastavam o olhar. Sentiu respeito. Sentiu que caminhava sem sentido mas não conseguia parar. Olhava o chão como se esperasse que dele saísse algo, como se algo pudesse levantar-se à sua frente e tomá-lo pela mão, como um anjo da guarda. A certa altura parou e sentou-se no passeio. Resistiu várias vezes à sedução de atravessar a rua e ao desejo de encontrar um carro que não conseguisse parar a tempo de evitar o seu corpo dormente e a sua alma dorida. Subitamente levantou-se e caminhou em direcção a casa. Sentia o vazio deixado por aquela mulher que o amava mas não suportava a sua presença. Sentiu que a amaria sempre e que, tão cedo, não lhe seria possível fazer amor com alguém, sentir outra pele que não aquela, olhar para outros olhos que não aqueles, fundos, avassaladores. Entrou em casa, sentou-se à janela do quarto e, toda a noite, viu os carros que passavam, um após o outro. Imaginou-os, talvez, como criaturas perdidas, sem rumo na noite, pouco importava que o fossem ou não. Ela bebeu o sumo até à última gota, tocou leve e carinhosamente o copo dele com os lábios. Fechou os olhos e atravessou tranquilamente a avenida, como uma alma perdida.

22/08/07

regressando à casa de Lúcia (Lúcia IV)

...reentro pela porta que Lúcia deixou entreaberta. Sento-me e escrevo, num pequeno pedaço de papel, mais um nome. Coloco a face branca à vista e deixo o nome virado para baixo. Saio, deixando a porta entreaberta, por respeito à decisão de Lúcia e porque não será a última pessoa a morrer desnecessariamente. Quem sabe quantas vezes mais iremos completar a bizarra torre que Lúcia eregiu...
+17,18/08/2007

01/08/07

Às estrelas que nascem a 2 de Agosto

Rompes a inércia,
Emerges da luz.
Nasces.
Tragas a vida toda de um impulso só
E sentes, ainda assim, que é pouco.
Tens o futuro na tua mão, pensas tu.
Sabes que és força cósmica,
Fogueira inapagável,
Neve eterna no alto da montanha
Que ergueste com um sopro, pensas tu.
Um dia serás fogo de artifício
E mostrarás a todos o exuberante que és,
Serás a maré alta,
A lua cheia,
O vento quente do Sul, forte.
Um dia, mais tarde, serás espuma das ondas,
Aquilo que sobra da força do mar,
A crepitar na areia,
Quase memória.
Serás brisa.
Um dia serás o amor que semeaste,
Ou um poema há muito escrito,
Se calhar apenas isso.
Terá sido muito bom.
Verás que valeste a pena.

29/07/07

Reparei que a primeira vez que coloquei um post neste blog (antes de tê-lo apagado e ressuscitado...) foi dia 27 de Julho. Há coisas...

25/07/07

Diluis-te no cinzento ou em outra cor qualquer. Deixas-te ficar com um sabor amargo nos lábios, como se nunca tivesses beijado o amor. Deixas que saia de ti a tua essência sem que, de ti, exale o teu perfume irrepetível.
Deixas-te ficar à espera, como se esperar fosse tudo o que sabes e queres fazer, tudo o que toda a gente faz à tua volta. Olhas para uma luz que já não brilha, que nunca brilhou. Contempla-la como se estivesses frente a uma epifania redentora.
Vives como se esperasses pouco mais que nada, talvez a terra húmida por cima da tua pele nua, como uma consolação, como o caloroso regresso à casa que nunca tiveste.
Não dizes de ti nem sequer que gostas que olhem para ti, que vejam o negro fundo dos teus olhos, o natural desalinho dos teus cabelos, o teu corpo delicado.
Esperas, apenas, como se esperasses uma revolução, uma metamorfose, um beijo qualquer desde que te desperte, que não te faça sentir como uma ferida que não pode, não quer, nem sabe sarar.
Como se nunca fosse tarde demais, esperas.

23/07/07

Leva-me onde saibas que me encontras.
Diz-me que me levante,
Que ande,
Que estou vivo.
Dá-me uma mão, a tua.
Diz-me que confie,
Que o que não vale a pena
Não merece que se perca a vida nele.
Dá-me da tua água.
Diz-me que não mais terei sede,
Que não mais terei aquele calor que tudo queima.
Leva-me ao cimo da colina.
Ainda que seja uma pequena colina
Na imensidão da planície devorada pelo sol e pela vida.
Sabes que estou lá.
Que sempre estive, ali,
Onde mil palavras valem todas as imagens,
Mil, se quiseres. As tuas.

21/07/07

Guarda-me um segredo,
Ainda que ele seja apenas um qualquer eco de mim,
Ainda que não to tenha ainda confessado.
Guarda-me aquele segredo
Que te parecer ter mais de mim lá dentro,
Mais amargura, mais dor,
Mais sorriso, mais cor.
Guarda-mo e nem me digas nada acerca disso.
Deixa que eu perceba a cumplicidade,
Que sinta que me possuis.
Deixa que o jogo se vá revelando.
Guarda-me um segredo,
Ainda que já ambos saibamos de tudo,
Como se brincássemos,
Ingenuamente,
A um qualquer jogo de escondidas,
Cumplice e amorosamente viciado.
A.

19/07/07

Se não for antes, no dia em que partires, saberás, porque saberás tudo, que sempre te amei, desde o mais fundo do meu medo, à confiança de saber que fomos tudo para ti. Dar-te-ás conta de que foste mais nós do que tu e que, hoje, colhemos, todos, os frutos disso, do gostar desmedido, do proteger, como a árvore que se entrega aos frutos e se esquece de si própria até ao momento em que a raíz lhe faz sentir que é pouco mais do que um ténue fio que a liga à terra. Ficarás a saber o quanto sempre foi importante podermos saborear a sombra e o conforto da árvore, para mim e para os meus frutos, e que, quando te pedia que cuidasses de ti, desejava apenas que te desses mais valor, que não confundisses a procura de outras sombras e o crescer do meu tronco e dos meus ramos, com coisas sem sentido, com falta de amor. Saberás que nunca quis distância, apenas espaço. Saberás que nunca recebeste falta de respeito nem ira, mas sede de perfeição, de querer que tudo fosse melhor e de que nada fosse votado a essa morte abjecta e absurda da indiferença. Saberás então que continuaste a pegar-me ao colo muitas vezes, provavelmente sem que ambos dessemos por isso. Saberás que és insubstituível e que, no dia em que partires, não deitarei uma lágrima porque já antes o fiz, mas saberás igualmente que, das muitas cores que pintam a vida, faltará a tua para traçar os riscos e escrever as palavras de que são feitos os meus dias. Ficará tudo o resto, o inominável, ficarão os frutos. Dizem que as árvores morrem de pé... começo a acreditar nisso. Ficarás a saber tudo isso um dia, se não for hoje, porque o tempo que parece ser o que nos falta é, talvez, aquilo que mais nos sobra e sobrará, sempre. Gastámos a passado a aprender e o presente a fazer não sei bem o quê. Teremos sempre, pelo menos, o futuro. Amanhã será um novo dia, com sol e tudo.
18/07

16/07/07

rewind/replay: pequeno requiem relâmpago e possivelmente patético para Lúcia (Lúcia III)

"We know a place where no planes go
We know a place where no ships go
No Cars Go![...] Where we know [...]

Between the click of the light
and the start of the dream."


"No cars go", Neon Bible, The Arcade Fire

10/07/07

Lúcia II

Já não se lembrava bem de como tinha começado tudo aquilo. Provavelmente, teria começado por vítimas de guerras pornograficamente exibidas em noticiários, com todo o seu sangue, todo o seu vazio, todo o ódio e toda a anulação, todas as fomes, todas as amputações, toda a terra seca, toda a mãe incapaz de manter vivo o filho que lhe saíra das entranhas. Teria começado por aí, provavelmente. E deu-lhes nomes. Deu nome a todos os rostos que se cruzaram com o dela, ainda que em sonhos ou pesadelos ou no chão à saída de casa. Teria passado por muitos outros, filhos e pais de muitas guerras e catástrofes e teria desaguado no imenso mar dos que lutam consigo próprios, contra si próprios. Lembrava-se agora de que teria sido algo assim. Especializou-se em observar essas guerras civis a uma só voz e num só corpo e deu-lhes nomes, a todos, em pequenos pedacitos de papel cortados irregularmente, à mão. Chegara assim aos que estão sós. Tinha feito esse percurso do sofrimento mais óbvio para o menos óbvio e não notava que os nomes sentissem a diferença.
Levantou-se um dia. Arranjou-se como de costume, simples. Bebeu uma chávena de leite e pegou na caneta de tinta permanente. Virou todos os nomes, os mais recentes de cada uma das pilhas, para baixo, como se estivessem completas aquelas tarefas. Escreveu um último nome e colocou-o num dos pequenos pilares de papel. Murmurou algo e sorriu tranquila. Saiu de casa, deixando a porta entreaberta.
Provavelmente todos morremos por razões estúpidas. Provavelmente, há quem consiga aguardar.

Lúcia I

Gostava de escrever nomes próprios em pequeninos pedacitos de papel que sobrepunha, em pilhas distribuídas concentricamente, na mesa que tinha sido a dos pequenos-almoços. Dava quase a impressão de que construía as fundações de uma qualquer pequena torre de Babel à sua escala, à escala da sua pequenez, da sua tolhida e encolhida mundividência, da ininteligibilidade que sentia rodeá-la, como que uma bolsa de um líquido amniótico envenenado e sufocante.
Todos os dias subiam um pouco mais, as ditas pilhas de papel, a dita torre de aparente desnorte. Todas as pessoas tiveram um nome e, para ela, os nomes davam corpo e alma de papel à memória de todas as pessoas que, no mundo, vão morrendo por razões estúpidas, sejam elas quais forem.
De entre as razões mais estúpidas para morrer, Lúcia elegera a solidão como a mais evidentemente desprovida de dignidade. Morrer porque se está só é algo que, numa crua lógica, racionalmente, não faz sentido ou faz tanto sentido como parar de respirar só porque é repetitivo, porque aborrece. Aborrece o ritmo da respiração, a dois tempos, o inspirar que obriga ao expirar, e tudo se repete inexoravelmente até ao fim e nem por isso, só por isso, decidimos interromper esse desígnio mecânico e vital.
Encarava a solidão como um jogo de xadrez a sós, um contemplar das peças imóveis porque quem ataca o rei já delineou a sua defesa e tudo está consumado antes ainda do mover do primeiro peão. A solidão é o jogo do não valer a pena. A solidão aborrecia-a. Tinha, aliás, começado a aborrecê-la no dia em que, pela primeira vez, acordou ao pé do marido com a sensação de que tinha o corpo moído. Começou a ficar só no dia em que decidiu que ele não lhe bateria mais, que não lhe retiraria o último fio de dignidade da alma. Confirmou a solidão no dia em que se consumou a separação e as vidas continuaram. Lentamente, a solidão começou a alimentar-se dela, resignou-se.
Começou então a empilhar os pedacinhos de papel.

03/07/07

As pedras acutilantes, pedras de dois gumes por debaixo dos pés.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.

29/06/07

Entre o ir e o ficar, o sentir-se prisioneiro e o tão vulgar soltar das amarras, pouco resta, nada dista. Nada pára à nossa espera e essa impossibilidade de suspender o mundo, enquanto se decide o próximo passo, torna-nos senhores de nós mesmos, rasgando os tratados, fulminando a ponderação a golpes de aventura, gritando ao desconhecido ainda que seja apenas para o não ouvirmos, por temermos o escuro que nos dizem que seguramente encontraremos. Seremos sempre ingénuos e crédulos anarquistas, sem escolha nem redenção, de coração dilacerado, talvez, mas vivos, talvez.

Apetece-me, hoje, reler...

"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura. [...]"

Excerto de Orpheu Rebelde, Miguel Torga

15/06/07

finais de dia com sabor a fim IV

Chegaste agora a casa. Tomaste a tua decisão, declaraste-a como irreversível porque nada faz sentido, a tua vida não vale nada e não suportas mais dor, especialmente a que não consegues identificar, a que é difusa, a que te devora e te levará à implosão, a uma qualquer implosão sem rasto.
Dá-me apenas um segundo. Deixa-me tentar apenas convencer-te do quanto vales a pena. No final, se quiseres, podes continuar a pensar que o teu valor é o mais absoluto zero, que o movimento dos astros é indiferente ao que dizes, fazes, sentes, pensas, que o facto de respirares não interfere com o ciclo das marés, nem com a órbita da lua, que o pulsar do teu coração e o fluir do teu sangue nas tuas veias não altera o sentido do curso dos rios, nem provoca as chuvas, que o teu choro não inverterá a seca, nem acabará com a dor ou a fome no mundo. Dá-me um segundo, apenas um para isto tudo.
Se o fizeres, talvez te possa falar de lágrimas que correrão por tu não andares por cá, de sonhos menos coloridos, porque muitas das cores se diluirão com o arrefecimento do teu sangue. Falar-te-ei de vazios e silêncios que apenas tu saberás preencher e aos quais apenas tu saberás dar sentidos. Talvez te possa dizer que algumas flores sentirão a falta do teu odor doce e morno e que talvez algumas das muitas ondas do mar sentirão a falta do teu corpo quente a aquecê-las.
Sinto, contudo, que um segundo não chega, porque uma vida toda também não chegaria. Estás convencido de que sabes o que vales, de que nasceste com um nó no cordão umbilical e que terás de viver, o tempo que tiver de ser, com um nó na garganta. Estás convencido de que vives uma vida só tua, de que as raízes e os ramos da tua árvore não estão ligadas a nada nem a ninguém.
Peço-te apenas um segundo, e outro, e mais outro ainda, todos aqueles que me puderes conceder, um após o outro, nada mais. Pode ser que o último seja o decisivo, que seja ele o te deixará livre.
Quanto a mim, dou-te todos os segundos do meu tempo, todos os que quiseres que sejam teus, porque somos uns dos outros e o tempo não nos pertence. Talvez ainda te convença, talvez venhas a achar que vales a pena e que ninguém pode tomar o teu lugar, seja onde for. Talvez não seja tão impossível assim. Ou talvez não. Seja como for, dá-me um abraço, daqueles que o teu pai ou a tua mãe provavelmente nunca te deram. Daqueles que talvez te façam chorar pelos medos todos do teu escuro, dos teus monstros. Daqueles que te façam ganhar, que mais não seja, apenas um segundo, mais um apenas.

13/06/07

Sentes que perdes folhas, não é? Por cada dia que passa, sentes que te expões, que mostras mais do que o rosto, que a tua nudez se te vai impor e que as tuas raízes não permitem que fujas, que te ocultes dos olhos de quem passa por ti. Sentes que nada podes fazer para que isso não aconteça... Também sei o que isso é... Nada disso me é estranho, sabias? Sinto também que o frio me perturba cada vez mais, que o calor me torna os dias quase insupotáveis, que nem sempre consigo ler as cartas de amor que o orvalho acaba por ir escrevendo em mim. E temo a chuva, sabes? Temos que me desfaça, como ao papel, que me converta em algo informe por onde a seiva deixe de encontrar motivos para correr e decida sair de vez, toda. Temo tanta coisa, como tu, provavelmente. Sabias?