Com mil rituais, enterramos os nossos mortos. Fazemos embrulhos, com caixinhas numa madeira que parece sempre brilhante, plastificada, forrada de uns cetins baratos pagos, tantas vezes, ao preço da glória, se esta o tivesse. Rodeamos os mortos de flores, de uma overdose de flores, com cartões debruados a negro e com dizeres exdrúxulos de uma saudade que se afirma ali, no branco do cartão, eterna. Rodeamo-los com fitinhas, como em embrulhos de oferta, de um kitsch barroco até à náusea. Depois fechamos e abrimos as caixinhas da tal madeira brilhante, olhamos e desolhamos o corpo mirrado, a figura que parece de cera, purgada já de vida, mostramos ou ocultamos lágrimas de dor e de outras coisas, encomendamos uma alma que já não precisa de encomendação, que já está livre da sua prisão de beleza fugaz e passa por ali tentando perceber o que resta dela em tudo aquilo. Depois marchamos, pequeninos e devotos soldadinhos de uma dor, sentida ou não, e vemos a terra seca e dura cobrir o nosso embulho, como se enterrássemos um tesouro secreto mas publicando o mapa num qualquer jornal.
Ainda assim, dói sempre. Dói-nos a memória de quem só revemos nesse acto. Dói-nos o sortilégio de sabermos que vivos vamos encontrar e como isso nos evoca uma quase festa. Dói-nos o futuro, o sabermos que também um dia irão fazer um embrulhinho connosco, com vénias e mesuras.
Ao pó tornaremos. Que seja em paz.