30/12/08
Finais de dia com sabor a fim VI
Saíu da cama, sentiu que era tarde demais. Abriu a janela e sentiu o frio cortante. Vestiu-se à pressa e saltou. Correu toda a noite pela cidade. Buscou-a por todos os recantos, seguiu-lhe o cheiro, o riso, a fala, a cor das roupas. Correu até ser dia, até não sentir-se mais. Adormecera no momento errado e dormira em excesso. Restava-lhe agora o sonhar acordado e o dar de beber à dor de uma insónia sem fim.
28/12/08
podia ser uma carta... gostava que fosse
"Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Partiu o meu avô materno pouco menos de duas semanas antes do Natal de 1997.
"Lembro-me, avô, de que, tão direito quanto possível, entrou pelo seu pé no hospital de onde não voltou a sair, com a sua pequena mala e a também sua pouca esperança na possibilidade de adiar a grande viagem, que pressentia com resignação. Falámos muitas vezes, outras tantas discutimos, em algumas ocasiões desabridamente, como dois adolescentes inseguros. Reconstruímos sempre o caminho pedregoso que nos permitia fazer ao menos a metade que, nem que fosse teoricamente competia a cada um, de igual para igual. Estou convencido disso.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Ainda assim, no limite das suas forças, recordo a forma enternecedora como se despediu da nossa primeira filha que nasceria em Abril com um firme 'já não a vejo mas cuidem bem dela'. Tentou, como sempre, esconder a emoção e a lucidez de que seria o último adeus.
Encontrámo-nos logo nessa noite, quando, já
de viagem, cruzou o meu sonho, onde eu já o aguardava. E estivemos por alguns momentos, os necessários para que ficasse clara a natureza da visita, na praia do Monte Clérigo, do lado certo das 'Margaridas' e, vigilante, observava a forma como eu, para aí com uns sete ou oito anos, saltava destemido e dominador as ondas, seguindo as normas, bom aprendiz.
E, com os seus calções azuis escuros e o seu cabelo branco a começar a aparecer e a cobrir-lhea cabeça e o corpo como a espuma de uma qualquer maré, as mãos atrás das costas, despedimo-nos. Acordei a meio da noite, com os olhos rasos de lágrimas ou de toda aquela água salgada e, pela manhã, nada foi surpresa.
Também o tenho ido fundindo no meu pai, quer pelo que foram um para o outro, quer porque necessito de todos, os que cá estão e os que já não posso abraçar fisicamente, cada vez mais perto. A sua partida não me deixou mágoa. E tenho acordado, ao longo destes anos, com a memória de sonhos reconfortantes mas estranhos, porque quase do dia-a-dia, nos quais falamos, ou porque chego a casa e estão lá os dois, e me desabafa os mais recentes caprichos da avó ou porque eu ou nós vos fomos visitar e ficamos a conversar um bocadinho neste mesmo sítio em que agora escrevo e onde tanta coisa de bom se passa cá em casa. "Tens a certeza que não queres comer nada?" "Tenho... acha que eu só penso em comer?" "Pronto, já estás a desconversar, não tens remédio!"
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
(a foto foi tirada por mim em fevereiro de 2008. o sonho descrito decorreu exactamente ali, naquele cenário e não em outro qualquer, parecido. as rochas estavam, como em muitos outras alturas, muito menos cobertas de areia: detalhes...)
25/12/08
É dia de Natal. Apesar de tudo, é dia de Natal. Apesar da lareira apagada, da manta húmida por sobre os joelhos a fingir o calor, a simular um conforto feito de nada. Ficou para trás o naco de pão e a malga com o caldo enregelado. Vem-lhe à memória a abundância de que ouvira falar na catequese, no banco duro da escola: o ouro, o incenso e a mirra. Se deram valor àquilo, é porque já teriam comida, mesmo que fosse apenas o leite da vaca ou da burra, ou de alguma cabra ou ovelha que tivesse vindo mirar o menino nascido no meio das bestas e do seu calor, e do seu cheiro, com o enlevo e a devoção possíveis a uma cabra ou a uma ovelha. Lembra-se depois de outra coisa que o Menino prometeu mas... ensinaram-lhe que tinha sido na Páscoa. Era igual, palavra de Deus, Homem ou Menino, não tem época nem tempo propícios, como a fruta, como as tangerinas no pino do Inverno frio. "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso." Sabe-lhe a redenção, esta frase. Ecoa-lhe como 'glória a Deus' sob o brilho prenhe de vida da estrela que trouxe ouro e insenso e tudo o resto. Amanhã, acordará, talvez no paraíso, com uma estrela que guiará até si gente vinda de todas as partes a dar-lhe coisas, um beijo que seja, um abraço. E, Páscoa ou Natal, terá sido tudo o mesmo porque a vida e a morte correm lado-a-lado, como dois companheiros de escola, no recreio, com as mãos a cheirar a casca de tangerina.
23/12/08
não é bem uma carta...
Nunca te perguntei certas coisas. Nem sei mesmo se o farei agora, não te quero magoar. Seria sempre de forma não intencional mas, ainda assim, não quero correr o risco. Já é suficientemente penosa a ideia de que, em breve, mais depressa do que todos pensamos, estaremos todos, de uma forma ou de outra, impedidos de nos abraçarmos e de dizermos quão importantes fomos uns para os outros. Por isso, não te quero perguntar por que razão te fechavas no quarto e, pela mesma fresta que me deixava entrever a hera do lado de lá da janela, no jardim do vizinho, te via com uma almofada por sobre a cabeça, o corpo de bruços, prostrado. Não te pergunto também porque, fechada a porta, gemias e gritavas contra uma qualquer dilacerante dor que nunca soube ser do corpo ou da alma mas tão funda era que ainda hoje me dói o ter que esperar que passasse e não perceber a assumida impotência para te libertar.
Sabes que não te pergunto as razões de tudo isso, se é que as conheceste alguma vez, porque também eu já me abriguei debaixo de uma almofada parecida e, de bruços sobre a cama, já gritei do mais fundo de mim sem saber se era do corpo, da alma ou de ambos o que me rasgava a vida, ali. E também eu já li nos olhos dos que me espreitam pela fresta da porta essa mesma impotência, essa espera que para sempre dialogará connosco. Também tu tiveste a tua fresta por onde espreitar e será esse o nosso cordão umbilical, aquele que, se calhar, nunca cortaremos.
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
08/12/08
da importância de ir escrevendo cartas
Caíam gotas de água errante, chuva ambiente. Os semáforos, o cruzamento, testemunhos de toda a gente a querer ir para todos os lados e todos sob um mesmo céu cinzento. Tomava-o a inércia, essa pouca vontade de sobreviver mais um dia. Sentado no carro, enquanto esperava, deixava qua as gotas se acumulassem, paulatinamente, no vidro e apeteceu-lhe que fosse essa a metáfora dos seus últimos dias. Cada vez menos detalhe, cada vez mais difuso e caleidoscópico, cada vez mais longe. Ouvira em fado antigo que gaivota que não voa, esmorece e cai no mar. Apetecia-lhe também que fosse essa outra metáfora dos seus últimos dias, povoados de abundante autocomiseração e água mole. Escreveria uma carta.
14/10/08
Gosto das manhãs cinzentas, de chuva mansa. Gosto desse carinho sobre a pele, do desconforto da roupa lentamente molhada no corpo e das gotas a escorrer pelas pálpebras. Lava e cura como as lágrimas, sem o sabor cortante do sal. Gosto de pestanejar lentamente, deixando os olhos fechados por um par de segundos. Abro-os depois e o cinzento do céu fica de um quase branco, luminoso, de braços abertos. Como tudo muda, gosto de manhãs cinzentas, de chuva mansa, pela certeza de que virão outras cores, outra luz, outra água, com sal ou não.
12/10/08
20/09/08
Sei que hoje é o teu dia. Urdiste com paciência o teu plano e vais evadir-te sem qualquer hesitação, sem remorso algum. Ainda te lembras daquilo que me disseste no dia em que decidiste sair? "Olhei para o espelho e vi outra vez o mesmo eu de sempre, o de há anos, o de ontem. Decidi que não será o de amanhã. A vida é curta demais: inspiras, expiras, suspiras e já passou mais de metade. Os gatos têm sete vidas porque correm riscos, talvez, porque se superam em cada muro que deixam para trás, em cada telhado que conquistam, talvez. Não quero sete, mas esta, a que me trouxe até este hoje, a que me adormeceu na vertigem do tempo, esta não será a última." Um abraço.
20/08/08
Contas, recontas, escreves, reescreves. E, nas tuas palavras, quem ouve e lê confunde memória, ficção, alteridade e introspecção. Serás sempre palimpsesto, condenado a fazer e desfazer apesar de ti próprio. Não lutes pela tua credibilidade. Quem não compreende não distingue e apenas lê o mais recente. Tu és mais do que isso no teu jogo vital.
21/07/08
Desenhas linhas no papel,
Como estradas.
Desenhas, por sobre a mesa velha, de madeira velha,
Estradas direitas e tortas, que se entercruzam
Como uma teia impossível.
Vais forrando a parede cinzenta com esse mapa.
Será o teu mapa que levará ao teu tesouro.
Será um tesouro saqueado vezes demais,
Partilhado até nada mais ressoar do seu fundo,
Apenas o estertor da tua dignidade moribunda.
Ficarás por aí, traçando no céu do teu universo
Linhas sobre o papel,
Como estradas na tua galáxia inóspita.
E farás essas viagens.
Viajarás, sempre, enquanto passo na rua e te imagino aí,
Por detrás dessa janela, percorrendo resignado a tua teia.
Como estradas.
Desenhas, por sobre a mesa velha, de madeira velha,
Estradas direitas e tortas, que se entercruzam
Como uma teia impossível.
Vais forrando a parede cinzenta com esse mapa.
Será o teu mapa que levará ao teu tesouro.
Será um tesouro saqueado vezes demais,
Partilhado até nada mais ressoar do seu fundo,
Apenas o estertor da tua dignidade moribunda.
Ficarás por aí, traçando no céu do teu universo
Linhas sobre o papel,
Como estradas na tua galáxia inóspita.
E farás essas viagens.
Viajarás, sempre, enquanto passo na rua e te imagino aí,
Por detrás dessa janela, percorrendo resignado a tua teia.
21/06/08
Porquê? Podes sempre prerguntar porquê. A mim não me incomoda. Já o fiz, também. Porque não estiveste naquele almoço, ou jantar? Porque não constas daquela fotografia onde todos sorriem e ostentam as suas felicidadezinhas. Todos menos tu. Eu estava lá, naquele Natal e tu também mas ficaste de fora. Por que razão te excluiste ou te excluíram daquele momento de fervor e zelo, daquele pequeno altar de família feliz. Voavas, já? Como sempre, voavas acima de todos e de tudo, eras mais do céu do que da terra. E, quando parecia que eras tanto da terra, o rebelde sem causa rumo a uma qualquer perdição, quando tudo o que ocorria era perguntar porquê, tudo o que tu não sabias era responder. Foste a pergunta, essa pergunta. Continuas a ser, um pouco todos os dias, mesmo que o rosto não seja o teu, nem os silêncios.
28/05/08
Pedes esmola, sentada ao colo do teu pai e nos seus olhos vazios temo ver os teus, só não sei quando. Ele, o teu pai, sentado no chão e tu sentada no ninho que as pernas dele fazem. Sorris a troco de uns trocos. Sorris e serias feliz se não te fosse impossível.
Vi-te ontem a tocar uma concertina à beira de um rio, à espera que te dessem uns trocos em troca do requiem resignado que à tua volta vais entretecendo enquanto as tuas costas curvadas e os teus olhos negros, enormes pediriam para seres criança, se tivesses alguma vez sabido o que isso é. Mas não sabes. Nasceste com a amargura no rosto, a concertina na mão e eras um homem.
O que será de ti que sorris ao colo do teu pai com os teus cabelos de ouro?
O que será de ti que tocas sozinho, ou do teu irmão, na outra margem, com outra concertina e os mesmos olhos?
O que será de ti daqui a cinco, daqui a dez, daqui a vinte anos, se ainda por aqui estiveres?
Continuaremos a cruzar-nos, todos impotentes, todos com as mesmas moedas no bolso, as que te matarão a fome e as que não me fazem falta, as que me sobram e te dou para poder dormir melhor?
Não te servirá de consolo mas deixa-me que te diga que não te esquecerei e que falarei de ti aos meus filhos, quando os tiver ao colo, para que saibam que há quem tenha de sorrir e tocar concertina no chão frio e sujo da rua sem perguntar porquê.
Nessa noite, dormiremos pior. Onde estarás?
(Varsóvia, 28 maio 2008; evocando Berlin, 5 agosto 2008)
Vi-te ontem a tocar uma concertina à beira de um rio, à espera que te dessem uns trocos em troca do requiem resignado que à tua volta vais entretecendo enquanto as tuas costas curvadas e os teus olhos negros, enormes pediriam para seres criança, se tivesses alguma vez sabido o que isso é. Mas não sabes. Nasceste com a amargura no rosto, a concertina na mão e eras um homem.
O que será de ti que sorris ao colo do teu pai com os teus cabelos de ouro?
O que será de ti que tocas sozinho, ou do teu irmão, na outra margem, com outra concertina e os mesmos olhos?
O que será de ti daqui a cinco, daqui a dez, daqui a vinte anos, se ainda por aqui estiveres?
Continuaremos a cruzar-nos, todos impotentes, todos com as mesmas moedas no bolso, as que te matarão a fome e as que não me fazem falta, as que me sobram e te dou para poder dormir melhor?
Não te servirá de consolo mas deixa-me que te diga que não te esquecerei e que falarei de ti aos meus filhos, quando os tiver ao colo, para que saibam que há quem tenha de sorrir e tocar concertina no chão frio e sujo da rua sem perguntar porquê.
Nessa noite, dormiremos pior. Onde estarás?
(Varsóvia, 28 maio 2008; evocando Berlin, 5 agosto 2008)
10/05/08
Sobre o meu corpo, duplicou, triplicou, hoje, a força da gravidade.
E tudo, mesmo tudo, pesa demais, até a chuva, até o ar que inspiro.
Tudo esmaga, tudo comprime, tudo deprime, quase tudo magoa por sobre a dor cinzenta e o cansaço.
E tudo, mesmo tudo à minha volta, me parece saido de uma fotografia envelhecida pelo tempo e pela falta de cuidados.
Dias pesados, sombrios, estes.
Um passo atrás do outro, até amanhã.
Espero cores, amanhã. Cores e nitidez.
E um ar que não se debata tanto comigo ao inspirar.
E tudo, mesmo tudo, pesa demais, até a chuva, até o ar que inspiro.
Tudo esmaga, tudo comprime, tudo deprime, quase tudo magoa por sobre a dor cinzenta e o cansaço.
E tudo, mesmo tudo à minha volta, me parece saido de uma fotografia envelhecida pelo tempo e pela falta de cuidados.
Dias pesados, sombrios, estes.
Um passo atrás do outro, até amanhã.
Espero cores, amanhã. Cores e nitidez.
E um ar que não se debata tanto comigo ao inspirar.
24/04/08
Nasceste quente, do ventre da tua mãe, linda, a questionar o mundo como hoje o fazes. Desafias-te e desafias-me no crescer tão rápido, na sede de te tornares adulta, enquanto eu tento manter a imagem de quando a tua mão era tão pequena que a fechava toda na minha, como um tesouro. Vai-se revelando, em cada dia do teu amor fugidio, que com o sangue do teu cordão umbilical te escrevi e te gravei no mais fundo de mim, para sempre. Foste o meu, o nosso primeiro poema. Um dia, com mais tempo, não te preocupes agora em pensar muito nisso, saberás o que isso vale. Se calhar já sabes, sempre soubeste e eu ainda não percebi...
Um beijo
para a M.
Um beijo
para a M.
21/04/08
Deixa a luz acesa. Deixa-a perto da janela.
Sabes que não parti, que apenas estou meio perdido, a tentar encontrar o caminho de volta. Sabes que ando perdido, já me conheces. (Sei que sorririas se me ouvisses dizer isto...)
Sabes que não estou onde me viste descer à terra, entre uma lágrima e uma palavra de conforto mas sabes que me encontras em cada canto da memória, em cada linha que escrevi, em cada papel desarrumado que ainda não quiseste pôr em ordem, com medo de me ires apagando, no meu casaco preferido, que vestes para amenizares os frios que te assolam.
Deixa a luz acesa e perto da janela. Saberás que a encontrei quando não precisares da memória para sentires a minha mão na tua. Conheces-me, sabes que te darei a mão em busca de conforto antes de adormecer.
Confio, sempre o vi nos teus olhos, que vais deixar a luz acesa. Conheces-me, sempre soubeste que, ao partir, teria medo do escuro.
(o conforto de saber que existes)
Sabes que não parti, que apenas estou meio perdido, a tentar encontrar o caminho de volta. Sabes que ando perdido, já me conheces. (Sei que sorririas se me ouvisses dizer isto...)
Sabes que não estou onde me viste descer à terra, entre uma lágrima e uma palavra de conforto mas sabes que me encontras em cada canto da memória, em cada linha que escrevi, em cada papel desarrumado que ainda não quiseste pôr em ordem, com medo de me ires apagando, no meu casaco preferido, que vestes para amenizares os frios que te assolam.
Deixa a luz acesa e perto da janela. Saberás que a encontrei quando não precisares da memória para sentires a minha mão na tua. Conheces-me, sabes que te darei a mão em busca de conforto antes de adormecer.
Confio, sempre o vi nos teus olhos, que vais deixar a luz acesa. Conheces-me, sempre soubeste que, ao partir, teria medo do escuro.
(o conforto de saber que existes)
16/04/08
E que tal se caminhássemos em sentidos opostos, de costas voltadas, como nos duelos antigos mas sem as armas. Só a lua a iluminar a despedida, passos firmes e cadência certa. Andariamos tudo o que pudessemos. Um dia, dariamos connosco cara-a-cara, de novo, porque tudo é tão simples como o redondo da terra.
É estúpida, não é, esta ideia? Seria a aventura de testar leis, acasos, probabilidades. Fechemos os olhos e fiquemos assim, lado a lado, pele na pele, a sentir o tempo passar à velocidade da vida E será bom, muito melhor do que tentar parar a Primavera, ou Inverno, ou as rugas. Isso será valor seguro, como a lua por sobre todos nós, ou o sol. A aventura será tudo o resto.
É estúpida, não é, esta ideia? Seria a aventura de testar leis, acasos, probabilidades. Fechemos os olhos e fiquemos assim, lado a lado, pele na pele, a sentir o tempo passar à velocidade da vida E será bom, muito melhor do que tentar parar a Primavera, ou Inverno, ou as rugas. Isso será valor seguro, como a lua por sobre todos nós, ou o sol. A aventura será tudo o resto.
06/04/08
A fronteira nunca traçada entre a verdade e a mentira, entre o sonhado, pesadelos ou sonhos consoladores, e o vivido, neste Baudolino...
O prazer de escrever livremente, o poder ser a personagem que está frente ao teclado, deixando de lado o homem que sou e carregando com ele todo.
Talvez esteja na hora de parar, talvez de vez. Talvez não.
Talvez esteja esgotado o espaço deste álbum de recortes, ou lá o que isto é. Talvez os que aqui passam precisem de repouso, de um sono revigorante face aos lugares comuns que se amontoam em palavras já demasiado castigadas pela vulgaridade e pelo não se saber dizer melhor o que passa pela mente...
Todas as palavras escritas, os lamentos todos, todo o medo, toda a volúpia da morte, todas as personagens, as suas lágrimas todas, toda a ficção, a realidade toda, o cansaço do não resolvido, a impaciência e a ansiedade face ao futuro que chega a cada segundo que passa.
O prazer de escrever livremente, o poder ser a personagem que está frente ao teclado, deixando de lado o homem que sou e carregando com ele todo.
Talvez esteja na hora de parar, talvez de vez. Talvez não.
Talvez esteja esgotado o espaço deste álbum de recortes, ou lá o que isto é. Talvez os que aqui passam precisem de repouso, de um sono revigorante face aos lugares comuns que se amontoam em palavras já demasiado castigadas pela vulgaridade e pelo não se saber dizer melhor o que passa pela mente...
Todas as palavras escritas, os lamentos todos, todo o medo, toda a volúpia da morte, todas as personagens, as suas lágrimas todas, toda a ficção, a realidade toda, o cansaço do não resolvido, a impaciência e a ansiedade face ao futuro que chega a cada segundo que passa.
26/03/08
Fazes hoje o luto por ninguém que tenha morrido. Não foi ninguém hoje para debaixo da terra fria deste frio fim de Março. Contudo, as lágrimas percorrem o teu rosto e a perda ensombra-te o olhar. Abriste hoje os olhos, de manhã, e quiseste fechá-los de novo, ignorar o que te faz sentir mais velho. Estás hoje mais velho, garantidamente, do que ontem. Se estás mais maduro... duvido. O teu mundo perfeito quis mostrar-se imperfeito e nascer para que todos o vissem. Rebentaram as águas e, do útero da tua fantasia saíu uma violência muda, surda, velha e amarga, pequenina e mesquinha, com modos de quem não é lobo mas está a adorar ter-lhe vestido a pele. É assim mesmo. E, como por tantos outros partos indesejados de coisas indesejadas, choras. Choras e fazes luto. Choras porque não és mais do que uma criança que a vida protegeu cegamente. E fazes luto, um luto carregado por ti, por aquilo que não és capaz de manter vivo no pálido sol coberto de nuvens cobardes que és tu e a tua vida. No teu mundo, tudo deveria fazer sentido. Talvez sejas tu a peça errada do puzzle que se foi tecendo à tua volta, talvez te leves demasiado a sério, prenhe de narcisismo e autocomiseração. Paciência. Já nasceste. Aguenta-te com o resto. Consola-te: isto não dura sempre. É irónico, não é? Lembras-te de teres desejado a imortalidade na tua infância? Ainda bem que cresceste, pelo menos nisto.
09/02/08
‘Acho que sempre tenho de ir até ao horizonte’, disse-te ao ouvido. Pensaste sempre que seria mais uma daquelas stuações em que murmurava coisas quase ininteligíveis ou cujo sentido era impossível de encaixar no mundo dos outros. Levantou-se e foi colocar-se sob a porta da rua. Olhou ao fundo a linha do horizonte avermelhado, lugar comum do pôr-de-sol na planície. Subitamente, começou a correr em direcção à estrada, primeiro devagar, depois como no esforço final perto da meta. Correu até deixares de o ver. E continuou, soubeste-o depois. Esperaste uns minutos, voltaste para dentro, já ansioso. Em cima da mesa, num pequeno papel escrito a lápis, um “Fui até ao horizonte. Até já.”
Nunca mais o viste. Guardas o papel, gravado na lápide da tua memória, o carvão negro no papel branco rasgado de um caderno encontrado por ali.
Acho que tenho de ir até ao horizonte, eu também. Por lá nos encontraremos talvez.
Nunca mais o viste. Guardas o papel, gravado na lápide da tua memória, o carvão negro no papel branco rasgado de um caderno encontrado por ali.
Acho que tenho de ir até ao horizonte, eu também. Por lá nos encontraremos talvez.
29/01/08
obituário
Com mil rituais, enterramos os nossos mortos. Fazemos embrulhos, com caixinhas numa madeira que parece sempre brilhante, plastificada, forrada de uns cetins baratos pagos, tantas vezes, ao preço da glória, se esta o tivesse. Rodeamos os mortos de flores, de uma overdose de flores, com cartões debruados a negro e com dizeres exdrúxulos de uma saudade que se afirma ali, no branco do cartão, eterna. Rodeamo-los com fitinhas, como em embrulhos de oferta, de um kitsch barroco até à náusea. Depois fechamos e abrimos as caixinhas da tal madeira brilhante, olhamos e desolhamos o corpo mirrado, a figura que parece de cera, purgada já de vida, mostramos ou ocultamos lágrimas de dor e de outras coisas, encomendamos uma alma que já não precisa de encomendação, que já está livre da sua prisão de beleza fugaz e passa por ali tentando perceber o que resta dela em tudo aquilo. Depois marchamos, pequeninos e devotos soldadinhos de uma dor, sentida ou não, e vemos a terra seca e dura cobrir o nosso embulho, como se enterrássemos um tesouro secreto mas publicando o mapa num qualquer jornal.
Ainda assim, dói sempre. Dói-nos a memória de quem só revemos nesse acto. Dói-nos o sortilégio de sabermos que vivos vamos encontrar e como isso nos evoca uma quase festa. Dói-nos o futuro, o sabermos que também um dia irão fazer um embrulhinho connosco, com vénias e mesuras.
Ao pó tornaremos. Que seja em paz.
21/01/08
Quanto tempo tens? Quanto podes perder ainda com angústias, com a tua solidão, com o que não te deixa em paz? De quantos dias dispões para chorar o que não viveste, o feliz que não foste? Não sejas ingénuo, o tempo passa mesmo, colhe-te pela raíz, se for caso disso, e faz-te velho ainda que sintas o teu coração aainda agora começou a pulsar. Ou então... ou então, o tempo colhe-te sem te fazer velho, com a vida toda por viver, dizes tu, dizemos todos. O tempo sabe o teu nome de cor e, quando te chamar, de longe ou ao ouvido, entrega-te. Que não se chore mais por ti.
Tu tens o tempo todo, agora, estejas onde estiveres.
31/12/07
Levanta-te e anda
Levanta os braços, por um dia que seja. Ergue-te da sombra que sobre ti criaste e deixa que alguma luz, tímida, vá escorrendo pelos teus cantos mais obscuros e secretos. Levanta a tua fronte, para que se veja que os teus olhos brilham mesmo na noite. Ergue-te da sombra e caminha pelos trilhos que se abrem à tua frente. Levanta-te e anda, mesmo que não te creias capaz de o conseguires fazer. Anda, mesmo que caias e voltes ao teu canto sombrio e nele tornes a ocultar tudo o que és. Por um dia operaste o teu milagre e posso afirmar-te, como num acto de fé, que o sol nasceu só para ti, nesse dia. Talvez te voltes a erguer e a andar de novo. Podes confiar que ficaremos à espera, pelo menos o sol e eu.
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