Fazia uma espécie de xilofones com os restos das pedras da pedreira. 'Litofones' seriam... Todos os dias levava umas quantas peças, irregulares, de expessuras e texturas diferentes, mais ou menos oxidadas, com diferentes veios a rasgar a cor base da pedra. Já em casa, dispunha-os, com critérios e carinhos seus, sobre pequenos cubos de madeira, colados numa barra também de madeira, daquela clara dos caixotes da fruta. E depois tocava, fosse aquilo o que fosse, sempre devagar. Deixava-se embalar pela dormência dos sons roucos, roubados ao fundo da Terra e ressuscitados para um diálogo improvável. E depois, depois falava, juntava palavras sussuradas àqueles sons com que povoava os cantos da sua solidão. e percorria livre e metodicamente o seu universo. Um dia, já cansado, ter-se-á deitado sobre toda aquela construção, num final de tarde de um quente Outono . E, enquanto a pedra lhe devolvia o calor do sol, confortando as suas costas com um tépido abraço, esperou que todos aqueles sons e palavras começassem a ganhar vida e forma à sua frente. Ao som daquela melopeia, que ainda hoje ecoa nas traseiras da sua casa, naquele quintal transmutado em máquina de memórias, terá ouvido o seu telúrico requiem. Haverá horas assim, horas em que a vida já nos trouxe o muito e o pouco que tinha a trazer e, então, talvez nos reste apenas esperar que, fechados os olhos, possamos ao menos continuar a sonhar, nem que seja com xilofones e palavras. Já terá valido a pena.
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)