Porque te vejo adormecer, dando descanso a tudo o que és, paz e turbilhão, decidi que um dia te escreverei uma carta para que leias no futuro, embora já saibas que palavras, sorrisos e tempestades podes aí encontrar. E poderemos continuar a caminhar ao som da tua voz, da minha, e faremos das nossas conversas um luar sobre a espuma das nossas ondas. E contemplarei os teus filhos e levar-me-ás ao colo ser queixumes e riremos do primeiro Natal, do nono aniversário, do primeiro amor, das dores das perdas e das alegrias ansiosas dos partos, do vigésimo aniversário e de quando inventei histórias sem sentido para te fazer feliz. E dar-te-ei os parabéns, mesmo que não me vejas. E saberás que nos liga mais do que meia dúzia de Primaveras e de cordões umbilicais.
23/11/09
Comia cerejas como palavras saídas de rubros lábios e dizia coisas inefáveis sem pudor. Subia as esferas de sistemas solares e de vias lácteas na esperança de salvar mundos. Rendia-se à dor e matava-lhe a sede, como cerejas vermelhas, de um vermelho escuro enraivecido, a cor do diabo à solta numa rua qualquer.
Podia ter carregado alguém ao colo, talvez um previsível filho, talvez um pai ébrio ou uma mãe dorida de não saber mais nada sobre coisa nenhuma. Podia ter sido algo mais e roubaria ao livro dos livros saber e luto sufucientes para cobrir de vergonha um deus qualquer, tão anónimo como uma rua qualquer, com mulheres a seduzir dinheiro e homens em busca de um onírico cio consolador. Podia ter-se vestido com um vestido-nuvem e seria um doce anjo decadente.
Enlouqueceu à sombra de si mesma. Compreendeu que o fogo cerrado e cruzado da guerra eram cerejas e palavras sem pudor, desejo de artifício, memória fátua, futuro envelhecido.
26/10/09
Sentou-se no muro. Era de pedra, o muro. Sentou-se e esperou pensar em algo épico que pudesse fazê-lo traçar outro rumo, outra rota, algo assim. Imaginou de novo os dragões da infância, voadores incansáveis, guerreiros ferozes e doces que tantas vezes o carregaram, como escrevia nas composições da escola, 'por montes e vales'. Épico mas morto, tudo isso, como a pedra do muro. Pensou no guarda-chuva aberto de que se muniu para o famoso salto de cima da baliza, na escola, o mais curto voo em queda livre da história, de uma história qualquer, com guarda-chuva e nariz partido. Lembrou-se ainda de observar as formigas, de as ver carregar fardos com mil vezes o seu peso. Épicas, as formigas. Olhou algumas pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Como as formigas, evidentemente, incansáveis. Por ver aquelas pessoas é que se terá lembrado delas, das formigas. Carregavam as pessoas o seu pequeno e pesado fardo de palmilhar a cidade em busca de dinheiro para pão. Nem fardo, nem pão eram algo de épico, nem os dragões voariam. Olhou a rua e voou, sem guarda-chuva. E chovia. Chovia pouco, uma chuva suave a molhar a rua. E a chuva viu que ele passava, no seu livre voo, e fez-se nuvem, de novo, ali mesmo. Transportou-o a chuva às costas e carregou-o por montes e vales. E termina esta história, composição quase escolar de más aventuras, com o mais curto voo livre da sua existência, o mais épico também, o mais sombrio, dirão alguns, o mais cobarde, dirão outros. O mais livre, digo eu, com nuvens e chuva por sobre as minhas palavras e de mão dada com o meu silêncio. Fraternal, o meu silêncio, cúmplice, cobarde. Uma vez chega, é até mais do que suficiente, diria ele. Era uma vez.
22/10/09
E se a vida fosse apenas o espaço e o tempo que medeia entre um comboio perdido e o seguinte, que teima em chegar atrasado? Ou a soma de todos esses momentos? Talvez se perdesse o muito que, aparentemente, costuma ser o resto do tempo. Talvez se ganhasse o que é costume perder-se. Talvez a espera, tempo de impaciências e sonos intermitentes, revele o pulsar dos sangues e seivas vitais, a face oculta e displicentemente adiada daquilo que somos.
01/10/09
Fazia uma espécie de xilofones com os restos das pedras da pedreira. 'Litofones' seriam... Todos os dias levava umas quantas peças, irregulares, de expessuras e texturas diferentes, mais ou menos oxidadas, com diferentes veios a rasgar a cor base da pedra. Já em casa, dispunha-os, com critérios e carinhos seus, sobre pequenos cubos de madeira, colados numa barra também de madeira, daquela clara dos caixotes da fruta. E depois tocava, fosse aquilo o que fosse, sempre devagar. Deixava-se embalar pela dormência dos sons roucos, roubados ao fundo da Terra e ressuscitados para um diálogo improvável. E depois, depois falava, juntava palavras sussuradas àqueles sons com que povoava os cantos da sua solidão. e percorria livre e metodicamente o seu universo. Um dia, já cansado, ter-se-á deitado sobre toda aquela construção, num final de tarde de um quente Outono . E, enquanto a pedra lhe devolvia o calor do sol, confortando as suas costas com um tépido abraço, esperou que todos aqueles sons e palavras começassem a ganhar vida e forma à sua frente. Ao som daquela melopeia, que ainda hoje ecoa nas traseiras da sua casa, naquele quintal transmutado em máquina de memórias, terá ouvido o seu telúrico requiem. Haverá horas assim, horas em que a vida já nos trouxe o muito e o pouco que tinha a trazer e, então, talvez nos reste apenas esperar que, fechados os olhos, possamos ao menos continuar a sonhar, nem que seja com xilofones e palavras. Já terá valido a pena.
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)
28/09/09
Inusitado manifesto: 'Por Plutão'
Quando eu nasci, Plutão era um planeta. Era o último dos 'nossos' planetas, do 'nosso' sistema solar. Era uma daquelas espécies de famílias repetidas na escola, misto de composições musicais e provas olímpicas como o alfabeto, a tabuada do sete ou o nosso nome completo, tudo dito, cantado ou recitado no intervalo de tempo de que precisa um relâmpago para rasgar o céu.
Hoje, por mais que Plutão lá esteja e, eventualmente, em nada tenha mudado, foi oficialmente retirado da vetusta fotografia de família. E tudo isto, qual teoria científica da conspiração, com uma perfídia semelhante àquela que põe alguém fora da família porque se descobriu que o código genético não corresponde ao do patriarca, ou da matriarca da família: eras nosso irmão. Bem sei que tudo isto assentará em critérios que não ouso nem quero, de forma alguma, beliscar mas, nas minhas imaginárias viagens pelo Universo, Plutão era a última escala ainda em casa, com uma, se calhar imaginada, centelha longínqua de sol pálido. Para lá de Plutão, a atracção do desconhecido. Gelado e diminuto, era também o primeiro indício, na viagem de regresso, de que estaria a chegar a casa. Dobrado aquele cabo de todos os confortos, pouco importava a sua classificação. Plutão daria conselhos avisados na partida e receberia, algum tempo depois, os viajantes cansados de braços abertos.
Com o passar do tempo, e porque continuamos a planear as nossas viagens por espaços mais inóspitos que o sideral, continuo também, não raras vezes, a desejar essa passagem por Plutão e aí adormecer, a salvo da tempestade, no aconchego do abrigo seguro, nessa escala de um vital anonimato redentor. Gelado e diminuto, sentirei sempre o apelo de um planeta como Plutão onde alienar-me não corresponda a perder-me de vez.
(Há ainda a possibilidade de, com o passar do tempo, eu ir ficando mais estranho... Espero que não me passem a chamar outra coisa qualquer por me ser retirado um qualquer estatuto... Se calhar já chamam e continuo a ser eu... Como Plutão.)
24/09/09
Folhas de papel, papel de raízes das quais não quero mais beber .
Papel para fazer asas, de papel, e o voar discreto, seja lá para onde for.
Céu azul ou cinzento para poder cair em voo livre e ser salvo, nem sei bem de quê, nem por quem.
Ao fundo, o muro cinzento esbranquiçado que se me fez horizonte.
Talvez do outro lado haja mais eu.
Papel para fazer asas, de papel, e o voar discreto, seja lá para onde for.
Céu azul ou cinzento para poder cair em voo livre e ser salvo, nem sei bem de quê, nem por quem.
Ao fundo, o muro cinzento esbranquiçado que se me fez horizonte.
Talvez do outro lado haja mais eu.
"Set me alight, we'll punch a hole right through the night. Everyday the dreamers die to see what's on the other side." (algumas palavras de "In God's Country", de Joshua Tree, U2)
18/09/09
Lembro-me do estalar dos joelhos do meu pai, na noite das minhas já velhas insónias, ao aproximar-se do meu quarto. Entrava, sentava-se na beira da minha cama e, com toda a paciência, sugeria-me uma estratégia para chamar o sono, algo além de ovelhas saltitonas e clichés exauridos. O sono não chegava, como desejado, até o cansaço me vencer, como hoje. Hoje, quando o sinto menos paciente, tenho a certeza de que continuaria a convocar a sua experiência, mais do que imaginação, talvez, para me evitar a perda constante de sono. Hoje é o meu pai um companheiro para os meus filhos, a mais velha, exigente, o activo e espontâneo do meio e o exasperantemente calmo e reservado mais novo. Para todos eles é uma presença que acalma, um companheiro de viagens longas a dois, pela frágil saúde da minha mãe, o garante de que tudo vai correr bem. É para mim o pronto-socorro que, sem questões, persiste em aparecer no local certo à hora certa. É o amigo que eu trato enquanto tal, com toda a frontalidade do mundo, ainda que nem sempre ele goste e nem sempre eu durma tranquilo depois, ao fim do dia... Sempre o sono ou a falta dele...
Poderia ser isto uma carta mas não é. É um manifesto, simples e pouco elaborado num dia triste, nem sei bem porquê, num dia em que me fazia falta falar um pouco com ele, nem sei bem porquê. Se calhar, continuo a esperar novas sugestões para novas insónias. Se calhar, quando emergimos crianças dos medos de sempre e vimos à tona da água respirar, gostamos de ouvir ruídos familiares no silêncio das nossas noites tão escuras, ruídos que possam dar sentido e conforto ao escuro. Um beijo.
Poderia ser isto uma carta mas não é. É um manifesto, simples e pouco elaborado num dia triste, nem sei bem porquê, num dia em que me fazia falta falar um pouco com ele, nem sei bem porquê. Se calhar, continuo a esperar novas sugestões para novas insónias. Se calhar, quando emergimos crianças dos medos de sempre e vimos à tona da água respirar, gostamos de ouvir ruídos familiares no silêncio das nossas noites tão escuras, ruídos que possam dar sentido e conforto ao escuro. Um beijo.
07/09/09
"-Pai, quem é que escolhe vir trabalhar para uma cabine de portagem?
-Quem não tem muitas mais alternativas, filho. Por isso é bom que procures estudar. Assim, terás mais possibilidades de escolha (ilusão...). Se o teu sonho continuar a ser, ainda assim, trabalhar numa portagem ou algo semelhante, podes escolher...
-E tu, pai, qual é o teu sonho?
- ... ...
-Pai... estás a chorar?
-Não mas não te consigo responder agora... "
-Quem não tem muitas mais alternativas, filho. Por isso é bom que procures estudar. Assim, terás mais possibilidades de escolha (ilusão...). Se o teu sonho continuar a ser, ainda assim, trabalhar numa portagem ou algo semelhante, podes escolher...
-E tu, pai, qual é o teu sonho?
- ... ...
-Pai... estás a chorar?
-Não mas não te consigo responder agora... "
Das certezas doutrinárias sobre o futuro, dos conselhos politica e socialmente correctos com honesta sensatez misturados, eventualmente, à impossibilidade de responder a algo que, para alguém com oito anos de vida, pareceria estar definido... Este é, aliás, um eco do diálogo semelhante, mantido, há um tempo atrás, com outro dos meus filhos, então com uma idade próxima desta.
Acho que eles sabem qual é o meu sonho, da mesma forma que eu sempre soube qual era o dos meus pais. Pelo menos soube que, para além de procurarem ser felizes connosco, os filhos, sem destilar a sua frustração, havia algo mais. Talvez, no fundo, estes meu filhos me conheçam melhor do que eu esperaria e saibam ler-me no rosto o sonho por cumprir, camuflado de responsabilidade e de outras coisas imprescindíveis no mundo dos adultos, seja lá isso o que for.
Seremos sempre livros abertos para quem nos ama, felizmente, ainda que sejamos tantas vezes histórias incompletas, incertezas, confianças, espantos, admirações. Ficarão sempre os afectos a ligar-nos, a fazer-nos sorrir, a derramar cores de arco-íris, lado a lado com o negro das das palavras, tudo sobre o branco das nossas páginas.
Acho que eles sabem qual é o meu sonho, da mesma forma que eu sempre soube qual era o dos meus pais. Pelo menos soube que, para além de procurarem ser felizes connosco, os filhos, sem destilar a sua frustração, havia algo mais. Talvez, no fundo, estes meu filhos me conheçam melhor do que eu esperaria e saibam ler-me no rosto o sonho por cumprir, camuflado de responsabilidade e de outras coisas imprescindíveis no mundo dos adultos, seja lá isso o que for.
Seremos sempre livros abertos para quem nos ama, felizmente, ainda que sejamos tantas vezes histórias incompletas, incertezas, confianças, espantos, admirações. Ficarão sempre os afectos a ligar-nos, a fazer-nos sorrir, a derramar cores de arco-íris, lado a lado com o negro das das palavras, tudo sobre o branco das nossas páginas.
24/08/09
"De pedra fiz meus sapatos,
De fogo fiz um chapéu.
Ao chão fiquei sempre preso,
Ardi e fui para o céu."
"Nasceu para ser submisso,
De fogo fiz um chapéu.
Ao chão fiquei sempre preso,
Ardi e fui para o céu."
Declamou, com um forçado esgar de alegria e leveza pueris, esta quadra. Era a festa de final de ano. Era a sua segunda classe. E chorou por ter declamado uma quadra que não fazia sentido para ele. Nem para ele, nem para ninguém. E chorou porque a professora lhe disse que era bonita, a quadra, e que era de um poeta conhecido por escrever poesias para crianças. E chorou porque a mãe lhe disse que era lindíssima, a quadra, e que ela estaria orgulhosa dele por ser capaz de reproduzir aqueles versos habilmente justapostos. E, com as suas sete sílabazitas métricas, certinhas no versejar, se ditou uma sentença de morte, um túmulo feito em raízes, um sonho dilacerado pelas chamas benfazejas que libertam e levam à glória.
Na seu túmulo, uma fotografia amarelada ou sépia, ovalada. Por baixo, uma quadra que alguém achou adequada. Choraria, se a lesse, por ser verdade. Reza assim:
"Nasceu para ser submisso,
Nunca sonhou voar,
Cumpriu-se pacatamente:
Descanse em paz neste lar."
23/08/09
De tanto falar, de tanto escrever, tornou-se prolixo. Deixaram de o ouvir, deixaram de o ler. De tanto falar passou a conhecer a solidão. E a solidão tomou conta dele, como o calor do estio. E secou-lhe a alma, como seca o sol os campos. Encostou-se à parede branca e deixou-se consumir pelo silêncio, pela indiferença de quem perdeu a paciência para tanta palavra, com e sem sentido. De tanto falar sentiu a dormência dos membros, dos lábios e a sua voz passou a ser-lhe estranha. E a solidão tomou conta de tudo, dele também, como o sol que os campos secou, sem remorso algum. E dias virão em que se lembrarão dele, em que pedirão que fale, em que as suas palavras poderão fazer sentido e não ficarão já acumuladas, num monte de restos de mobílias e paredes de casa velhos à espera de remoção.
De tanto falar e escrever, as palavras cansaram-no e ele abandonou-as, perdeu a esperança nelas e tornou-se eremita dos significados, surdo e cego aos significantes. Secou nele as palavras e transformou-as em pedra, aprisionadas na sua existência, despidas de justificação.
E assim vive hoje, só, sem mãos que escrevam, sem voz ou lábios que falem, num voluntário estado de coma verbal. Requiem precoce, vida em suspenso.
09/08/09
momento de auto-terapia de pacotilha...
Há uns anos atrás, não muitos, pensava chegar à idade que tenho hoje com toda a calma do mundo. Cumpriria quarenta anos, lá para o Natal, e estaria a viver uma realidade não muito bem planeada mas conseguida e tranquila, fundada sobretudo nos afectos, com um percurso que me permitisse pensar, na hora de partir, que se lembrariam de mim mais pelo que fui do que pelos objectivos atingidos profissional ou socialmente.
Não podendo hoje queixar-me, sobretudo porque tenho à minha volta pessoas que gostam incondicionalmente de mim, sinto uma necessidade de sair daqui, de fazer diferente, de me embrenhar em outras culturas, em outros espaços, de voar para longe com a família e aterrar num sítio onde vivessemos com mais simplicidade, com menos necessidades artificiais, a nossa utopia, o nosso desafio. Estou cansado de viver sufocado pelo conhecido, pelo previsível, pelas rotinas, pelas expectáveis quebras das rotinas... Em tempo de férias e de Verão, fica bem falar das contingências da 'silly season'. Será este então o meu 'silly post', a minha 'silly adolescência retardada ou o advento pouco auspicioso de uma previsível 'crise de meia idade' ou o suave milagre da chegada da andropausa, envolta em neblina pouco esclarecedora...
Apetece-me terminar com o gasto pensamento de que a vida é mesmo muito curta, demasiado curta para os desperdícios da autocomiseração, da inércia e dos falsos aconchegos. Se calhar Freud, Jung ou qualquer outro mestre na arte da revelação das almas em câmara escura explicariam isto: sempre fui pouco aventureiro, segui sempre o vento dominante, o curso do tempo e a minha disponibilidade quase automática para ir respondendo às solicitações e às dificuldades, não tanto aos grandes sonhos. Agora, com a fidelidade dos comprimidos para a hipertensão e as experiências episódicas, pontuais e clinicamente controladas de ansiolíticos e anti-depressivos, por esta ordem, fui, como me disse a minha mulher com um sorriso terrivelmente cúmplice, possuido por uma alma cigana e anseio por um qualquer 'mudar as raízes de sítio'... Se calhar, bem vistas as coisas e porque via ontem um documentário sobre os quarenta anos de Woodstock, realidade que quase sempre me passou quase ao lado, pensava se não andaremos a queimar algo mais do que combustíveis fósseis e o fumo chegou até aqui?
Não me parece...
01/08/09
Relapso e ingrato para com este espaço, no qual venho, de vez em quando, falar sozinho e com alguns amigos que, na quase totalidade, não conheço pessoalmente, assinalo discretamente o facto de ter aberto 'hostilidades' no dia 27 de Julho de 2006. Vai durando, pela preguiçosa cadência dos textos, pela necessidade de alimentar o meu indisfarçável narcisismo e pelo respeito por aqueles que, generosos, continuam a passar por aqui, tolerando estes exercícios pretensiosos.
Um dia, juntar-nos-emos pessoalmente, espero eu. Para já, com o dramatismo excessivo tantas vezes gravado nas letras que insisto em juntar, (e como tantas vezes se diz nos filmes) teremos sempre estes lugares, escalas nas viagens, momentos em que nos vamos ocultando e dando a conhecer. Fiel ao que escrevia há três anos atrás, teremos sempre as palavras.
Um dia, juntar-nos-emos pessoalmente, espero eu. Para já, com o dramatismo excessivo tantas vezes gravado nas letras que insisto em juntar, (e como tantas vezes se diz nos filmes) teremos sempre estes lugares, escalas nas viagens, momentos em que nos vamos ocultando e dando a conhecer. Fiel ao que escrevia há três anos atrás, teremos sempre as palavras.
28/07/09
Arde o mundo e aos nossos pés cai o ar que respiramos.
Fugimos todos como se tentássemos parar o tempo, e em breve, saberemos até onde chegámos e o que conseguimos fazer nesta porção de vida. Pouco terá sido, esperemos que tenha sido o essencial, além das coisas pequenas que nos prendem ao pior do mundo que arde, tempo consumido, fogueira de rotinas inúteis.
Cansado.
Fugimos todos como se tentássemos parar o tempo, e em breve, saberemos até onde chegámos e o que conseguimos fazer nesta porção de vida. Pouco terá sido, esperemos que tenha sido o essencial, além das coisas pequenas que nos prendem ao pior do mundo que arde, tempo consumido, fogueira de rotinas inúteis.
Cansado.
19/07/09
Teremos sempre um pouco de medo do desconhecido, da ruptura, do malogro de um plano não necessariamente bom mas que nos segreda ao ouvido a segurança da estabilidade. Teremos sempre ao longe o horizonte e poderemos morrer felizes sem nunca termos tentado lá chegar. Poderemos tentar tocar o intangível, sempre, ainda que seja porque isso nos traz reconhecimento, prestígio ou, na pior das hipóteses, o tal déjà vu de um plano de vida perfeito. Podemos sempre olhar o horizonte, horas a fio, apenas porque ele está ali, feito para ser contemplado, nesse acto inútil de carinho que é olhar para as coisas e fundirmo-nos nelas.
Hoje olhei o horizonte, e as suas cores, numa planície seca, de árida beleza, indescritível. E senti um sopro de esperança. Hoje ouvi falar de vidas que se entrecruzam e de gente que se ama e o diz antes que seja tarde demais, tudo isto enquanto eu olhava o horizonte.
Teremos sempre as palavras que dissermos a lembrar-nos que somos mais do que os planos que fazemos, e muito mais do que os objectivos que gravamos no nosso mapa. Talvez o amor, ao entardecer, nos tenha salvo e nos possa ir redimindo.
24/05/09
Gosto de começar muitas destas pequenas tentativas de textos por "Um dia..." Se calhar encarna a minha frustração pelo que ainda não é, mais do que a esperança no que está por vir. Pouco importa, não é? Um dia sentirei menos a gravidade, o seu peso, a forma como encurta a distância entre o céu e a terra, como os fará inexoravelmente colidir. E tudo isto me faz ter vontade de correr para um mar em tons de azul e chumbo e mergulhar, enquanto a chuva cai torrencialmente, água sobre água, ficar por lá. Atrás de mim, todo o mundo, sem que isso importe.
Quando me olho e vejo o que sou no dia-a-dia, nunca sei se tema se agradeça. Estreita é a fronteira entre a sanidade e a loucura, seja lá isso o que for, e todos os dias essa fronteira muda, se dissolve, se materializa em outros sítios, formas, contextos. Penso nisto quando vejo as marcas que as ondas deixam na areia antes de recuar, depois de terem percorrido a sua viagem final. Fica aquela linha, irregular que podemos seguir com o olhar ou com os nossos passos. Logo vem outra e outra e outra. Será sempre assim. Lugar comum? Claro, como tantos outros que aqui deixo. Paciência. Fica sempre a dúvida: entre a melancolia mais funda e dolorosa e a euforia mais exuberante e excêntrica, tem de haver uma postura séria de adulto maduro, previsível? Talvez. Talvez um dia cheguemos a uma praia qualquer, à nossa praia, caminhemos descalços na areia ainda húmida da noite. Sentar-nos-emos a observar esse lugar onde as ondas têm a sua petite mort e, se o que virmos forem marcas de linhas rectas, correctas na sua intenção e geometria, nesse dia tentarei voar, só ainda não faço ideia como. Um dia, mais uma vez, um dia saberei isto tudo, ou talvez não.
Quando me olho e vejo o que sou no dia-a-dia, nunca sei se tema se agradeça. Estreita é a fronteira entre a sanidade e a loucura, seja lá isso o que for, e todos os dias essa fronteira muda, se dissolve, se materializa em outros sítios, formas, contextos. Penso nisto quando vejo as marcas que as ondas deixam na areia antes de recuar, depois de terem percorrido a sua viagem final. Fica aquela linha, irregular que podemos seguir com o olhar ou com os nossos passos. Logo vem outra e outra e outra. Será sempre assim. Lugar comum? Claro, como tantos outros que aqui deixo. Paciência. Fica sempre a dúvida: entre a melancolia mais funda e dolorosa e a euforia mais exuberante e excêntrica, tem de haver uma postura séria de adulto maduro, previsível? Talvez. Talvez um dia cheguemos a uma praia qualquer, à nossa praia, caminhemos descalços na areia ainda húmida da noite. Sentar-nos-emos a observar esse lugar onde as ondas têm a sua petite mort e, se o que virmos forem marcas de linhas rectas, correctas na sua intenção e geometria, nesse dia tentarei voar, só ainda não faço ideia como. Um dia, mais uma vez, um dia saberei isto tudo, ou talvez não.
03/04/09
Por onde anda o nosso coração quando tudo se confunde?
Que faremos quando se ressuscita menos do que se morre e que diremos, frente ao espelho, ao nosso olhar impenitente, à nossa vontade de desistir?
Que palavras escolheremos para dizer no nosso último sopro de vida, ou de que silêncio faremos nós palavras?
Por onde vagueia o nosso coração intranquilo?
Escreveremos vagarosa e indignamente o nosso obituário, letra a letra, dia após dia.
Que faremos quando se ressuscita menos do que se morre e que diremos, frente ao espelho, ao nosso olhar impenitente, à nossa vontade de desistir?
Que palavras escolheremos para dizer no nosso último sopro de vida, ou de que silêncio faremos nós palavras?
Por onde vagueia o nosso coração intranquilo?
Escreveremos vagarosa e indignamente o nosso obituário, letra a letra, dia após dia.
29/03/09
Faltam-me as palavras todas, as palavras para tudo. Sinto-me vazio e dói-me esta luz intensa. Chegará o Verão e, com ele, a obrigação de sentir a felicidade da luz e da pele afagada pelo ar tépido e pelo suor. Chegará o Verão e, com ele, direi, hipocritamente, que lhe sentia a falta e ficarei por ali a fazer conversas de Verão. E seremos todos um pouco mais felizes porque chegou um Verão mais, com a sua luz intensa que regenera.
13/03/09
Passava, hoje, ao fim da tarde, a hora de pôr-de-sol, a ponte Vasco da Gama, rumo ao Sul. E a espessa neblina acumulada por sobre a água que não se via, formava um campo de três ou mil tonalidades indescritíveis, sobre o qual apetecia correr até cair esgotado e sentir-se redimido, imune aos perigos, atirado nos braços de um pai que nos segura sempre. Apeteceu-me correr por ali.
A vida é curta demais para que percamos estes momentos.
"Talvez um dia possamos mesmo correr por ali", segredou-me alguém ternamente ao ouvido ao fim do dia. Agradeço, ternamente. É a espera que me atormenta, é o procurar em cada dia o pequeno momento de glória em que atingimos o objectivo, cumprimos o horário, fomos sérios, politicamente correctos. A vida é curta demais para esperas. "Quem espera, sempre alcança" e morre a seguir. Não seremos ingloriamente mortais. A vida é curta demais para que percamos o irrepetível.
A vida é curta demais para que percamos estes momentos.
"Talvez um dia possamos mesmo correr por ali", segredou-me alguém ternamente ao ouvido ao fim do dia. Agradeço, ternamente. É a espera que me atormenta, é o procurar em cada dia o pequeno momento de glória em que atingimos o objectivo, cumprimos o horário, fomos sérios, politicamente correctos. A vida é curta demais para esperas. "Quem espera, sempre alcança" e morre a seguir. Não seremos ingloriamente mortais. A vida é curta demais para que percamos o irrepetível.
02/01/09
road movie 2
Saiu pela porta, o café bebido. Lera-lhe nos olhos um 'tenho medo de morrer sozinho.'
Ambos perceberam que terá sido ali que ele a amou pela primeira vez, ou se deu conta disso, naquele fechar de portas, a da casa e a do carro.
O café, que deveria ter sabido a um veneno qualquer, foi chuva na sua terra árida de há muito.
O motor do carro, a dilacerar a solidão futura, lembrou-lhe que o futuro era já e não lhe pertencia. Por aquela estrada seguia a confirmação de que nem os gatos vivem o número de vezes que deles se diz.
Afastou-se, embriagada pela tinta com que podia finalmente escrever no branco de algumas das suas páginas. Seguiu sem destino certo, o clássico de quem tem uma ideia daquilo que o faz fugir e pouco mais do que isso. Adormeceria talvez mais confortada pela suposta coragem mas descobriria, na manhã seguinte, que tinha havido Pai Natal, com presentes e tudo, mas o mundo não se reinventara apenas por isso, tal como um brinquedo não mata a fome a uma criança faminta. Da tampestade à bonança, da bonança ao vazio. Teria ainda de fazer muito caminho, literalmente. Ganharia uma vida, mas à força de distância percorrida, de ver àrvores e postes a passar ao lado, na voragem de revelar ao novo ano um admirável mundo não tão novo assim.
De costas para a porta que se fechara, acendeu mais um dos muitos cigarros que ainda fumaria. Ficaria por ali mais uns anos, passar-lhe-iam umas mulheres sombrias pelo quarto e pelo corpo, mais rotina que prazer, mais reflexo que conforto. Beberia bastante, até se deixar consumir nos braços de todo o tempo perdido, sem lucidez nem remorsos. Encontrá-lo-iam um dia deitado e cobri-lo-iam de terra e da dignidade do esquecimento.
E na estrada percorrida se cumpririam aniversários, muitos mais depois do fechar das duas portas e do café envenenado que soube à água da chuva torrencial que tudo lava.
"Nem tudo será Inverno, nem Verão, nem Primavera, nem Outono." Consta que estaria escrito, com o carvão de um resto de torrada, ao lado de um pequeno copo de bagaço no qual nem teria já tocado. Consta muita coisa quando nada se sabe. No seu último sonho teria escrito, a tinta vermelha, numa folha alvíssima: "Quando percebi que eras o pássaro dourado que procurei a vida toda, resisti a que te deixasses aprisionar. Ganhei com isso o único tempo de paz. Voa." E seria previsível, de gosto duvidoso, final de novela barata. Pois que fosse. A terra por cima guardaria tudo no seu sortilégio, até sonhos improváveis, testamentos invalidáveis e vidas em vão.
01/01/09
road movie 1
O que te levou a pensar que havia algo de novo por aqui? O Novo a seguir ao Ano? Não desperdices o teu tempo. Saberás sempre tarde demais que regressar aqui é perda de tempo e que voltar a casa, a esta que nunca foi tua, nunca será renovar o que quer que seja. Regressar será teres sempre na cabeça a mesma música viciada, a mesma humidade nas paredes perto do fogão, o mesmo calor na cama desconfortável e demasiado usada. Por isso, entra, bebe um café ou um chá quente que te conforte para o resto da viagem que terás de fazer. Não te iludas com a chama da lareira nem com a penumbra lânguida que vês ao fundo. Não te sintas tentada a iludir o teu corpo com o cansaço e com a necessidade de parar para retemperar forças. Feliz Ano Novo, tenho café acabado de fazer. Senta-te uns minutos e volta à estrada. Em breve a lareira terá apenas cinza, fumo. Na cama dormirá alguém que te levará a pensar, dentro de uns anos, que o desejo é uma coisa estranha. Será alguém que nunca te respeitou a não ser hoje. Aproveita. Não costuma haver presentes de Ano Novo e o teu valerá o resto da tua vida.
30/12/08
Finais de dia com sabor a fim VI
Saíu da cama, sentiu que era tarde demais. Abriu a janela e sentiu o frio cortante. Vestiu-se à pressa e saltou. Correu toda a noite pela cidade. Buscou-a por todos os recantos, seguiu-lhe o cheiro, o riso, a fala, a cor das roupas. Correu até ser dia, até não sentir-se mais. Adormecera no momento errado e dormira em excesso. Restava-lhe agora o sonhar acordado e o dar de beber à dor de uma insónia sem fim.
28/12/08
podia ser uma carta... gostava que fosse
"Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)
Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.
Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Partiu o meu avô materno pouco menos de duas semanas antes do Natal de 1997.
"Lembro-me, avô, de que, tão direito quanto possível, entrou pelo seu pé no hospital de onde não voltou a sair, com a sua pequena mala e a também sua pouca esperança na possibilidade de adiar a grande viagem, que pressentia com resignação. Falámos muitas vezes, outras tantas discutimos, em algumas ocasiões desabridamente, como dois adolescentes inseguros. Reconstruímos sempre o caminho pedregoso que nos permitia fazer ao menos a metade que, nem que fosse teoricamente competia a cada um, de igual para igual. Estou convencido disso.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Ainda assim, no limite das suas forças, recordo a forma enternecedora como se despediu da nossa primeira filha que nasceria em Abril com um firme 'já não a vejo mas cuidem bem dela'. Tentou, como sempre, esconder a emoção e a lucidez de que seria o último adeus.
Encontrámo-nos logo nessa noite, quando, já
de viagem, cruzou o meu sonho, onde eu já o aguardava. E estivemos por alguns momentos, os necessários para que ficasse clara a natureza da visita, na praia do Monte Clérigo, do lado certo das 'Margaridas' e, vigilante, observava a forma como eu, para aí com uns sete ou oito anos, saltava destemido e dominador as ondas, seguindo as normas, bom aprendiz.
E, com os seus calções azuis escuros e o seu cabelo branco a começar a aparecer e a cobrir-lhea cabeça e o corpo como a espuma de uma qualquer maré, as mãos atrás das costas, despedimo-nos. Acordei a meio da noite, com os olhos rasos de lágrimas ou de toda aquela água salgada e, pela manhã, nada foi surpresa.
Também o tenho ido fundindo no meu pai, quer pelo que foram um para o outro, quer porque necessito de todos, os que cá estão e os que já não posso abraçar fisicamente, cada vez mais perto. A sua partida não me deixou mágoa. E tenho acordado, ao longo destes anos, com a memória de sonhos reconfortantes mas estranhos, porque quase do dia-a-dia, nos quais falamos, ou porque chego a casa e estão lá os dois, e me desabafa os mais recentes caprichos da avó ou porque eu ou nós vos fomos visitar e ficamos a conversar um bocadinho neste mesmo sítio em que agora escrevo e onde tanta coisa de bom se passa cá em casa. "Tens a certeza que não queres comer nada?" "Tenho... acha que eu só penso em comer?" "Pronto, já estás a desconversar, não tens remédio!"
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."
(a foto foi tirada por mim em fevereiro de 2008. o sonho descrito decorreu exactamente ali, naquele cenário e não em outro qualquer, parecido. as rochas estavam, como em muitos outras alturas, muito menos cobertas de areia: detalhes...)
25/12/08
É dia de Natal. Apesar de tudo, é dia de Natal. Apesar da lareira apagada, da manta húmida por sobre os joelhos a fingir o calor, a simular um conforto feito de nada. Ficou para trás o naco de pão e a malga com o caldo enregelado. Vem-lhe à memória a abundância de que ouvira falar na catequese, no banco duro da escola: o ouro, o incenso e a mirra. Se deram valor àquilo, é porque já teriam comida, mesmo que fosse apenas o leite da vaca ou da burra, ou de alguma cabra ou ovelha que tivesse vindo mirar o menino nascido no meio das bestas e do seu calor, e do seu cheiro, com o enlevo e a devoção possíveis a uma cabra ou a uma ovelha. Lembra-se depois de outra coisa que o Menino prometeu mas... ensinaram-lhe que tinha sido na Páscoa. Era igual, palavra de Deus, Homem ou Menino, não tem época nem tempo propícios, como a fruta, como as tangerinas no pino do Inverno frio. "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso." Sabe-lhe a redenção, esta frase. Ecoa-lhe como 'glória a Deus' sob o brilho prenhe de vida da estrela que trouxe ouro e insenso e tudo o resto. Amanhã, acordará, talvez no paraíso, com uma estrela que guiará até si gente vinda de todas as partes a dar-lhe coisas, um beijo que seja, um abraço. E, Páscoa ou Natal, terá sido tudo o mesmo porque a vida e a morte correm lado-a-lado, como dois companheiros de escola, no recreio, com as mãos a cheirar a casca de tangerina.
23/12/08
não é bem uma carta...
Nunca te perguntei certas coisas. Nem sei mesmo se o farei agora, não te quero magoar. Seria sempre de forma não intencional mas, ainda assim, não quero correr o risco. Já é suficientemente penosa a ideia de que, em breve, mais depressa do que todos pensamos, estaremos todos, de uma forma ou de outra, impedidos de nos abraçarmos e de dizermos quão importantes fomos uns para os outros. Por isso, não te quero perguntar por que razão te fechavas no quarto e, pela mesma fresta que me deixava entrever a hera do lado de lá da janela, no jardim do vizinho, te via com uma almofada por sobre a cabeça, o corpo de bruços, prostrado. Não te pergunto também porque, fechada a porta, gemias e gritavas contra uma qualquer dilacerante dor que nunca soube ser do corpo ou da alma mas tão funda era que ainda hoje me dói o ter que esperar que passasse e não perceber a assumida impotência para te libertar.
Sabes que não te pergunto as razões de tudo isso, se é que as conheceste alguma vez, porque também eu já me abriguei debaixo de uma almofada parecida e, de bruços sobre a cama, já gritei do mais fundo de mim sem saber se era do corpo, da alma ou de ambos o que me rasgava a vida, ali. E também eu já li nos olhos dos que me espreitam pela fresta da porta essa mesma impotência, essa espera que para sempre dialogará connosco. Também tu tiveste a tua fresta por onde espreitar e será esse o nosso cordão umbilical, aquele que, se calhar, nunca cortaremos.
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...
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