Tens sentido vontade de te atirar contra as paredes da tua impaciência, da tua impotência e de outras coisas terminadas em ciência que se foram edificando, solenes, à tua volta, não é? Tens sentido que às vezes te escorre difusa pelas veias uma dor de metal pesado que não consegues eliminar, que se acumula e te faz sentir que o chão é céu, é inferno mas repouso também?
"Sentes-te viva?", perguntar-te-iam no guião previsível daquelas vidas extraídas a frio de um molde feito para te sentires feliz. Responderias que sim e partirias o molde com raiva. E que forma terias então?
Vou pôr em palavras, as minhas, aquilo que me parece ser a tua angústia. Aceitas? Sorris. Vou tentar então. Deixa-me alimentar a minha fantasia de taumaturgo e adormece enquanto vou convocando palavras, as minhas, como se tuas fossem:
"Esqueceste-te de ti e, nesse esquecimento, encontraste o teu espaço de conforto, a tua nuvem, o teu tapete voador, a tua armadura, um reduto dramático de sobrevivência. Matas a dor que te consome a golpes de esquecimento. Acho inteligente, digo-o sem condescendência alguma. Talvez preferisses rumar a casa, ao jardim onde brincavas quando o mundo era tudo menos tu e quando a realidade não te fazia pensar em que unidade de medida se traduz o peso do teu universo ou a perversidade da sua deterioração. Não sabes quando tudo começou, quando encontraste as primeiras fendas na barragem, mas tens uma ideia limpa e digna de como pode acabar. Queres ajuda mas eu não consigo oferecer-te mais do que a minha passividade. Terás de desculpar embora possas chamar-me cobarde: aceito. Vou sugerir-te aquilo que, pretensiosa e sentenciosamente classificaria como uma metodologia: poderás começar por esquecer-me. Treina. Podes, depois, ir esquecendo tudo o resto e, no final, quando quiseres desligar a luz e abraçar o que quer que seja que nasce da luz apagada, poderás olhar-me nos olhos e sentirás o meu respeito, a minha homenagem e o mais que quiseres, se ainda tiveres a noção do que as coisas são e em que língua são nomeadas. Se tudo tiver corrido como previsto, não saberás quem sou eu, nem por que razão te olho mas, garanto-te, estaremos ambos ali, onde tudo acontece sem despedidas. O resto interessará muito pouco, quase tão pouco como tantas outras coisas que nunca saberemos, muito menos do que o bem ou o mal. "Destas e de outras coisas se faz a alma", disseste-me um dia, quando as palavras ainda te habitavam. Talvez o venha a esquecer, um dia.