Hoje, num domingo de outubro, foi cremada a minha amiga Lena.
Era Helena, ela, e era minha amiga de muitos anos, sem o dizermos todos os dias, sem nos vermos com a desejada regularidade. Se quantificarmos ou qualificarmos ou algo assim, era mais amiga, a Lena, de algumas pessoas do que de mim próprio e menos de outros. não me importa mais do que o suficiente para o ter mencionado. Gostava dela mais do que o suficiente para ter a certeza de que gostaria de me cruzar mais vezes com ela e rir. Mas não nos cruzaremos mais por aqui, nem nos acenaremos quando nos cruzarmos nos carros depois de levar os filhos à escola.
Hoje, chorou muita gente perto daquele corpo sem vida da minha amiga Helena. Eu não chorei porque não me apeteceu chorar ao pé de alguém tão bonito. Estava bonita e em paz, a minha amiga. Se tivesse feito algo, talvez fosse um sorriso ou um passar da minha mão pelo rosto mas estava muita gente perto da Lena e fica para agora, aqui, esse carinho. Estava também aquele que partilhou a vida com ela e que levava sobre os ombros os dois filhos que ficaram a pensar se virá aí uma longa noite sem mãe. Estava incrédulo, o marido da Lena, embora já o tivesse previsto.
Estou farto de que vão sendo cremadas e enterradas pessoas, gente no prólogo da vida.
Outra Lena, Helena, a minha afilhada que adormeceu muitas vezes no meu colo, enquanto eu estudava coisas de literatura e afins, e que se apaixonou, aos três anos, por um primo meu com mais de um metro e noventa de altura, receando que ele crescesse demasiado até à altura do casamento, não cabendo então na igreja, foi enterrada há tempo, numa tarde estranha. Disse-se então que descansaria em paz entre os esplendores da luz perpétua e outras coisas que se deduz serem audíveis por Deus. Por sobre o túmulo, e por sobre o sofrido corpo da Lena, de rosto doce, foram cravados, sucedândeo de eternidade, dois obituários em litígio, estandartes de uma guerra velha de família que tantas vezes a deve ter feito pensar em como gostaria de se esconder, nem que fosse ali, no conforto da terra. era uma pessoa de paz, esta minha afilhada Helena.
Anda a morrer gente demais cedo demais e eu lavro aqui o meu ridículo protesto.
Antes já tinha partido o João mas agora perdi a vontade de continuar a juntar mais duas letras que sejam. Chega por hoje.
24/10/10
20/10/10
A agitação do mundo à minha volta, as obrigações, aquilo que fará de mim um homem responsável que, de acordo com os cânones, leva as moedinhas para casa, nada disso me entusiasma. Sinto que há algum desprezo na forma como se pode ver de fora alguém que vai ameaçando cortar alguns dos fios que me fazem social e politicamente correcto. Não me apetece ser o diferente, aquele que rejeita o mundo e foge para um qualquer eremitério. Gosto do mundo, do que ele poderia ser. Detesto esta sua fase febril, esta grande mentira global que vai pingando, aqui e ali, duce chuva ácida anunciando uma monção.
Está forte o sol, lá fora. Há muito tempo que não me sentia tão bem envolvido nestas cores da manhã. Anseio um pouco pelo outono e pela melancolia que ele arrasta.
E volto aqui, aos papéis do trabalho ou a um trabalho de papéis estéreis como se voluntariamente pusesse as grilhetas e sorrisse de contentamento porque tudo é o que tem de ser.
E passo por aqui, como quem fala consigo próprio, com um amigo. E nada mais se espera do que um 'Deixa lá, acontece a todos o sentir-se assim.' E pode acontecer, palavras amigas, pode acontecer a todos.
E passei aqui, como quem toma um comprimido que alivie a dor para o resto do dia. Seja. Poderia ser pior.
Em breve estarei a sorrir, a fazer umas piadinhas e a mostrar que sou um tipo meio despistado que vai fazendo as coisas e que... e que...
muito obrigado a x e p que me chamaram a estas lides de falar aqui, assim, valha isto o que valer.
Está forte o sol, lá fora. Há muito tempo que não me sentia tão bem envolvido nestas cores da manhã. Anseio um pouco pelo outono e pela melancolia que ele arrasta.
E volto aqui, aos papéis do trabalho ou a um trabalho de papéis estéreis como se voluntariamente pusesse as grilhetas e sorrisse de contentamento porque tudo é o que tem de ser.
E passo por aqui, como quem fala consigo próprio, com um amigo. E nada mais se espera do que um 'Deixa lá, acontece a todos o sentir-se assim.' E pode acontecer, palavras amigas, pode acontecer a todos.
E passei aqui, como quem toma um comprimido que alivie a dor para o resto do dia. Seja. Poderia ser pior.
Em breve estarei a sorrir, a fazer umas piadinhas e a mostrar que sou um tipo meio despistado que vai fazendo as coisas e que... e que...
muito obrigado a x e p que me chamaram a estas lides de falar aqui, assim, valha isto o que valer.
18/10/10
pausa nas palavras... síntese de intervenção 1
E um pobre vive exactamente como os detentores do dinheiro esperam que viva um pobre. Com pouco dinheiro, à beira do abismo, com a humilhação feita arma de amolecer corações e com o coração endurecido, com as expectativas levadas ao abismo e calcinadas, chacinadas. Doutor nenhum sabe o que sente um pobre. E cada pobre tem o seu penhor de dignidade de ser diferente de qualquer outro colega pobre. Assim vive um pobre. Assim, ou de outra maneira qualquer, desde que empobreça e seja essa terra fértil na qual os benfeitores generosos deste mundo e de outros poderão ganhar céus e terras semeando a sua caridade em tostões brilhantes que todo, todo o pobre, sem excepção, deve agradecer servilmente, como o ar que lhe entra pelos pulmões sujos e cheios de doenças de pobre. Um pobre tem como janela os olhos, as órbitas dos olhos. Delas vê o mundo à sua frente. Da sua casa imunda e vazia, na sua essência, vê o mundo radioso dos que lhe fazem bem e fuzila a corja de colegas pobres que competem pelas mesmas migalhas redentoras. E fecha as janelas em qualquer lado. Por ali fica, pobre.
palavras...2
-Não acabou o tempo. Apetece-lhe falar da sala?
-Eu não disse isso.
-Disse eu. Pergunto-lhe se lhe apetece falar da sala.
-Nem por isso. Já disse o que queria sobre o assunto.
-Não me parece.
-Então diga o que é que lhe parece que eu quero dizer.
-Parece-me que está muito quezilento comigo. Há dias assim, não é J?
-Não gosto que me chame J.
-Foi você quem me pediu, lembra-se?
-Devem ter sido as vozes que me mandaram, lembra-se?
-Bem, se calhar…
-Acabou o nosso tempo, hoje.
-Não acabou. E como quer que lhe chame?
-Pelo meu nome. Sou um fantoche nas mãos de sabe Deus quem mas tenho um nome, como o Doutor e toda a gente.
-Sim. E eu devo tratá-lo por…
-Sabe muito bem.
-Não, não sei. Já ficou agressivo várias vezes porque não gosta que eu o trate de certa forma.
-Pois…
-E então…
-Júlio… de Matos.
-Tem a certeza?
-Assim toda a gente fica logo a saber.
-O quê?
-Que sou maluco.
-Outra vez…
-São as vozes, Doutor.
-Pois… E o que é um maluco, Júlio de Matos?
-Nunca me tinha insultado… Pelo menos, assim.
-Porque o tratei por Júlio de Matos? Foi você quem pediu, ou estou a inventar?
-Era ironia.
-Então afinal, quer que o trate como?
-Por nada. Por Maluco, sem ironia.
-Não vou tratá-lo assim. Não sei o que é um maluco.
-Claro que sabe. Pode ser por J. Trate-me por Jota, de janela, de javardo, de ‘Já lá vai o tempo em que eu era bom da cabeça’.
-Isto do nome foi apenas para gastarmos o tempo com uma coisa que o J já sabia em que é que ia dar, certo?
-Certo. Porque o que eu quero é falar da sala, certo?
-Eu não disse isso.
-Pois claro que não disse. E eu digo que me vou levantar e que hoje o nosso tempo acabou. Estou farto destas conversas de merda. São tudo tretas. Há dois anos que venho aqui e vejo-o sempre com essa cara de Deus a revelar a porra dos mandamentos. É muito esperto, tão esperto que me fará vomitar a porcaria toda que me atormenta até as vozes deixarem de mandar em mim e tudo. Vai-me sair tudo pela boca, tudo. E vou ficar limpo e livre de tudo o que me faz querer matar e matar e matar e matar. E a minha vida vai deixar de ser uma merda. E eu vou ser feliz, um maluco feliz.
-J, se calhar terminou o nosso tempo, hoje. Já acalmou um pouco depois de ter dito palavrões e de ter embirrado comigo? E isso do ‘matar, matar’… está a falar a sério? Não me parece…
-Claro que não. Como todos os malucos, libertei agressividade e agora atinjo um ponto de equilíbrio.
-Se está convencido disso… Eu nunca disse nem direi isso, até porque, eventualmente, não concordo com nada do que teorizou. Acho que esteve a provocar-me porque lhe apeteceu fazê-lo e eu compreendo.
-Porque é bonzinho.
-Porque compreendo, foi o que eu disse.
-Porque está habituado a aturar maluquinhos. Porque é experiente.
-Terminamos então.
-O maluquinho terminou o tempo de antena.
-Precisa de falar mais alguma coisa que ache ser relevante?
-Precisa de libertar-se de mais alguma merdinha, o maluquinho…
-Precisa?
-Não precisa, não, Senhor Doutor todo-poderoso, Alteza, Marquesa, Realeza Divina. Não precisa de mais nada o maluquinho que pede a Vossa Senhoria se pode subtrair-se da sua fantástica presença.
-Tenha um bom dia, J.
-O J vai ter, com os maluquinhos, amiguinhos que ouvem coisas dos extra-terrestres e de deuses da Atlântida e têm a cabeça a ferver com coisas que o Demónio lhes enfia pelos ouvidos e pelo cu.
-Quer falar sobre a sala…
-Um bom dia e vá à excelsa merda, Senhor Doutor.
-Eu não disse isso.
-Disse eu. Pergunto-lhe se lhe apetece falar da sala.
-Nem por isso. Já disse o que queria sobre o assunto.
-Não me parece.
-Então diga o que é que lhe parece que eu quero dizer.
-Parece-me que está muito quezilento comigo. Há dias assim, não é J?
-Não gosto que me chame J.
-Foi você quem me pediu, lembra-se?
-Devem ter sido as vozes que me mandaram, lembra-se?
-Bem, se calhar…
-Acabou o nosso tempo, hoje.
-Não acabou. E como quer que lhe chame?
-Pelo meu nome. Sou um fantoche nas mãos de sabe Deus quem mas tenho um nome, como o Doutor e toda a gente.
-Sim. E eu devo tratá-lo por…
-Sabe muito bem.
-Não, não sei. Já ficou agressivo várias vezes porque não gosta que eu o trate de certa forma.
-Pois…
-E então…
-Júlio… de Matos.
-Tem a certeza?
-Assim toda a gente fica logo a saber.
-O quê?
-Que sou maluco.
-Outra vez…
-São as vozes, Doutor.
-Pois… E o que é um maluco, Júlio de Matos?
-Nunca me tinha insultado… Pelo menos, assim.
-Porque o tratei por Júlio de Matos? Foi você quem pediu, ou estou a inventar?
-Era ironia.
-Então afinal, quer que o trate como?
-Por nada. Por Maluco, sem ironia.
-Não vou tratá-lo assim. Não sei o que é um maluco.
-Claro que sabe. Pode ser por J. Trate-me por Jota, de janela, de javardo, de ‘Já lá vai o tempo em que eu era bom da cabeça’.
-Isto do nome foi apenas para gastarmos o tempo com uma coisa que o J já sabia em que é que ia dar, certo?
-Certo. Porque o que eu quero é falar da sala, certo?
-Eu não disse isso.
-Pois claro que não disse. E eu digo que me vou levantar e que hoje o nosso tempo acabou. Estou farto destas conversas de merda. São tudo tretas. Há dois anos que venho aqui e vejo-o sempre com essa cara de Deus a revelar a porra dos mandamentos. É muito esperto, tão esperto que me fará vomitar a porcaria toda que me atormenta até as vozes deixarem de mandar em mim e tudo. Vai-me sair tudo pela boca, tudo. E vou ficar limpo e livre de tudo o que me faz querer matar e matar e matar e matar. E a minha vida vai deixar de ser uma merda. E eu vou ser feliz, um maluco feliz.
-J, se calhar terminou o nosso tempo, hoje. Já acalmou um pouco depois de ter dito palavrões e de ter embirrado comigo? E isso do ‘matar, matar’… está a falar a sério? Não me parece…
-Claro que não. Como todos os malucos, libertei agressividade e agora atinjo um ponto de equilíbrio.
-Se está convencido disso… Eu nunca disse nem direi isso, até porque, eventualmente, não concordo com nada do que teorizou. Acho que esteve a provocar-me porque lhe apeteceu fazê-lo e eu compreendo.
-Porque é bonzinho.
-Porque compreendo, foi o que eu disse.
-Porque está habituado a aturar maluquinhos. Porque é experiente.
-Terminamos então.
-O maluquinho terminou o tempo de antena.
-Precisa de falar mais alguma coisa que ache ser relevante?
-Precisa de libertar-se de mais alguma merdinha, o maluquinho…
-Precisa?
-Não precisa, não, Senhor Doutor todo-poderoso, Alteza, Marquesa, Realeza Divina. Não precisa de mais nada o maluquinho que pede a Vossa Senhoria se pode subtrair-se da sua fantástica presença.
-Tenha um bom dia, J.
-O J vai ter, com os maluquinhos, amiguinhos que ouvem coisas dos extra-terrestres e de deuses da Atlântida e têm a cabeça a ferver com coisas que o Demónio lhes enfia pelos ouvidos e pelo cu.
-Quer falar sobre a sala…
-Um bom dia e vá à excelsa merda, Senhor Doutor.
palavras infectas e pouco interessantes 1
-Um pobre vive exactamente como os detentores do dinheiro esperam que ele viva, Doutor.
- E quem lhe disse isso?
-Ninguém. Fui eu próprio.
-Pois…
-Li no jornal.
-Bem me parecia…
-Porquê?
-Porque me parece uma frase feita…
-Por qualquer pessoa menos por mim?
-Eu não disse isso.
-Disse.
-Não, não me ouviu dizer isso.
-Ouvi, Doutor. Eu oiço vozes, lembra-se? E ouvi o seu desdém.
-Pois…
-Esse desdém que repetiu agora. Pois… Sou o que sou. Tenho a minha história pessoal contra mim.
-Ninguém lhe disse isso. Foi sempre o J quem o referiu, quem construiu essa história.
-Essa narrativa, não é, Doutor?
-Se quiser.
-E se as vozes me deixarem, não é?
-Eu não disse isso.
-Pois…
-Conseguiu.
-O quê?
-Esta pequena vingança, o ‘Pois…’
-Pois… Estive bem. Devolvi-lhe o ‘Pois…’ Tenho competências dialógicas avançadas, Doutor. Tenho treinado com as vozes…
-Eu não disse isso.
-Nunca diz, Doutor. Eu digo tudo, é isso. E agora vou voltar para a sala onde me esperam os meus amigos malucos, cada um com as suas vozes, os seus comprimidos, o seu vazio pessoal. Diga, Doutor. Diga que acabou o nosso tempo por hoje e mande-me para a penitência. O que devo rezar para expiar os meus pecados?
- E quem lhe disse isso?
-Ninguém. Fui eu próprio.
-Pois…
-Li no jornal.
-Bem me parecia…
-Porquê?
-Porque me parece uma frase feita…
-Por qualquer pessoa menos por mim?
-Eu não disse isso.
-Disse.
-Não, não me ouviu dizer isso.
-Ouvi, Doutor. Eu oiço vozes, lembra-se? E ouvi o seu desdém.
-Pois…
-Esse desdém que repetiu agora. Pois… Sou o que sou. Tenho a minha história pessoal contra mim.
-Ninguém lhe disse isso. Foi sempre o J quem o referiu, quem construiu essa história.
-Essa narrativa, não é, Doutor?
-Se quiser.
-E se as vozes me deixarem, não é?
-Eu não disse isso.
-Pois…
-Conseguiu.
-O quê?
-Esta pequena vingança, o ‘Pois…’
-Pois… Estive bem. Devolvi-lhe o ‘Pois…’ Tenho competências dialógicas avançadas, Doutor. Tenho treinado com as vozes…
-Eu não disse isso.
-Nunca diz, Doutor. Eu digo tudo, é isso. E agora vou voltar para a sala onde me esperam os meus amigos malucos, cada um com as suas vozes, os seus comprimidos, o seu vazio pessoal. Diga, Doutor. Diga que acabou o nosso tempo por hoje e mande-me para a penitência. O que devo rezar para expiar os meus pecados?
11/07/10
De como separar as coisas nem sempre separáveis, como se eu não fosse eu:
"Da minha janela vejo as folhas da laranjeira que o meu avô plantou.
Ao fundo, o telhado da casa do vizinho, sem nenhum encanto especial a não ser o de ser, para o vizinho, um tecto sob o qual tudo se passa quando está em casa, o vizinho. E vejo, sobre a linha que delimita o telhado, o céu. Está azul, hoje, o céu por sobre a casa do vizinho. Ele não o vê por sobre o seu telhado, o vizinho. Eu posso declarar sumariamente que está azul o céu porque o vejo.
Sobre a minha casa está um céu azul. Posso dizê-lo mas não o vejo. E agora, que falo apenas do que vejo, deveria ter-me abstido de descrever o que não vejo porque não posso fundir evidência com profissão de fé.
Sempre que afirmo que está sol em Aljezur porque alguém mo disse, faço uma profissão de fé que, em rigor, não deveria ter feito.
Hoje não farei mais profissões de fé: acredito que há folhas verdes na laranjeira que o meu avô plantou.
Outra coisa seria crer nas flores que talvez possam vir, ou no aroma depurado das laranjas que poderia comer."
"Da minha janela vejo as folhas da laranjeira que o meu avô plantou.
Ao fundo, o telhado da casa do vizinho, sem nenhum encanto especial a não ser o de ser, para o vizinho, um tecto sob o qual tudo se passa quando está em casa, o vizinho. E vejo, sobre a linha que delimita o telhado, o céu. Está azul, hoje, o céu por sobre a casa do vizinho. Ele não o vê por sobre o seu telhado, o vizinho. Eu posso declarar sumariamente que está azul o céu porque o vejo.
Sobre a minha casa está um céu azul. Posso dizê-lo mas não o vejo. E agora, que falo apenas do que vejo, deveria ter-me abstido de descrever o que não vejo porque não posso fundir evidência com profissão de fé.
Sempre que afirmo que está sol em Aljezur porque alguém mo disse, faço uma profissão de fé que, em rigor, não deveria ter feito.
Hoje não farei mais profissões de fé: acredito que há folhas verdes na laranjeira que o meu avô plantou.
Outra coisa seria crer nas flores que talvez possam vir, ou no aroma depurado das laranjas que poderia comer."
05/06/10
Vinha da sombra. Caminhou durante horas daquele lado da colina, por sobre as pedras. A vegetação não era mais do que uma rala palha amarela agarrada à encosta íngreme. Mais uns metros e voltaria ao sol, onde tudo começara, febre, ideia difusa de que tinha de palmilhar o mundo para o poder aprisionar dentro de si. Talvez um dia o corpo o aprisionasse a ele e, então, poderia fechar os olhos, viajar. Do outro lado, o sol anunciava-lhe que chegaria ao final da tarde, castigado pelo peso da sua mochila e pelo calor, com a roupa colada ao corpo e com o sabor do pó do caminho na boca. Sentar-se-ia, prepararia a tenda para a noite, ficaria ali. Talvez fosse aquele o dia no qual o rio que ali correra em tempos, regressaria à vida e invadiria tudo, devorando tudo no seu desejo de possuir a montanha. Talvez até o fizesse pela calada da noite.
E, pela calada da noite, enquanto o mundo rodava, tudo se recompunha e reparava. Era a hora propícia ao labor dos gnomos que trabalham de noite, em contos como os de fadas, para cumprir a tarefa impossível de campeões, príncipes e princesas. Esta não fora a noite do rio devastador, fora a noite de sonhar com a sua imagem, o contorno das suas costas visto a contra-luz, passo após passo, sem surpresas para além do estar vivo. Vencidos mais uns metros, chegaria ao sol. Encontraria um lugar para erguer a sua tenda no meio do vale ermo. Dormiria aí sem saber se viria a água do rio ou não.
Chegara o dia no qual vivia os sonhos e sonhava com a vida, coisas de ciclos que se cumprem, coisas de profecias em romances de cordel, coisas de rotação e translação da Terra e dos Homens que têm certezas como esta de caminhar pelos leitos secos dos rios.
30/05/10
- Pai, o avô L diz que um homem nunca chora...
- E a mim, já me viste chorar?...
- Pai, o avô L diz que um homem nunca chora... Mas eu já o vi chorar...
- Claro, M. Todos choramos, às vezes. Não é uma coisa de homens ou mulheres, de criança ou de adulto.
- Eu sei, já te vi chorar.
- E a mim, já me viste chorar?...
Já viu e verá. Porque, mais ou menos homem, a ferida dói, a perda magoa e as cicatrizes são sempre diferentes do resto da pele. E por elas, leitos esculpidos e pintados no relevo imaculado do corpo e da alma, pode fluir a alegria, o espanto, a cólera, o desespero, o que nos fez humanos.
Compreendo-te, avô L, melhor do que pensas. Tens na garganta uma represa feita dos dias em que a vida te arrancou pedaços e essa chuva ácida te inundou avassaladoramente. E nunca choras porque as lágrimas foram feitas para os fracos, porque levaste, como todos os homens que não choram, uma vida de sobrepor tijolos, de edificar o paredão que estanca essa água que corre. E assim se forjam os fortes, endurecidos por essa acidez que teima em não poder sair, circuito fechado. Talvez.
Compreendo-te, avô L, melhor do que pensas. Tens na garganta uma represa feita dos dias em que a vida te arrancou pedaços e essa chuva ácida te inundou avassaladoramente. E nunca choras porque as lágrimas foram feitas para os fracos, porque levaste, como todos os homens que não choram, uma vida de sobrepor tijolos, de edificar o paredão que estanca essa água que corre. E assim se forjam os fortes, endurecidos por essa acidez que teima em não poder sair, circuito fechado. Talvez.
- Pai, o avô L diz que um homem nunca chora... Mas eu já o vi chorar...
- Claro, M. Todos choramos, às vezes. Não é uma coisa de homens ou mulheres, de criança ou de adulto.
- Eu sei, já te vi chorar.
E percebeu, sem grandes explicações. Falamos muito. De futebol e de flores, das cores do céu e do bramido do mar e dos olhos, com ou sem lágrimas. Porque tudo faz parte da vida, até a morte. E, sobre essa, soubemos cedo o que significa pô-la por palavras em cima da mesa e ir lavando a mesa, com tantas coisas e lágrimas também, como só os fortes fazem, mesmo que sejam homens.
29/05/10
Disseste que te ias embora, que te despedias porque hoje era hoje o amanhã poderia nada ser. Disseste que alguém esperava por ti, que fazias falta e que as lágrimas de hoje ali seriam menos do que as que se chorariam se não partisses. Tudo vago, tudo sem que os olhos se cruzassem. Disseste que, quando voltasses dirias algo, que me avisarias do regresso. Disseste outras coisas das quais já não me lembro porque preferi gravá-las no esquecimento. E aí esperei por ti, pelo aviso do teu regresso. E dei-te a mão como da primeira vez. Descemos pelo caminho de terra, cheirámos a erva seca. Tudo isto vezes sem conta, umas vezes trazias sobre a pele o teu vestido com flores bordadas pela tua avó, outras a saia que trouxeste das férias com os teus tios, sempre com os ombros descobertos a fazer-me sonhar. E esqueci-te todos os dias. Continuo a esquecer-te e à espera do teu aviso. Sei que me matarás a sede um dia, quando eu menos esperar, quando tiver os lábios secos à espera do fim. E, sempre que te esqueço, conto os minutos no tempo parado, nos teus ombros. Talvez saibas que troquei o tal amanhã por isto.
Sente-se ao longe o aroma das flores do teu vestido.
Talvez voltes hoje, antes de te esquecer de novo.
24/02/10
E, sem que o esperes, a dias mornos e a um torpor hipnótico, seguem-se dias de Apocalipse, desejo de Juízo Final, dias em que quase sentes que tens na mão a chave do abismo, dias de confusão entre o Alfa e o Ómega. E questionas-te sobre se consegues passar pela tribulação que te toma de assalto, se resistirás a contornar a fonte da ira e da violência sem dela beber um trago ou sem nela saciar a sede como os animais ao fim de um inclemente dia de calor. Respira e olha em teu redor. Não terá de ser assim, pois não? Não terás de optar pelo salto ébrio do cinzento para um qualquer mar de sangue. Então, colocas umas reticências no desejo de que chegue o fim dos tempos. E lês, no Livro das tuas Revelações, em caracteres já meio gastos, que podes ter um novo céu, uma nova terra. Então repousas, ainda que no pó do chão e com a cabeça reclinada por sobre uma pedra à beira do caminho. Há dias em que experimentarás a impotência total do livre arbítirio, dias nos quais, entre céu e inferno, não distará mais do que a tua vontade ou a falta dela e isso é muito menos do que o que fica ao alcance da tua mão.
Como sempre, amanhã será um novo dia. Veremos o que queres e podes fazer.
Sabes, às vezes fico cansado de ouvir as tuas palavras e de ser testemunha e cúmplice das tuas tentativas teimosamente falhas de tanta coisa. Mas isto, tu já o sabias, penso eu.
Como sempre, amanhã será um novo dia. Veremos o que queres e podes fazer.
Sabes, às vezes fico cansado de ouvir as tuas palavras e de ser testemunha e cúmplice das tuas tentativas teimosamente falhas de tanta coisa. Mas isto, tu já o sabias, penso eu.
18/02/10
És o que és. Se tens rótulos, se, desde cedo, te colocaram uma lista de etiquetas em cima, bandeiras a lembrar-te quem és, a quem pertences, quais são as fronteiras da tua existência, se te disseram aquilo que devias ser, tudo isso é algo a que não consegues fugir, sempre pensaste.
E foste construindo o teu edifício sobre esses pilares. E, no fundo, ainda que nunca saibas bem o que isto do fundo quer dizer, não te desagrada porque és isso também, esse catálogo de vícios e virtudes, mas és mais. És pensamento divergente, és capaz de surpresa. Não és quem eras, mostras-te diferente e isso estranha-se. E tu estranhas-te, como se a tua pele não fosse tua. E não é, a que vês ao espelho, aquela que sentes cobrir o teu corpo, milímetro a milímetro.
Sabes que os heróis se forjam na memória das crianças. Sabes que é aí que tudo começa e tudo vai acabar, um dia, quando a memória te tornar em algo que não sabes bem como se chama. Não serás um herói, nesse dia. Serás uma pálida imagem do catálogo de vícios e virtudes. E partirás tranquilo quando souberes que foste forjado nas memórias de todos, até na tua e que, como os heróis, não foste filho da coerência. Esses, nascidos do eterno equilíbrio sem mácula, são os hipócritas, os zelotas, os que, de face erguida apontam dedos e entregam deuses com júbilo. Serás incoerente, até na morte, como os deuses.
E foste construindo o teu edifício sobre esses pilares. E, no fundo, ainda que nunca saibas bem o que isto do fundo quer dizer, não te desagrada porque és isso também, esse catálogo de vícios e virtudes, mas és mais. És pensamento divergente, és capaz de surpresa. Não és quem eras, mostras-te diferente e isso estranha-se. E tu estranhas-te, como se a tua pele não fosse tua. E não é, a que vês ao espelho, aquela que sentes cobrir o teu corpo, milímetro a milímetro.
Sabes que os heróis se forjam na memória das crianças. Sabes que é aí que tudo começa e tudo vai acabar, um dia, quando a memória te tornar em algo que não sabes bem como se chama. Não serás um herói, nesse dia. Serás uma pálida imagem do catálogo de vícios e virtudes. E partirás tranquilo quando souberes que foste forjado nas memórias de todos, até na tua e que, como os heróis, não foste filho da coerência. Esses, nascidos do eterno equilíbrio sem mácula, são os hipócritas, os zelotas, os que, de face erguida apontam dedos e entregam deuses com júbilo. Serás incoerente, até na morte, como os deuses.
16/02/10
seremos salvos pelas coisas simples.
seremos salvos por uma laranja madura caída da árvore, pela vontade de um passo após o outro, pelas palavras honestas que gravamos no peito como bandeiras.
seremos salvos por um acto de compaixão, por uma lágrima que nos percorra a face ressequida. muito além do céu e da terra, da engenharia e das finanças do mundo, seremos salvos pelas coisas simples, por um golpe de fé, pelas coisas que talvez nunca venhamos a entender.
seremos salvos pela esperança, ainda que esse possa não ser, deliberadamente, o plano da nossa vida.
(obrigado pelo desafio, AA e MJ; teremos a vida toda para o ir aceitando. não é assim tanto tempo... acho eu...)
seremos salvos por uma laranja madura caída da árvore, pela vontade de um passo após o outro, pelas palavras honestas que gravamos no peito como bandeiras.
seremos salvos por um acto de compaixão, por uma lágrima que nos percorra a face ressequida. muito além do céu e da terra, da engenharia e das finanças do mundo, seremos salvos pelas coisas simples, por um golpe de fé, pelas coisas que talvez nunca venhamos a entender.
seremos salvos pela esperança, ainda que esse possa não ser, deliberadamente, o plano da nossa vida.
(obrigado pelo desafio, AA e MJ; teremos a vida toda para o ir aceitando. não é assim tanto tempo... acho eu...)
10/02/10
nado-morto
Foi feliz anos a fio, ela. Dia após dia, filho após filho, numa complacência eficiente de boa filha, boa mãe, boa esposa. Também ele foi feliz, anos a fio. Tantos anos quantos aqueles que ambos estiveram juntos. Até hoje. Aliás, ainda hoje estão juntos, numa complacência eficiente de casal perfeito, com os filhos exactos em número e perfeitos em tudo, na casa quase perfeita, não fora uma malfadada janela, ponto único na convocatória das suas dissensões. Ainda hoje, um dia sem queixas termina, invariavelmente, sem grandes manifestações de insatisfação.
Hoje ela chorou toda a tarde sem saber por que razão as lágrimas a impediam de ver, dia de chuva impiedosa na alma. Hoje, ele ouviu-a soluçar de noite, sem saber por que razão o fazia.
Amanhã, a narrativa do seu dia será a do clássico bilhete de ida. Partirá, para um sítio que não sabe ainda como é mas fugirá de tudo, até de si, especialmente de si, pensará mais tarde.
E todos sofrerão com isto tudo, sem saber bem por que razão a tempestade se abateu por ali. Chuva impiedosa sobre a alma.
E desta chuva sobre terra sequiosa não nascerá o mais intrépido resquício de vida.
Andará, anos a fio, o odor de um luto informe pelo ar.
Amanhã, esta história poderá ter um final diferente mas será ficção, a minha. Hoje fica por aqui.
Hoje ela chorou toda a tarde sem saber por que razão as lágrimas a impediam de ver, dia de chuva impiedosa na alma. Hoje, ele ouviu-a soluçar de noite, sem saber por que razão o fazia.
Amanhã, a narrativa do seu dia será a do clássico bilhete de ida. Partirá, para um sítio que não sabe ainda como é mas fugirá de tudo, até de si, especialmente de si, pensará mais tarde.
E todos sofrerão com isto tudo, sem saber bem por que razão a tempestade se abateu por ali. Chuva impiedosa sobre a alma.
E desta chuva sobre terra sequiosa não nascerá o mais intrépido resquício de vida.
Andará, anos a fio, o odor de um luto informe pelo ar.
Amanhã, esta história poderá ter um final diferente mas será ficção, a minha. Hoje fica por aqui.
04/02/10
Quando a luz do dia escasseia, num dia curto de Inverno; quando acordas e as cores pardas de início da manhã chuvosa te penetram a alma sem que as tenhas visto sequer; quando a água quente do duche te percorre a pele e não consegues matar o frio que te gela as veias e a vontade; quando choras apenas porque o dia começou e não sabes como o poderás viver sem medo, um medo que não sabes de onde vem; quando tens demasiados dias assim e te deixas morrer lentamente e quando isso é quase aquilo que desejas, arranca tudo o que tens vestido, mata o frio com o medo, o medo com a raiva e aquece-te nesse fogo furioso que te agarra à vida, como um fio. Se não conseguires, ao menos sobreviveste, contra todas as expectativas. Amanhã, será outro dia, como tantas e tantas vezes repetes. Talvez venha a ser o dia em que descobres aquilo que te persegue. Nunca se sabe.
11/01/10
λήθη (líthi)
Tens sentido vontade de te atirar contra as paredes da tua impaciência, da tua impotência e de outras coisas terminadas em ciência que se foram edificando, solenes, à tua volta, não é? Tens sentido que às vezes te escorre difusa pelas veias uma dor de metal pesado que não consegues eliminar, que se acumula e te faz sentir que o chão é céu, é inferno mas repouso também?
"Sentes-te viva?", perguntar-te-iam no guião previsível daquelas vidas extraídas a frio de um molde feito para te sentires feliz. Responderias que sim e partirias o molde com raiva. E que forma terias então?
Vou pôr em palavras, as minhas, aquilo que me parece ser a tua angústia. Aceitas? Sorris. Vou tentar então. Deixa-me alimentar a minha fantasia de taumaturgo e adormece enquanto vou convocando palavras, as minhas, como se tuas fossem:
"Esqueceste-te de ti e, nesse esquecimento, encontraste o teu espaço de conforto, a tua nuvem, o teu tapete voador, a tua armadura, um reduto dramático de sobrevivência. Matas a dor que te consome a golpes de esquecimento. Acho inteligente, digo-o sem condescendência alguma. Talvez preferisses rumar a casa, ao jardim onde brincavas quando o mundo era tudo menos tu e quando a realidade não te fazia pensar em que unidade de medida se traduz o peso do teu universo ou a perversidade da sua deterioração. Não sabes quando tudo começou, quando encontraste as primeiras fendas na barragem, mas tens uma ideia limpa e digna de como pode acabar. Queres ajuda mas eu não consigo oferecer-te mais do que a minha passividade. Terás de desculpar embora possas chamar-me cobarde: aceito. Vou sugerir-te aquilo que, pretensiosa e sentenciosamente classificaria como uma metodologia: poderás começar por esquecer-me. Treina. Podes, depois, ir esquecendo tudo o resto e, no final, quando quiseres desligar a luz e abraçar o que quer que seja que nasce da luz apagada, poderás olhar-me nos olhos e sentirás o meu respeito, a minha homenagem e o mais que quiseres, se ainda tiveres a noção do que as coisas são e em que língua são nomeadas. Se tudo tiver corrido como previsto, não saberás quem sou eu, nem por que razão te olho mas, garanto-te, estaremos ambos ali, onde tudo acontece sem despedidas. O resto interessará muito pouco, quase tão pouco como tantas outras coisas que nunca saberemos, muito menos do que o bem ou o mal. "Destas e de outras coisas se faz a alma", disseste-me um dia, quando as palavras ainda te habitavam. Talvez o venha a esquecer, um dia.
01/01/10
E se o dia fosse sempre o das cores de chuva com sol? Se tivesse sempre aquele dourado que devem encontrar os que partem deste mundo, sabendo ao que vão? E se não houvesse aniversários, nem bolos, nem velas, nem lua prateada à noite, por entre as nuvens de onde saiu a chuva, de dia? Que perguntas faremos quando nos cansarmos de colocar pontos de interrogação na vida? Haverá sempre uma mão a fazer girar o mundo, sem eixos, sem paralelos, meridianos ou pontuação, livre, sem nunca cair. Um dia terei talvez coragem para me reinventar nessa redentora desobediência. E se o que escrevo fizesse sentido? Talvez um dia e duvido que esse dia seja hoje.
Feliz 2010.
Feliz 2010.
30/12/09
“Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.” (Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista)
Faz sentido que nos deixem dormir um sono fétido debaixo de um vão de escada, ou um clássico sono num caixote de cartão, debaixo de um viaduto ou de uma ponte, ou um irónico sono no átrio de uma igreja? Faz sentido que os anos passem e as nossas ficções, com homens, mulheres e crianças lá dentro sejam um navio que ninguém abandona, por ordem alguma, nem antes nem depois dos ratos que invariavelmente habitam o porão? Faz sentido que comamos doze passas, uma por cada badalada, até que o novo ano respire pela primeira vez? Faz sentido celebrar com euforia esse nascimento, sem lhe ouvirmos sequer os primeiros gritos, o primeiro choro, a dificuldade em processar o ar do mundo? Faz sentido que celebremos com pueril esperança o virar de uma folha no calendário, como se celebrássemos a chegada de um messias? Faz sentido que acreditemos num messias que se revela apenas pelo virar de folhas em calendários? Faz sentido ansiar por um futuro igual a hoje, sem viagem feita, o mesmo mundo, os mesmos olhos, as mesmas palavras?
Dormimos todos um sono sem casa. Dormimos todos de costas voltadas para a indignidade, a nossa. Que a liberdade nos auxilie e lance sobre nós os seus olhos redentores.
24/12/09
E vêm os magos. Magos porque conseguem ir além do tangível, porque conseguem ler estrelas e presságios tão bem como respiram. E seguem a estrela. E, à medida que se aproximam, ganham distância e lucidez. E, quando oferecem o ouro, o incenso e a mirra, já não o fazem sôfregos de celebrar, ébrios de estar na presença do inefável. Já podem, então, saborear a candura e o alcance do momento.
Faz-me falta seguir o trilho dos magos, sejam eles reis de algo ou de coisa nenhuma. Faz-me falta saber esperar. Não será grande drama que não se tenha a vida toda para tudo fazer.
Peça a peça, faço um presépio, no sortilégio de saber que hoje tudo pode recomeçar, sempre.
E farei um desenho, com carvão negro sobre o papel branco. E nele verei as minhas cores.
Feliz Natal.
13/12/09
Observar os traços brancos da estrada, no negro do alcatrão mais negro. Entrar na noite pelos atalhos feitos de bons presságios que não cessam. E seguir, sem escala programada, viajantes sem mais redenção do que o prazer de avançar e de encontrar no caminho por fazer um código desconhecido, secreto, uma existência semelhante à do fantasma que está e não está. Ao longe, numa qualquer tela de cinema alguém fuma um cigarro enquanto tenta decifrar o mistério que se adensa numa espiral de intriga negra sem traços brancos a definir os sentidos do percurso. E tudo se mistura e todos os sentidos se confundem no escuro e no fumo densos. Luzes apagadas, fim da linha.
23/11/09
Porque te vejo adormecer, dando descanso a tudo o que és, paz e turbilhão, decidi que um dia te escreverei uma carta para que leias no futuro, embora já saibas que palavras, sorrisos e tempestades podes aí encontrar. E poderemos continuar a caminhar ao som da tua voz, da minha, e faremos das nossas conversas um luar sobre a espuma das nossas ondas. E contemplarei os teus filhos e levar-me-ás ao colo ser queixumes e riremos do primeiro Natal, do nono aniversário, do primeiro amor, das dores das perdas e das alegrias ansiosas dos partos, do vigésimo aniversário e de quando inventei histórias sem sentido para te fazer feliz. E dar-te-ei os parabéns, mesmo que não me vejas. E saberás que nos liga mais do que meia dúzia de Primaveras e de cordões umbilicais.
Comia cerejas como palavras saídas de rubros lábios e dizia coisas inefáveis sem pudor. Subia as esferas de sistemas solares e de vias lácteas na esperança de salvar mundos. Rendia-se à dor e matava-lhe a sede, como cerejas vermelhas, de um vermelho escuro enraivecido, a cor do diabo à solta numa rua qualquer.
Podia ter carregado alguém ao colo, talvez um previsível filho, talvez um pai ébrio ou uma mãe dorida de não saber mais nada sobre coisa nenhuma. Podia ter sido algo mais e roubaria ao livro dos livros saber e luto sufucientes para cobrir de vergonha um deus qualquer, tão anónimo como uma rua qualquer, com mulheres a seduzir dinheiro e homens em busca de um onírico cio consolador. Podia ter-se vestido com um vestido-nuvem e seria um doce anjo decadente.
Enlouqueceu à sombra de si mesma. Compreendeu que o fogo cerrado e cruzado da guerra eram cerejas e palavras sem pudor, desejo de artifício, memória fátua, futuro envelhecido.
26/10/09
Sentou-se no muro. Era de pedra, o muro. Sentou-se e esperou pensar em algo épico que pudesse fazê-lo traçar outro rumo, outra rota, algo assim. Imaginou de novo os dragões da infância, voadores incansáveis, guerreiros ferozes e doces que tantas vezes o carregaram, como escrevia nas composições da escola, 'por montes e vales'. Épico mas morto, tudo isso, como a pedra do muro. Pensou no guarda-chuva aberto de que se muniu para o famoso salto de cima da baliza, na escola, o mais curto voo em queda livre da história, de uma história qualquer, com guarda-chuva e nariz partido. Lembrou-se ainda de observar as formigas, de as ver carregar fardos com mil vezes o seu peso. Épicas, as formigas. Olhou algumas pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Como as formigas, evidentemente, incansáveis. Por ver aquelas pessoas é que se terá lembrado delas, das formigas. Carregavam as pessoas o seu pequeno e pesado fardo de palmilhar a cidade em busca de dinheiro para pão. Nem fardo, nem pão eram algo de épico, nem os dragões voariam. Olhou a rua e voou, sem guarda-chuva. E chovia. Chovia pouco, uma chuva suave a molhar a rua. E a chuva viu que ele passava, no seu livre voo, e fez-se nuvem, de novo, ali mesmo. Transportou-o a chuva às costas e carregou-o por montes e vales. E termina esta história, composição quase escolar de más aventuras, com o mais curto voo livre da sua existência, o mais épico também, o mais sombrio, dirão alguns, o mais cobarde, dirão outros. O mais livre, digo eu, com nuvens e chuva por sobre as minhas palavras e de mão dada com o meu silêncio. Fraternal, o meu silêncio, cúmplice, cobarde. Uma vez chega, é até mais do que suficiente, diria ele. Era uma vez.
22/10/09
E se a vida fosse apenas o espaço e o tempo que medeia entre um comboio perdido e o seguinte, que teima em chegar atrasado? Ou a soma de todos esses momentos? Talvez se perdesse o muito que, aparentemente, costuma ser o resto do tempo. Talvez se ganhasse o que é costume perder-se. Talvez a espera, tempo de impaciências e sonos intermitentes, revele o pulsar dos sangues e seivas vitais, a face oculta e displicentemente adiada daquilo que somos.
01/10/09
Fazia uma espécie de xilofones com os restos das pedras da pedreira. 'Litofones' seriam... Todos os dias levava umas quantas peças, irregulares, de expessuras e texturas diferentes, mais ou menos oxidadas, com diferentes veios a rasgar a cor base da pedra. Já em casa, dispunha-os, com critérios e carinhos seus, sobre pequenos cubos de madeira, colados numa barra também de madeira, daquela clara dos caixotes da fruta. E depois tocava, fosse aquilo o que fosse, sempre devagar. Deixava-se embalar pela dormência dos sons roucos, roubados ao fundo da Terra e ressuscitados para um diálogo improvável. E depois, depois falava, juntava palavras sussuradas àqueles sons com que povoava os cantos da sua solidão. e percorria livre e metodicamente o seu universo. Um dia, já cansado, ter-se-á deitado sobre toda aquela construção, num final de tarde de um quente Outono . E, enquanto a pedra lhe devolvia o calor do sol, confortando as suas costas com um tépido abraço, esperou que todos aqueles sons e palavras começassem a ganhar vida e forma à sua frente. Ao som daquela melopeia, que ainda hoje ecoa nas traseiras da sua casa, naquele quintal transmutado em máquina de memórias, terá ouvido o seu telúrico requiem. Haverá horas assim, horas em que a vida já nos trouxe o muito e o pouco que tinha a trazer e, então, talvez nos reste apenas esperar que, fechados os olhos, possamos ao menos continuar a sonhar, nem que seja com xilofones e palavras. Já terá valido a pena.
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)
(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)
28/09/09
Inusitado manifesto: 'Por Plutão'
Quando eu nasci, Plutão era um planeta. Era o último dos 'nossos' planetas, do 'nosso' sistema solar. Era uma daquelas espécies de famílias repetidas na escola, misto de composições musicais e provas olímpicas como o alfabeto, a tabuada do sete ou o nosso nome completo, tudo dito, cantado ou recitado no intervalo de tempo de que precisa um relâmpago para rasgar o céu.
Hoje, por mais que Plutão lá esteja e, eventualmente, em nada tenha mudado, foi oficialmente retirado da vetusta fotografia de família. E tudo isto, qual teoria científica da conspiração, com uma perfídia semelhante àquela que põe alguém fora da família porque se descobriu que o código genético não corresponde ao do patriarca, ou da matriarca da família: eras nosso irmão. Bem sei que tudo isto assentará em critérios que não ouso nem quero, de forma alguma, beliscar mas, nas minhas imaginárias viagens pelo Universo, Plutão era a última escala ainda em casa, com uma, se calhar imaginada, centelha longínqua de sol pálido. Para lá de Plutão, a atracção do desconhecido. Gelado e diminuto, era também o primeiro indício, na viagem de regresso, de que estaria a chegar a casa. Dobrado aquele cabo de todos os confortos, pouco importava a sua classificação. Plutão daria conselhos avisados na partida e receberia, algum tempo depois, os viajantes cansados de braços abertos.
Com o passar do tempo, e porque continuamos a planear as nossas viagens por espaços mais inóspitos que o sideral, continuo também, não raras vezes, a desejar essa passagem por Plutão e aí adormecer, a salvo da tempestade, no aconchego do abrigo seguro, nessa escala de um vital anonimato redentor. Gelado e diminuto, sentirei sempre o apelo de um planeta como Plutão onde alienar-me não corresponda a perder-me de vez.
(Há ainda a possibilidade de, com o passar do tempo, eu ir ficando mais estranho... Espero que não me passem a chamar outra coisa qualquer por me ser retirado um qualquer estatuto... Se calhar já chamam e continuo a ser eu... Como Plutão.)
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