Contemplas a rua, sentado, postura sibilina.
Sabes que ser cão, como tu, não é apenas vaguear pela rua à espera que o tempo te leve.
Um dia, poderemos todos ser anarquistas, como tu, e juntar-nos-emos à multidão em chamas.
Havemos de encontrar serenidade, sentados num qualquer asfalto ou estrada empoeirada.
E disso tudo faremos a nossa linha do horizonte. E escreveremos num céu que entretanto rasgámos as letras que fazem liberdade, juntos e em chamas, como tu.
(Un chien andalou estará a ser projectado por detrás da barreira de polícias couraçados até ao tutano. Voltar-lhe-ás as costas. Nunca foste surrealista.)
06/10/11
17/09/11
O céu, a terra, as cores das casas, a tinta de tons diversos, exuberantes por sobre a tinta da madeira. As casas. O lago, que me é estranho porque sou mais do deserto e os lagos não me são familiares, reflecte as cores das casas, as tintas, o azul pálido do céu. Tudo como numa natureza morta com gente dentro, tu, eu, todos. Encontrámo-nos em tempos, vinhas tu em busca do amor de alguém que eu conhecia e pensei sempre que era algo de impossível e exótico mas foi assim que tudo aconteceu. Encontro-te agora, porque agora se podem ver e rever as pessoas de formas diferentes e reconheço-te o rosto familiar, uma face que me poderia ter sido mais familiar ainda, uma face que se reflecte no lago, como as casas e as tintas. E penso que poderíamos ter sido amigos. Se calhar ainda o poderemos ser, como se tudo o que não foi pudesse ter sido. E, agora que bebi um copo a mais e algumas coisas próprias e alheias se tornam mais difusas, penso em como a vida é mesmo curta demais para que possamos recombinar amizades e para que amores se refaçam. Não terás o amor que procuravas, pelo menos nunca te será confessado, julgo eu, embora continues a buscá-lo porque agora se podem buscar e rebuscar as pessoas de formas ditas novas e diferentes. Quem procuras, essa imagem imatura que fugirá de si própria até ao seu próprio fim, não te cairá nos braços como ainda hoje desejas. Mas isto já o disse. Repito-me, talvez. Agora, que bebi um copo a mais e as coisas me surgem na memória com um grau de contraste paradoxalmente superior, insisto em que poderiamos ser amigos. Nunca seremos o que queremos, nunca seremos o que queremos, nunca, nunca. Volto a repetir-me, tanto.
Sejamos então aquilo que podemos e bebamos um copo, ou muitos, os que quisermos, enquanto continuamos naturalmente as nossas vidas, a minha exuberante, com os meus amores a cheirar a flores em dia de cheirarem as flores a coisas muito boas, a tua, com luz de fim de dia em terras do norte, cheia de fotos coloridas de casas que se reflectem num lago de beleza simples e felicidade duvidosa. E será também isto que ambos levaremos da vida, nós que nos vimos uma ou duas vezes na vida. Levaremos isto connosco, pelo menos hoje, dia em que, casualmente, bebi um copo a mais e nem sei já se as coisas estão mais nítidas ou mais opacas.
Vejo-a, bastantes vezes, a ela. Queres que lhe fale de ti?
Sejamos então aquilo que podemos e bebamos um copo, ou muitos, os que quisermos, enquanto continuamos naturalmente as nossas vidas, a minha exuberante, com os meus amores a cheirar a flores em dia de cheirarem as flores a coisas muito boas, a tua, com luz de fim de dia em terras do norte, cheia de fotos coloridas de casas que se reflectem num lago de beleza simples e felicidade duvidosa. E será também isto que ambos levaremos da vida, nós que nos vimos uma ou duas vezes na vida. Levaremos isto connosco, pelo menos hoje, dia em que, casualmente, bebi um copo a mais e nem sei já se as coisas estão mais nítidas ou mais opacas.
Vejo-a, bastantes vezes, a ela. Queres que lhe fale de ti?
01/08/11
Foi uma folha, verde antes do tempo, quem me contou o segredo daquela chuva fora de tempo. Uma mão lava a outra e a chuva lava as duas, as mãos e as folhas de papel. Leva-as para a terra consigo, em eterno descanso.
(«Entre os esplendores da luz perpétua», ouve-se, devolvida a voz pela montanha que surgiu ali mesmo, agora mesmo, nem se sabe como. Coisas das liturgias humanas não se discutem, tomam-se como remédio. Amen.)
(«Entre os esplendores da luz perpétua», ouve-se, devolvida a voz pela montanha que surgiu ali mesmo, agora mesmo, nem se sabe como. Coisas das liturgias humanas não se discutem, tomam-se como remédio. Amen.)
21/07/11
recado moralista, odioso, pretensioso e outras coisas detestáveis terminadas em -oso
“De manhã, sai da trincheira, limpa a espingarda, retira com cuidado o sangue da baioneta.” Não há humor negro, nem outras coisas de outras cores, que possam fazer eco dessa situação, frase há muito escrita. A vida é demasiado ambiciosa para se contentar com pequenos apontamentos em caderno de jornalista amador ou de escritor de armário. Disseram-te que não havia mais baionetas como as dos filmes. São diferentes as coisas agora, já percebeste. Tudo se mostra mais evoluído, a arte de matar frente-a-frente é mais eficaz, mais eficiente, empreendedora, como se diz agora acerca de tudo o que cabe na categoria das acções ou factos que impelem os pés esquerdo e direito da vida a suceder-se para que nada caia, por efeito pecado da inércia, essa luxúria ociosa que nada traz além de pensamento solto e contemplação. Não te submetas à tentação de parar, hábito vicioso, como olhar o espelho e ver nele os sulcos que a parte pior do que és foi traçando, no rosto e no espelho. Será razoavelmente inelutável que tomes atalhos, que não vejas o nascer do sol como uma bênção, que sintas, a cada dia, mais umas horas de vigília como o inevitável, a grande fatalidade de rastejar como sinédoque do voo livre. Por cada nascer do sol, menos um dia no teu calendário pessoal. Deixa que te diga, sabendo que dispensas (smepre dispensaste) o meu sarcasmo: estás na vanguarda da morte em suaves prestações, valha-te isso, sem baionetas nem sangue.
11/06/11
Onze de Julho de mil novecentos e setenta e oito. Chuva quente, trovoada à solta, céu em revolução, terra em sobressalto. Corrente eléctrica poderosa descreve riscos no escuro, coisa de garras afiadas na noite. Maria dos Anjos sabe que só eles lhe podem valer se a chuva durar mais do que uma missa vespertina do padre Diocleciano na capela de S. José. O buraco no telhado não perdoa, nem a falta de dinheiro para chamar o pedreiro. A dignidade perdoa ainda menos. Desde que o pedreiro lhe confirmou que o orçamento do arranjo era quase um conto de reis ou meia hora a resfolgar pelo chão, juntava dinheiro ou arranjava maneira de conter a água.
Parou a chuva, a terra húmida e quente. Saíu de casa e olhou o campo em frente. Parecia que fumegava, a terra. Deu mais uns passos, dois ou três, e ainda havia relâmpagos por perto. Raio de noite, aquela, com as trovoadas no campo raso e todo aquele céu por cima dela e do filho que lhe nasceu dois meses antes do pai do filho se ter ido embora. As mãos caídas, sentiu restos de chuva atrasada a molhar-lhe o cabelo. Deixou cair a cabeça para trás, lentamente, e ficou assim um tempo.
Acordou no dia seguinte, o sol já alto, tudo como dantes, o filho a chorar-lhe ao lado uma lamúria. As roupas rasgadas, as plantas dos pés feridas, as mãos arranhadas com um molho de cardos, caído ali ao lado em desalinho. Não se lembrava de nada. Doeu-lhe o corpo por mais três dias e a alma por outros tantos. Cresceu o filho mais depressa do que todos os outros da freguesia, tomado de um adubo com o aroma acre do mistério. Dizia-se, porque sempre nestas coisas se dirá algo, que havia ali coisa, que já a mãe era igual e que o homem tinha desaparecido porque ela o matara. Nós, que sabemos tudo sobre ela, afiançamos que nada de extraordinário aconteceu. Nem um raio lhe mudou a vida. Vida de um raio.
Este texto tem a mesma origem do anterior. Ambos faziam parte de umas coisas a que chamei de micro-narrativas bizarras. Bizarria em dose moderada, narrativas fraquinhas. Ficam, ainda assim, para um ou outro par de olhos que passe aqui. Sempre uma boa conta, um ou dois pares de olhos.
Ernâni tinha três olhos, dizia-se. Tinha uma mancha no meio da testa, o Ernâni. Naquela noite, matutou à beira do lume, sentado no banquinho de madeira tapada pela gordura do fumo. Era velho, o fumo, mais velho que as duas tias solteironas. Ernâni tinha dois olhos, uma mancha estranha, como se de um olho da sua mente para o exterior se tratasse. E tinha um nome estranho, mais estranho que as duas tias solteironas que o guardavam. Torres em tabuleiro de xadrez, as manas Luzeiro, as tias, cediam-lhe o centro quando caminhavam, solenes na rua. Ir e vir de missa, ir e vir solteiro a ver o padre novo, com músculos de varão do campo. Naquela noite, matutou Ernâni, tanto quanto a noite o matutou a ele. No dia seguinte foi-se pelo coelho, no local em que o avistara, puxou-o para fora da toca, matou-o com uma pancada seca. Chegou ao adro da igreja e ali, à vista de todos os que não tinham manchas na testa nem olhos da mente a fazer de manhcha na testa, empapou-o em petróleo e puxou-lhe fogo. Todos passaram a saber que o Ernâni tinha um pacto com o Mal. Sabiam-no tanto como conheciam em profundidade a sua mancha na testa. Nesse dia, Ernâni tinha mais do que um nome estranho, três olhos na cara e duas tias a esbanjar mofo, roupas ridículas e cheiro a velha sentada em cadeira de palha: tinha medo de si próprio. Passou a fazer a barba às escuras, e sem espelho. Passou a dizer-se que via no escuro. Cresciam os poderes, matutava Ernâni. Ainda hoje matuta Ernâni, no escuro matuta.
Este texto estava alojado em outro blog, cuja autora principal e anfitriã resolveu, não sei se dogmaticamente, votar ao abandono, digo eu, não isento de eventual juízo precipitado. Fica aqui agora, para ser visto por uma meia dúzia de olhos, aqueles que, em média passam por aqui. É uma boa conta.
10/06/11
António Contreiras era um dogmático. Sempre o fora e, toda a sua vida, buscara com desespero uma noiva que o fosse também. A vida fora-lhe leve, apesar de suada a demanda da dogmática com a qual, em estreita cooperação, edificaria a torre de gelado de baunilha que lhes serviria de tecto.
Passaram três anos sobre a data na qual pedira em casamento Alzira 'Zirinha' Estrompa. Alzira declinara, alegando que gostava dele, que tinha expectativas elevadas relativamente à gratificação sexual, especialmente desde que o vira de tanga, na praia, no dia em que Genoveva Barata surgira nua em todo o seu esplendor. Contudo, continuara Zirinha, o coito não era todo o sexo e o sexo não era tudo e, sabia-o ela bem, o trabalho de Contreiras na repartição da Segurança Social convertera-o num burocrata. Ora, rematara Alzira, ela julgara-o um dogmático, crera-o dogmático puro, apaixonara-se e empenhara dogmaticamente a sua virgindade; tudo o que não poderia acontecer seria cair num burocrático logro. Terminara assim o namoro, ficara adiado sine die o dogmátco orgasmo, caíra António num dogmático marasmo.
Subiu Tonho Contreiras, nesse mesmo dia, à torre da Igreja Matriz e, de lá, se precipitou, tão dogmaticamente como viera ao mundo. De um buraco para o outro, pó regressado ao pó numa inexorável coerência dogmática.
(Para quem me quiser despedir: este ignóbil e paupérrimo texto foi escrito numa reunião oficial e dogmaticamente consagrada ao trabalho em prol da Coisa Pública, no dia 26 de maio de 2010. Encontrada foi a historieta, em vias de reciclagem, um ano depois da dita reunião; desta, nem rasto, nem memória. Fraco trabalhador ou ausência de trabalho? Nunca saberei especialmente porque não investirei uma única sinapse neuronal no apuramento dessa dogmática verdade. Ich bin nicht eine ernsthafte Arbeiter...
19/04/11
frios, liberdades, ficções e realidades da memória
Há uma espécie de familiaridade entre o frio e muito da minha memória de mim. Não sei se alguma vez conseguirei compreendê-la, se existe há muito ou é construção recente, se a sei explicar. Posso tentar.
Lembro-me, porque as histórias começarão quase todas por aqui, ou porque agora me apetece que fique escrito assim, de experimentar, sem qualquer desconforto, frios, frios de criança, de adolescente, de tempos não tão remotos assim só porque a vida é mesmo curta. Nada de novo nesta constatação pseudo-qualquer-coisa, apenas um reforço da necessidade de perspectivar a escala, desnecessário talvez.
Lembro-me de estar na praia. A praia era o espaço da liberdade, o tempo de ser hippie antes de ser conservador, hiper-consciente das convenções e o regresso ao não saber o que isso e outras coisas são. É o espaço ao qual volto sempre que o desejo é mais forte. Talvez seja por haver falésias, das quais saltou muito do que sou, todo ou em partes, a qualquer hora, ou por conhecer a palmo as rochas, entrando, na maré baixa, mar adentro, com luz de sol ou de lua. Mar adentro, literalmente. A recompensa estava no poder cantar alto, a coberto do ruído das ondas, no ‘caneiro das safias’, ou o poder passar para a praia do lado, a ‘praia dos calhaus’ e ir até à ‘rocha negra’ fora das horas convencionais de aí estar, ou o poder voltar, depois de uma pequena aventura solitária destas, como se tivesse ido ao único café de então comprar um gelado com o dinheiro das férias quando, de facto, tinha transposto o limiar dos meus medos. No tempo das regras e da obediência, a praia, isolada da vila, a casa na praia, o cheiro à madeira das paredes e à pele salgada e tocada pelo sol no próprio corpo foram uma espécie de utopia que assumo como mais de hoje do que de então. Eram aventuras no não-lugar sem herói, viagens ao centro da minha terra, pedaços de vida trazidos pelo frio, nem sei bem porquê, trazidos por dias como o de hoje, frios, pela manhã fria, depois do calor de ontem, eventualmente com alguma humidade inesperada no ar. Nestes dias quase posso sentir que o caminho para mais um dia de universidade, de professor-burocrata esmagado pela auto-comiseração, no estúpido contornar de meia dúzia de rotundas, evoca os dias do acordar na casa da praia e sair para a rua, o olhar para o céu cinzento e saber que não valia a pena vestir mais do que uns calções de banho e uma blusa por cima da t-shirt porque se estava sempre meio pronto para saltar para a água, ou para caminhar pelo carreiro no alto da falésia, para o lado do pinhal que entretanto ardeu. E era esse o frio da esperança, o das pernas frias como promessa de que, como em tantos dias, naquela Praia do Monte Clérigo, o sol apareceria ou, em alternativa, o corpo não faria concessões e iria para o mar, saltar ingénuo e livre numas ondas geladas, independentemente de tudo e de todos. Era também o frio de ir às compras no Mini vermelho do meu avô, FO-48-93, ou no Ford Cortina dos meus pais, EB-54-52, os mesmos calções, as mesmas pernas frias no cedo da manhã, à espera de que as compras não demorassem e os sete quilómetros até à vila de Aljezur e volta pudessem ser feitos à velocidade do pensamento, do meu. Recordo-me que esse frio está ligado ao ouvir a voz do meu avô a resmungar contra os fascistas que o 25 de Abril tinha derrotado mas que andavam, segundo ele afirmava, ‘encapotados’ em todos os partidos à direita do Partido Comunista, fosse lá isso o que fosse, a esquerda e a direita do meu avô. O Partido Comunista era, para ele, a construção de uma casa onde protestar era legítimo, independentemente da idade e relativamente à qual criou, por força de muitos factores que agora não me apetece explorar, a ideia de um sucedâneo de família ideológica, uma casa dos que compreendiam a luta, fosse lá isso o que fosse. E debitava todos aqueles lugares comuns de um marxismo-leninismo fabril, ideologia compactada. E o frio de esperança andava por todos esses lugares, nessas fronteiras entre a autoridade e a transgressão, a poesia a formar-se e a realidade a mostrar-se, o possível e o impossível, o respeito e uma saudável iconoclastia, mar e terra, céu e sol, lugares comuns da minha ideologia que eu julgava de Verão. Sou hoje muito mais aquele rapaz do que, durante muito tempo, pensei ser, muito mais militante da liberdade do que julgava possível, uma militância pelo direito ao prazer sem custo associado, pelo direito a andar salgado, sem cheirar a gel de banho, pelo direito a dormir descansado com areia na cama, pelo direito comer o que houver, quando puder ser ou apetecer, a andar na praia seja a que horas for, pelo direito a cantar, a gritar palavras de amor ou frustração aos salpicos das ondas, pelo direito à memória que só o ócio traz, pelo direito ao frio, a este frio, ao meu frio nas pernas como promessa do prazer futuro.
05/03/11
Acordas com as articulações meio doridas. A noite foi de sono, suor e frio entremeados. Arrastas-te pelas rotinas do corpo. As da alma já as baniste, devoram-te pedindo que lhes dês forma. E tu, enquanto o teu corpo cumpre as rotinas da manhã, perspectivas-te no espelho feito por mãos tuas. E nele te vês, herói, uma espécie de Aquiles sem o calcanhar. Sabes, bem demais, que és mais calcanhar sem Aquiles que outra coisa qualquer, que vais acabar num acidente, numa cama de hospital ou na tua de casa, alagado no sangue do teu ponto vulnerável. És tu todo a tua própria vulnerabilidade e nunca, mesmo nunca, foste herói do que quer que fosse. Foi assim que enganaste a vida e o teu sonho, nessa decepção sedutora de que, um dia, serias diferente da tua velha tia que vias nas férias. Ao lado da arca frigorífica dos congelados, depois de te ter perguntado pela família e pelo ano todo, passado a três horas de caminho, vomitava-te as poesias intermináveis que tinha feito, começando pelas mais recentes, passando por citações da sogra dela, tua bisavó, os versos independentes do que corre nas veias. E tu suportavas aquilo, sorrias, compravas os congelados na mercearia da terra com um até depois, com muita saúde e muito gosto pelo reencontro. E tu sabes hoje, bem demais, que és tu, a tua tia e a arca frigorífica dos congelados num só, nisso em que te tornaste, um cidadão de pasta na mão e um fatinho conceptual rumo ao trabalho, bípede em trânsito para matadouro, conformado porque alguém comerá a carne e será feliz por isso, alguém se saciará e disso precisava. Funções sociais cumpridas, sacrifício que paga o ar que se respira. E montas a tua arca de congelados, com as postas de peixe em sacos, os grãos de ervilha e os espinafres porque todos temos de ir à mercearia. E sentas-te tu, paciente à espera que chegue a tua tia declamadora. Pelo meio, vais cumprindo as tarefas à laia de rato em labirinto mutante. A cada dia, o desafio de saberes porque fazes o que fazes e porque o fazes tão mal. Entretanto, chega a tua tia ao teu gabinete e começa a pôr na mesa palavras como estas, justapostas, e tu consegues partilhar do prazer que ela tem. Dás-lhe tempo, afinal, tens de escolher os congelados com critério, não desperdiças tempo porque tens o fatinho vestido e isso significa que esperas pelo inelutável no matadouro enquanto és o tu possível no local do ter que ser. Talvez acabes congelado, numa arca daquelas, num saco com uma etiqueta na qual talvez estejam impressos, ainda que por engano, uns versos da tua tia a louvar o sol, o mar e a loucura de ter que atirar palavras, nem que seja ao vento para que as leve.
02/03/11
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Ouves vozes de pessoas que detestas. Detestas pessoas sem saber porquê. Incomodam-te, faz-te impressão a sua alegria por coisa pouca, o seu entusiasmo a partir de nada relevante, as rotinas idiotas que trazem tanta euforia. E pensas, com todo o teu desprezo, que não deveria ser assim, que há tantas coisas que podem caber dentro da felicidade, tantas mesmo... estas não. Dentro da felicidade não cabem as vozes das pessoas que detestas e ouves no corredor. Amanhã estarão por aqui de novo e tu também. Não te gastes com isto. Como alguém amigo te dizia ontem, não deixes que o quotidiano te coma demasiado. Esquece a felicidade dos outros julgada por ti. Pega tu nas tuas coisas e faz algo de iconoclástico e pretensioso, como escrever poesia num gabinete de burocrata, em horário de expediente; ou então começa cada aula que dás com uma poesia que abane os pilares do mundo, o teu, o dos alunos, sem que tenhas de fazer qualquer ligação entre o que leste e o que vais fazer para ganhares o pão nosso de cada dia e tal. Ficará tudo na mesma, talvez. Suspeito que talvez consigas começar tu a comer o quotidiano, às dentadas, pequenas e ousadas, subtis e devastadoras. Agora, copia isto e publica no teu blog, sem mais adjectivações supérfluas. Isso. Desta vez, não faz mal ser obediente.
16/02/11
O dia é nove de fevereiro deste ano de dois mil e onze. É dia de letras, as letras de um dia sem história, vazio, dia de retaliação e terror gratuitos. Ocorre-me tomar o esquecimento como remédio. Deixaria de ser eu mas seria outro eu, outra coisa, um vazio preenchido. Brilha o sol lá fora. E brilha também hoje.
O dia de hoje é qualquer coisa de fevereiro do mesmo ano de dois mil e onze e, do céu, descem furiosas gotas de água e pedras de gelo sobre quem passa. Quando o sol imprevisto, loucura de dia cinzento, incide nas poças de água que se formam aqui e ali, junto aos passeios, antes de serem esvaziadas pelo passar dos carros, a pedra da muralha de Évora fica cor de terra seca e de seara madura, lugar comum por estes lados. Toca a esta hora o sino fraco a avisar quem veio ver os mortos, seus ou alheios ao cemitério.Ouve-se o sino ao sol, como se caísse lentamente a noite e precisassem os mortos de ficar em casa, sem mais incómodos de visitas. Dentro das paredes do cemitério nada haverá, além de morte e, nessa morte de sepulcros brancos de mármore e corpos deitados, de terra seca e molhada, há todo um cenário de raios de luz amplificados, uma claridade paradoxal que atrai, muito além dos ciprestes de má fama. Diz-se, não importa se é assim ou não, que na morte se atravessará um túnel e haverá uma luz extasiante que cega e tudo o mais. Há, num cemitério de túmulos brancos de mármore, em momento de loucura solar, luz mais do que suficiente para que um vivo sinta que não está no seu mundo. Que não se percam os vivos em cemitérios destes, pensariamos nós. Toca, último aviso, a sineta que avisa os vivos. A hora avança e faltam agora três minutos para as dezassete. Sai quem tem hora para sair, fica quem não respeita já ou nunca respeitou essas convenções. Não usarão relógio os mortos do cemitério dos Remédios, em Évora, aqui ao lado do carro onde espero que a aula de música do meu filho acabe. Vai chover outra vez quando abro a porta do carro e saio.
O dia de hoje é qualquer coisa de fevereiro do mesmo ano de dois mil e onze e, do céu, descem furiosas gotas de água e pedras de gelo sobre quem passa. Quando o sol imprevisto, loucura de dia cinzento, incide nas poças de água que se formam aqui e ali, junto aos passeios, antes de serem esvaziadas pelo passar dos carros, a pedra da muralha de Évora fica cor de terra seca e de seara madura, lugar comum por estes lados. Toca a esta hora o sino fraco a avisar quem veio ver os mortos, seus ou alheios ao cemitério.Ouve-se o sino ao sol, como se caísse lentamente a noite e precisassem os mortos de ficar em casa, sem mais incómodos de visitas. Dentro das paredes do cemitério nada haverá, além de morte e, nessa morte de sepulcros brancos de mármore e corpos deitados, de terra seca e molhada, há todo um cenário de raios de luz amplificados, uma claridade paradoxal que atrai, muito além dos ciprestes de má fama. Diz-se, não importa se é assim ou não, que na morte se atravessará um túnel e haverá uma luz extasiante que cega e tudo o mais. Há, num cemitério de túmulos brancos de mármore, em momento de loucura solar, luz mais do que suficiente para que um vivo sinta que não está no seu mundo. Que não se percam os vivos em cemitérios destes, pensariamos nós. Toca, último aviso, a sineta que avisa os vivos. A hora avança e faltam agora três minutos para as dezassete. Sai quem tem hora para sair, fica quem não respeita já ou nunca respeitou essas convenções. Não usarão relógio os mortos do cemitério dos Remédios, em Évora, aqui ao lado do carro onde espero que a aula de música do meu filho acabe. Vai chover outra vez quando abro a porta do carro e saio.
16/01/11
Começou, a dada altura, não interessará muito precisar quando, a falar com os pássaros. Primeiro encostava-se à parede do lado de fora da casa a remoer a solidão. Estava só e a casa parecia-lhe mais húmida, mais escura, sobredimensionada. Não formulou as coisas assim. Faço-o eu porque li isto nos seus olhos. Impossível sair para outra casa, outro lar, outra promessa de conforto para uma determinação impenitente de se arrastar pelo final da vida, à laia daquele sono que começa a chegar prematuramente ao serão. Em criança tinha o hábito de falar com os pássaros e os irmãos diziam-lhe que era meio aluada. Depois passou-lhe, disseram os irmãos também. Fez a vida toda, quase noventa anos de noite, dia, chuva e sol, rotina cósmica. Partiu o marido, ficaram os filhos, somaram-se as perdas, vieram os netos. Cediam as peças da sua infância, da juventude, da guerra, de mulher madura, uma por uma.
Passou a fechar a porta da frente, a que dava para a rua. Restringiu o seu mundo à porta que, da cozinha, dava acesso ao quintal, nas traseiras da casa.
Passou a fechar a porta da frente, a que dava para a rua. Restringiu o seu mundo à porta que, da cozinha, dava acesso ao quintal, nas traseiras da casa.
Começou, a dada altura, a falar com os pássaros.
Dava-lhes os seus pesadelos meio difusos e o arroz que não comia. Traziam-lhe os pássaros uma paz sem compromissos, uma gratidão feita de bicos e penas, sob o limoeiro. Carregavam no voo as penas dela, uma ou outra lágrima. Por vezes riam-se muito, ela e os pássaros. Falou nisso ao neto. Ele sorriu e teceu um comentário qualquer que soou a veredicto cinzento de senilidade. Provavelmente, sempre falou com os pássaros. Lembrou-se o neto de, um dia, ter visto a avó a guardar na mão um pardal caído do ninho. Fez a avó uma tala para o pardal. Lembrou-se o neto de que a viu falar para a palma da mão, um murmúrio, um sopro de vida que o levantou um pouco do chão. Ao voltar da escola, perguntou-lhe o neto pelo pardal e respondeu a avó que o pardal tinha ido à vida dele, que "estar por aqui onde ninguém sabe falar com ele, onde ninguém voa e onde toda a gente lhe pode fazer mal... tu não gostavas, pois não?" Pensou mais tarde o neto que o pássaro tinha morrido e que aquilo fora conversa para consolar criança. Pensou o neto, vinte anos mais tarde, que isto de falar com os pássaros era coisa que a avó sempre tinha feito. E, já de regresso à sua casa, pensou naquela cumplicidade e em como a avó era mais do ar já do que da terra. Dir-lhe-ia, na próxima visita, que a compreendia, que percebia e que achava bem que ela tivesse aqueles amigos, procurando não parecer um pai que aceita os amigos do filho adolescente como uma inevitabilidade, ou um neto condescendente face à aurora suave da demência.
Nunca chegou a dizer, como seria previsível, como sempre acontece quando contamos estas coisas que são verdade ou não. Nunca dizemos tudo. Por vezes, vezes demais, não dizemos absolutamente nada. Perdemos a coragem, perdemos o tempo e as oportunidades são pouco complacentes para connosco.
Começarei a falar com os pássaros.
04/01/11
Se te perguntar coisas banais, como 'a que te sabe a água', o que responderás?
Provavelmente responder-me-ás que não tenho legitimidade, de qualquer natureza, cheiro ou formato para o fazer. Dir-me-ás que me intrometo, que faço correr ligeira a lâmina de uma qualquer foice em seara alheia. Ficarás descansado quando deixar de me preocupar contigo. Sentirás um alívio feito todo todo de coisas banais, daquelas sobre as quais não te pergunto nada, de água mole.
Sairás de casa apenas porque sabes que ela não pode seguir-te, a casa. Queres algo dramático? Sabe que ouvirás, à noite, os cães vadios a latir...
-Boa noite. Tudo bem? Que tal o dia?
-Estava para aqui a fazer a lista das compras... Tudo bem.
-Ainda bem. Estou exausto, vou-me deitar.
-Fazes bem.
... e vais saber que ladram à minha passagem. Que virei todas as noites atormentar-te nesse teu sossego de dormir ao fim do dia, morto-vivo. Onde estiver, ser-me-ás indiferente, mesmo quando passar para que os cães dobrem por ti.
Papel sobre a mesa. Sabe ler mesmo quem tem vida de cão. Dorme.
30/12/10
Para além do frio magnético, para além da Morte em campos azuis, segue o meu desejo de devorar searas sem rasto de destruição.
De sangue, luz, palavras e sabedoria bizarras se fizeram milagres em batalhas e se acumularam corpos com pouca ou nenhuma vida. Baralhos de corpos sem Rei dispostos por naipes. Ao longe, bem longe mas ainda do lado de cá do horizonte plúmbeo, fogueiras ardem. Alguém saberá por que razão aquela madeira arde e porque se eleva o fogo.
Para além do que foi, muito além do meu desejo, ardem searas já ceifadas e limpos ficam os campos.
Para além de mim, são percorridos campos como sinal de respeito, a pé, em passo certo e grave, olhos nas fogueiras extintas ao fim da noite.
24/12/10
Colecção de fósforos em noite fria, como a vendedora de fósforos da história que ouviste em casa quente, há anos. Guardas os fósforos, tentas que se mantenham secos. Não chove, apenas fica mais frio. Vão desaparecendo as pessoas da rua. Ficas com a rua e o frio todos só para ti e para os outros como tu, pouco te importa. Lá para meio da madrugada, conseguirás dormir, animal sobrevivente, enrolado nos cobertores velhos, nos jornais novos, presente do Deus Menino. Adormeces então e sonhas. Com fósforos e gasolina incendeias o mundo de uma raiva nova, toda tua e rebenta a tua Revolução, feita de fogo e mágoa à beira-dor plantada, à Tua imagem e semelhança, carne da tua carne. Do calor do sonho morto nascerá a possibilidade de um novo amanhecer. Encher-se-á a rua de gente feliz, como nas histórias, ainda que seja para contrastar contigo neste cenário de ricos e pobres, felizes e caídos em desgraça. Serás figurante na tua própria vida e olharei para ti, ao passar. Pensarei como poderia fazer algo por ti, se e se e se. De se em se até à porta do meu carro aquecido, na minha vida infeliz de acordar difícil.
Quando chegar a Hora da tua Revolução, pedirei que me leves contigo, a mim, àqueles que precisam de fogo, numa noite em que correremos pelas ruas e lançaremos chamas e caos pela cidade.
Natal.
Quando chegar a Hora da tua Revolução, pedirei que me leves contigo, a mim, àqueles que precisam de fogo, numa noite em que correremos pelas ruas e lançaremos chamas e caos pela cidade.
Natal.
11/12/10
Teces teias. Teces incansáveis teias, como tu, incansável nesse tecer de cordões umbilicais feitos fibra dura. Não será por mal, dizes tu, e teces teias. E na teia tecida e por tecer, vibram as presas da tua necessidade de estar omnipresente, de reduzir a identidade ao tempo em que não se era ainda, ao tempo em que o todo organicamente existia. Teces teias e incitas a uma violência de subentendidos e insinuações. Não é por mal, dizes, e teces teias de vício, sempre velho, de pretenso messias, comandante de oníricos exércitos redentores. Teces e teces até à náusea, a tua própria própria teia, a tua própria náusea. Pode acontecer que te tenhas erguido do pó ao conceberes essa ideia seminal de que, sem as ditas e reditas teias, não podes sobreviver, de que a ausência de tensão equivale a vazio ontológico. Talvez o tempo, a vontade ou a falta desta te privem do amor, daquilo que não é compatível com jugos, juros e cobranças, de ver que a liberdade implica o Todo. Ninguém que teça ou caia numa teia experimentará sequer o voo emancipatório.
Vidas de voo em simulador, vidas pesadas. Seria bom experimentar a leveza de tentar viver.
O amor tece luz entre as vidas e escreve, em caligrafia clara, Cartas de Alforria. Acredito que o hábito pode não fazer o escravo, mas deduzo que não escreverás a tua. As Cartas de Alforria não são para quem pode, são para quem Quer.
Vidas de voo em simulador, vidas pesadas. Seria bom experimentar a leveza de tentar viver.
O amor tece luz entre as vidas e escreve, em caligrafia clara, Cartas de Alforria. Acredito que o hábito pode não fazer o escravo, mas deduzo que não escreverás a tua. As Cartas de Alforria não são para quem pode, são para quem Quer.
"[...] a liberdade, unicamente a liberdade."
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego)
08/12/10
A distância faz-se de fios entretecidos e de fumos de escape.
O correio atravessa as linhas paralelas do eléctrico e faz-se luz num sortilégio de pólvora.
A cortiça flutua em pântano.
A corrida começa sem disparo de pistola e sem barreiras por obstáculo.
O papel recebe palavras que a chuva leva e o chão desfaz à passagem dos sapatos e dos pneus dos automóveis sem dor.
O corredor da casa perdeu o norte nessa causa de ser artéria de quartos de hotel.
Foge a fuga, morre a morte, hoje.
Fecham-se as sagas com dragões e heróis de capacetes flamejantes, poderes desconcertantes, e coisas terminadas em antes, como dantes.
Morrem as sagas pelas chamas, ardem os livros sem fuga.
Voa a morte, voa a morte, voa a morte, plana. Plana a morte porque gosta de planar, como a carta pela ranhura da caixa de correio pantanoso.
Desce o eléctrico nos carris chuvosos. Desce até à artéria central da cidade, num sublime banho de explosivos coloridos e de aromas estivais.
Desce o eléctrico enquanto a morte plana, ambos serenos, ambos serenos.
O correio atravessa as linhas paralelas do eléctrico e faz-se luz num sortilégio de pólvora.
A cortiça flutua em pântano.
A corrida começa sem disparo de pistola e sem barreiras por obstáculo.
O papel recebe palavras que a chuva leva e o chão desfaz à passagem dos sapatos e dos pneus dos automóveis sem dor.
O corredor da casa perdeu o norte nessa causa de ser artéria de quartos de hotel.
Foge a fuga, morre a morte, hoje.
Fecham-se as sagas com dragões e heróis de capacetes flamejantes, poderes desconcertantes, e coisas terminadas em antes, como dantes.
Morrem as sagas pelas chamas, ardem os livros sem fuga.
Voa a morte, voa a morte, voa a morte, plana. Plana a morte porque gosta de planar, como a carta pela ranhura da caixa de correio pantanoso.
Desce o eléctrico nos carris chuvosos. Desce até à artéria central da cidade, num sublime banho de explosivos coloridos e de aromas estivais.
Desce o eléctrico enquanto a morte plana, ambos serenos, ambos serenos.
27/11/10
'Segredo' era a palavra por derás dos olhos dela, dizia-se a si próprio. Quando, num jardim, olhava as flores presas à raíz, pensava em como a beleza, aquela beleza, está sempre refém de algo e, talvez, de alguém que a nutra. Por detrás dos olhos dela sentia um outro tipo de palavras para significar beleza. Livre, absoluta, devastadora, o segredo.
Viu-a partir, dona de si, do seu jardim, da sua beleza, alheia ao amor alheio.
Todos os dias passava fazia aquele caminho, na esperança de que a porta se abrisse e por ali passasse aquele olhar-segredo que se cruzaria com o seu. Viveu suspenso entre o medo e a esperança. Irmãos de sangue, o medo e a esperança.
Hoje, repito, hoje, viu-a partir, dona de si, alheia ao amor alheio, com uma pequena mala e um andar de despedida. Eram quase nove horas, das da noite, e ainda havia luz de sol suficiente para distinguir as cores do vestido tépido, as alças finas, os ombros esplendentes nos quais carregou, até à esquina e nunca saberemos por onde mais, o desejo alheio. Mais umas horas e a lua nova inundaria tudo com a sua sombra. Tudo.
Viu-a partir, dona de si, do seu jardim, da sua beleza, alheia ao amor alheio.
Todos os dias passava fazia aquele caminho, na esperança de que a porta se abrisse e por ali passasse aquele olhar-segredo que se cruzaria com o seu. Viveu suspenso entre o medo e a esperança. Irmãos de sangue, o medo e a esperança.
Hoje, repito, hoje, viu-a partir, dona de si, alheia ao amor alheio, com uma pequena mala e um andar de despedida. Eram quase nove horas, das da noite, e ainda havia luz de sol suficiente para distinguir as cores do vestido tépido, as alças finas, os ombros esplendentes nos quais carregou, até à esquina e nunca saberemos por onde mais, o desejo alheio. Mais umas horas e a lua nova inundaria tudo com a sua sombra. Tudo.
21/11/10
memorāre
Sabes bem que perdes a memória. Se há coisa que sabes, por paradoxal que pareça, é isso. Tudo o resto te vai passando ao lado, a tua própria sombra. Nada mais parece restar, então. Ficou-te o piar da coruja, à noite, e o cantar do galo pela manhã. Isso te servirá de recordatória de que o sol desce e sobe num horizonte que já nem é teu.
Sabes bem que perdes a memória. Se há coisa que sabes, por paradoxal que pareça, é isso. Tudo o resto te vai passando ao lado, a tua própria sombra. Nada mais parece restar, então. Ficou-te o piar da coruja, à noite, e o cantar do galo pela manhã. Isso te servirá de recordatória de que o sol desce e sobe num horizonte que já nem é teu.
À tua volta degenera tudo o que os teus sentidos alguma vez alcançaram. Dilui-se, em tudo, o sentido primeiro. Não te reconheces, não reconheces ninguém, não conhecerás ninguém mais. Sabes apenas que perdeste a memória ainda que já não te faça diferença se ainda tens alguma noção do que isso é.
Viveste os teus dias com a angústia de uma morte próxima, o nariz apurado para sentir à distância algum mal difuso pronto a corroer-te o corpo e levar-te daqui numa espiral de dor física e sofrimento que sempre afirmaste como insuperável. Agora, que isto te vai apagando com paciência, não podes sentir o gozo fundo do único prazer que te poderia dar: o seres embalado para a morte, docemente talvez.
12/11/10
O som dos pés nus ao subir a árvore, o toque da tua mão no meu cabelo, memórias pueris forjadas pelo desejo, como outras. O rodar num campo indefinido até cair e o ver-te cair e tentar proteger-te na queda.
O perfume da erva, da qual escusadamente se dirá que era verde, verde, um fundo de mar, iludido pelo teu perfume doce de frutos e resina.
Faz-se o presente desse cimento colorido, desejo nascido antes de tudo o resto, memória eventual.
O perfume da erva, da qual escusadamente se dirá que era verde, verde, um fundo de mar, iludido pelo teu perfume doce de frutos e resina.
Faz-se o presente desse cimento colorido, desejo nascido antes de tudo o resto, memória eventual.
Perto do espelho, onde a espessura da máscara diminui e se liquefaz, sinto-me estranho. O meu compromisso com o que sou não me deixa tanto espaço para o compromisso com o que tenho sido. E sou o mesmo, sendo outro, mais autêntico. No reajustamento da minha configuração tectónica, é complicado compreender a amplitude dos abalos. E há pequenos sismos, consistentes, com réplicas diárias que têm aroma de verdade.
E vai-se diluindo a estranheza, talvez. E vai ficando menos pesado o acordar pesado para o dia que queria riscar do calendário.
E vai-se diluindo a estranheza, talvez. E vai ficando menos pesado o acordar pesado para o dia que queria riscar do calendário.
11/11/10
Exponho a luz, disponho objectos, um por um, no parapeito da janela.
Iluminados, perdem o medo, os objectos.
Diria que ganham uma vida, se o fosse, mas é apenas uma foto-vida, proto-vida.
Colocaria à janela a vida-objecto, como luz, fruta madura até decompor.
Tudo o que é são terá de deixar de o ser: evidência dispensável.
Dispus-me, um por um, no parapeito da janela a amadurecer.
O resto será evidência dispensável.
Iluminados, perdem o medo, os objectos.
Diria que ganham uma vida, se o fosse, mas é apenas uma foto-vida, proto-vida.
Colocaria à janela a vida-objecto, como luz, fruta madura até decompor.
Tudo o que é são terá de deixar de o ser: evidência dispensável.
Dispus-me, um por um, no parapeito da janela a amadurecer.
O resto será evidência dispensável.
09/11/10
Partes em viagem e ecoa o destino no ruído da partida.
No dia em que todos fossemos felizes, haveria uma guerra, inventariamos um qualquer sistema que trouxesse o Inferno de volta. O meu Inferno sou eu e a minha necessidade vital de tensão, ainda que seja entre o ócio e o negócio.
"Contra os canhões, marchar, marchar..." Há qualquer coisa de muito errado em cantar isto com a mão no peito e uma lágrima histérica ao canto do olho.
(Se calhar venho aqui apagar isto, dentro de umas horas. Deve chamar-se a isto o direito de retirada de um post.)
No dia em que todos fossemos felizes, haveria uma guerra, inventariamos um qualquer sistema que trouxesse o Inferno de volta. O meu Inferno sou eu e a minha necessidade vital de tensão, ainda que seja entre o ócio e o negócio.
"Contra os canhões, marchar, marchar..." Há qualquer coisa de muito errado em cantar isto com a mão no peito e uma lágrima histérica ao canto do olho.
(Se calhar venho aqui apagar isto, dentro de umas horas. Deve chamar-se a isto o direito de retirada de um post.)
07/11/10
Fala o ditador frente a uma fila de cadeiras vazias, agita os braços.
Move-se o histriónico agitador, conformado na sua agitação.
Agita-se o animal no estábulo, antecipação fremente de cio, aventura, morte, tudo rotina.
Fala o louco com o sol, agita os braços.
Fala o louco com o sol, agita a consciência do sol.
É um agitador, o louco.
Liberta o louco os animais presos e diz-lhes que podem sonhar ao sol.
Faz falta tudo menos medo, ao louco e aos animais que sonham ao sol.
Ao ditador falta-lhe sol e a consciência agitada do sol, sem braços agitados, os dele e os do sol: para o ditador, tudo carece de explicitação.
E falta-lhe gente nas cadeiras.
Sonham com ele, ditador, as pessoas em casa, nas suas camas de sono e paixão.
Sonham um sonho curto no qual ele ocupa o estábulo, sem sol.
Agita-se o ditador no estábulo, antecipação de uma rotina de ditador torpe.
Agita-se a consciência do sol.
Liberta-se o sol e enche-se a fila de cadeiras frente ao púlpito do ditador orador de estábulo.
Incandesce o sol um sonho súbito.
Move-se o histriónico agitador, conformado na sua agitação.
Agita-se o animal no estábulo, antecipação fremente de cio, aventura, morte, tudo rotina.
Fala o louco com o sol, agita os braços.
Fala o louco com o sol, agita a consciência do sol.
É um agitador, o louco.
Liberta o louco os animais presos e diz-lhes que podem sonhar ao sol.
Faz falta tudo menos medo, ao louco e aos animais que sonham ao sol.
Ao ditador falta-lhe sol e a consciência agitada do sol, sem braços agitados, os dele e os do sol: para o ditador, tudo carece de explicitação.
E falta-lhe gente nas cadeiras.
Sonham com ele, ditador, as pessoas em casa, nas suas camas de sono e paixão.
Sonham um sonho curto no qual ele ocupa o estábulo, sem sol.
Agita-se o ditador no estábulo, antecipação de uma rotina de ditador torpe.
Agita-se a consciência do sol.
Liberta-se o sol e enche-se a fila de cadeiras frente ao púlpito do ditador orador de estábulo.
Incandesce o sol um sonho súbito.
06/11/10
Não podes ser poeta.
Nunca. Sabes isso.
O poeta não é ridículo nem seria tolhido pelo medo se o fosse, é poeta.
Não permitas que o teu desejo te ludibrie com a promessa antiga de que tudo, até o verbo, pode ser teu se te entregares.
Não podes ser poeta porque não conseguirás dizer com uma única palavra o que é o mundo enquanto te propões incendiá-lo por amor, nem conseguirás nunca possuir as palavras e dar-lhes a liberdade maior.
Não tens talento para cantar a vida ou a morte. Viverás com a Grande Negação a guiar-te e passarás tempo a ruminar a vida enquanto esperas que a morte te ajude a mudar o curso dos teus dias.
Não serás poeta.
Não podes sê-lo.
Não és correspondido nesse amor doentio pelas palavras. Serão sempre elas, prenhes de condescendência, quem te passeará por uma rua esconsa, ocultação de significado letal. Serás, talvez, num vislumbre de justiça pobre e consoladora, o fiel cão das palavras.
Não serás poeta.
Nunca.
Nunca.
Nunca. Nem tenhas a veleidade de o ser na próxima Segunda-feira, no Domingo passado, nos dias varridos pela ira, nas horas em que achas ser paz o que respiras.
Não podes ser poeta e consumir-te-ás nessa ausência: oráculo infalível.
Não podes ser poeta sendo tu.
És nada e nada não pode ser poeta. Nunca.
Nunca. Sabes isso.
O poeta não é ridículo nem seria tolhido pelo medo se o fosse, é poeta.
Não permitas que o teu desejo te ludibrie com a promessa antiga de que tudo, até o verbo, pode ser teu se te entregares.
Não podes ser poeta porque não conseguirás dizer com uma única palavra o que é o mundo enquanto te propões incendiá-lo por amor, nem conseguirás nunca possuir as palavras e dar-lhes a liberdade maior.
Não tens talento para cantar a vida ou a morte. Viverás com a Grande Negação a guiar-te e passarás tempo a ruminar a vida enquanto esperas que a morte te ajude a mudar o curso dos teus dias.
Não serás poeta.
Não podes sê-lo.
Não és correspondido nesse amor doentio pelas palavras. Serão sempre elas, prenhes de condescendência, quem te passeará por uma rua esconsa, ocultação de significado letal. Serás, talvez, num vislumbre de justiça pobre e consoladora, o fiel cão das palavras.
Não serás poeta.
Nunca.
Nunca.
Nunca. Nem tenhas a veleidade de o ser na próxima Segunda-feira, no Domingo passado, nos dias varridos pela ira, nas horas em que achas ser paz o que respiras.
Não podes ser poeta e consumir-te-ás nessa ausência: oráculo infalível.
Não podes ser poeta sendo tu.
És nada e nada não pode ser poeta. Nunca.
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