Diariamente
passo por ali, a curva à direita, o semáforo intermitente, as duas igrejas frente a frente
e, à esquerda, os portões do cemitério, com o muro, fronteira com a empresa dos
autocarros, uns metros mais à frente. Gente com malas, estudantes, como dantes os tropas à saída do
comboio. Mais gente às sextas que nos outros dias, tudo previsível, pelo
carreiro em terra batida junto ao muro do cemitério, mais seguro que o percurso
paralelo carregado de carros estacionados sem espaço para passos de pessoas. Ao
domingo seria natural que passasse mais gente também, em direcção ao centro da cidade.
Detesto os domingos e nunca me apetece pensar o que se passa nos domingos à
medida que a noite se aproxima. Invariavelmente pensaria em casais de velhos
sentados em cadeiras de pau e buinho, velhas e direitas demais para costas
vergadas pela gravidade, metáfora ostensiva de corpo puxado para a terra.
Olhariam para a televisão, num consenso velho relativo ao programa a seguir. A
luz seria fraca, emitida do centro do tecto da sala adjacente à pequena cozinha.
Haveria no ar um resto da canja do jantar do dia, um muito ligeiro aroma a ranço
do toucinho, colocado ao ar no prato branco de faiança, em cima da bancada de mármore,
protegido com um pano. Teriam uma manta meio húmida sobre os joelhos, talvez
simetricamente partilhada se se dessem bem, se a vida não tivesse sido toda como um domingo à
noite, tal como eu os vejo, aos domingos. Por tudo isto, não penso em domingos à noite e faço disso um princípio que
posso quebrar se me apetecer porque não devo coerência, nem a nada, nem a
ninguém.
...
Hoje seria eu isto: mesa larga, em pinho já um pouco escurecido, mais pelo tempo que por eventual verniz. Sobre a mesa, folhas e folhas, predominantemente brancas, predominantemente em formato A4, umas seriam poemas, outras contas por pagar, recibos de bilhetes de avião, declarações de amor, ameaças anónimas e assinadas, cartas recebidas, histórias oferecidas por amigos, certidões de coisas, registos, óbitos, desenhos oferecidos por crianças, como declarações de amor. Hoje seria incapaz de os arrumar, aos papéis, sei apenas que estão lá, olho-os e sei que sou aquilo tudo. Previsível retrato compósito desmontável e de pacotilha. Hoje seria eu isto. Amanhã será domingo e, no dia seguinte, passarei por ali, a curva à direita, o semáforo intermitente, as duas igrejas e, à esquerda, os portões do cemitério ladeados de muro branco, em formato A4, à escala dos meus dias.
(aos meus amigos x. e p., porque me enviaram um postal, me ofereceram um conto e me afirmaram que se deve celebrar a amizade, mesmo aquela que é só feita de troca de palavras. ajuda a prencher o lado caloroso da mesa e a esquecer as contas, todas as contas, as pagas e, especialmente, as por pagar.)
(aos meus amigos x. e p., porque me enviaram um postal, me ofereceram um conto e me afirmaram que se deve celebrar a amizade, mesmo aquela que é só feita de troca de palavras. ajuda a prencher o lado caloroso da mesa e a esquecer as contas, todas as contas, as pagas e, especialmente, as por pagar.)