30/11/12

bom fim de semana, desliga as luzes à saída

Exílio. Portas fechadas por medo de frio. Agitam-se milhares de pequenas flores amarelas sobre um verde de ervas húmidas. E sempre o muro branco do qual já ninguém te pode ouvir falar. Já o descreveste, por escrito, em cartas e outras formas de te fazeres chegar aos que julgas estarem do outro lado. É assim que falas. Existes tu e o outro lado. As lâmpadas fluorescentes velhas criam o que tu, há uns anos atrás identificavas como a luz artificial numa casa estranha, num país longínquo para o qual tivesses sido obrigado a ir, com frio. Nunca foste e sentes frio, o frio fluorescente das lâmpadas compridas e espaçadas no tecto. Começaste a clamar, há pouco tempo, a tua vontade de viajar, de sair deste aqui. Sabes que não conseguirás porque o teu exílio és tu e tudo o que consegues ver é o tejadilho dos autocarros por cima do topo do muro branco. E fechas portas e janelas, com medo de tudo. Fazes do acto de adiar a tua libertação, sabendo que estás sempre mais e mais enredado nesse incumprimento, que são essas as raízes que contra ti alimentas. És assim, o que posso dizer-te que tu não saibas já? Ainda assim, hoje posso fazer de conta de que não te perdeste e de que tens uma boa parte da tua vida à frente. Podemos fazer essa espécie de pacto e hoje é o dia de falarmos de hoje. Posso dizer-te que amanhã é podes ser outro, ser mais, ser melhor. Vais ouvir-me. Faz parte do pacto fazeres a tentativa de me tranquilizar, de que ficaste motivado. Amanhã não será hoje e este pacto não se mantém sempre. Sei que, um destes dias, vais olhar para o muro branco e não vais suportar mais. Aí vou receber um qualquer telefonema ou outra forma de te fazeres chegar até mim e vais pedir-me que não pense de ti o que tanta gente pensa. Sei o que isso importa para ti. Vou imaginar-te a saltar o muro branco. Tudo isto soa a xarope sentimental sobre amizade, sabes isso não sabes? Ainda assim, mais uma vez, hoje é também dia disso. Amanhã é dia de sair ao frio e esperar que me chegem notícias de que deixaste o exílio. Expectável.

24/11/12

zero


Chegas a casa. O cheiro da rua ainda em ti, algo de selvagem que já incorporaste, hábito de palmilhar a cidade em alerta. Olhas-me sem desejo, sem o desejo do interior da casa. Acendes a lâmpada pendurada do centro do tecto, uma lâmpada sem qualquer protecção, despojada. Olhas-nos como dois versos sem possibilidade de rimar. Sais, enquanto te imagino morna e nua; tu, se me imaginas, ver-me-ás vestido com roupa invernosa e à chuva. Não nos voltaremos a ver. Sempre te li como uma peça de teatro, sempre te escreveste em poesia. Nunca aprenderemos a ler-nos.

-1

O papel era chinês, uma luz chinesa, que ele sabia ser chinesa, sem nunca ter estado na China. Era algo que sabia por intermédio dos sonhos nos quais uma mão gigante de Deus lhe revelava a sua filiação profunda, cenários, texturas, tudo como se tivesse vivido em outros lugares e como se lhe fossem familiares sabores de legumes exóticos cozinhados em furna de enxofre. O papel forrava a parede e podia sentir-se o quase  relevo alongado de bagos diminutos, bagos de arroz sobre cimento suave. Ao lado alguém foheava um livro volumoso de ciência, daquela ciência que faz avançar o mundo, que o dá a conhecer sem qualquer tipo de piedade. Era crua, a realidade, e nada o podia proteger da sua rugosidade. A janela fechava mal e, por falta de dinheiro para a mandar arranjar, por falta de habilidade para o fazer ou por um conjunto de factores sem poder para fazer correr sangue, o ruído de fora entrava, não como se estivesse aberta a janela. Dou outro lado o muro branco da casa do vizinho, um branco europeu, sem arroz na parede, ar nacional, coisa conhecida, nada de ar cosmopolita a ser respirado como língua estrangeira. Ali se manteve, enquanto as mentiras fumegavam entre as duas camadas da perede dupla da casa, mentiras sobre o que é, o que não é e o que se recusa a ser. Tudo isto é material combustível, tudo isto poderia ser agora usado para um Auto de Fé, sem culpas, sem lamentos, sem vozes a chamar pela mãe em caso de pânico. Tudo bem visto, haveria letra para música no inferno pessoal de cada rato no porão do seu barco privativo a afundar.

19/10/12

falar do tempo, oportunidade perdida para ficar calado

Pode acontecer que ainda tenhamos tempo. Pode acontecer que tudo se passe em câmara lenta.
Regressa a casa, dizem-te. Que encontres as raízes e o sabor da sopa da tua infância, o toque que te fez homem, palavras de amigo que te quer bem. Isso te fará fechar o círculo da vida, da tua, pelo menos.
Olhas o sol pela janela, igual ao de outros outonos, demasiado igual. Sabe-te bem mas é igual sobretudo ao do outono passado e queres assumir que não queres fechar círculos, muito menos o da vida, o da tua. E se o conforto do conhecido te sabe a serão à lareira, com frio lá fora, equacionas se não queres esse frio todo e a nudez total, até que nisso encontres conforto.
Pois digo-te que estou como tu, nessa passagem, sem preparação para encontrar as pontas da linha, sem perpectivas de fechar círculos do que quer que seja. E digo-te que o frio do inverno me vai saber melhor que o sol do outono. Vou-te falar do frio do inverno, um dia destes, talvez mesmo esta noite. Agora não.

18/10/12

+ 99 palavras ridículas e pretensiosas

Há uma muralha entre duas palavras. Entre elas, range todo o espaço sob pressão. Há uma barreira entre duas muralhas feitas por mão humana. Há uma solução para tudo o que se complica, ar a deslizar por entre as fibras de um tecido. Há um cipreste urdido por ódios velhos e cartas sem remetente, venenos a embeber as fibras de um tecido. Há coisas sem sentido que se organizam para que possamos respirar e escrever manifestos. Guerra declarada entre dois rios separados à nascença é obra de demónio sem nome a arrastar-se pela sua própria voz, impotente de palavras.

16/10/12

dias a meio e fins de dia com procissão


Nada mais do que laranjas a brilhar ao longe. Roupa estendida, sem queixumes por haver vento na aldeia vizinha. Chega agora o fim do dia, hora de conforto e fronteiras lassas. Haverá alguém que retire o pão do forno para ser lido todo aquele cheiro a casa de tias, com canecas em prateleiras festivas a celebrar revolução no país ao lado. Passou ali procissão, no ano passado, dia de visita pascal feita pela culpa antecipada de morrer toda a família e não se ter olhado uma última vez tudo aquilo com todos vivos. É sempre dia de qualquer coisa, dia de fim. É sempre fim de qualquer coisa e morre sempre mundo por se perder algo dele. No ano passado passou a procissão e todos na rua, com luzes eléctricas amarelas, murchas, a chamar contrabando. Todos como se Deus estivesse ainda vivo e não fosse já um último acto repetido em ensaio final. É hora de adjectivos. A camisa fora das calças do primo mais velho, a mão paralela à perna, o cigarro a meio de queimar entre dois dedos. Passa a procissão e o primo mais velho não fuma em sinal de respeito. Agonia de cigarro em dia de ensaio itinerante de Paixão, com banda filarmónica de recurso. Sorri em desafio e o primo olha para baixo com ar de Está quieto, não vês que passa a procissão? Imita o primo e pensa nas laranjas sem culpa, à entrada da aldeia, e na azinheira que ladeava o sinal de trânsito a avisar de perigo por poderem andar animais à solta. Termina a procissão e acende o primo outro cigarro enquanto lhe sai a cara de reprovação. Há que ser sério quando se vê teatro e, se calhar, quando se recolhe a roupa para que não comece a embeber a humidade da noite e o cheiro ao fumo das casas todas com fogo controlado. Retira-se a roupa, vacina para humidade, e come-se o pão à volta de mesa redonda, entre coisas como conversas, com pratos de esmalte brancos, debruados a azul e ferrugem, meio cheios de cozido de grão. Chegou a noite e, com ela, o sortilégio de ficar ali a saber coisas que podiam ser descritas, se alguém as visse: três pardais no varão ao lado do poço, no quintal; as irmãs solteiras ocultas na foto do casamento da irmã mais nova, na vitrine de canto, mesmo em frente; as migalhas do lanche debaixo da toalha que se pôs na mesa para o jantar. Virão algumas histórias, suspiros, queixumes, tudo com moderação e um Vamos deitar que se faz tarde... Lá fora, ao lado dos pardais, num banco de pedra, o primo lê um livro de filosofia e fuma um cigarro com a cabeça encostada à mesma mão que segura o cigarro. Pode-se fumar por respeito à filosofia mas não quando passa a procissão porque Parece mal. Lê o primo o livro, ensaia o ser filósofo inspirado por fumo e ar de noite. Morreu o cão de olhos pequenos que costumava ler livros com o primo e não veio outro cão para o seu lugar. Fim do cão, fim do mundo com o cão. Desde Fevereiro que o mundo deixou de ser como era com o cão e ninguém disse nada. Passa a luz pelo candeeiro a petróleo. Roda, à ladrão, o manípulo da torcida para aumentar a intensidade da luz. A chama alta vai borrando de preto a chaminé do candeeiro. Olha-o a tia mais velha Outra vez, diabo dissimulado? Não fala assim a tia mas ouve-a assim, não é a mesma coisa o que sai e entra, por mais que pese o mesmo e cheire à mesma coisa. Olha a luz que passa pela zona escura da chaminé e inventa histórias com as formas que vê. A sujidade na chaminé incomoda a tia e vai perturbá-la até conseguir lavar a chaminé. Lava a tia roupa, o candeeiro e tudo o que pode, excepto a noite. À noite, soube-o ele uns dias mais tarde, ninguém a pode lavar Porque ela esconde o espaço entre as páginas da história do fim do mundo.

14/10/12

«Nunca», «sempre», «talvez». Palavras que usas com prazer, disparadas, diria eu, sem critério. É antes o teu critério, o de quem não se revê na realidade. A realidade é, sem possibilidade de «talvez». E a realidade «nunca» é «sempre» da mesma forma, o que te agradaria, pelo potencial transgressor que te alimenta o desejo de ser, se não fugisse tudo isso à tua compulsão controladora. És tu e o labirinto de ti, Em cada caminho bloqueado, sentas-te e fazes dele a tua casa. Tens tempo, não queres verdadeiramente encontrar a saída. É uma forma de viver, talvez.

06/10/12

lugares comuns de proto-'road movie'. again? elementary, dear Dr.Sigmund?

Avançavam no carro. A estrada parecia alongar-se à medida do desejo. Talvez tivessem já passado por uma ou outra barreira policial, talvez mesmo. Uma das palavras preferidas de ambos, o talvez. 'Talvez' e 'terra batida', palavras que gostavam de integrar nas suas fantasias comuns. Até ao final da viagem, talvez acrescentassem mais uma ou outra a esta restrita lista. Talvez o fizessem, sem garantias. A própria viagem não parecia ter destino à vista ou objectivo claro, a não ser o de deixar à solta o desejo de fazer daqueles dias um road trip, sem América nem crime que justificasse fuga. O pai ainda lhe perguntou para que precisava do carro e porque não sabia o dia do regresso. Ele sabia que o pai não lhe exigiria respostas. Sorriu. Obteve de volta um sorriso e um 'não faças asneiras, Dário'. 'Ela também vai?' 'Talvez'. Sorriso. Ela ia. 'Não façam asneiras'. Sorriso. 'Telefonas?' 'Talvez.'

[Impunha-se aqui, narrativa curta, rasteira, pretensiosa, previsível e cabotina, com evocação de pseudo-cinema de adolescencia libertária, que houvesse um desfecho qualquer, um regresso com um filho nos braços, uma asneira que os colocasse na rota de uma fuga trágica, um nunca mais voltar para que o mistério trabalhasse até se cansar, um avanço no tempo da história a mostrar-nos um amanhã que seria um hoje, uma projecção de que talvez o desejo trazido à terra seja algo de gratificante, libertador ou, pelo contrário, o poço no qual germina a erva de uma qualquer desgraça em lume brando. Talvez fosse honesto que tomasse uma opção capaz de rematar de vez um parágrafo sem ambição. Talvez. Apetece-me especular]:

Falaram sobre o medo de morrer sem que tivessem visto o melhor da vida, medo de adolescente e de adulto que vira as costas ao imponderável convencido de que ser crescido é vestir os sonhos com o fato e a gravata da dignidade. Enquanto o carro avançava e ele lhe tocou com a mão nos joelhos, juraram que continuariam a andar mesmo que a noite estivesse fria e os sapatos gastos. Ela disse-lhe que tinha sede e pararam para beber e talvez ainda hoje bebam.  Acrescentaram 'sede' à lista de palavras favoritas para narrativas fantasiosas. Perceberam que o dia se segue à noite e a noite ao dia, algo com sabor a primeira vez, a descoberta, algo como perceber que a sede se mata com água e o desejo com calor e terra batida, se tiver de ser, porque os sabores e os aromas, o tecto e os murmúrios se vestem de forma diferente com o dia e a noite.
The end
[who cares about box office reports? go ahead, make my day!]

Citações e cartas que nem o lixo quer III

"Em tempos distantes, inexplicavelmente esquecidos pelos historiadores contemporâneos, era comum[...] todo um leque de manifestações às quais hoje, neste frenético e pseudo-exigente segundo quartel do século XX, classificaríamos jocosamente como pré-culturais. Homens e mulheres conviviam sem noção maliciosa dos pudores do corpo e sem a mácula castradora da moral punitiva que viria a retirar todas as possibilidades de não ser tomada como intencionalmente erotizada uma acção que, em momentos remotos da História dos comportamentos humanos, não seria mais do que um convite à festa e à fruição de um tempo, um espaço, um conjunto de conteúdos validados pela tradição."

Lénia Marques Gouveia, Génese, ascensão e queda da cultura popular.


Minha querida Prima,

estendido para aqui numa enxerga de luxo, entregue aos cuidados extremos de sua prima Doroteia, li com fulgor o seu delicioso livro. Hoje, só se pensa na cultura popular como número grotesco em feira no Fim-do-Mundo. Li-o, antes que a censura lho leve ou a leve a si, Lénia, a Corajosa. Dirão que o seu livro exalta os prazeres da carne e que é uma incursão pornográfica sem ciência nem mérito no estudo do comportamento humano. O Silveira Cardoso, afilhado do António Themudo, aquele meu colega do liceu, já me falou de si e da sua perigosidade, de como era uma mulher 'com mais gosto por armas de fogo que muitos homens'. Confesso-lhe que não reagi, quero-o como aliado para me poder antecipar e protegê-la. O meu furor em protegê-la é tal que a sua queridíssima Doroteia chega a sentir um certo ciúme inocente, porém mal disfarçado, que me faz rir, embora não devesse fazê-lo, por recomendação do Doutor Soutinho. Não tenho a tuberculose que todos receavam, mas tenho fraqueza de tísico. Envie-me, por favor, uma caixa com uma dezena de exemplares dessa sua pérola de saber e perspicácia. Guardá-los-ei em lugar seguro, para que o futuro lhe faça justiça, a si, como pessoa maravilhosa que é, e ao seu saber que eu proclamaria, se tivesse Fé, como dom do Espírito Santo.
A sua visita será sempre uma bênção, para nós e para os pequenos. Logo que esteja recuperado, reforçarei o convite. Estarão as amendoeiras em flor e exultaremos todos com a exuberância da natureza!
Um respeitoso e caloroso abraço dos seus primos
Francisco e Doroteia Porto

05/10/12

Ando contigo, algumas palavras, poucas convenções. Avançamos pelo caminho de terra, húmido o chão. Passa uma, outra pessoa, um ou outro par está por ali, como nós. Preenche-nos a luz fria de fim de dia em dia frio. Terra fria que nos faz sentir em casa, talvez por não o ser. Poderiamos ser outros, aqui, sendo os mesmos. Lugares comuns de quem está menos farto da vida do que do cenário no qual ela parece diluir-se. E vai-se fazendo noite, naquele parque, um recanto inesperado de uma Estocolmo estranhamente nossa. E poderia fazer-se amor ali, na espera do eléctrico de fim de dia, em dia frio. Penso que o fizemos, ou que nos sentimos como se o tivéssemos feito, a perceber como a noite demora mais a chegar apesar de chegar tão cedo. Seguimos, de mão dada, como se não nos pesasse a vida e a falta de dinheiro e o medo do futuro que já nos comeu uma parte do que havemos de ser, em notas de crédito e sonhos a cheirar a mundo rarefeito. E faz-se o futuro com memórias e lugares comuns, reconforta-se a memória com imaginação, tudo aquilo que nos pode roubar às arestas cortantes da lucidez.
Hoje fico contigo naquele fim de dia, a andar meio perdido. Sei que te lembras. Daqui a pouco vou perguntar-te. E talvez façamos amor ou algo nosso que faça a noite chegar mais tarde e ficar por ali a demorar. Hoje estamos vivos.

04/10/12

Que farei com estes pés quando tiver de os arrastar por um pó qualquer? Um dia, posso acordar sem sapatos, sem qualquer possibilidade de me vestir, sem uma camisa branca de tecido fino para pôr sobre o corpo amedrontado. Terei de fazer uma mala. Terá dentro um relógio de corda, algo com prazo de validade. Passarei a viver a preto e branco. Serei um pouco mais tolerante para com os erros gráficos, para com peças fora de sítio numa sequência, tentarei olhar para o imprevisível como se contemplasse um amigo há muito ausente. Talvez não seja assim tão rápido, talvez haja tempo para sentir a camisa branca de tecido fino sobre a pele e ficar por ali, a experimentar esse prazer sem custo nem culpa. Se me deitar com a face virada para o vento que corre, o ar fresco vai passar pelos pés, por entre os dedos, mais fresco onde tiver menos pó da estrada acumulado. Um dia, as palavras poderão abandonar-me, cansar-se de mim, desistir de mim. Que farei com os meus dias quando as palavras me abandonarem e o único sentido de mim for o encontrar pó por onde possa arrastar os pés descalços?

02/10/12

Citações e cartas que nem o lixo quer II

"O ser humano é sôfrego ao sobrevalorizar aquilo que desconhece. O desconhecido, sempre que lhe é apresentado como sinónimo de qualidade, tende a adquirir um estatuto de obra de arte, sem que o receptor saiba os critérios que terão levado a essa categorização. Toda a arte pode então ser uma falácia e, em bom abono da verdade, a quase totalidade de objectos, produtos, a que, não apenas o senso comum, mas sobretudo a auto-aclamada crítica,  decidiram classificar como arte, não passam de um logro acintoso, uma afronta à Arte dos clássicos, um consolo para a mente dessa abstracção que, tão convenientemente, se convencionou designar de Povo."

Xavier Freitas de Montalvão, O Resgate dos Clássicos e a Civilização Ocidental.


Estimado Montalvão,
Meu caro Xavier Maria, permita-me que o trate assim,

espero que esta missiva o encontre de boa saúde, com o corpo revigorado por essa permanência junto ao mar. Sei como isso é um mergulho na sua infância, uma aventura e um conforto em simultâneo. Reli, e comentei com a minha mui doce Cremilde, o facto de me sentir irmanado a si nesta sua demanda pela pureza da arte. Os propalados museus de arte contemporânea, esse flagelo da tão apregoada modernidade, provocam no meu ser um esgar que não sei se é de dor ou de do mais despudorado nojo.A arte do disforme, o elogio da falácia estética, esse libertino falar de excremento, utilizando toda uma terminologia a que só o Belo deveria ter direito, não é mais do que uma aberração que nos mostra o quão perto estamos de um Apocalipse cultural. E estamos, Xavier, não tenho a mais tímida dúvida.
Comprei também o novo livro do Teotónio Salgado, edição de autor que merecia divulgação planetária. Muitas verdades se revelam em escassas cento e duas páginas de amor pela Verdade. Vou enviar-lho para a sua casa de Cinfães, sei que vai agora para o seu retiro... Verá que até o título lhe vai dar um arrepio na alma, daqueles que nos mostram o dedo de Deus a dar bom senso a quem ainda tem coragem de lutar por uma Terra sem o maligno à solta.

Receba a minha amizade e admiração.
César Maciel Gouveia


08/09/12

Citações e cartas que nem o lixo quer I

"De todas as coisas que a humanidade criou para justificar o supostamente maior número de sinapses neuronais no cérebro humano, a literatura terá sido a mais inútil. De entre tudo aquilo que terá sido considerado como literatura, a ficção, por ser mentira, só é suplantada pela poesia no que se refere a algo que poderia ter sido abolido, apagado, votado a um total ostracismo sem que a humanidade com isso perdesse algo. Pelo contrário, ter-se-ia poupado à História a obrigação de carregar ao colo como filha essa bastarda disciplina que parece ser a história da literatura. Ter-se-ia poupado à humanidade magnífica falácia de que a subjectividade na leitura da realidade e o uso da linguagem para outro fim que não o de permitir o progresso em toda a sua objectividade podem conter a mais ténue réstia de virtude. Um poema não é muito mais do que uma gota de veneno civilizacional concentrado. A invenção de algo para ser narrado como sucedâneo da verdade está longe de ser visto como negativo mas o tempo dirá que a razão está do lado daqueles para quem a utopia seria o lugar da verdade e a negação desse paradoxo que é a ficção." 

Júlio Sousa Teles, O Homem, a Cultura, as Falácias do Século XX.

Caro Júlio,

lamento que tenha partido cedo demais. Nem imagina como as suas palavras soam a profecia. Não tardará, andaremos todos a queimar livros outra vez. Eu não estarei por cá, por opção. Farei da minha ficção aquilo que muito bem entender e farei o impossível, se tiver de ser, para me diluir nela. Vou prescindir da minha realidade nesse dia em que triunfarem os homens como o Júlio e, já agora, Platão, que clama contra os poetas na sua República. Mas deixe-me que lhe diga, sem qualquer ponta de sarcasmo, do qual prescindo para me entregar despudoradamente nos braços da hipocrisia, que, ao menos, lhe devemos fazer uma homenagem: prefiro a sua postura sem rodeios àquela coisa insidiosa e nauseabunda de achar que a ficção serve para entreter e ensinar a escrever e a poesia fala do que é bonito. Saboreemos uma náusea comum, Júlio, relativamente a essa gente e deixemos o tempo falar. Sem sarcasmo nem hipocrisia, entregue agora à crueldade pura, o Júlio já não tem muito tempo, pois não? Às vezes, nem os pactos com o Diabo surtem o seu esperado efeito.

Despeço-me com estima e consideração.

O seu amigo de todas as horas

Tomé Santos

05/09/12

Falo contigo sempre como se te escrevesse, como se fosses alguém que espera a queda de uma carta, no chão, do outro lado da porta que não o da rua, uma porta com abertura para o correio mas sem caixa. Escrevo-te como se não fosses eu, como se não te fizesse a minha barba de manhã ao espelho, como se tu não me quisesses dizer o porquê de deixares tudo por fazer até que a realidade te pressione, até que se torne inevitável que tenhas de atirar contigo contra uma parede, como num acidente bem medido, para te obrigares a parar, devolvido ao remetente.

17/08/12

crónica de um enterro fácil

A tradição é um guardanapo de pano quadriculado com uma nódoa de vinho tinto feito a martelo. A tradição é ir à missa ao domingo e na noite de Natal porque temos oitocentos anos de História e mais santos que medalhas olímpicas. A tradição é um burro com sarna porque um cavalo é demasiada ambição e arrogância para quem não tem onde cair morto. A tradição é haver palhaço pobre e palhaço rico para podermos chorar com ambos. A tradição é recitar de cor os primeiros versos de Os Lusíadas, com desvelo patriótico e tom de homenagem fúnebre. A tradição é ouvir os versos do dito hino nacional com a melodia evocativa de um supermercado, em fundo, e corresponder ao apelo irreprimível de comprar produtos nacionais.
A tradição é uma merda que não te deixa dormir descansado porque é óleo de fígado de bacalhau que te faria bem à alma e bem a coisa nenhuma. A tradição deveria ser um papel amarrotado com raiva e por vingança de não se poder ser sem se ter sido.
Por ti, fazias revoluções todos os dias, se não te doessem as costas, de alto a baixo, os rins, o estômago e se não estivesses cansado da vida só porque a tens. Ainda assim, podes deixar este recado em banca de fruta de mercado e em outros sítios de maior potencial inflamatório. Não tenhas medo que te achem diferente daquilo que eras: passaste de sensato a pirómano impenitente.
Mata a tradição e poderás abolir o pretérito perfeito, o mais que perfeito e toda essa corja de recursos bélicos obsoletos e a cheirar a corpo de rei fundador, putrefacto em panteão. Morra esse gás poluente saído do escape infame da História! Morra a História e escreva-se-lhe um obituário tratando-a a minúsculas, inscrevendo na lapide a sua fama de meretriz traficante de indultos, sobressaltos, deveres e sacrifícios. Assine-se-lhe certidão atestando que se terá finado sem honra nem glória. Meta-se-lhe, por entre os folhos da mortalha, uma carta de recomendação para que entre definitivamente nos quadros do inferno mais fundo, sem passagem a regimes de mobilidade.
A tradição está já a meia haste à porta da tua casa, esfarrapada, suja, com as cores deslavadas e com uma multa de estacionamento proibido presa com um alfinete oxidado a meter-lhe o tétano pelas veias ressequidas. Paz à sua alma.
 
 
 
"Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup!"
(Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, "L'horloge")

16/08/12

[narratione/collectione/obliviu]





A rua era rua de cidade. Poderia ser algo como paredes de pedra escura, dia sem sol, luz relativamente intensa. A porta da casa era de ferro, trabalhada, sem demasiados detalhes, de um vermelho escuro oxidado. A parte superior deixava ver o interior, vidro grosso e antigo por detrás de barras lisas, o mesmo ferro da parte inferior e da moldura. Via-se o pátio de entrada, oito caixas de correio na parede do lado esquerdo, ao lado do quadro eléctrico e de todas as portas de compartimentos para instalações necessárias de cuja descrição nos dispensamos sem qualquer tipo de justificação. O chão era de pedra, um mármore polido pelo tempo, mais brilhante no percurso que levava aos degraus em frente, feitos de madeira de carvalho, a toda a largura do pátio de entrada. Muitas coisas não moravam ali já, muitos passos esbanjados, amor feito a caminho do elevador, no recanto junto à porta do rés-do-chão esquerdo, reclamação do vizinho muito possivelmente.Talvez estivesse isso tudo na porta de ferro, a da entrada, atraído pelo ferro, parte mesmo da ferrugem em camada fina, espalhado pelo mármore da passagem, incrustado nos veios do soalho.
A rua era larga, com uma porção de passeio entre as duas faixas, espécie de alameda envergonhada, plátanos pelo meio. Muito saberiam os plátanos sobre as entradas e saídas do número quarenta e oito, lugar comum de objectos e seres como depositários do concentrado do rasto de vida. Entre os plátanos, sentado no banco do condutor de um carro azul, alguém tomava notas num bloco de capa preta, olhar muito atento, por vezes alternando com um vaguear previsível. Pareceria um detective particular, ou um polícia de filme menor, tudo óbvio. Sabemos que ocupava o seu tempo e que apenas tomava notas pelo prazer de o fazer, notas sobre as pessoas que passavam, sobre as casas. Ocupava o tempo enquanto aguardava compromisso agendado, talvez consulta médica. Havia alguns consultórios particulares na zona. De costas para a porta do número quarenta e oito, podia ver-se uma placa de um cardiologista, professor universitáriosublinhado na parte inferior do rectângulo negro, douradas as letras. Mais ao fundo da rua, perto do cruzamento com a praça maior, havia um conjunto de placas que poderão anunciar mais médicos ou outros serviços. Aguardará algo do género então. A rua aparentava um razoável grau de limpeza, um ou outro papel e pontas de cigarro, umas pastilhas elásticas coladas no alcatrão, trazidas por pneus de carro talvez, pouco interessa. Nisto de detalhes, interessam umas coisas e outras não. Por vezes é mesmo uma questão do critério de quem vê, outras vezes, as coisas vão aparecendo e desaparecendo e fica o que fica, sem critério algum, variante de ócio aplicado ao registo de factos e à descrição de objectos em papel.
[um agradecimento à sónia silva pela disponibilização desta sua fotografia e pelo sempre estimulante diálogo entre imagens e palavras.]

01/08/12

how to acquire perfection

O homem mau tinha fama disso, de ser mau. Não era mau como alguma coisa que se pega, chegando de mansinho e espalhando o seu odor por debaixo da porta, antes de se instalar e colonizar o espaço vital com totalidade de carnes e ossos. Era mau como um bloco de peçonha que se abate, pesado, sobre o tecto de uma casa, rebentando o chão e penetrando até às fundações. Nunca soube se ele era assim, nem o vi fazer nada, nem conheci sequer quem o tivesse visto fazer o que quer que fosse de mau. Era mau sem vítimas. Ainda assim, afastava-me dele por superstição, porque a minha avó me disse que não poderiamos, de forma alguma, cuzar-nos com ele na rua e ir ao resto da nossa vida, como se nada fosse. 'É homem para dar cabo da vida dos outros e ir para casa beber um copo de água', dizia. Ao longo da minha vida, encontrei sempre pensamentos e palavras, actos e omissões das quais me afastei porque deles e delas era sabido que faziam mal, que destruiam, que não deixariam consolidar os pezinhos de barro do meu altar de bom menino, do altinho do qual perguntaria à vida e aos que a validariam 'que tal?'. Mais: sabendo do mal, não o evitar seria pecar, por minha culpa, minha tão grande culpa. Pois presto hoje, aqui, uma acobardada homenagem de homem mau a todo esse pretenso mal, aos demónios de poderes não comprovados, ostracizados por suposição de passar a vida a cheirar a enxofre. Serão demónios de aviário, à espera de consumo fácil, com pele crocante e molho de gengibre. Não me terei cruzado com eles e seguido com a minha vida, como se nada fosse.

In considering the origin of species, it is quite conceivable that a naturalist, reflecting on the mutual affinities of organic beings, on their embryological relations, their geographical distribution, geological succession, and other such facts, might come to the conclusion that species had not been independently created, but had descended, like varieties, from other species. Nevertheless, such a conclusion, even if well founded, would be unsatisfactory, until it could be shown how the innumerable species, inhabiting this world have been modified, so as to acquire that perfection of structure and coadaptation which justly excites our admiration.
(Charles Darwin, On the Origin of Species)

27/05/12

framework


Obter verdades por confissão será arte de impotente. Podes fazê-lo, como experiência de semear poder em terra seca. Reter, em molduras douradas, imagens guardadas pela força será arte de impotente, igual a guardar simulacros de felicidade por debaixo da linha do comboio, à espera de vento redentor. Pode acontecer que passes na rua, à noite e que não te conheçam porque o teu rosto foi exaurido de significado. Poderás passar sem que te vejam, sem que te reconheçam  e transmutarás a dor desse anonimato em algo que possa ser dito à lareira, num serão sem ressentimentos. Sentirás a solidão como uma bênção menor, enquanto contemplas o fogo e recordas os rostos que se cruzaram com o teu.

14/05/12

Die Mauer

Da janela vejo o muro. Haverá sempre um muro. Há uma rampa de terra com um pasto rasteiro, esverdeado até aquele metro de muro branco, encimado por aquilo que percebo como uma linha escura. Da janela, para além do muro, vejo cabeças de coisas, de um sinal de trânsito ou dois, de dois candeeiros da iluminação pública, de uma palmeira, mais ao fundo, os ramos secos de uma pequena árvore em desalinho, aqui perto. De tudo, escolheria esta árvore. Ícone do meu ambiente de trabalho, literalmente. Seria um diálogo previsível mas seria o nosso, ambos estranhos, ambos companheiros de cela, ambos a olhar para o muro como se ele fosse o limite das nossas cidades, daquela que criámos e da que à nossa volta se criou, com o muro de permeio. Nada de novo.

Koordinaten für Checkpoint Chronos: 38º32'59.48''N 7º54'51.36''W

28/04/12

curva à direita, semáforo intermitente, domingos à noite e folhas sobre mesa

Diariamente passo por ali, a curva à direita, o semáforo intermitente, as duas igrejas frente a frente e, à esquerda, os portões do cemitério, com o muro, fronteira com a empresa dos autocarros, uns metros mais à frente. Gente com malas, estudantes, como dantes os tropas à saída do comboio. Mais gente às sextas que nos outros dias, tudo previsível, pelo carreiro em terra batida junto ao muro do cemitério, mais seguro que o percurso paralelo carregado de carros estacionados sem espaço para passos de pessoas. Ao domingo seria natural que passasse mais gente também, em direcção ao centro da cidade. Detesto os domingos e nunca me apetece pensar o que se passa nos domingos à medida que a noite se aproxima. Invariavelmente pensaria em casais de velhos sentados em cadeiras de pau e buinho, velhas e direitas demais para costas vergadas pela gravidade, metáfora ostensiva de corpo puxado para a terra. Olhariam para a televisão, num consenso velho relativo ao programa a seguir. A luz seria fraca, emitida do centro do tecto da sala adjacente à pequena cozinha. Haveria no ar um resto da canja do jantar do dia, um muito ligeiro aroma a ranço do toucinho, colocado ao ar no prato branco de faiança, em cima da bancada de mármore, protegido com um pano. Teriam uma manta meio húmida sobre os joelhos, talvez simetricamente partilhada se se dessem bem, se a vida não tivesse sido toda como um domingo à noite, tal como eu os vejo, aos domingos. Por tudo isto, não penso em domingos à noite e faço disso um princípio que posso quebrar se me apetecer porque não devo coerência, nem a nada, nem a ninguém.

...
Hoje seria eu isto: mesa larga, em pinho já um pouco escurecido, mais pelo tempo que por eventual verniz. Sobre a mesa, folhas e folhas, predominantemente brancas, predominantemente em formato A4, umas seriam poemas, outras contas por pagar, recibos de bilhetes de avião, declarações de amor, ameaças anónimas e assinadas, cartas recebidas, histórias oferecidas por amigos, certidões de coisas, registos, óbitos, desenhos oferecidos por crianças, como declarações de amor. Hoje seria incapaz de os arrumar, aos papéis, sei apenas que estão lá, olho-os e sei que sou aquilo tudo. Previsível retrato compósito desmontável e de pacotilha. Hoje seria eu isto. Amanhã será domingo e, no dia seguinte, passarei por ali, a curva à direita, o semáforo intermitente, as duas igrejas e, à esquerda, os portões do cemitério ladeados de muro branco, em formato A4, à escala dos meus dias. 

(aos meus amigos x. e p., porque me enviaram um postal, me ofereceram um conto e me afirmaram que se deve celebrar a amizade, mesmo aquela que é só feita de troca de palavras. ajuda a prencher o lado caloroso da mesa e a esquecer as contas, todas as contas, as pagas e, especialmente, as por pagar.)

20/04/12

Burocrata aluado, aguardando instruções para homologação de edital


Quando o homem foi à lua pela primeira vez, eu estava no útero da minha mãe. Estava protegido de mentiras maiores do que aquelas que o corpo repete sobre o que se passa no exterior. E a lua faria todo o sentido para mim e eu estaria com uma bandeira na mão, com a gravidade a incomodar-me menos do que a gravidez à minha mãe. E faria trocadilhos com gravidez e gravidade, impunemente, como tudo o que fizesse, ainda que fosse o ir à lua e andar por lá com um aspirador a recolher poeira para fazer pacotes de estrelas instantâneas, bastando juntar água. Estrelas de pó lunar com líquido amniótico brilhariam o suficiente para que fossem verdade maior do que aquilo que se passa onde a sua luz não alcança. Por isso decidi estar no útero da minha mãe quando o homem foi à lua e disse, o homem, em voz de relatador de futebol, rádio em onda média, coisas replicáveis até à náusea sobre a humanidade,  passos e saltos de gigante. Ao meu lado, o meu irmão ainda brincava comigo, facto não desprezível. Não juntámos ambos o pó lunar com água, não fizemos juntos estrelas instantâneas. Isso ninguém o decidiu. Foi curto o tempo que foi nosso, no ano em que o homem  foi à lua. Decido agora que, por ambos, pelo tempo que passámos juntos, protegidos de ditaduras e de idas à lua em fatos brancos de americano no espaço, vou fazer do pó que dele guardo, uma estrela, verdade maior do que aquilo que os grandes passos da humanidade revelaram. Vai brilhar hoje, três minutos antes da meia noite, e vamos brindar efusivamente, sem gravidade.

18/04/12

under the influence of FEA red wine


O pai dele sabia que o jantar tardaria muito mais do que uma simples hora, sessenta minutos de matar fome idiota por sobre uma toalha de mesa com motivos de gaivota a esvoaçar por entre ondas do mar estilizadas. Foi assim que se conheceram. Viram-se e amaram-se sobre uma toalha de mesa plastificada, como se estivessem ambos num cemitério cheio de campas enfeitadas com flores de plástico coloridas e com plástico rudemente talhado, molde chinês para consolar mortos ou comensais sem que uns e outros pudessem escolher alternativas. Assim se tocaram as mãos pela primeira vez e souberam que seria assim consumado o seu amor. Por mais que sentissem toda a sua vida como um lugar comum, uma prateleira de loja de chineses com vida lá dentro, foi assim que avançaram pelo tempo, mão na mão, seguros de que quem o feio ama bonito lhe parece. Flores de plástico podem ser a suma felicidade para quem não ambiciona colher uma papoila e vê-la perder-se apenas por isso. Os grandes amores poderão ser mais feitos de flores de plástico do que de papoilas voláteis a sangrar seiva branca em vida efémera.  

15/04/12


Palavras que não corresponderão à verdade, no sentido factual da coisa: “No dia em que o meu avô morreu, o meu pai disse-me, com ar grave, que chegará um dia em que todos nos lembraremos de tudo, a memória de tudo será parte de nós, que seremos apenas memória e nada mais fará sentido. Disse-me uma série de coisas mais, todas elas mais ou menos graves, das quais julgo não me lembrar. Para ele, isso terá servido de ajuda no pensar dos seus dias sem o pai. A mim, nada do que disse me ajudou naquele dia e hoje, dia de acompanhar-lhe o corpo à terra não me concebo sentir como suficiente o lembrar-me dele. A memória foge-me mais do que desejaria e não cumpre essa função de manter vivo. Nesse dia, que o meu pai me garantiu vir a existir, receio ficar sozinho por não me ver sem carne nem osso.”
Insisto no facto de poder ter palavras a sair da minha boca ou postas em papel por um fio de tinta ou carvão que queira tomar conta de mim, mas tudo com carne e osso, sem qualquer alternativa. Esqueço-me, muitas vezes, de que já tinha superado esta ou aquela dificuldade, negrume antigo já tratado e acordo cinzento, desesperado, nessa repetição de filme visto. Ocorre-me que estas experiências não me deverão preocupar. Não será tanto a memória que falta mas mais a sensação de que a resolução disto ou daquilo não foi definitiva ou foi apenas aparente. Sinto, em relação a essas coisas, o mesmo que quando, errante pelas vielas de um cemitério, encontro paz nas campas rasas e estranheza perante os jazigos. O jazigo representa essa recusa da morte, o não querer embarcar nessa viagem de povo, quando se refere a algo que se encerra ou resolve como ‘morto e enterrado’. Não decidem os mortos negar-se a ficar debaixo da terra. Talvez alguns formulem esse desejo em vida e tenham os vivos de carregar essa recusa de ficar com sete palmos de terra em cima. Mas os mortos não decidem, vincularam os vivos a essa decisão, a dos últimos desejos e, por algo semelhante a respeito, cumprem-se este e aquele desígnios. Assim se fica, a alma encomendada e já ausente, com bilhete de ida para a eternidade e o corpo impedido desse mergulho na terra, como se não bastasse a parafernália de madeiras e folhos de cetim a mediar o contacto entre a nossa pele e a do pó ao qual se diz que voltamos.

10/04/12

E se o tornar-me eu não tivesse de implicar a morte dos meus fantasmas armados até aos dentes, fardados de uma autoridade velha, mas antes a sua desmilitarização?

"A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, senão também aquela que fica por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não excui, e obscurece em pleno dia, o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos."
(Fernando Pessoa A Hora do Diabo)

27/02/12

Conversão em dia de calor, na aldeia

Lancemos as bicicletas em passeios solitários,
Sem ciclistas activos, sem guiador nem campainhas que afastem cães ou senhoras que passeiam pelas ruas.
Poderiam cães guiar bicicletas sem guiador e o faro impulsionaria as rodas sobre a calçada.
E haveria filas de raparigas, com vestidos de folhos, 
À espera que passassem os cães em matilha amistosa, ramo de flores sobre pedra de rua.
Iriam os cães até às portas do cemitério da aldeia, 
Onde veriam ossos que não ousariam desejar por não serem objecto de desejo.
Comeriam os cães, às portas do cemitério da aldeia, os ossos das bicicletas gastas,
com o respeito que se deve a bem precioso e volátil.
Regressariam as raparigas, com os vestidos de folhos cansados, até às casas de suas mães.
Aí esperariam que chegasse o dia no qual não seriam objecto de desejo.
E os cães rezariam, às portas do cemitério da aldeia, por elas, meninas,
Com as bicicletas por testemunhas solenes da conversão a esta fé de rolar pela calçada, sem guiador.

ao meu amigo a. por me ver escrever enormidades, literalmente fora de contexto, sem me recriminar.