Passa o homem por sobre a pequena ponte de madeira. Poderia ser uma ponte já algo comida pelo tempo, como sucede em muitas descrições associadas a narrações incluindo homens a passar por pontes. Deixou, entretanto, de ser relavante a idade da ponte, o homem, se há ponte a passar ou homem que a queira passar. De passos silenciosos, dados por coisas que nem têm de ser homens, se faz a história de muita gente, talvez a minha. Isso ou uma bicicleta a rolar numa estrada estreita ladeada de dois campos, verdes na Primavera, amarelos no Verão e incógnitos no Outono, apenas porque deles não apetece falar hoje, dia em que há nuvens e vento a chamar-me para a tempestade que se aproxima, companheiro de brincadeira lá fora, a prever poças de água ou lama para pisar. Haverá sempre tempo para ver passar coisas a uma janela qualquer, ou fora dela. Se fosse hoje o meu último dia não veria a chuva, apenas saberia dela pelas previsões meteorológicas ou pelo vento na janela, mas teria sentido o mundo a girar sob os meus pés, coisa que esquecemos facilmente ser prazer maior que o mundo. Isso ou um beijo.
10/02/13
05/02/13
automático sem filtro
Coisas sem ligação aparente podem concorrer para que penses em portas fechadas, corredores estreitos, pouca saída para o vício de se ser. Digo-to agora: esquece que podes lançar o teu carro a toda a velocidade e fechar os olhos por tempo indeterminado. O tempo indeterminado será o que te vale, como no famigerado contrato de trabalho que assinaste e pelo qual te deram efusivos e oníricos parabéns. E podes encontrar toda a tua vida no abrir os olhos, surpresos de ainda estares na estrada porque tudo era estrada, tudo era possibilidade de estares num carro lançado a alta velocidade, com vontade própria.
Há dias em que a arma és tu.
Há dias em que a arma és tu.
Há dias em que a arma és tu e essa é a maior verdade que podes conhecer porque estás alterado por algo que bebeste, fumaste, ingeriste só para poderes dizer que sabes colocar a vida em perigo, como nos filmes de gente desesperada.
Desesperado é aquele que se constitui arma. Desesperado é aquele que usa as palavras como forma de justiça de terra queimada em guerra solitária. Vais ser um resistente, vais ver. Ou então, abres uma porta impossível e tudo se encaminha para que encontres um corredor de leite e mel, coisa de Mar Vermelho aberto por profeta poderoso e de sólida reputação. Há dias em que o profeta és tu e sentes que isso é merda. E falas assim porque as palavras bonitas a designar coisas que cheiram mal não são arma que se use. Hoje não é dia de palavras bonitas porque hoje é dia de desespero para muita gente, para alguém que conheces e deixou o filho morrer de fome num país que salva bancos antes que estes fiquem nervosos. Hoje é um dia de palavras datadas, sem o alcance de ficarem na história porque a história é um esgoto a céu aberto e isso exige uma arma eficaz. Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu. Dispara-te. Dispara-te e chora depois. Vais ver que não morreu ninguém: é tudo fogo de vista e construção retórica.
Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu. Hoje a arma és tu.
31/12/12
2000+10+3=unir os 3 pontos para construir uma suave heresia
1. De entre muitas linhas que já aqui tenho escrito, mais do que devia, algumas serão mais limitadas que outras; quando releio algumas coisas que aqui estão à mostra, encontro fragmentos interessantes, poucos, estilhaços de madeira à tona em mar de letras juntas sem grande interesse. Sou eu assim, somos assim, será assim a vida, o emergir desses fragmentos de sentido que vão arranjando rotas convergentes, divergentes.
2. Já tive, em diferentes fases da minha vida, um entusiasmo grande motivado pelo advento da passagem do ano, essa falácia de recomeço, limpeza do que ficou por fazer, a pedra branca na qual a vida se poderia reescrever com um impulso do ponteiro de relógio. Lembro-me dessa euforia. Não a sinto hoje. Isso fará de mim um céptico, um ressabiado, um adulto clássico, um parvo que se leva demaisado a sério? Interessar-me-ia a classificação se não sentisse na pele, nos ossos mesmo, para além de categorias pensáveis, que não há ano novo que me leve ou lave o que não gosto em mim. Aquilo de que gosto, ultrapassando a culpa de sentir como inútil o exercício de narcisismo ridículo, é o facto de me manter vivo. Sinto-o com despojamento, como se o chão de mim fosse água a correr e o futuro não fosse mais do que tentar andar sobre as águas. Será esse o milagre a haver, andar sobre as águas. Percebo talvez o alcance das composições da escola primária subordinadas ao tema 'Se eu fosse...'. Ou então não percebi nada de coisa nenhuma e isso tudo é indiferente.
3. Sinto um pouco de frio aqui onde estou. Nem sempre o calor e o conforto são amigos de perspectivar o futuro, nem sempre perspectivar o futuro é coisa que se deva fazer. Amanhã é dia um de Janeiro de 2013 e continuarei a tentar caminhar sobre as águas, ou a transformar água em vinho ou a multiplicar pães e peixes, tudo coisas de quem vive um dia após o outro, ao alcance de todos. Não fazemos outra coisa que não milagres, a cada segundo. São coisas simples, de simples, para simples, por simples, os milagres.
17/12/12
natureza morta nº 1: estante à minha frente
Livros em prateleiras, coisa banal, assunto de conversa sem catálogo por ser de pouca monta a colecção. Olho-os.
Biografias, guias de viagem dispostos horizontalmente: Polónia, Berlim, Estocolmo, Istambul, Holanda. Topo da estante.
Em sentido descendente, duas prateleiras de livros carregados de coisas metodologicamente correctas, sociologicamente relevantes, pedagogicamente fulcrais, rasto profissional de lesma em parede branca a fugir de chão molhado pela chuva.
Em sentido descendente, duas prateleiras de livros carregados de coisas metodologicamente correctas, sociologicamente relevantes, pedagogicamente fulcrais, rasto profissional de lesma em parede branca a fugir de chão molhado pela chuva.
Mais duas prateleiras do mesmo calibre, arma de fogo para atirador furtivo. Pelo meio, teorias da literatura e volumes quejandos, folhas a teorizar estética, arte, letras juntas de modo que a realidade insultará por ser combinação indutora de falácias. Pergunta-se lombada de livrinho com o nome de Italo Calvino 'Why read the classics?' E pergunto-me eu por que razão se lê e se quer ler. Pergunto-me que coisa é esta do desejo de devorar palavras escusas, triunfantes, erros anónimos da normalidade fina e exacta de se ser número e pessoa sujeita aos mercados temperamentais da pós-modernidade.
No fundo, já rente ao chão, dicionários de latim, português, alemão, inglês, francês, espanhol e três gramáticas: uma de espanhol, que nunca uso, uma de francês que já gastei e uma de português que haveria de ser constituição fundadora de uma pátrias feita minha, idéia que rejeito e que coloco numa anacrónica e desapiedada roda para conceitos órfãos. Não quero que seja a língua portuguesa a pátria de ninguém. Não me quero português preso pela língua. Exijo-me apátrida, expatriado, qualquer coisa que me dê rumo à revolução de ser eu. Não quero ler os clássicos, reivindico o direito a ler tudo o que for anarquia de mundos a sangrar pátrias, folhas que amareleceram antes do tempo, suicídio de livros heróicos carregados de obediências. Ao lado direito, na prateleira central, uma caixa de cigarrilhas que alguém me trouxe do Brasil e que queimo, de vez em quando, sempre com gosto, em pose que classificaria como sendo coisa de pseudo-intelectual. Vibra o mundo só de haver fogo ao pé de livros.
Tudo o que pode via a ser vício, far-se-á de vez em quando. Isto estaria escrito em um milhão de livros colocados meticulosamente em prateleiras que me recuso a ter e, muito menos, a ler. Seria assunto de conversa catalogada com minúcia e outras propriedades dessa natureza, seiva envenenada de detalhe programado para gozo supremo dos que amam a previsibilidade e por ela dariam a vida sem perceber que a entregaram já.
Guardo uma prateleira para livros sobre a desobediência civil, a desobediência geral e específica, o desejo absoluto de não se incendiar a vida só de vez em quando, mas sempre que haja vontade de o fazer.
Amanhã é dia de tenacidade incondicional, coisa que se aprende, por exemplo, com o vento. Talvez possa dia de arrogância também. Não decidi ainda nos braços de que heresia me lançarei amanhã. Se tivesse que decidir já, optaria pela heresia de estar vivo sem ter medo da dimensão do meu desejo. Talvez acabe por ser apenas um dia de reler clássicos, de aplacar corações iconoclastas, nunca se sabe. Falaremos então, se for caso disso e estivermos todos vivos, amanhã, mais ao final do dia.
16/12/12
calçado + fim de mundo pendente
21 de Dezembro de 2012.
Farei quarenta e três anos.
Farei quarenta e três anos.
Há quem aguarde o fim do mundo. Eu aguardo apnas que o meu mundo continue a girar, uma e outra vez, comigo algures, por ali. Sinto, isso sim, nos últimos dias, talvez semanas, não muito mais, que tenho outras botas calçadas. Pesam-me mais, são botas para durar, as que irão comigo para onde for. E hoje, 16 de Dezembro de 2012, porque aparentemente as datas são importantes como contraponto imprscindível a estas letras juntas, o que mais me apetecia era um abraço, um beijo e o cheiro da casca de limão ligeiramente raspada. Isso, tenho-o à mão e não haverá motivo para lamentos. Sou um homem feliz, digo eu agora, às 14 horas e um minuto. Posso ir colher o beijo, o abraço e o limão antes que passem dois minutos mais. Mas pesam-me as botas.
Talvez não precise de um fim de mundo para passar a descalçar-me. Talvez consiga sentir o chão antes que o chão me leve com as botas calçadas, digo eu. O que se diz e o que se faz encerram a distância da coragem, coisa que me falta. Talvez um fim de mundo qualquer fizesse da coragem a minha pele. Pela janela, vejo chuva, algum vento e o topo da copa do limoeiro que o meu avô plantou. Terá a coragem de aguardar. Para já, botas calçadas.
09/12/12
08/12/12
advento (h+k)
Tudo se queima, tudo poderá queimar-se, se se quiser, se valer a pena. Mesmo quando a lógica é destruir tudo, poderá haver lugar a pausas, a momentos de clemência. Na gramática da destruição do que nos é diferente, não haverá léxico nem estruturas sintácticas a traduzir a necessidade de olhar para trás, não haverá ritual que materialize a crença. Todos os dias são dias de iniciar uma nova era. Porque o Homem quer, tudo se queimará sempre que o Homem quiser.
02/12/12
traços da falência de um blog
um solilóquio é um solilóquio.
a autocomiseração tem limites.
a paciência alheia tem limites.
a circularidade do discurso é inimiga da capacidade criativa.
bla bla bla
bla bla bla
bla bla bla
a autocomiseração tem limites.
a paciência alheia tem limites.
a circularidade do discurso é inimiga da capacidade criativa.
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30/11/12
bom fim de semana, desliga as luzes à saída
Exílio. Portas fechadas por medo de frio. Agitam-se milhares de pequenas flores amarelas sobre um verde de ervas húmidas. E sempre o muro branco do qual já ninguém te pode ouvir falar. Já o descreveste, por escrito, em cartas e outras formas de te fazeres chegar aos que julgas estarem do outro lado. É assim que falas. Existes tu e o outro lado. As lâmpadas fluorescentes velhas criam o que tu, há uns anos atrás identificavas como a luz artificial numa casa estranha, num país longínquo para o qual tivesses sido obrigado a ir, com frio. Nunca foste e sentes frio, o frio fluorescente das lâmpadas compridas e espaçadas no tecto. Começaste a clamar, há pouco tempo, a tua vontade de viajar, de sair deste aqui. Sabes que não conseguirás porque o teu exílio és tu e tudo o que consegues ver é o tejadilho dos autocarros por cima do topo do muro branco. E fechas portas e janelas, com medo de tudo. Fazes do acto de adiar a tua libertação, sabendo que estás sempre mais e mais enredado nesse incumprimento, que são essas as raízes que contra ti alimentas. És assim, o que posso dizer-te que tu não saibas já? Ainda assim, hoje posso fazer de conta de que não te perdeste e de que tens uma boa parte da tua vida à frente. Podemos fazer essa espécie de pacto e hoje é o dia de falarmos de hoje. Posso dizer-te que amanhã é podes ser outro, ser mais, ser melhor. Vais ouvir-me. Faz parte do pacto fazeres a tentativa de me tranquilizar, de que ficaste motivado. Amanhã não será hoje e este pacto não se mantém sempre. Sei que, um destes dias, vais olhar para o muro branco e não vais suportar mais. Aí vou receber um qualquer telefonema ou outra forma de te fazeres chegar até mim e vais pedir-me que não pense de ti o que tanta gente pensa. Sei o que isso importa para ti. Vou imaginar-te a saltar o muro branco. Tudo isto soa a xarope sentimental sobre amizade, sabes isso não sabes? Ainda assim, mais uma vez, hoje é também dia disso. Amanhã é dia de sair ao frio e esperar que me chegem notícias de que deixaste o exílio. Expectável.
24/11/12
zero
Chegas a casa. O cheiro da rua
ainda em ti, algo de selvagem que já incorporaste, hábito de palmilhar a cidade em alerta. Olhas-me sem desejo, sem o
desejo do interior da casa. Acendes a lâmpada pendurada do centro do tecto, uma
lâmpada sem qualquer protecção, despojada. Olhas-nos como dois versos sem
possibilidade de rimar. Sais, enquanto te imagino morna e nua; tu, se me imaginas, ver-me-ás vestido com roupa invernosa
e à chuva. Não nos voltaremos a ver. Sempre te li como uma peça de teatro,
sempre te escreveste em poesia. Nunca aprenderemos a ler-nos.
-1
O
papel era chinês, uma luz chinesa, que ele sabia ser chinesa, sem nunca ter
estado na China. Era algo que sabia por intermédio dos sonhos nos quais uma mão
gigante de Deus lhe revelava a sua filiação profunda, cenários, texturas, tudo
como se tivesse vivido em outros lugares e como se lhe fossem familiares
sabores de legumes exóticos cozinhados em furna de enxofre. O papel forrava a
parede e podia sentir-se o quase relevo alongado de bagos diminutos, bagos de
arroz sobre cimento suave. Ao lado alguém foheava um livro volumoso de ciência, daquela ciência
que faz avançar o mundo, que o dá a conhecer sem qualquer tipo de piedade. Era
crua, a realidade, e nada o podia proteger da sua rugosidade. A janela fechava
mal e, por falta de dinheiro para a mandar arranjar, por falta de habilidade
para o fazer ou por um conjunto de factores sem poder para fazer correr sangue,
o ruído de fora entrava, não como se estivesse aberta a janela. Dou outro lado
o muro branco da casa do vizinho, um branco europeu, sem arroz na parede, ar
nacional, coisa conhecida, nada de ar cosmopolita a ser respirado como língua
estrangeira. Ali se manteve, enquanto as mentiras fumegavam entre as duas
camadas da perede dupla da casa, mentiras sobre o que é, o que não é e o que se
recusa a ser. Tudo isto é material combustível, tudo isto poderia ser agora
usado para um Auto de Fé, sem culpas, sem lamentos, sem vozes a chamar pela mãe
em caso de pânico. Tudo bem visto, haveria letra para música no inferno pessoal
de cada rato no porão do seu barco privativo a afundar.
19/10/12
falar do tempo, oportunidade perdida para ficar calado
Pode acontecer que ainda tenhamos tempo. Pode acontecer que tudo se passe em câmara lenta.
Regressa a casa, dizem-te. Que encontres as raízes e o sabor da sopa da tua infância, o toque que te fez homem, palavras de amigo que te quer bem. Isso te fará fechar o círculo da vida, da tua, pelo menos.
Olhas o sol pela janela, igual ao de outros outonos, demasiado igual. Sabe-te bem mas é igual sobretudo ao do outono passado e queres assumir que não queres fechar círculos, muito menos o da vida, o da tua. E se o conforto do conhecido te sabe a serão à lareira, com frio lá fora, equacionas se não queres esse frio todo e a nudez total, até que nisso encontres conforto.
Pois digo-te que estou como tu, nessa passagem, sem preparação para encontrar as pontas da linha, sem perpectivas de fechar círculos do que quer que seja. E digo-te que o frio do inverno me vai saber melhor que o sol do outono. Vou-te falar do frio do inverno, um dia destes, talvez mesmo esta noite. Agora não.
18/10/12
+ 99 palavras ridículas e pretensiosas
Há uma muralha entre duas palavras. Entre elas, range todo o espaço sob pressão. Há uma barreira entre duas muralhas feitas por mão humana. Há uma solução para tudo o que se complica, ar a deslizar por entre as fibras de um tecido. Há um cipreste urdido por ódios velhos e cartas sem remetente, venenos a embeber as fibras de um tecido. Há coisas sem sentido que se organizam para que possamos respirar e escrever manifestos. Guerra declarada entre dois rios separados à nascença é obra de demónio sem nome a arrastar-se pela sua própria voz, impotente de palavras.
16/10/12
dias a meio e fins de dia com procissão
Nada mais do que laranjas a brilhar ao longe. Roupa estendida, sem queixumes por haver vento na aldeia vizinha. Chega agora o fim do dia, hora de conforto e fronteiras lassas. Haverá alguém que retire o pão do forno para ser lido todo aquele cheiro a casa de tias, com canecas em prateleiras festivas a celebrar revolução no país ao lado. Passou ali procissão, no ano passado, dia de visita pascal feita pela culpa antecipada de morrer toda a família e não se ter olhado uma última vez tudo aquilo com todos vivos. É sempre dia de qualquer coisa, dia de fim. É sempre fim de qualquer coisa e morre sempre mundo por se perder algo dele. No ano passado passou a procissão e todos na rua, com luzes eléctricas amarelas, murchas, a chamar contrabando. Todos como se Deus estivesse ainda vivo e não fosse já um último acto repetido em ensaio final. É hora de adjectivos. A camisa fora das calças do primo mais velho, a mão paralela à perna, o cigarro a meio de queimar entre dois dedos. Passa a procissão e o primo mais velho não fuma em sinal de respeito. Agonia de cigarro em dia de ensaio itinerante de Paixão, com banda filarmónica de recurso. Sorri em desafio e o primo olha para baixo com ar de Está quieto, não vês que passa a procissão? Imita o primo e pensa nas laranjas sem culpa, à entrada da aldeia, e na azinheira que ladeava o sinal de trânsito a avisar de perigo por poderem andar animais à solta. Termina a procissão e acende o primo outro cigarro enquanto lhe sai a cara de reprovação. Há que ser sério quando se vê teatro e, se calhar, quando se recolhe a roupa para que não comece a embeber a humidade da noite e o cheiro ao fumo das casas todas com fogo controlado. Retira-se a roupa, vacina para humidade, e come-se o pão à volta de mesa redonda, entre coisas como conversas, com pratos de esmalte brancos, debruados a azul e ferrugem, meio cheios de cozido de grão. Chegou a noite e, com ela, o sortilégio de ficar ali a saber coisas que podiam ser descritas, se alguém as visse: três pardais no varão ao lado do poço, no quintal; as irmãs solteiras ocultas na foto do casamento da irmã mais nova, na vitrine de canto, mesmo em frente; as migalhas do lanche debaixo da toalha que se pôs na mesa para o jantar. Virão algumas histórias, suspiros, queixumes, tudo com moderação e um Vamos deitar que se faz tarde... Lá fora, ao lado dos pardais, num banco de pedra, o primo lê um livro de filosofia e fuma um cigarro com a cabeça encostada à mesma mão que segura o cigarro. Pode-se fumar por respeito à filosofia mas não quando passa a procissão porque Parece mal. Lê o primo o livro, ensaia o ser filósofo inspirado por fumo e ar de noite. Morreu o cão de olhos pequenos que costumava ler livros com o primo e não veio outro cão para o seu lugar. Fim do cão, fim do mundo com o cão. Desde Fevereiro que o mundo deixou de ser como era com o cão e ninguém disse nada. Passa a luz pelo candeeiro a petróleo. Roda, à ladrão, o manípulo da torcida para aumentar a intensidade da luz. A chama alta vai borrando de preto a chaminé do candeeiro. Olha-o a tia mais velha Outra vez, diabo dissimulado? Não fala assim a tia mas ouve-a assim, não é a mesma coisa o que sai e entra, por mais que pese o mesmo e cheire à mesma coisa. Olha a luz que passa pela zona escura da chaminé e inventa histórias com as formas que vê. A sujidade na chaminé incomoda a tia e vai perturbá-la até conseguir lavar a chaminé. Lava a tia roupa, o candeeiro e tudo o que pode, excepto a noite. À noite, soube-o ele uns dias mais tarde, ninguém a pode lavar Porque ela esconde o espaço entre as páginas da história do fim do mundo.
14/10/12
«Nunca», «sempre», «talvez». Palavras que usas com prazer, disparadas, diria eu, sem critério. É antes o teu critério, o de quem não se revê na realidade. A realidade é, sem possibilidade de «talvez». E a realidade «nunca» é «sempre» da mesma forma, o que te agradaria, pelo potencial transgressor que te alimenta o desejo de ser, se não fugisse tudo isso à tua compulsão controladora. És tu e o labirinto de ti, Em cada caminho bloqueado, sentas-te e fazes dele a tua casa. Tens tempo, não queres verdadeiramente encontrar a saída. É uma forma de viver, talvez.
06/10/12
lugares comuns de proto-'road movie'. again? elementary, dear Dr.Sigmund?
Avançavam no carro. A estrada parecia alongar-se à medida do desejo. Talvez tivessem já passado por uma ou outra barreira policial, talvez mesmo. Uma das palavras preferidas de ambos, o talvez. 'Talvez' e 'terra batida', palavras que gostavam de integrar nas suas fantasias comuns. Até ao final da viagem, talvez acrescentassem mais uma ou outra a esta restrita lista. Talvez o fizessem, sem garantias. A própria viagem não parecia ter destino à vista ou objectivo claro, a não ser o de deixar à solta o desejo de fazer daqueles dias um road trip, sem América nem crime que justificasse fuga. O pai ainda lhe perguntou para que precisava do carro e porque não sabia o dia do regresso. Ele sabia que o pai não lhe exigiria respostas. Sorriu. Obteve de volta um sorriso e um 'não faças asneiras, Dário'. 'Ela também vai?' 'Talvez'. Sorriso. Ela ia. 'Não façam asneiras'. Sorriso. 'Telefonas?' 'Talvez.'
[Impunha-se aqui, narrativa curta, rasteira, pretensiosa, previsível e cabotina, com evocação de pseudo-cinema de adolescencia libertária, que houvesse um desfecho qualquer, um regresso com um filho nos braços, uma asneira que os colocasse na rota de uma fuga trágica, um nunca mais voltar para que o mistério trabalhasse até se cansar, um avanço no tempo da história a mostrar-nos um amanhã que seria um hoje, uma projecção de que talvez o desejo trazido à terra seja algo de gratificante, libertador ou, pelo contrário, o poço no qual germina a erva de uma qualquer desgraça em lume brando. Talvez fosse honesto que tomasse uma opção capaz de rematar de vez um parágrafo sem ambição. Talvez. Apetece-me especular]:
Falaram sobre o medo de morrer sem que tivessem visto o melhor da vida, medo de adolescente e de adulto que vira as costas ao imponderável convencido de que ser crescido é vestir os sonhos com o fato e a gravata da dignidade. Enquanto o carro avançava e ele lhe tocou com a mão nos joelhos, juraram que continuariam a andar mesmo que a noite estivesse fria e os sapatos gastos. Ela disse-lhe que tinha sede e pararam para beber e talvez ainda hoje bebam. Acrescentaram 'sede' à lista de palavras favoritas para narrativas fantasiosas. Perceberam que o dia se segue à noite e a noite ao dia, algo com sabor a primeira vez, a descoberta, algo como perceber que a sede se mata com água e o desejo com calor e terra batida, se tiver de ser, porque os sabores e os aromas, o tecto e os murmúrios se vestem de forma diferente com o dia e a noite.
The end
[who cares about box office reports? go ahead, make my day!]
Citações e cartas que nem o lixo quer III
"Em tempos distantes, inexplicavelmente esquecidos pelos historiadores contemporâneos, era comum[...] todo um leque de manifestações às quais hoje, neste frenético e pseudo-exigente segundo quartel do século XX, classificaríamos jocosamente como pré-culturais. Homens e mulheres conviviam sem noção maliciosa dos pudores do corpo e sem a mácula castradora da moral punitiva que viria a retirar todas as possibilidades de não ser tomada como intencionalmente erotizada uma acção que, em momentos remotos da História dos comportamentos humanos, não seria mais do que um convite à festa e à fruição de um tempo, um espaço, um conjunto de conteúdos validados pela tradição."
Lénia Marques Gouveia, Génese, ascensão e queda da cultura popular.
Minha querida Prima,
estendido para aqui numa enxerga de luxo, entregue aos cuidados extremos de sua prima Doroteia, li com fulgor o seu delicioso livro. Hoje, só se pensa na cultura popular como número grotesco em feira no Fim-do-Mundo. Li-o, antes que a censura lho leve ou a leve a si, Lénia, a Corajosa. Dirão que o seu livro exalta os prazeres da carne e que é uma incursão pornográfica sem ciência nem mérito no estudo do comportamento humano. O Silveira Cardoso, afilhado do António Themudo, aquele meu colega do liceu, já me falou de si e da sua perigosidade, de como era uma mulher 'com mais gosto por armas de fogo que muitos homens'. Confesso-lhe que não reagi, quero-o como aliado para me poder antecipar e protegê-la. O meu furor em protegê-la é tal que a sua queridíssima Doroteia chega a sentir um certo ciúme inocente, porém mal disfarçado, que me faz rir, embora não devesse fazê-lo, por recomendação do Doutor Soutinho. Não tenho a tuberculose que todos receavam, mas tenho fraqueza de tísico. Envie-me, por favor, uma caixa com uma dezena de exemplares dessa sua pérola de saber e perspicácia. Guardá-los-ei em lugar seguro, para que o futuro lhe faça justiça, a si, como pessoa maravilhosa que é, e ao seu saber que eu proclamaria, se tivesse Fé, como dom do Espírito Santo.
A sua visita será sempre uma bênção, para nós e para os pequenos. Logo que esteja recuperado, reforçarei o convite. Estarão as amendoeiras em flor e exultaremos todos com a exuberância da natureza!
Um respeitoso e caloroso abraço dos seus primos
05/10/12
Ando contigo, algumas palavras, poucas convenções. Avançamos pelo caminho de terra, húmido o chão. Passa uma, outra pessoa, um ou outro par está por ali, como nós. Preenche-nos a luz fria de fim de dia em dia frio. Terra fria que nos faz sentir em casa, talvez por não o ser. Poderiamos ser outros, aqui, sendo os mesmos. Lugares comuns de quem está menos farto da vida do que do cenário no qual ela parece diluir-se. E vai-se fazendo noite, naquele parque, um recanto inesperado de uma Estocolmo estranhamente nossa. E poderia fazer-se amor ali, na espera do eléctrico de fim de dia, em dia frio. Penso que o fizemos, ou que nos sentimos como se o tivéssemos feito, a perceber como a noite demora mais a chegar apesar de chegar tão cedo. Seguimos, de mão dada, como se não nos pesasse a vida e a falta de dinheiro e o medo do futuro que já nos comeu uma parte do que havemos de ser, em notas de crédito e sonhos a cheirar a mundo rarefeito. E faz-se o futuro com memórias e lugares comuns, reconforta-se a memória com imaginação, tudo aquilo que nos pode roubar às arestas cortantes da lucidez.
Hoje fico contigo naquele fim de dia, a andar meio perdido. Sei que te lembras. Daqui a pouco vou perguntar-te. E talvez façamos amor ou algo nosso que faça a noite chegar mais tarde e ficar por ali a demorar. Hoje estamos vivos.
Hoje fico contigo naquele fim de dia, a andar meio perdido. Sei que te lembras. Daqui a pouco vou perguntar-te. E talvez façamos amor ou algo nosso que faça a noite chegar mais tarde e ficar por ali a demorar. Hoje estamos vivos.
04/10/12
Que farei com estes pés quando tiver de os arrastar por um pó qualquer? Um dia, posso acordar sem sapatos, sem qualquer possibilidade de me vestir, sem uma camisa branca de tecido fino para pôr sobre o corpo amedrontado. Terei de fazer uma mala. Terá dentro um relógio de corda, algo com prazo de validade. Passarei a viver a preto e branco. Serei um pouco mais tolerante para com os erros gráficos, para com peças fora de sítio numa sequência, tentarei olhar para o imprevisível como se contemplasse um amigo há muito ausente. Talvez não seja assim tão rápido, talvez haja tempo para sentir a camisa branca de tecido fino sobre a pele e ficar por ali, a experimentar esse prazer sem custo nem culpa. Se me deitar com a face virada para o vento que corre, o ar fresco vai passar pelos pés, por entre os dedos, mais fresco onde tiver menos pó da estrada acumulado. Um dia, as palavras poderão abandonar-me, cansar-se de mim, desistir de mim. Que farei com os meus dias quando as palavras me abandonarem e o único sentido de mim for o encontrar pó por onde possa arrastar os pés descalços?
02/10/12
Citações e cartas que nem o lixo quer II
"O ser humano é sôfrego ao sobrevalorizar aquilo que desconhece. O desconhecido, sempre que lhe é apresentado como sinónimo de qualidade, tende a adquirir um estatuto de obra de arte, sem que o receptor saiba os critérios que terão levado a essa categorização. Toda a arte pode então ser uma falácia e, em bom abono da verdade, a quase totalidade de objectos, produtos, a que, não apenas o senso comum, mas sobretudo a auto-aclamada crítica, decidiram classificar como arte, não passam de um logro acintoso, uma afronta à Arte dos clássicos, um consolo para a mente dessa abstracção que, tão convenientemente, se convencionou designar de Povo."
Xavier Freitas de Montalvão, O Resgate dos Clássicos e a Civilização Ocidental.
Estimado Montalvão,
Meu caro Xavier Maria, permita-me que o trate assim,
espero que esta missiva o encontre de boa saúde, com o corpo revigorado por essa permanência junto ao mar. Sei como isso é um mergulho na sua infância, uma aventura e um conforto em simultâneo. Reli, e comentei com a minha mui doce Cremilde, o facto de me sentir irmanado a si nesta sua demanda pela pureza da arte. Os propalados museus de arte contemporânea, esse flagelo da tão apregoada modernidade, provocam no meu ser um esgar que não sei se é de dor ou de do mais despudorado nojo.A arte do disforme, o elogio da falácia estética, esse libertino falar de excremento, utilizando toda uma terminologia a que só o Belo deveria ter direito, não é mais do que uma aberração que nos mostra o quão perto estamos de um Apocalipse cultural. E estamos, Xavier, não tenho a mais tímida dúvida.
Comprei também o novo livro do Teotónio Salgado, edição de autor que merecia divulgação planetária. Muitas verdades se revelam em escassas cento e duas páginas de amor pela Verdade. Vou enviar-lho para a sua casa de Cinfães, sei que vai agora para o seu retiro... Verá que até o título lhe vai dar um arrepio na alma, daqueles que nos mostram o dedo de Deus a dar bom senso a quem ainda tem coragem de lutar por uma Terra sem o maligno à solta.
Receba a minha amizade e admiração.
César Maciel Gouveia
08/09/12
Citações e cartas que nem o lixo quer I
"De todas as coisas que a humanidade criou para justificar o supostamente maior número de sinapses neuronais no cérebro humano, a literatura terá sido a mais inútil. De entre tudo aquilo que terá sido considerado como literatura, a ficção, por ser mentira, só é suplantada pela poesia no que se refere a algo que poderia ter sido abolido, apagado, votado a um total ostracismo sem que a humanidade com isso perdesse algo. Pelo contrário, ter-se-ia poupado à História a obrigação de carregar ao colo como filha essa bastarda disciplina que parece ser a história da literatura. Ter-se-ia poupado à humanidade magnífica falácia de que a subjectividade na leitura da realidade e o uso da linguagem para outro fim que não o de permitir o progresso em toda a sua objectividade podem conter a mais ténue réstia de virtude. Um poema não é muito mais do que uma gota de veneno civilizacional concentrado. A invenção de algo para ser narrado como sucedâneo da verdade está longe de ser visto como negativo mas o tempo dirá que a razão está do lado daqueles para quem a utopia seria o lugar da verdade e a negação desse paradoxo que é a ficção."
Júlio Sousa Teles, O Homem, a Cultura, as Falácias do Século XX.
Caro Júlio,
lamento que tenha partido cedo demais. Nem imagina como as suas palavras soam a profecia. Não tardará, andaremos todos a queimar livros outra vez. Eu não estarei por cá, por opção. Farei da minha ficção aquilo que muito bem entender e farei o impossível, se tiver de ser, para me diluir nela. Vou prescindir da minha realidade nesse dia em que triunfarem os homens como o Júlio e, já agora, Platão, que clama contra os poetas na sua República. Mas deixe-me que lhe diga, sem qualquer ponta de sarcasmo, do qual prescindo para me entregar despudoradamente nos braços da hipocrisia, que, ao menos, lhe devemos fazer uma homenagem: prefiro a sua postura sem rodeios àquela coisa insidiosa e nauseabunda de achar que a ficção serve para entreter e ensinar a escrever e a poesia fala do que é bonito. Saboreemos uma náusea comum, Júlio, relativamente a essa gente e deixemos o tempo falar. Sem sarcasmo nem hipocrisia, entregue agora à crueldade pura, o Júlio já não tem muito tempo, pois não? Às vezes, nem os pactos com o Diabo surtem o seu esperado efeito.
Despeço-me com estima e consideração.
O seu amigo de todas as horas
Tomé Santos
05/09/12
Falo contigo sempre como se te escrevesse, como se fosses alguém que espera a queda de uma carta, no chão, do outro lado da porta que não o da rua, uma porta com abertura para o correio mas sem caixa. Escrevo-te como se não fosses eu, como se não te fizesse a minha barba de manhã ao espelho, como se tu não me quisesses dizer o porquê de deixares tudo por fazer até que a realidade te pressione, até que se torne inevitável que tenhas de atirar contigo contra uma parede, como num acidente bem medido, para te obrigares a parar, devolvido ao remetente.
17/08/12
crónica de um enterro fácil
A
tradição é um guardanapo de pano quadriculado com uma nódoa de vinho tinto
feito a martelo. A tradição é ir à missa ao domingo e na noite de Natal porque
temos oitocentos anos de História e mais santos que medalhas olímpicas. A
tradição é um burro com sarna porque um cavalo é demasiada ambição e arrogância
para quem não tem onde cair morto. A tradição é haver palhaço pobre e palhaço
rico para podermos chorar com ambos. A tradição é recitar de cor os primeiros
versos de Os Lusíadas, com desvelo patriótico e tom de homenagem fúnebre. A tradição é ouvir os versos do dito hino
nacional com a melodia evocativa de um supermercado, em fundo, e corresponder
ao apelo irreprimível de comprar produtos nacionais.
A
tradição é uma merda que não te deixa dormir descansado porque é óleo de fígado
de bacalhau que te faria bem à alma e bem a coisa nenhuma. A tradição deveria ser
um papel amarrotado com raiva e por vingança de não se poder ser sem se ter
sido.
Por
ti, fazias revoluções todos os dias, se não te doessem as costas, de alto a
baixo, os rins, o estômago e se não estivesses cansado da vida só porque a tens.
Ainda assim, podes deixar este recado em banca de fruta de mercado e em outros
sítios de maior potencial inflamatório. Não tenhas medo que te achem diferente
daquilo que eras: passaste de sensato a pirómano impenitente.
Mata a tradição e poderás abolir o pretérito perfeito, o mais
que perfeito e toda essa corja de recursos bélicos obsoletos e a cheirar a
corpo de rei fundador, putrefacto em panteão. Morra esse gás poluente saído do
escape infame da História! Morra a História e escreva-se-lhe um obituário
tratando-a a minúsculas, inscrevendo na lapide a sua fama de meretriz
traficante de indultos, sobressaltos, deveres e sacrifícios. Assine-se-lhe certidão atestando que se terá
finado sem honra nem glória. Meta-se-lhe, por entre os folhos da mortalha, uma carta de recomendação para que entre definitivamente nos quadros do inferno mais fundo, sem passagem a regimes de mobilidade.
A
tradição está já a meia haste à porta da tua casa, esfarrapada, suja,
com as cores deslavadas e com uma multa de estacionamento proibido presa com um
alfinete oxidado a meter-lhe o tétano pelas veias ressequidas. Paz à sua alma.
"Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup!"
Qui gagne sans tricher, à tout coup!"
(Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, "L'horloge")
16/08/12
[narratione/collectione/obliviu]
A rua era rua de cidade. Poderia ser algo como paredes de pedra escura, dia sem sol, luz relativamente intensa. A porta da casa era de ferro, trabalhada, sem demasiados detalhes, de um vermelho escuro oxidado. A parte superior deixava ver o interior, vidro grosso e antigo por detrás de barras lisas, o mesmo ferro da parte inferior e da moldura. Via-se o pátio de entrada, oito caixas de correio na parede do lado esquerdo, ao lado do quadro eléctrico e de todas as portas de compartimentos para instalações necessárias de cuja descrição nos dispensamos sem qualquer tipo de justificação. O chão era de pedra, um mármore polido pelo tempo, mais brilhante no percurso que levava aos degraus em frente, feitos de madeira de carvalho, a toda a largura do pátio de entrada. Muitas coisas não moravam ali já, muitos passos esbanjados, amor feito a caminho do elevador, no recanto junto à porta do rés-do-chão esquerdo, reclamação do vizinho muito possivelmente.Talvez estivesse isso tudo na porta de ferro, a da entrada, atraído pelo ferro, parte mesmo da ferrugem em camada fina, espalhado pelo mármore da passagem, incrustado nos veios do soalho.
A rua era rua de cidade. Poderia ser algo como paredes de pedra escura, dia sem sol, luz relativamente intensa. A porta da casa era de ferro, trabalhada, sem demasiados detalhes, de um vermelho escuro oxidado. A parte superior deixava ver o interior, vidro grosso e antigo por detrás de barras lisas, o mesmo ferro da parte inferior e da moldura. Via-se o pátio de entrada, oito caixas de correio na parede do lado esquerdo, ao lado do quadro eléctrico e de todas as portas de compartimentos para instalações necessárias de cuja descrição nos dispensamos sem qualquer tipo de justificação. O chão era de pedra, um mármore polido pelo tempo, mais brilhante no percurso que levava aos degraus em frente, feitos de madeira de carvalho, a toda a largura do pátio de entrada. Muitas coisas não moravam ali já, muitos passos esbanjados, amor feito a caminho do elevador, no recanto junto à porta do rés-do-chão esquerdo, reclamação do vizinho muito possivelmente.Talvez estivesse isso tudo na porta de ferro, a da entrada, atraído pelo ferro, parte mesmo da ferrugem em camada fina, espalhado pelo mármore da passagem, incrustado nos veios do soalho.
A rua era larga, com uma porção
de passeio entre as duas faixas, espécie de alameda envergonhada, plátanos pelo
meio. Muito saberiam os plátanos sobre as entradas e saídas do número quarenta
e oito, lugar comum de objectos e seres como depositários do concentrado do
rasto de vida. Entre os plátanos, sentado no banco do condutor de um carro
azul, alguém tomava notas num bloco de capa preta, olhar muito atento, por
vezes alternando com um vaguear previsível. Pareceria um detective particular,
ou um polícia de filme menor, tudo óbvio. Sabemos que ocupava o seu tempo e que
apenas tomava notas pelo prazer de o fazer, notas sobre as pessoas que
passavam, sobre as casas. Ocupava o tempo enquanto aguardava compromisso
agendado, talvez consulta médica. Havia alguns consultórios particulares na
zona. De costas para a porta do número quarenta e oito, podia ver-se uma placa
de um cardiologista, professor universitáriosublinhado na parte inferior
do rectângulo negro, douradas as letras. Mais ao fundo da rua, perto do
cruzamento com a praça maior, havia um conjunto de placas que poderão anunciar
mais médicos ou outros serviços. Aguardará algo do género então. A rua
aparentava um razoável grau de limpeza, um ou outro papel e pontas de cigarro,
umas pastilhas elásticas coladas no alcatrão, trazidas por pneus de carro
talvez, pouco interessa. Nisto de detalhes, interessam umas coisas e outras
não. Por vezes é mesmo uma questão do critério de quem vê, outras vezes, as
coisas vão aparecendo e desaparecendo e fica o que fica, sem critério algum,
variante de ócio aplicado ao registo de factos e à descrição de objectos em
papel.
[um agradecimento à sónia silva pela disponibilização desta sua fotografia e pelo sempre estimulante diálogo entre imagens e palavras.]
01/08/12
how to acquire perfection
O homem mau tinha fama
disso, de ser mau. Não era mau como alguma coisa que se pega, chegando de
mansinho e espalhando o seu odor por debaixo da porta, antes de se instalar e colonizar o espaço vital com totalidade de
carnes e ossos. Era mau como um bloco de peçonha que se abate, pesado, sobre o tecto de uma casa,
rebentando o chão e penetrando até às fundações. Nunca soube se ele era assim,
nem o vi fazer nada, nem conheci sequer quem o tivesse visto fazer o que quer
que fosse de mau. Era mau sem vítimas. Ainda assim, afastava-me dele por superstição, porque a minha
avó me disse que não poderiamos, de forma alguma, cuzar-nos com ele na rua e ir ao resto da nossa vida, como se nada fosse. 'É homem para dar cabo da vida
dos outros e ir para casa beber um copo de água', dizia. Ao longo da minha vida,
encontrei sempre pensamentos e palavras, actos e omissões das quais me afastei
porque deles e delas era sabido que faziam mal, que destruiam, que não
deixariam consolidar os pezinhos de barro do meu altar de bom menino, do altinho do qual perguntaria à vida e aos que a validariam 'que tal?'. Mais: sabendo
do mal, não o evitar seria pecar, por minha culpa, minha tão grande culpa. Pois presto hoje, aqui, uma acobardada homenagem de homem mau
a todo esse pretenso mal, aos demónios de poderes não comprovados, ostracizados por suposição
de passar a vida a cheirar a enxofre. Serão demónios de aviário, à espera de
consumo fácil, com pele crocante e molho de gengibre. Não me terei cruzado com
eles e seguido com a minha vida, como se nada fosse.
In considering the origin of species, it is quite conceivable that a
naturalist, reflecting on the mutual affinities of organic beings, on their
embryological relations, their geographical distribution, geological
succession, and other such facts, might come to the conclusion that species had
not been independently created, but had descended, like varieties, from other species.
Nevertheless, such a conclusion, even if well founded, would be unsatisfactory,
until it could be shown how the innumerable species, inhabiting this world have
been modified, so as to acquire that perfection of structure and coadaptation
which justly excites our admiration.
(Charles Darwin, On the Origin of Species)
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