01/10/09

Fazia uma espécie de xilofones com os restos das pedras da pedreira. 'Litofones' seriam... Todos os dias levava umas quantas peças, irregulares, de expessuras e texturas diferentes, mais ou menos oxidadas, com  diferentes veios a rasgar a cor base da pedra. Já em casa, dispunha-os, com critérios e carinhos seus, sobre pequenos cubos de madeira, colados numa barra também de madeira, daquela clara dos caixotes da fruta. E depois tocava, fosse aquilo o que fosse, sempre devagar.  Deixava-se embalar pela dormência dos sons roucos, roubados ao fundo da Terra e ressuscitados para um diálogo improvável. E depois, depois falava, juntava palavras sussuradas àqueles sons com que povoava os cantos da sua solidão. e percorria livre e metodicamente o seu universo. Um dia, já cansado, ter-se-á deitado sobre toda aquela construção, num final de tarde de um quente Outono . E, enquanto a pedra lhe devolvia o calor do sol, confortando as suas costas com um tépido abraço, esperou que todos aqueles sons e palavras começassem a ganhar vida e forma à sua frente. Ao som daquela melopeia, que ainda hoje ecoa nas traseiras da sua casa, naquele quintal transmutado em máquina de memórias, terá ouvido o seu telúrico requiem. Haverá horas assim, horas em que a vida já nos trouxe o muito e o pouco que tinha a trazer e, então, talvez nos reste apenas esperar que, fechados os olhos, possamos ao menos continuar a sonhar, nem que seja com xilofones e palavras. Já terá valido a pena.

(Ruminava o facto de que esta ideia, como quase todas as outras, não seria original. Ocorreu-me então a figura de Palli, o islandês que faz instrumentos -marimbas cromáticas - com o que a Terra lhe dá - pedras, ruibarbos centenários, dia após dia, apresentado em Heima, de Sigur Rós. Foi, quase sem o saber, inspirada nele que esta curtíssima e condensada metragem.)

8 comentários:

Lídia Borges disse...

Adorei o tom morno e suave deste maravilhoso texto.
A vida pode sempre surpreender-nos, mesmo quando quando pensamos que ela "já nos trouxe o muito e o pouco que tinha a trazer"


L.B.

Elvis Brito disse...

Fantástico são estes seus textos, grandíssimos melhor! Eles têm o direito do superlativo; Agradeço-lhe o passeio por minhas terras; O engraçado é que ao lhe visitar aqui, caio em cima de um texto relacionando a surpreendentes descobertas que a vida nos proporciona e não há tão boa descoberta hoje para mim quanto seu blog.

Abraços Senhor Baudolino.

Blas Torillo disse...

Aquí ando amigo... con mucho trabajo queriendo sortear la crisis que en mi país se ha puesto peor cada día (a pesar de lo que diga el gobierno... aunque eso acaso sea lo mismo en muchos más países).

Y escribiendo sin duda. El libro se volvió más complejo de lo que había planeado, pero sigue su curso.

Mientras tanto, me alegra el día que haya amigos que a pesar del mar y del tiempo, se acuerden de mí.

Un abrazo grande.

Gracias por continuar allí.

x disse...

só tenho lido case law interessantíssima, sobre violações dos direitos humanos, que me faz querer ser melhor perceber mais ajudar. depois, cá por casa tenho na mesinha de cabeceira o 'maus' do art spiegelman e as tuas palavras, sempre belas, para aliviar o peso do que mas de real há. obrigada*

x disse...

só tenho lido case law interessantíssima, sobre violações dos direitos humanos, que me faz querer ser melhor perceber mais ajudar. depois, cá por casa tenho na mesinha de cabeceira o 'maus' do art spiegelman e as tuas palavras, sempre belas, para aliviar o peso do que mas de real há. obrigada*

~pi disse...

duma depressão fiz uma

pedressão

[ e aqui

lembrei-me

disso :)




~

* hemisfério norte disse...

horas
de pedrafones

amei
,eu
a.

Claudia Sousa Dias disse...

gosto de xilofone. faz-me lembrar a dança do sabre de Katchaturian.


mas a minha preferida é a harpa gigante que os druídas colocavam no alto das colinas para ser tocada pelo vento.


csd