22/11/17

Versículos 14-18

14 Sempre te parecerá ridículo aquilo que escreves, na forma e no conteúdo, quando procuras rever-te nessas palavras. 15 Amadurecerás, escreverás palavras que te parecerão mais maduras, mais ponderadas, mais depuradas e sempre as verás depois como inelutavelmente ridículas. 16 Não haverá para isso qualquer redenção: as únicas palavras perfeitas e de que não terias vergonha são as que escreverias no auge da tua maturidade. 17 Serás maduro quando a morte te colher e nunca antes disso. 18 Sobreviverás.

16/11/17

terra de fraternidade

João, ou Paulo (não sei qual serias tu)

estranha forma esta de, finalmente, te dar uma palavra. Faço-o no cumprimento de um dever, assim o sinto.
Nasci e não nascemos os dois. Disse-me a nossa mãe, no dia do nosso aniversário, há sete ou oito anos, mais coisa menos coisa, com um sorriso e o terno abraço que sempre parece procurar, que se celebrava o dia em que eu te tinha morto. Disse-mo a mim, homem a caminho de maduro, de forma inequívoca, como se ter eu visto a luz do dia fosse natural fruto de uma qualquer criminalidade seminal alegre, uma espécie de génio precocemente revelado do infanticídio intra-uterino. Disse-o com o sorriso de júbilo maternal e com a violência que talvez apenas as mães possam ter, como se recordasse a primeira vez que, para jogar ao pião em condições, se tivesse acidentalmente partido um vaso sem qualquer importância no quintal, valendo isso uma complacente reprimenda. Assim passaria eu a ter certezas, se dúvidas restassem?
Por incrível que te pareça, não fiquei chocado no momento, ou não vivi essa notícia como choque. Apenas registei o despropósito da declaração, sugeri-lhe que se sentasse, porque vinha cansada, como sempre parece andar. E assim ficámos, juiz, réu e testemunhas, naquele torpor transitório, disjuntores disparados para proteger equipamentos.
Perguntei-me, depois, ontem, o que acharias tu disto. Sempre foste o miúdo, sem nome e de rosto imperscrutável, que brincava na sombra, sem que nos aproximássemos. Ficavas, invariavelmente, na penumbra que sempre se adensava quando pensava onde estarias, como se o conforto de te saber ali não se pudesse fazer acompanhar do prazer de te ouvir, de te saber a fisionomia e o que ela teria de sobreponível com a minha. Quando te avistava, de joelhos, a brincar no limite de distância segura, mesmo que te voltasses na minha direcção, sempre o cabelo te caía naturalmente sobre o lado quase visível do rosto. Ali ficavas, presente e oculto. Dou-me conta hoje de que não me recordo de ti com mais de sete anos, ou oito, no máximo. Verão, calor, o tronco nu e uns calções verdes que a avisada penumbra fez cinzentos, ter-te-ei avistado pela última vez assim, a brincar, em espaço-tempo cinzento. Não me lembro de me ter despedido de ti e talvez resida aqui o impulso de te escrever estas linhas, o dever de te desocultar por esta via, porque tudo em nós é dúvida, se exceptuarmos a forma como nos quiseram narrar. E até nisso aceito perceber que, quando não nascemos os dois, tu te tivesses convertido, aos olhos de quem nos concebeu, no eterno projecto imutável e eu tivesse passado a ser a parte visível da Grande Dissensão, só por estar vivo, em cada centímetro crescido, em cada poro, em cada gota de sangue, em cada mudança, em cada palavra afinal. A culpa, a de ninguém, não será para aqui chamada, por não trazer claridade ou benefício que possam justificar garras infectas cravadas nas nossas costas por tempo mais indeterminado ainda do que aquele que poderemos ter aqui. Ficam as palavras, as que fui proferindo quando te pedia, sem esperar resposta audível, as mais variadas opiniões, as que me davam notícias de ti, as que me descreviam a mim e te evocavam, as que descreviam e narravam a forma como talvez tenhamos mesmo passado a ser eu. Deram-me os nossos nomes e, com isso, foram geradas equívocas operações de aritmética ontológica. Nunca percebi o que em nós foi soma, subtracção, divisão, multiplicação, ou que combinações de tudo isso se operaram em território tão excessivamente exíguo para tanto. Para que não nos percamos, para este efeito, parece prudente que sigamos o curso dos nomes. São os nomes palavras e tenho vindo a aprender o respeito que estas merecem no seu labor, sínteses generosas, tecido cicatricial. Agora que termino, talvez me dê conta de que, no tempo que levou o juntar estas letras, foste deixando a penumbra, dobraste a esquina, onde costumavas brincar de joelhos, deixaste de estar por ali. Quase arrisco intuir que a consumação do afastamento apenas quererá significar que foste e és, de facto, mas não como tantas vezes te esperei, a crescer comigo, a imagem, a cada dia mais falaciosa e protegida pela penumbra, de um tipo como eu, à qual eu acrescentaria similitudes e diferenças, desejos expressos em catálogo.
Se não for para mais nada, servem estas linhas para perceber a dimensão e a intensidade dessa enorme fantasia condenada de sermos os dois adultos, a conversar pela noite fora, após a ceia de Natal, a pensar na alegria, sempre insuficientemente confessada, de poderem os nossos filhos brincar uns com os outros, ou de poderem as nossas mulheres criticar os nossos defeitos menores comuns, aqueles que, dir-nos-iam, mais teriam pesado na forma como se teriam apaixonado por nós. Riríamos e os nossos abraços seriam quentes, por estarmos todos, literalmente todos, vivos.
Julgo estar em curso, em boa hora, a convalescença decorrente de ter sido crua, unilateral e maternalmente oficializado como teu algoz. Haverá, em terra de fertilidade duvidosa, esperança, por se ir fazendo luz e caminho de entendimento? Nunca o saberemos, não é?

Da minha parte, ficam finalmente em dia as despedidas. No final, seja isso o que for e quando for, teremos sido o que pudemos ser e isso, por si só, terá de ter bastado.


O teu irmão.
João Paulo

13/11/17

versículos 5-13

6 O respeito pela ordem estabelecida e pelos bons costumes conduz os teus passos a uma qualquer cidade celeste de que ouviste falar. Por ela entrarás, sem que seja notada a tua presença e sairás incólume dessa experiência. 7 Ao teu lado, irão aqueles que não desistem de crer em ti, na ordem e nos bons costumes, os que vos são fiéis. 8 Serão um só, a ordem, os bons costumes e tu mesmo. Nessa trindade, encontrarás a liberdade de te saberes inscrito em algo maior do que tu, mesmo que não seja algo de tão grandioso assim. 9 Olharás as estrelas, em busca do reflexo da transcendência e nelas verás ordem e desordem, toda a sorte de formas de pensar, de actuar, de te encarar, de te negar. A frustração tomará conta de ti e quererás, por uma questão de justiça e por amor a um futuro perfeito, destruir as estrelas, as cidades que nelas estão reflectidas, as pessoas que parecem inflamá-las de vida. 10 Olharás à tua volta e perceberás que ficaste só, que tudo, até as portas da cidade, se tornaram pó, um pó que nem acede a colar-se às solas dos teus sapatos. Sem que nada se perca, tudo se transforma, excepto tu, a tua certeza, a tua falácia. 11 Ficarás convencido de que chegaste inadvertidamente a um céu, de que terás sido O Justo, salvo de um Apocalipse menor, levado à presença de um Absoluto pessoal. 12 A tua fé ter-te-á salvo de tudo, excepto de ti e passará tempo até que o conhecimento disso te atinja e te atire ao pó. 13. Então verás.

06/11/17

versículos 1-5

- Seria perfeito se pudessem coexistir, num dado momento, a melancolia da chuva e o brilho inebriante de um dia de céu limpo, não achas?
- Não, não acho. Isso seria apenas uma ideia estúpida, de concretização indesejável. 

«1 Não se perderá um só pingo de chuva na tua pele. Não se encontrará vestígio de ti nessa água.
Crescerás como um rebento de arbusto em cativeiro. Os teus dias serão feitos de lamentos sem justificação e contemplação absurda do sol, até que a cegueira dos que conseguem ver se instale e te dite nova condição ontológica, que adoptarás até ordem diferente. 
2 Encontrar-me-ás à tua porta, para te dar de beber, e não me reconhecerás. Desconhecerás três vezes quem sou e porque dei passos até ali. Não responderei a qualquer pergunta, porque tu és a resposta para todas as perguntas formuladas e por formular. 3 Sairemos desta chuva sem que haja desejo à vista e tudo será mais claro, sem desejo. O desejo não é digno de feitos grandiosos, não deve ser alimento de epopeias, não pode ser celebrado em cerimónia que o torne memória. 4 Pelo contrário, a chuva, como tudo o que nos leve para debaixo da terra, será glorificada pelos séculos dos séculos. A chuva e deus, a arder em arbustos, dilúvio de fogos apagados, eclipse de sangue fervente. Assim serão os tempos quando tudo estiver completo. 5 Então verás.»

04/11/17


A dúvida seria boa conselheira se não estivesse tudo como num chão de pó e pedra miúda, no qual os passos fazem ruído em excesso para que se possa surpreender um pássaro no seu sono. Tenho dúvida sobre se deve um pássaro ser surpreendido no seu sono, se isso não fará de quem o observa um impenitente voyeur, em busca de intimidade selvagem. Poderia observar-se o sono de pessoas, preferencialmente desconhecidas, por horas, dias, meses e ser esse o projecto de uma vida. Subsistiriam sempre os problemas do mais ínfimo ruído indisfarçável e da impossível invisibilidade. O chão da intimidade alheia é infinitamente sensível ao atrito do olho intruso.

31/10/17

Coisas 87,1% verdadeiras de que me lembro

Não me recordo de ir ao cemitério em dia de Todos os Santos, de Finados, em dia de muita gente por ali. Ir ao cemitério era uma viagem como outras, feitas a pé, pela mão da minha avó materna, tardes sossegadas de sol forte, sem sensação de calor. 
Levava eu, em um desses momentos, camisa quadrejada e casaco fino de malha. Excesso de roupa e transpiração levou a submissão à tutela de proposta no sentido de despir o casaco, imediatamente refutada por não ser, aquele, tempo de se andar sem casaco. Atempadamente, foram recolhidos os materiais necessários para a tarefa: um balde com alguma cal previamente derregada, um balde vazio, no qual se transportava pincel para caiar, lixívia, panos e esfregão ou esfregões. Não vi algumas destas coisas e outras poderiam constar da lista, sendo o balde vazio contentor no transporte de tudo aquilo. À saída, passando pelo saguão, colhia a minha avó rosas brancas e cor-de-rosa, umas cinco ou seis, que eu levava, depois de terem sido retirados os espinhos e envolvida a base do ramo numa pequena prata. 
Não me recordo bem de fazer o caminho para o cemitério, talvez por ser rota comum a outras, com destino a sítios aonde a minha avó me levava, sempre sem grandes explicações. Íamos à mercearia, na esquina da minha rua com a dos meus avós, ou, com menor frequência, a outra, perto da escola; íamos cobrar a renda da casa alugada, em rua com nome de virtude, perto do jardim; íamos a casa da madrinha Inácia, onde havia bolachas de chocolate com ligeiro aroma a naftalina, bustos de madeira e outras peças trazidas de Angola. Passávamos, apenas, pela casa do tio Felipe ou da tia Francisca, uns anos mais tarde, diluída total ou parcialmente a inimizade iniciada aquando de partilhas das coisas de Espanha, por morte da minha bisavó Ángeles. A passagem pela casa do tio Felipe era feita no regresso da volta do cemitério e ia eu devidamente desperto para a evidência de que o Tio Felipe era boa pessoa, apesar da tia Vitória, sua esposa. O seu filho mais velho era boa pessoa, apesar da mãe e da relação íntima com o álcool. A filha era boa pessoa, apesar da mãe e dos seus olhos muito bonitos, evidência de perdição com homens, consumada ou a consumar, realidades equivalentes. O outro filho era altivo e haveria de estudar coisas em universidade, talvez também apesar de muita coisa. 
O cemitério era jardim, sem a estranheza que adquiriu, em formatos e terras diferentes, anos mais tarde. Eu ajudava, ocasionalmente, a ir buscar alguma água no balde, pelos caminhos previsíveis entre os túmulos, cuja parte mais alta, em geral, ficava acima da altura dos meus joelhos. Evoluía minuciosa limpeza das campas, entre o esfregar do mármore branco e o caiar das zonas de alvenaria. Ficava eu distraído pela luz, pelo cheiro a desinfectante e rosas. Em outras campas, sob vigilância ligeira da minha avó, ia brincando com um ou dois carrinhos que trazia no bolso, ou com um par de berlindes, fazendo, na terra não demasiadamente seca, com o calcanhar direito, covas discretas para o efeito. O cemitério era o silêncio entrecortado por ruídos que em casa se ouviam: o esfregar,  o pano molhado a cair na pedra, a fricção húmida do pincel da cal na parede. Brincava eu por entre mortos e ruídos familiares, coisa entre estar em casa e no jardim, a brincar perto das pessoas que por lá passeiam, ou se sentam em banco, ou jogam às cartas com os amigos. 
Fazia-se o regresso passando pela casa do tio Felipe, ponto na rota sem obrigar a grande desvio, e por igreja com estátua de Hércules a segurar o mundo na ponta do dedo. Informou-me a minha avó, como se falasse de coisa banal, de que, no dia em que caísse a esfera de pedra representando a Terra, o mundo acabaria. E continuou o seu caminho, na sua marcha difícil, a coxear, comigo preso à mão direita, os baldes na outra. Fiquei esmagado pela possibilidade de que o fim do mundo estivesse ao alcance de uma escada, de um acaso, de um ligeiro respirar da Terra que perturbasse o Hércules de pedra no alto do frontão da igreja. Ali ao lado, ou melhor, acima das nossas cabeças, mas ao alcance da vista, a chave do Apocalipse. Leva-se uma vida a perceber a ténue fronteira entre vivos e mortos, entre o fim anunciado do mundo e aquele que ocorre a cada momento. Todos dias são de finados e por finar, de mortos enterrados ou por enterrar, de pecadores arrependidos e de impenitentes confessos, de todos os santos ou só de alguns.  Hoje foi dia de recordar o prazer de brincar no cemitério, de ver a cara satisfeita da minha avó, cara de dever cumprido, de a recordar num espaço onde se imaginou em vida a seguir o meu avô, quando ele morreu, a guardá-lo como se o ciúme fosse coisa que se levasse para outra qualquer vida, um espaço onde nunca quis ser enterrada, por não se querer debaixo da terra. E não foi, de facto, enterrada. Estão em gavetas próximas, não tanto quanto ela quereria, mas suficiente para que possa talvez descansar. Não acabou o mundo, mas acabou o meu com ela, aquele onde fazíamos caminhos com rosas na mão, onde apenas os dois éramos melhores do que quando estávamos mais, onde me impregnou de superstições, que ainda hoje tenho na pele, onde me ensinou a cozinhar sem se dar conta, onde era carinhosa desde não se notasse muito. Assim se equilibra o mundo na ponta dos dedos.

30/10/17

Nasceu-lhe a filha. Subiu a rua. Contaram-lhe, no meio de felicitações diversas, que só depois desse momento se conhece face a face a incerteza do passo, a dúvida que não se desvanece, o medo da perda, o prazer do encontro do olhar. E ele pensou em como tudo isso ser banal.
Quando tudo é, para ti, banal, até o nascer-te uma filha, talvez não te reste muito a esperar, para além de te saberes morto.

28/10/17

(re)play

Não estará ninguém perto de ti. O prédio onde viveste em criança, a curva que aquele descreve, acompanhando a rua na sua estrutura circular, parecer-te-á, por uns segundos, a tua casa de agora. Ocorrer-te-á o sabor, ao deslizar a ponta da língua nas superfícies, do verniz das janelas, da massa de vidros impregnada do mesmo verniz, na zona mais perto da madeira, o frio do vidro. A rua, a parede do prédio em frente, branca, quase sem janelas, casa vazia de noite, as irregularidades na justaposição das pedras do passeio parecer-te-ão insuportáveis. Jogarás ao berlinde nos sofás de napa verde dos teus avós e perceberás que a casa é já outra e outra ainda, a casa emprestada na cidade da montanha com cruz no topo. Estarás num comício em praça central com árvore centenária, campanha de Ramalho Eanes para presidenciais contra Soares Carneiro, canadiana azul vestida, colecção de calendários no bolso. Contigo, o teu pai e os teus filhos no estádio de Alvalade, vitória sobre o Marítimo com golo de jogador chileno. Perceberás que mudaste de óculos meia dúzia de vezes em meia dúzia de décadas porque mudas pouco, porque isso te assusta mais do que conduzir sem noção de perigos, a demasiados quilómetros por hora, como fazias uns anos atrás antes de, por razões que não interessam agora, começares a conduzir irritantemente devagar e a ouvir programas de rádio sem música. Ontem doía-te o joelho esquerdo, a anca esquerda, ocasionalmente o abdómen, logo abaixo das costelas, às vezes um pouco mais atrás, na zona do rim direito, mas hoje não sentes nada disso, diluíram-se as maleitas nas voltas da pista eléctrica de carrinhos, de marca Polistil, no cheiro do seu transformador quente, ao qual colas o nariz ou no ruído do combóio Märklin sobre os carris, diligentes todos nas suas viagens por caminho conhecido. Hoje, esperarias que não estivesse aqui ninguém e estão todos. E ocorrer-te-á uma poesia que te daria prazer dizer alto, com um sorriso quase feliz, mas a voz não sairá e dir-te-ão que não te canses. Hoje estará aqui quem pode, quem interessa e para esses começaste a cozinhar desde manhã para a carne ficar bem tenra e para, depois do almoço, se descansar de vez, algo como uma sesta.

27/10/17

fraca é a carne

A concepção e construção do talho seguirá a lógica que presidiria à montagem de uma agência bancária: locais de atendimento luminosos, funcionários de fato e gravata, funcionárias com roupa formal, secretárias, com computador ligado em cima e espaço suficiente para que os clientes possam, consultando as brochuras, ponderar as diversas possibilidades: escolha, de entre a carne dos animais disponíveis, de cortes específicos para determinadas finalidades gastronómicas, de preços, de modalidades de pagamento e taxas de juro associadas, incluindo possibilidade de ser feita hipoteca de carne dos próprios clientes como garantia de pagamento das carnes alheias, compradas e a consumir. Haverá um cofre, necessariamente refrigerado, com códigos de acesso complexos e sistemas de abertura retardada, tudo combinado com sistema de vigilância e de alarme destinados a proteger as carnes todas, os fatos todos, os cofres todos, os sangues todos, os que correm desabridamente e os contidos em vasos, em corpos vivos ou nem tão vivos assim, os que não escorrem pelo chão inundando a rua porque tudo está regulamentado e previsto no sentido de isso não aconteça. Detalhe talvez tardio: dentro do cofre, haverá pequenos cofres para que clientes especiais pudessem revisitar peças de carne especiais, raras, carnes dignas de cuidados preparatórios visando futura e insuspeita execução testamentária. Bancos de carne, carne em bancos, bancos de talho, laboração contínua de carnes.

26/10/17

As revoluções fazem-se antes do nascer do sol, antes de permitir a luz solar que se vislumbre fio delicado, fibra ínfima, em contraste com o céu. É essa a hora de prece humilde a um deus que pareça disponível, que não se faça cobrar por tal, que não prometa amar, pela eternidade, reclamando tributo e olhos postos no seu absoluto amor. É essa a hora de agarrar fibras a que a primeira luz do dia dê corpo e de fazer a revolução como ela deve ser feita: frágil e imprudente, de dentes cerrados.Seremos todos filhos dessa urgência de fazer diferente, do impulso mal medido, da coragem fugaz, sempre melhor que a cobardia de ficar por ficar, dos significados construidos a posteriori. E não seremos bastardos, nunca. Ninguém é bastardo de nada ou de alguém, nunca.

Dulce et decorum est pro patria mori *

- Agora, aos quarenta, vais dedicar-te à pintura!?
- Comprei umas coisas para fazer umas experiências...
- Nunca foste grande coisa no desenho...
- Não vou experimentar desenho, quero experimentar algo com as cores e as tintas...
- Nunca foste grande coisa nisso...

Pode-se crescer não se sendo nunca grande coisa em nada. Nem se é grande filho quando o lado para o qual alguém se faz velho, matando um dia após o outro, é celebrado, enquanto o lado para o qual se cresce é sempre o errado, o lado pior da fotografia.

- Gostava de me dedicar à escrita...
- Pois... Sempre foste bom aluno...
 Mas nunca fui grande coisa nisso.

* (Horácio, Odes)


25/10/17

quase-nada-de-natureza quase-morta

O carro é um amontoado de lata velha, sem conforto, sem qualquer interesse para além de uma persistente fiabilidade mecânica. Nele terão sido percorridos muitos quilómetros, muitas sequências de paisagens, muitas caras à beira das estradas ou da ruas, muitas solidões, muitas conversas. Terá esse interesse, o carro, o de se fazer contentor de memórias muitas, protagonista improvável. Ao longe, não muito longe, mais para o fundo da rua, um vizinho aquece um motor de motorizada, também velha de latas e afins, com pequenos golpes de acelerador, supõe-se, pela cadência das subidas e descidas no regime de rotações. Tudo velho e quase sem valor funcional. A meio da rua, os latidos do enorme cão velho de outro vizinho: uma vida de reclusão com vista para o exterior, uma ilusão de liberdade e o direito a fazer aquilo para que se nasce quando se é cão de vizinho que gosta de ter cão a ladrar no jardim. Dialogam profusamente, cão enorme e motorizada estática. O carro, esse faz pouco barulho. Quando chove, o dono sabe que pode ir dois quarteirões mais acima comprar pão. Sai da garagem e nota-se, no seu interior, um ligeiro aroma a terra e cebola, a produtos hortícolas com duas semanas, pendurados por sobre o tejadilho. Começa a ouvir-se o cão jovem de outro vizinho, nas traseiras. Emite um ruído agudo, um ganir mal controlado, algo entre desespero e esperança ingénua. Não sabe ainda ser cão de vizinho que gosta de ter cão a ladrar e uivar em canil exíguo no quintal traseiro, onde raramente vai. Como tudo se aprende e como a submissão é a mãe de toda a convivência indigna, aprenderá que se perspectiva diálogo com rebarbadora madrugadora de um quarto vizinho, coisa de sábados de manhã. A rua existe, assente no pressuposto de que, sem ruído, não há possibilidade de vida e que a felicidade dos vizinhos é poder ter cão ou máquina que fale por eles, à falta de imaginação para ler o mundo de outra forma. Paz às suas almas.

18/10/17

Aos vinte e nove serias um homem maduro. Estarias um adulto feito, daqueles que até votam em eleições para o parlamento europeu, que pagam a sua gasolina e um ou outro jantar em dia de receber ordenado. Ouviríamos falar da S. e de como iriam viver para a casa dela, que era maior. A tua seria alugada e, com esse dinheiro, farias face à prestação no banco e a parte das despesas do colégio do bebé, quando chegasse. Agora, o contrato novo na fábrica, deixa-me mais confiante, dirias. A S iria continuar os estudos e isso também seriam despesas mas valeria a pena. Depois, irias tu fazer a formação, sempre a contra-gosto... Perguntar-me-ias, mais uma vez, de que me serve ter outro carro potente se isso não é evidente aos olhos com o carro parado. E eu diria que estás igual ao miúdo que foi comigo e com o meu pai buscar o meu terceiro carro a Leiria. Depois, dirias que tinhas de ir embora porque querias chegar cedo a casa e concordaríamos. Ficaria combinado que, no fim de semana, porque a M viria de Lisboa e o M e o Z quereriam ver o jogo do Sporting contigo, celebraríamos o dia de ontem, o do teu aniversário, todos juntos como no Natal. Diria que não te preocupasses com a comida e com a bebida porque eu trataria disso e responderias que tu trarias a cerveja porque eu, com a mania dos vinhos elegantes, acabava por estragar irremediavelmente os jantares.

Parabéns, JM.

16/05/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 4.0

16.05.2017

L,

tenho recebido a tua voz amiga como uma rara oportunidade para diálogo, nestes tempos recentes em que temos tido oportunidade para mais do que pôr uma qualquer escrita em dia. Porque as teias com que nos tecemos e nos vamos tecendo uns nos outros serão assim mesmo, é mais comum que os outros sejam um espelho do que uma janela ou uma porta abertas e, logo, é mais usual que nos vejamos envolvidos em monólogos travestidos de outras práticas conversacionais. Nada de perturbador nisto, será assim. Seguem estas palavras, na volta do correio, sem filtro.
Na tomada de consciência de que, a cada segundo, a cada dia, somos o mesmo e o diferente disso, a dúvida sobre o que sou, sentado sobre aquilo que tenho sido, é tranquilizadora. Tenho perdido em certezas, tenho ganho em amplitude; perdi vigor em convicções, ganhei algo em humildade (embora esta afirmação não seja destituída de soberba). Senso comum, evidências tornadas inefáveis revelação, isso de sermos outro e o mesmo... Pode ser. Mas durmo melhor, depois de não dormir anos a fio. Tantos, que talvez me tenha esquecido do que seria dormir uma noite de sono. Ainda acordo vinte vezes por noite, só por acordar, só para ver se ainda cá estou, talvez, como se quisesse controlar a rotação e a translação da terra para não acordar perdido em órbita irreversível. Ou então não é nada disto e ando iludido pelo facto de dormir melhor, como se o universo e, narcisicamente, eu próprio, tivesse erigido algo como um sono razoável à condição de grande demiurgo.  
Não me esqueci de Deus, nisto tudo. Não poderia, nem sequer faz sentido assumir uma atitude de combate, de militância contra o pai, o filho, ou o espírito santo. Contra outras coisas, talvez, mas há outras lutas prioritárias, como estar vivo e contente por isso; não se justifica andar a zurzir comportamentos discutíveis como quem combate o bom combate. Perante Deus, a existir, não nos restaria muito mais que tentar adivinhar com maior ou menor afinação os seus pensamentos, os seus desígnios. Acertaríamos pouco nesse processo de prever resultados a partir do que se conta que foi. E não viria disso mal ao mundo. Na economia desta narrativa, estaríamos apenas a acrescentar mais uma sequência e isso poderia ser bom. Seria bom que a boa nova fosse actualizada a cada dia. Seríamos os mesmos, sendo outros, melhores. E seria bom que, em tempos frios, eu me sentisse aquecido pela ligação ao divino. Seja a história o que for, faço parte dela e isso, para já chegará e não me perturba. Perdendo em conforto do alto, terei ganho alguma paz por me aceitar melhor. Terei perdido na troca, se o foi. Esta formulação em pares que parecem opositivos pode resultar pouco coerente, ou terreno fértil para que se encontrem fendas no discurso, lapsos freudianos em discurso moldado por cartilhas psicanalíticas mal assimiladas. Talvez. Mas durmo melhor. Pelo menos estou convencido disso. Sobretudo, não me apetece dormir para sempre, fosse isso o que fosse. E a procura da coerência não tem de chegar àquilo que mais se parece com ela. Numa péssima e abusiva metáfora, não parece haver coerência numa obra cubista. Ainda assim, não questiono que a sua existência, o podermos interagir com ela, nos faz mais humanos (foi fraco, eu avisei).
Nisto de sermos um, sendo o mesmo de sempre e outro novo a cada dia, nunca saberemos com certeza como se fazem e desfazem os nós que somos. Por isso, não há que esperar por regressos, porque não houve partidas; nem saímos, nem regressamos. Estamos vivos e isso é bom. Às vezes terá de chegar como projecto, a caminho de uma felicidade qualquer iluminada por realidades simples e pouco palpáveis nas quais acredito sem dificuldade, como aqueles que amo, o amor que me devolvem.  Adivinhemos então, façamos prognósticos, querido amigo, e falemos sobre eles, sobre os equívocos que deles emergem, ainda que pelo puro prazer de discutirmos a sua validade, as suas probabilidades de concretização, o aroma que têm, como soam e que com que cores se pintam. E podemos beber um copo ou tratar de um petisco qualquer.

Um abraço e até breve. (Posso estar no exílio, mas cá te espero)
P.S. moralista) Tens que largar as cigarrilhas. Ainda te desafiava para um puro mas nem me tem apetecido, nem acho que te prestasse um bom serviço...

26/04/17

O rio junta-se ao dia por sobre um tampo de secretária. A luz escassa amplifica-se pelo desejo de a ver mais forte. Os dias escorrem pelos tampos das secretárias e pelas cadeiras, pelos copos de água e pelos cafés, pelos diálogos e pelas esperas, pelas obrigações e pelas devoções. Tudo com o mesmo peso, tudo constante no desgaste de água mole sobre pedra pouco dura. E tudo parece equilibrar-se, dando cumprimento a uma qualquer lei da física ou a um conjunto delas, sem outra motivação para além desse feliz casamento entre leis e realidades. Fito tudo isto com um olhar turvo e um entendimento sem convicção. Consta que, em certos dias. a certas horas, nem as metáforas parecem poder salvar. Hoje, porém, espera-se redenção, nem que resulte esta de se dar à luz fraca metáfora. Que assim seja.

18/04/17

Coisas 49% verdadeiras de que me lembro

As imagens têm uma componente a cores e uma outra em escala de cinzentos. A esta última parece poder ajustar-se, ocasionalmente, o verde muito escuro, crescente em imperceptível gradação no espaço-instante em que a sombra se instale. Tudo parece ser visível apenas pela porta que, da marquise-quase-corredor, envidraçada à esquerda, dá acesso à cozinha. A cena ter-se-ia passado aí, na cozinha, por incapacidade minha para a recriar em outro lugar. As descrições confeccionadas pela minha avó materna, bem como as narrativas por ela tecidas, uma e outra vez, a partir de cenas protagonizadas pelos seus sogros, foram sempre por mim visualizadas como tendo ocorrido ali, naquela cozinha, a da minha avó, mas vistas de fora, pela porta, ou melhor, pela meia porta. A sobreposição dos espaços não seria completa por, em quadros passados, o padrão algo hipnótico dos mosaicos permanecer oculto. O chão, os seus padrões geométricos a evocar abismos e plataformas guardiãs de infinitos,  parecia desvanecer-se nessas sequências registadas em plano contra-picado, de profundidade reduzida, como se tudo fosse presenciado a uma altura ligeiramente inferior à dos meus olhos. 
Sempre, entre nós, se fez intensa a experiência da fronteira, essa linha de pó trilhada por contrabandistas, que nunca vi, guardas fiscais, de quem desconfiei, e de carabineiros que, com o tempo, aprendi a temer menos. Esse era o espaço seminal, a separar Portugal de Espanha, de onde se acedia ao mundo da minha avó, a estrangeira. Ventos e casamentos, que sopram de onde se sabe que não vem boa coisa, transmutam-se diligentemente em searas de outras fronteiras, espessas, difusas, perversas. 

O que vi: "O meu bisavô Manuel Bento, figura bondosa, interage fisicamente com a sua esposa, e minha bisavó, Delmira, figura não tão bondosa assim, de quem eu recebi colo com o dom de me adormecer, motivo de enlevo intergeracional, para os meus pais, e de suspeitas de encantamento duvidoso, para a minha avó. Tudo isto se faz chama a florescer, emanação de fronteira. Provoca então Manuel a queda de Delmira de cima de uma cadeira, que estaria, por seu turno, sobre uma mesa. Estaria ela nesse lugar a tentar limpar algo a que, de outra forma, não poderia aceder. Não se faz luz sobre a agenda suspeita que teria levado a tal empresa elevatória, aparentemente injustificada. Manuel, sempre bondoso, teria entrado em casa etilizado e teria empurrado a cadeira para que, propositadamente, ela, raramente bondosa, dali se precipitasse. Ele, ou melhor, o álcool que nele agia, ludibriando a sua responsabilidade em quaisquer actos, teria assim permitido que alguma justiça fosse feita, por se ver compensado o esposo de queixas diversas e integralmente validáveis por qualquer um que por ali andasse, como por exemplo a minha avó. A saber: a secura da mulher; a sua acrimónia para com o pobre homem que brincava pueril, doce e cumplicemente com a neta; a inflexibilidade na hora de ralhar com ele por, alegadamente, consumir com bonomia açúcar, directamente do açucareiro, igualmente na companhia da neta; a capacidade para induzir no filho o desejo de encontrar a sua própria mulher sobre uma cadeira colocada em cima de uma mesa, a limpar algo, e o desejo maior ainda de, entrando ele, eventualmente etilizado, ilibado portanto de responsabilidade, e estando ela a limpar algo, como boa esposa que era, derrubar a minha pobre avó; o silêncio ferino usado, já em viúva, para induzir no filho a impressão de que a sua mãe estivera a sofrer em silêncio no seu cativeiro, devendo ser libertada por actos ou palavras das as forças da opressão doméstica, do seu exílio em horário de expediente. Estas duas últimas dimensões não serão isentas de redundância mas tudo se justifica na abnegada peleja pela justiça."

Assim se traçam as linhas nos mapas, assim se cresce a saber por onde ir, sempre no respeito àquilo que se oculta na linha curva que se fecha, fazendo-se caminho, e no temor daquilo que se aprende a ver no lado oculto dos olhos, em plano contra-picado, o mais fechado possível, para evitar dispersão. Assim é a realidade a fazer-se de tecidos filtrados pela voz do amor e da doçura de quem nos quer e, por isso, a pôr-nos em guarda sobre o veneno ardiloso de quem não nos quer. Assim se faz contrabando de sombra, se fiscaliza a luz e se dá seriedade à vida, cobrindo-a com um ridículo chapéu de carabineiro, enquanto se espera pela conta dos direitos alfandegários pagos ou devidos por tudo o que se traficou ou se venha a traficar. 

17/04/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 1,1

Donostia. 22 de Janeiro de 1984


Ramiro,


não percebo que coisa é essa de me pedires um elogio (deduzo que fúnebre...). És um tipo cansativo, um bom amigo mas cansativo, sim. Não vejo contudo porque iria isso constar de um qualquer elogio, como me pedes. E és cansativo porque queres controlar tudo, até a tua partida para outro munco qualquer ou para debaixo da terra. Farei, se partir antes de ti, os elogios que quiser, a olhar metaforicamente para o teu caixão, seja lá em que circunstância for. Não devo fazer a viagem real até vós, nessa ocasião. Para mais, palpita-me que os teu filhos, com toda a propriedade, quererão uma daquelas cerimónias religiosas muito cheias de cânticos e de orações, flores e fanfarras, com os mestres das coisas deles a oficiar e não teria eu lugar aí. nem quereria ter, como sabes. Se o teu pedido era literal, e apeteceu-me entendê-lo assim, esquece isso. E, se queres saber, não vou falar das coisas de que me falaste, da tua profunda e constante melancolia, desse quase não estares neste mundo, dos muros brancos e negros que transpuseste ou não. Não foste apenas uma espécie de eremita: as pessoas perderam a paciência para te ver, para interagir contigo, para aceitar as tuas divagações, as alterações de humor... Eu aceitei talvez porque fui ficando longe fisicamente e as distâncias tornam as coisas más suportáveis e as boas desejáveis, como dizia o meu tio Júlio, de quem te lembrarás. O eremita fui eu, afinal. Ficaste tu, as nossas cartas, a lembrar-me parte do que fui, enquanto aí estive nesse país de merda, antes de me julgarem por ser comunista e por ser fascista e por ser uma série vergonhosa de coisas que nunca fui. E fugi para onde não lembra o demónio e, sobretudo, para onde ninguém me pergunta como chegámos, porque chegámos, porque não recebemos visitas, de onde me vem o dinheiro, porque só ando de bicicleta e, no carro, quem conduz é a Helena, porque leio poesia na esplanada como um turista e não me vou embora no final da época balnear, porque converso com os meus dois vizinhos, José e Luis, como se os conhecesse de toda a vida, longamente, porque me sinto protegido num país que me ensinaram a detestar desde pequeno, terra de gente feroz. Farias aqui longos poemas sem esperança, porque és assim. Eu vou tentando conquistar a redenção a golpes de palavra, escrevendo pequenos contos felizes, com finais felizes. Como calculas, acho-os impublicáveis... Começo a pensar que os julgo impublicáveis porque são felizes e têm finais felizes... Queres que te envie um deles? Posso enviar-te o menos feliz, se isso te anima....
Espero resposta e não despedidas! Ou então, arranja uns trocos e vem até cá, um exilado a visitar o outro. Às tantas, isto pode ter ares de lugar onde tudo, como eu próprio, se esvai e se oculta. Enfim, acabemos com os nossos narcisistas lamentos...

Até breve!
Um forte abraço

16/04/17

Se tivesses um cavalo e to matassem com um tiro, vindo da floresta, seco, único, directo ao coração do animal, o que farias?
O que farias se tivesses um cavalo, o teu cavalo, e viesse da floresta, em disparo seco, uma única bala que o matasse?
Se tivesses apenas uma pergunta para fazer a alguém e esta fosse "Se tivesses um cavalo e to matassem com um tiro vindo da floresta, seco, único, directo ao coração do animal, o que farias?", porque a farias? 
Se tudo isto te ocorresse num domingo de Páscoa, assim, em disparos secos vindos do fundo da floresta, o que farias?

12/04/17

Inventa | rio

Não há chávenas de porcelana penduradas no armário. Tem este duas portas envidraçadas e, na prateleira central, uma fila de objectos diversos, sem qualquer organização expectável. Parecem ser visíveis um abre-latas cromado, na segunda prateleira, no qual estão alinhados, por um furo central, cinco dados de póquer, um canivete de cabo cor de safira e lâmina ferrugenta, enrolado num pedaço de papel pardo, uma caixa de comprimidos para a angina de peito, uma caneca com a imagem de um lobo da Alsácia no topo de uma montanha, um lenço branco dobrado, com bordado monocromático da ilha da Madeira virado para cima. Tudo isto são coisas soltas, categorias rebeldes, frases sem predicado, sujeitos indeterminados, gramática de objectos estranhos. O pó no chão era denso, todos os passos ficaram para memória futura. Ao lado, uma braseira adiada, com alguma cinza e dois ou três pedaços de carvão. Sendo exígua, toda a casa era um espaço de clausura a perder de vista. Escreveu, com um dos pedaços de carvão, uma tentativa de frase territorial. Fê-lo, sem se dar conta, apenas na parede virada a sul. Queria afirmar-se, declarar 'estou aqui', mas apenas se perceberia um pouco do 'aqui'. 
Não se herde nada que não queiramos ver nosso.

11/04/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 3.0

Cetara, 23/09/2016
Velho amigo velho, como passas?
Por aqui estou, velho, como tu, a ver os dias passar. As obras estão quase acabadas e a casa está a ficar bonita. A vista é como te descrevi na última carta. Temos dois quartos de sobra e o convite está feito.
A tua última visita, ainda estava eu por aí, como te lembras, foi meio estranha, deixou-me um travo a diospiro verde na boca, nada mais do que isso. E sabes que gosto de diospiros, em todos os seus estádios de maturação, mas os verdes são aqueles diabos... E assim foi quando me visitaste, em Novembro do ano passado. Trocámos uma mão cheia de cartas, entretanto, mas não há meio de amadurecer o raio do diospiro e fico sempre com a boca a precisar de dizer mais.
Sei que toda a tua preocupação com a eficácia do mundo, a que nele está patente e a que tu matarias para que se manifestasse em todo o seu esplendor, esbarra na minha preocupação em lutar contra o excesso de preocupação com a eficácia, sobretudo, porque o faço com uma displicência que te exaspera. O meu mundo não tem o rigor cartesiano do teu, o teu não tem a deriva caótica do meu, és um revolucionário do plano, eu sou um revolucionário dos acasos. Mesmo que isto seja uma impossibilidade, é assim que vejo a revolução. Assim estamos, nisto, e assim nos temos ido fazendo velhos, a oferecer pedaços de diospiro verde um ao outro no final da refeição partilhada, da conversa, do vinho. E a isto têm assistido os nossos, nesta nossa família alargada, que o é, mas apenas porque a distância nos deixa espaço para a sanidade. Um dia, poderemos estar mais tempo juntos, todos. Poderemos comprar duas casas em terrenos contíguos, com duas hortas, trocaremos sementes de pimentos e de malaguetas picantes, laranjas e tangerinas, diospiros. E esperaremos que estes amadureçam, não te parece?
Quando o teu César voltar de Valência, diz-lhe que tenho aqui uma aguardente especial à espera dele. Ele que se meta no avião e corra para cá, porque vale a pena. Eu vou buscá-lo ao aeroporto e, em menos de uma hora estamos aqui. Os autocarros são um inferno dispensável. A Joana vai fazer a conversa do costume, que ele tem tanto para ver e fazer aqui sem ser sentar-se com o velho a molhar a conversa na bebida. Eu não discordo, mas estou convicto de que a aguardente justifica a vinda. E vou mandar, por ele, uns biscoitos de azeite e limão, diferentes dos da tua mãe mas muito bons mesmo. A ver o que me dizes deles... A aguardente, se quiseres, vem cá bebê-la! Não vou aí com a garrafa porque sabes que não consigo voltar aí. Não vou voltar nunca... Este é, agora, e até mudar de opinião, o meu lugar para sempre. Também se vive sem as raízes na terra, quando a terra onde nascemos se revela ácida e inabitável.
Um abraço, dá notícias e não faças demasiadas birras à Augusta.
Celso

21/03/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 2.0

Barfleur, 27 de Julho de 2007

Caríssimo Álvaro, querido amigo:

Antes que decidas telefonar, gastando o pouco dinheiro que tens numa chamada internacional, envio-te as linhas que lerás de seguida, se tiveres paciência. Não substituem as nossas conversas mas talvez te evitem mais uma passagem pelo espelho sem que te vejas como eu acho que te deverás ver. Pensava em ti, em vocês, à janela, enquanto bebia um copo com a Clara, ao fim da manhã e fui escrevendo. São palavras simples mas são as minhas, para ti, com os meus clichés, que sempre combateste mas que, como sabes, me dão tanto prazer...

Passou-nos a vida por cima e eu acho que a tens gasto a fazer contas. Contas ao dinheiro, sempre exíguo, contas ao mal-amado que te sentes, à falta de reconhecimento alheio, coisas das quais não precisas para ser um homem cumprido, todo. Mas cada um é como é e tu és assim, sempre a querer beber o veneno da vida em pequenas gotas. Ou é o que parece. Sei que não será assim. Pelo menos não será sempre.

"Contas à vida, sabes que estás numa qualquer encruzilhada da mesma. Pareces suspenso e fazes contas de somar, com o cheiro do caderno da escola, da madeira velha da carteira e do sabor da borracha, meio mordida, misturado com o do lápis amolecido pela saliva. E somas tudo, a história do encontro dos teus pais em terras de fronteira, o cabelo do teu pai a cair, o colo meio inseguro da tua mãe, os teus avós e bisavós, todos, as brigas com irmãos pelas coisas estúpidas de sempre, as rivalidades, as brincadeiras. A adição de todas essas parcelas devolve-te o teu perfil, estás convencido disso. Percebes-te também no que assumiste ser a tua linha da frente e isso significa que acabou, para ti, a idade dos prodígios. Ou não. Nesta linha, que ocupas vacilante, podes proceder a outras operações e fazes contas, de novo as aritméticas, sem rigor algum. À tua frente, iluminam-se a tua mulher e os teus filhos que escrevem em ti coisas sobre o presente e o futuro. Tens tu agora menos cabelo na cabeça mas isso não te incomoda: é uma subtracção e não estás a treinar isso agora. Atrás de ti, vês outros ramos da árvore que te pariu, os teus irmãos e as suas linhas da frente. Vês ao fundo os troncos das árvores que morreram de pé, lugar-comum. Receias que, em breve, a soma das parcelas te revele o que não queres saber, quanto tempo tem o teu mundo. Talvez o tenha todo mesmo mas não tens suficiente fé em nada. Receias tanto que te sentes tentado a viciar as contas. E começas e recomeças, divides, multiplicas, como se apenas brincasses com os números, numa retórica algébrica qualquer. Que não pensas nisso, dizes tu. Pois profetizo, sem dom para tal, que dias virão nos quais sentirás a dor da perda e outros nos quais terás alegrias. Tudo simples, como vês. Na tua contabilidade da vida terás sempre o cheiro das casas que habitaste, o volume daqueles que abraçaste, os sabores que sempre aprendeste que a água não tinha, as feridas nos joelhos, repetidas de tanto tentar descrever a curva que descia da muralha para a rua dos teus avós em velocidade crescente, o plátano gigante em terra onde só passaste dois anos, a serra que te deslumbrou com quase-neve, a planície e o cheiro infinito a calor insuportável, os ninhos das andorinhas no Inverno, os cabelos brancos dos teus filhos, a mão na tua da tua terna companheira, avó-rochedo, os túmulos dos teus pais e avós, o colo inseguro da vida a dizer-te que está na hora de seres um homem. Profecia final, para que possas ir jantar tranquilo: serás."

Teu amigo sempre, Isidro.

20/03/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 1.0

Meu caro,

há. Pode haver. Não te digo que não. Pode existir uma razão, ou uma dúzia ou duas de razões, para sentires que deves fazer algo por mim. Estás cansado destas cartas, destas interpelações em sintaxe pobre e semântica embotada por vício de auto-comiseração. Preferirias talvez falar de mim apenas...
E, afinal, sempre te vou pedir o tal elogio, seja ele em que fase da vida for. Se for o último, para mim, se anteceder o luto e o esquecimento de quem era, faz o que tens a fazer. Diz, a quem tiver ficado, que fui cansativo. um bom amigo mas cansativo. É justo que o digas, porque é a verdade e esta missiva é disso prova cabal. Peço-te que fales do muro branco, de como o senti sempre até ao fim, de como cá dentro é mais fácil viver, de como fui um eremita fechado sobre mim próprio, confinado ao meu universo em contracção. 
Nada disto, nem estas palavras que trocamos agora, é interessante. É sentimentalismo do mais puro, do mais balofo, dirás. E dizes bem, de forma exemplar até. Talvez devêssemos interromper bruscamente esta aventura epistolar da nossa amizade. Ou não. Tive medo de tudo menos de escrever, de me escrever, de escrever aos amigos, de os escrever em longas frases com adjectivos a mais e excesso de advérbios, de lhes deixar estes lamentos insuportáveis ou despidos de significado. Tantas vezes encontrei, numa pálida resposta eivada de compreensível condescendência, o alento para adormecer outro dia, um dia mais. Nunca me foquei o suficiente no futuro para ter esperança de redenção. Nunca me entreguei demasiado ao passado para pensar como teria valido a pena cada hora. Palmilhei um presente, lugar-comum a que chamei terra de ninguém. Tudo, ou quase tudo, me parece fora do espaço e do tempo devidos, desde o ar que me violenta os pulmões, aos significados exilados, reféns de expectativas infundadas em relação à grandeza do mundo e da capacidade dos olhos para ver. Talvez tenha chegado a hora de, aqui mesmo, sem retorno possível aos meus, do outro lado do oceano, me entregar a isso de ser assumida e depuradamente coberto pela terra que pisei, neste lugar padrasto, sem pontos cardeais em vigor. Tudo aqui parece ter prescrito excepto tu, que me ouves, eu próprio, cansado de me ouvir, e o mar, que também  parece ir-se mostrando exaurido de paciência. 
Peço-te apenas que não te esqueças do elogio, ao que quiseres, não terá de ser a mim. É até melhor que não o seja. Um dia poderás recordá-lo e perceber que te serve, que parece ter sido feito à medida para ti. Então, vesti-lo-ás e terás feito essa descoberta ainda a tempo.

Despeço-me de ti, com serenidade e gratidão. 
Transmite, por favor, as minhas saudades à tua doce Maria Helena e à vossa menina.
Ramiro
Antofagasta, 12/12/1983



13/03/17

species had not been independently created: avé maria puríssima

O homem mau tinha fama disso, de ser mau. Não era mau como alguma coisa que se pega, chegando de mansinho e espalhando o seu odor por debaixo da porta, antes de se instalar com carnes e ossos. Era mau como um bloco de peçonha que se abate pesado sobre o tecto de uma casa e a atravessa, rebentando o chão e penetrando até às fundações. Nunca soube se ele era assim, nem o vi fazer nada, nem conheci sequer quem o tivesse visto fazer o que quer que fosse de mau. Ainda assim, afastava-me dele por superstição ou porque a minha avó me teria dito que não poderíamos, de forma alguma, cruzar-nos com ele na rua e seguir ao resto da nossa vida, como se nada fosse. É homem para dar cabo da vida dos outros e ir para casa beber um copo de água em paz, dizia. Entre as superstições e a convicções da minha avó acerca do mal e dos diabos, tudo coisas tratadas a poder de três repetições de 'Avé Maria Puríssima', não haveria terra suficiente para que nascesse a mais estreita fronteira. Ao longo da minha vida, encontrei sempre pensamentos e palavras, actos e omissões dos quais me afastei porque deles e delas era sabido que faziam mal, que destruíam, que não deixariam consolidar os meus pés de barro no altar. Sabendo do mal, não o evitar seria pecar, por minha culpa, minha tão grande culpa. Em proto-iconoclástico acto de contrição, presto hoje, aqui, uma homenagem de homem mau a tudo isso, aos demónios de poderes não comprovados, ostracizados por suposição de passarem a vida a cheirar a enxofre. Serão estes demónios de aviário, à espera de consumo fácil, com pele crocante e molho de gengibre. Não me terei cruzado com eles e seguido com a minha vida, como se nada fosse, bebendo um copo de água, em paz.

In considering the origin of species, it is quite conceivable that a naturalist, reflecting on the mutual affinities of organic beings, on their embryological relations, their geographical distribution, geological succession, and other such facts, might come to the conclusion that species had not been independently created, but had descended, like varieties, from other species. Nevertheless, such a conclusion, even if well founded, would be unsatisfactory, until it could be shown how the innumerable species, inhabiting this world have been modified, so as to acquire that perfection of structure and coadaptation which justly excites our admiration.

(Charles Darwin, On the Origin of Species)

07/02/17

+ citrinos em jardim de paraíso - natureza não-morta

Se o fim do mundo sucedesse aqui e agora, colheria limões. Estão a ficar maduros, o amarelo começa a triunfar sobre o verde. Gostaria que estivesse calor e poderíamos estar nus, a pele morna e húmida. Acabaria o mundo e estaríamos a saborear o prazer de sentirmos o calor da pele um do outro. Nem pensaríamos, às tantas, nos limões. São lindos, os limões, sobretudo se os contemplarmos no dia em que o mundo está a acabar. O mundo a acabar é a hipérbole salvífica de qualquer cena banal.
Um dia poderá ser assim: "Esqueço-me de ti, à medida que o Inverno passa e os dias menos frios dão lugar a outros que o são menos. Reconforta-se a pele com o ar menos frio. Esqueço-me também de tanta coisa, quando os dias começam, de novo, a ficar mais frios. Espera a pele ser confortada com algo que a cubra e parece esquecer-se também do que é ter o ar mais frio a tocá-la. Resta sempre a face e ficam, se se quiser, as mãos para guardar essa sensação. Tudo é circular, é o que apetece concluir. O que fica quando se esquece tudo? Nestas idas e voltas de frio, não faltará muito para que olhe o espelho e apenas o veja a ele, espelho, e àquela cara que ainda sabe o que é sentir o ar a percorrê-la mas não sabe já que sou eu. Talvez o esquecer seja uma espécie de cancro benfazejo, algo como o morrer do que fomos, apesar de nós. Talvez o esquecer nos salve, apesar de nós. Talvez o esquecer nos proteja da chuva, se mais não fizer. E será bom podermos ir no caminho, sem que nos molhemos demasiado. Talvez o esquecer seja o absurdo que queremos ser, apesar de nós."