17/02/18

doméstico

Emocionam-te as imagens de animais selvagens em jardim zoológico. É condição excêntrica de existência o estar-se confinado, a simular gozo pleno de liberdade. Emocionas-te por evidente auto-comiseração. És sempre tu, em cada tigre imponente. És feroz, a responder ao teu impulso mais primário, rasgando o triplo saco de serapilheira com a carne de cavalo embalada e deixada pelo tratador. Poderias ser símio gracioso e ágil que salta e supera obstáculos para recolher as frutas que o tratador deixou às nove horas da manhã, como habitual. És apenas tão feroz quanto o podes, tão autêntico quanto te deixam. Alimentas a ilusão de que podes dominar o teu território, impregná-lo com os teus cheiros, deixar por todo o lado rastos do sangue das tuas presas, mas sabes que, no final do dia, cai o pano e comes a máscara com a ajuda da água que te puseram na taça. Sabe-te a desinfectante em demasia, a água, e a carne tem o sabor do mel que deixaram para consolar os ursos, ou das ramagens que apanharam, de madrugada, para felicidade de girafas ou de outros bichos quaisquer, que com elas se console e alimente esperanças, se for caso disso. E gostas de rugir abundantemente, mesmo que o faças apenas para confirmar a ilusão, para que as dúvidas se dissipem em trovão bem comportado e destituído de perigo. São rugidos fátuos, pálidos e embalados hermeticamente em saquetas de plástico que poderiam estar em prateleiras de mercearia. És músculo exaurido no vácuo da embalagem. És tu todo assim, feroz doméstico de catálogo.

16/02/18

e comemos gelado de sol nu

Voltaste a sentir o cheiro do sol em cabelos e pele, o seu brilho alvo em paredes. Sol e frio sempre te convocaram para aventuras, para peregrinação feliz por corpos desconhecidos, pela fantasia de poder haver danças nas ruas inclinadas, ou nos largos, ou nas praças, com os casacos e os gorros de todo o inverno a acumular-nos quentes nas suas fibras. Traremos no corpo, sobre o corpo, a nossa arca festiva, o aturdimento do suor nos poros, o desejo despudorado de despir, de retirar camadas evidentes, de revelar coisas íntimas pelas ruas, de voltarmos a sentir nas línguas o sol acre do amor por fazer. Faça-se.

05/02/18

Versículo 30 (pena vs pluma 3º fora-de-formato)

30 Crescer-te-ão inauditas asas, por sobre os ombros. Não saberás o que fazer com elas, nem como acomodar essa realidade ao teu corpo. Não te ocorrerão exemplos na natureza que te possam servir de auxílio, que possas mimetizar. Não são os ombros local de inserção de asas, em insectos ou aves, e as tuas asas serão pequenas, rígidas e cobertas por uma espécie de couro, já curtido, em tom ligeiramente mais escuro que o da tua pele na zona dos ombros. Pensarás no que conheces das representações gráficas de anjos e em como não te parecerás com eles. Ficarás feliz porque não terás de te rebelar e descer aos infernos mas, de facto, já lá estás, apenas por não haver sentido que possas construir em torno das asas grotescas que serão então parte de ti. Pensarás em metamorfoses que conheces, de livros que leste, e continuarás com um problema por resolver. Perceberás que podes refrescar-te com o bater suave das asas e sentir-te-ás ridículo porque não carecerias de tais adereços agarrados à carne para te refrescar. Virás a sentir dor nas asas, uma dor pulsátil, em contra-tempo com o ritmo do teu coração e não advirá daí nenhuma paz. Perceberás que o som das asas te é familiar: é o ruído dos bandos de pássaros que repetidas vezes te irritam no seu voo sem propósito à vista. Falarás com eles, talvez os compreendas, sem que os possas acompanhar. Ficarás sem estatuto definido na Criação, se nela creres, e não te sentirás perdido.

29/01/18

q-n

Avisto-te e sou inelutável marinheiro em dia de um quase-naufrágio que não o meu. Ali estão a distância e o frio, na contemplação de fomes, onda após onda. Tudo em nós se ausenta, excepto o fim da tempestade. Nunca me vês, raramente olhas para mim, ou sabes que estou por ali, em felicidade diferida. Quase somos, nos restos de espuma, nos cabelos tumultuosos, nas pestanas e lábios salgados e em outros lugares-comuns pós-tormenta. Quase seríamos um pouco mais, não fora a fome de tragar tudo em tempestades criadas para contemplação de amores insolventes. 

25/01/18

Versículo 29 (condicional e 2º fora-de-formato)

Serias uma multiplicidade de coisas, se pudesses. Eu proclamaria exactamente o mesmo. Diria eu 'coisas', categoria abrangente em excesso e falha de precisões, como me quero, objectificado. Mas isto seria apenas opção minha e não terias tu de estar de acordo com nada disto. Ser-se coisa não equivaleria a processo de depuração, redução ao essencial, ascese em curso, sageza em perspectiva. Traria o ser-se coisa, ou coisas muitas, sono reparador de ingenuidade despojada, entorpecido o desejo de ser mais, de labor ajardinante de virtudes, valores, profundidades e revelações fundamentadas. Seria eu coisas nos domingos, nas segundas-feiras de manhã, nas quartas-feiras, ao final da tarde. Seria salvo de pretensão mitómana pela inspiração programada de oxigénio coisificante. Seria coisas, causa guardada e defendida. 

23/01/18

Versículos 26-28

26 Contemplarás baleias, elefantes e outros animais majestosos. Com eles aprenderás pouco porque pouca semelhança encontrarás entre eles e tu próprio. Provocarás súbita interrupção do processo por entenderes o sentido de tal contemplação esvaziado. 27 Ouvirás aves em volta do lago, as suas vozes ruídos eivados de perfídia, espadas afiadas na paz do teu silêncio. Ouvirás o som dos bandos a sobrevoar as árvores perto de ti e sentirás a deslocação do ar provocada pelo seu movimento. Sentirás alívio, porque parecem partir, e raiva. porque regressam sem cessar, gorando repetidamente as tuas expectativas. 28 Na qualidade de rei auto-legitimado de uma qualquer criação, pegarás em armas e resolverás tudo o que te perturba. Ficarás em paz apenas contigo.

05/01/18

Versículos 20-25



20 As origens de ti são porta meio fechada com cheiro a madeira acabada de cortar. Serás sempre uma porta sem futuro: feito de madeira acabada de cortar, deformarás e decorrerá tempo infame até que se ajustem as partes, para voltar depois a reinar desordem. 21 Aceitarás a tristeza como sedutor passeio à beira de precipício ou como corrida ao longo de um promontório de escarpas afiadas, lugares afins rescendendo a maresia e morte. 22 Sentir-te-ás dormente e imerso em notícia vil de ataque terrorista algures, saco de viagem danada contigo lá dentro. 23 Esperarás em vão a emergência de pergunta redentora e terás apenas respostas indesejadas, certezas adjectivadas com opulência e desespero. 24 Não haverá exorcismo à medida do demónio que te possui, da tua desordem, da ausência de liberdade. 25 Sobreviverás ao naufrágio e construirás jangada com madeira acabada de cortar. 


 

31/12/17

ano de dois gumes

Estive à tua espera, estive à espera disto, dos tiros e do gume afiado da faca, a velocidade desgovernada no cruzamento fechado, em mesa de almoço. Talvez possamos fazer algo pelo futuro. Estive à espera de poder dar-te um abraço e penso que tu também. Caem as folhas da última discussão de família, chovemos. Muda o ano, sobrevive-se a dilúvio sem arcas. Amanhã seremos os mesmos, com mais umas cicatrizes, mais transparentes talvez. Demos um abraço na esperança de sermos maiores por nos termos visto à luz da fúria, do ressentimento, da intolerância. Voltámos da viagem, do disparo até essa luz e regressámos - estou eu convencido disso -. Haverá amanhã.

20/12/17

luz de medo

O tigre tinha pelagem inusitada: diversos tons de castanho, listas quase da cor do barro e uma mancha vermelha na zona da boca. Jamais fora avistado qualquer tigre assim nas redondezas. Estavam acostumados a convívio secular com feras vindas da floresta, criaturas mágicas às quais se agrada com tributos de carne e ameaça de fogo. O respeito mútuo crescera e assim prosperou tudo, por muitos anos. Aquele era o primeiro tigre que chegava adulto à aldeia, sem antes ter feito qualquer aparição, e o medo começava a deliquescer em palavras que humedeciam pés, à passagem do chefe e da sua guarda.

Que seria melhor terminar com tudo antes de haver arrependimentos, que não ficariam as criaturas da floresta desiludidas, uma vez que o tigre da boca vermelha não seria uma delas, que o equilíbrio secular entre homens e feras seria desnecessariamente posto à prova, algo como tentar subir à montanha trepando por uma corda a arder, que o forasteiro tinha uma mancha demoníaca na zona da boca, sinal de danação e que com demónios não haveria pactos. 
Que o deixassem andar por ali, com respeito, contestava o ancião. Que lhe dessem a carne, como aos outros e que, se houvesse arrogância nos seus gestos, lhe brandissem uma tocha três vezes à frente dos olhos. Ganharia respeito, caso o não tivesse aprendido ainda, e passariam a sonhá-lo como uma das suas criaturas. 
Que a mancha vermelha seria sangue humano por correr e que haveria de arrepender-se quem desse guarida ao estranho, ao assassino, ao demónio. Haveria algo a fazer: quem estaria por nós? 

Ao longe, o ancião falava com as crianças, palavras sábias sobre respeito, convivência, a beleza de ter chegado ao meio deles, pela primeira vez, um exemplar de tigre diferente, com uma nobre mancha vermelha na zona da boca, um guerreiro por entre os tigres, talvez, que vinha ali depor armas e pedir santuário. Na clareira menor, a leste da aldeia, a pelagem do tigre ficou gradualmente mais vermelha, à medida que foi desligando dos seus o brilho eufórico do olhar humano, o do homem com a lança na mão. Ao longe, o ancião deixava lentamente de respirar e um fio de sangue corria, das suas narinas, pela face e peito, fundindo-se com as fibras da veste vermelha. Ao seu redor, as crianças compreendiam aquela placidez, aprendiam a ler as palavras com que se escrevem as histórias da vida e da morte, os segredos salvíficos e as sementes da guerra, do medo, do sangue que corre apenas para que haja histórias para contar. Sem que se veja, o medo não morre. E, se o fizesse, seria sempre um ténue fragmento de tempo antes da morte da esperança. Assim se tecem as coisas que são de tecer para que não venham tigres de boca vermelha ameaçar o que é conhecido. Assim se protege o que é nosso, com o medo a iluminar caminhos.

15/12/17

Versículo 19. (retrospectivo e 1º fora-de-formato)

19.
Trocavam versos japoneses de 1947, a vida suspensa em cada flor das inúmeras cerejeiras dispersas pelas colinas. Sentiam o papel quente, natureza púdica, surpresa primaveril, desejo de sabedoria estampado em faces por arder. Toda a terra arde, comentavam. Todos iremos neste imenso braseiro dos deuses, todos nos perderemos, sem que haja caminhos de volta, porque o vazio tomará conta das nossas existências. Oravam poesias-preces, eflorescências piedosas implorando misericórdia, suavidade na hora da partida, honra no momento, solenidade na leitura de palavras belas que pudessem redimir os seus mundos todos. Contemplavam objectos dispostos em casas, pessoas a dormir, crianças a sonhar futuros fabricados, lojas assoladas por pedaços de poema nas montras, projectados por ventos inomináveis. Seria, tudo isso, uma forma de passagem de barcos por entre solidões, em rotas convergentes. Fariam donativos aos pobres, dariam esmolas aos mendigos sentados nas árvores, à espera. Estariam todos à espera, com versos na mão, sem outra certeza para além de coisas escritas em suportes perecíveis. Chamar-lhe-iam flores, ou frutos, segundo a liberdade da boca que procedesse à vocação. Seriam chamados à presença de todas as palavras contidas no entendimento humano e a luz não os alcançaria. Talvez tudo arda, comentavam. Talvez possamos contemplar-nos por escrito e sentir que tudo terminou com a palavra esperada.

22/11/17

Versículos 14-18

14 Sempre te parecerá ridículo aquilo que escreves, na forma e no conteúdo, quando procuras rever-te nessas palavras. 15 Amadurecerás, escreverás palavras que te parecerão mais maduras, mais ponderadas, mais depuradas e sempre as verás, depois, como inelutavelmente ridículas. 16 Não haverá para isso qualquer redenção: as únicas palavras perfeitas e de que não terias vergonha são as que escreverias no auge da tua maturidade. 17 Serás maduro quando a morte te colher e nunca antes disso. 18 Sobreviverás sem ver.

16/11/17

terra de fraternidade

João, ou Paulo (não sei qual serias tu)

estranha forma esta de, finalmente, te dar uma palavra. Faço-o no cumprimento de um dever, assim o sinto.
Nasci e não nascemos os dois. Disse-me a nossa mãe, no dia do nosso aniversário, há sete ou oito anos, mais coisa menos coisa, com um sorriso e o terno abraço que sempre parece procurar, que se celebrava o dia em que eu te tinha morto. Disse-mo a mim, homem a caminho de maduro, de forma inequívoca, como se ter eu visto a luz do dia fosse natural fruto de uma qualquer criminalidade seminal alegre, uma espécie de génio precocemente revelado do infanticídio intra-uterino. Disse-o com o sorriso de júbilo maternal e com a violência que talvez apenas as mães possam ter, como se recordasse a primeira vez que, para jogar ao pião em condições, se tivesse acidentalmente partido um vaso sem qualquer importância no quintal, valendo isso uma complacente reprimenda. Assim passaria eu a ter certezas, se dúvidas restassem?
Por incrível que te pareça, não fiquei chocado no momento, ou não vivi essa notícia como choque. Apenas registei o despropósito da declaração, sugeri-lhe que se sentasse, porque vinha cansada, como sempre parece andar. E assim ficámos, juiz, réu e testemunhas, naquele torpor transitório, disjuntores disparados para proteger equipamentos.
Perguntei-me, depois, ontem, o que acharias tu disto. Sempre foste o miúdo, sem nome e de rosto imperscrutável, que brincava na sombra, sem que nos aproximássemos. Ficavas, invariavelmente, na penumbra que sempre se adensava quando pensava onde estarias, como se o conforto de te saber ali não se pudesse fazer acompanhar do prazer de te ouvir, de te saber a fisionomia e o que ela teria de sobreponível com a minha. Quando te avistava, de joelhos, a brincar no limite de distância segura, mesmo que te voltasses na minha direcção, sempre o cabelo te caía naturalmente sobre o lado quase visível do rosto. Ali ficavas, presente e oculto. Dou-me conta hoje de que não me recordo de ti com mais de sete anos, ou oito, no máximo. Verão, calor, o tronco nu e uns calções verdes que a avisada penumbra fez cinzentos, ter-te-ei avistado pela última vez assim, a brincar, em espaço-tempo cinzento. Não me lembro de me ter despedido de ti e talvez resida aqui o impulso de te escrever estas linhas, o dever de te desocultar por esta via, porque tudo em nós é dúvida, se exceptuarmos a forma como nos quiseram narrar. E até nisso aceito perceber que, quando não nascemos os dois, tu te tivesses convertido, aos olhos de quem nos concebeu, no eterno projecto imutável e eu tivesse passado a ser a parte visível da Grande Dissensão, só por estar vivo, em cada centímetro crescido, em cada poro, em cada gota de sangue, em cada mudança, em cada palavra afinal. A culpa, a de ninguém, não será para aqui chamada, por não trazer claridade ou benefício que possam justificar garras infectas cravadas nas nossas costas por tempo mais indeterminado ainda do que aquele que poderemos ter aqui. Ficam as palavras, as que fui proferindo quando te pedia, sem esperar resposta audível, as mais variadas opiniões, as que me davam notícias de ti, as que me descreviam a mim e te evocavam, as que descreviam e narravam a forma como talvez tenhamos mesmo passado a ser eu. Deram-me os nossos nomes e, com isso, foram geradas equívocas operações de aritmética ontológica. Nunca percebi o que em nós foi soma, subtracção, divisão, multiplicação, ou que combinações de tudo isso se operaram em território tão excessivamente exíguo para tanto. Para que não nos percamos, para este efeito, parece prudente que sigamos o curso dos nomes. São os nomes palavras e tenho vindo a aprender o respeito que estas merecem no seu labor, sínteses generosas, tecido cicatricial. Agora que termino, talvez me dê conta de que, no tempo que levou o juntar estas letras, foste deixando a penumbra, dobraste a esquina, onde costumavas brincar de joelhos, deixaste de estar por ali. Quase arrisco intuir que a consumação do afastamento apenas quererá significar que foste e és, de facto, mas não como tantas vezes te esperei, a crescer comigo, a imagem, a cada dia mais falaciosa e protegida pela penumbra, de um tipo como eu, à qual eu acrescentaria similitudes e diferenças, desejos expressos em catálogo.
Se não for para mais nada, servem estas linhas para perceber a dimensão e a intensidade dessa enorme fantasia condenada de sermos os dois adultos, a conversar pela noite fora, após a ceia de Natal, a pensar na alegria, sempre insuficientemente confessada, de poderem os nossos filhos brincar uns com os outros, ou de poderem as nossas mulheres criticar os nossos defeitos menores comuns, aqueles que, dir-nos-iam, mais teriam pesado na forma como se teriam apaixonado por nós. Riríamos e os nossos abraços seriam quentes, por estarmos todos, literalmente todos, vivos.
Julgo estar em curso, em boa hora, a convalescença decorrente de ter sido crua, unilateral e maternalmente oficializado como teu algoz. Haverá, em terra de fertilidade duvidosa, esperança, por se ir fazendo luz e caminho de entendimento? Nunca o saberemos, não é?

Da minha parte, ficam finalmente em dia as despedidas. No final, seja isso o que for e quando for, teremos sido o que pudemos ser e isso, por si só, terá de ter bastado.


O teu irmão.
João Paulo

13/11/17

versículos 5-13

6 O respeito pela ordem estabelecida e pelos bons costumes conduz os teus passos a uma qualquer cidade celeste de que ouviste falar. Por ela entrarás, sem que seja notada a tua presença e sairás incólume dessa experiência. 7 A teu lado, irão aqueles que não desistem de crer em ti, na ordem e nos bons costumes, os que vos são fiéis. 8 Serão um só, a ordem, os bons costumes e tu mesmo. Nessa trindade, encontrarás a liberdade de te saberes inscrito em algo maior do que tu, mesmo que não seja algo de tão grandioso assim. 9 Olharás as estrelas, em busca do reflexo da transcendência e nelas verás ordem e desordem, toda a sorte de formas de pensar, de actuar, de te encarar, de te negar. A frustração tomará conta de ti e quererás, por uma questão de justiça e por amor a um futuro perfeito, destruir as estrelas, as cidades que nelas estão reflectidas, as pessoas que parecem inflamá-las de vida. 10 Olharás à tua volta e perceberás que ficaste só, que tudo, até as portas da cidade, se tornaram pó, um pó que nem acede a colar-se às solas dos teus sapatos. Sem que nada se perca, tudo se transforma, excepto tu, a tua certeza, a tua falácia. 11 Ficarás convencido de que chegaste inadvertidamente a um céu, de que terás sido O Justo, salvo de um Apocalipse menor e levado à presença de um Absoluto pessoal. 12 A tua fé ter-te-á salvo de tudo, excepto de ti e passará tempo até que o conhecimento disso te atinja e te atire ao pó. 13. Então verás.

06/11/17

versículos 1-5


«1 Não se perderá um só pingo de chuva na tua pele. Não se encontrará vestígio de ti nessa água.
Crescerás rebento de arbusto cativo. Os teus dias serão feitos de lamentos sem justificação e contemplação absurda do sol, esperando cegueira que se instale e te dite nova condição ontológica, que adoptarás até ordem diferente. 
2 Encontrar-me-ás à tua porta, para te dar de beber, e não me reconhecerás. Desconhecerás três vezes quem sou e porque dei passos até ali. Não responderei a qualquer pergunta, porque tu és a resposta para todas as perguntas formuladas e por formular. 3 Sairemos desta chuva sem que haja desejo à vista e tudo será mais claro, sem desejo. O desejo não é digno de feitos grandiosos, não deve ser alimento de epopeias, não pode ser celebrado em cerimónia que o torne memória. 4 Pelo contrário, a chuva, como tudo o que nos leve para debaixo da terra, será glorificada pelos séculos dos séculos. A chuva e deus, a arder em arbustos, dilúvio de fogos apagados, eclipse de sangue fervente. Assim serão os tempos quando tudo estiver completo. 5 Verás.»

[eco improvável:]
- Seria perfeito se pudessem coexistir, num dado momento, a melancolia da chuva e o brilho inebriante de um dia de céu limpo e sol resplandecente.
-  Impõe-se que discorde. Isso seria apenas uma ideia pequena, de concretização indesejável.
 (Colheremos os maduros frutos da aurora, Aulus Martialis, 23 d.c.)

04/11/17


A dúvida seria boa conselheira se não estivesse tudo como num chão de pó e pedra miúda, no qual os passos fazem ruído em excesso para que se possa surpreender um pássaro no seu sono. Tenho dúvida sobre se deve um pássaro ser surpreendido no seu sono, se isso não fará de quem o observa um impenitente voyeur, em busca de intimidade selvagem. Poderia observar-se o sono de pessoas, preferencialmente desconhecidas, por horas, dias, meses e ser esse o projecto de uma vida. Subsistiriam sempre os problemas do mais ínfimo ruído indisfarçável e da impossível invisibilidade. O chão da intimidade alheia é infinitamente sensível ao atrito do olho intruso.

31/10/17

Coisas 87,1% verdadeiras de que me lembro

Não me recordo de ir ao cemitério em dia de Todos os Santos, de Finados, em dia de muita gente por ali. Ir ao cemitério era uma viagem como outras, feitas a pé, pela mão da minha avó materna, tardes sossegadas de sol forte, sem sensação de calor. 
Levava eu, em um desses momentos, camisa quadrejada e casaco fino de malha. Excesso de roupa e transpiração levaram a tentativa de despir o casaco, acto condenado ao fracasso por não ser, aquele, tempo de se andar sem casaco. Atempadamente, foram recolhidos os materiais necessários para a tarefa: um balde com alguma cal previamente derregada, um balde vazio, no qual se transportava pincel para caiar, lixívia, panos e esfregão ou esfregões. Não vi algumas destas coisas e outras poderiam constar da lista, sendo o balde vazio contentor no transporte de tudo aquilo. À saída, passando pelo saguão, colhia a minha avó rosas brancas e cor-de-rosa, umas cinco ou seis, que eu levava, depois de terem sido retirados os espinhos e envolvida a base do ramo numa pequena prata. 
Não me recordo bem de fazer o caminho para o cemitério, talvez por ser rota comum a outras, com destino a sítios aonde a minha avó me levava, sempre sem grandes explicações. Íamos à mercearia, na esquina da minha rua com a dos meus avós, ou, com menor frequência, a outra, perto da escola; íamos cobrar a renda da casa alugada, em rua com nome de virtude, perto do jardim; íamos a casa da madrinha Inácia, onde havia bolachas de chocolate discretamente tocadas por naftalina, bustos de madeira e outras peças trazidas de Angola. Passávamos, apenas, uns anos mais tarde, diluída total ou parcialmente a inimizade iniciada aquando de partilhas das coisas de Espanha, por morte da minha bisavó Ángeles, pela casa do tio Felipe ou da tia Francisca, seus irmãos. A passagem pela casa do tio Felipe era feita no regresso da volta do cemitério e ia eu devidamente desperto para a evidência de que o Tio Felipe era boa pessoa, apesar da tia Vitória, sua esposa. O seu filho mais velho era boa pessoa, apesar da mãe e da relação íntima com o álcool. A filha era boa pessoa, apesar da mãe e dos seus olhos muito bonitos, evidência de perdição com homens, consumada ou a consumar, realidades equivalentes. O outro filho era altivo e haveria de estudar coisas em universidade, talvez também apesar de muita coisa. 
O cemitério era jardim, sem a estranheza que adquiriu, em formatos e terras diferentes, anos mais tarde. Eu ajudava, ocasionalmente, a ir buscar alguma água no balde, pelos caminhos previsíveis entre os túmulos, cuja parte mais alta, em geral, ficava acima da altura dos meus joelhos. Evoluía minuciosa limpeza das campas, entre o esfregar do mármore branco e o caiar das zonas de alvenaria. Ficava eu distraído pela luz, pelo cheiro a desinfectante e rosas. Em outras campas, sob vigilância ligeira da minha avó, ia brincando com um ou dois carrinhos que trazia no bolso, ou com um par de berlindes, fazendo, na terra não demasiadamente seca, com o calcanhar direito, covas suficientemente profundas para o efeito. O cemitério era o silêncio entrecortado por ruídos que em casa se ouviam: o esfregar,  o pano molhado a cair na pedra, a fricção húmida do pincel da cal na parede. Brincava eu por entre mortos e ruídos familiares, coisa entre estar em casa e no jardim, a brincar perto das pessoas que por lá passeiam, ou jogam às cartas com os amigos, ou se sentam em bancos. 
Fazia-se o regresso passando pela casa do tio Felipe, ponto na rota sem obrigar a grande desvio, e por igreja com estátua de Hércules a segurar o mundo na ponta do dedo. Informou-me a minha avó, como se falasse de coisa banal, de que, no dia em que dos dedos da estátua caísse a esfera de pedra representando a Terra, o mundo acabaria. E continuou o seu caminho, na sua marcha difícil, a coxear, comigo preso à mão direita, os baldes na outra. Fiquei esmagado pela possibilidade de que o fim do mundo estivesse ao alcance de uma escada, de um acaso, de um ligeiro respirar da Terra que perturbasse o Hércules de pedra no alto do frontão da igreja. Ali ao lado, ou melhor, acima das nossas cabeças, mas ao alcance da vista, a chave do Apocalipse. Leva-se uma vida a perceber a ténue fronteira entre vivos e mortos, entre o fim anunciado do mundo e aquele que ocorre a cada momento. Todos dias são de finados e por finar, de mortos enterrados ou por enterrar, de pecadores arrependidos e de impenitentes confessos, de todos os santos ou só de alguns.  Hoje foi dia de recordar o prazer de brincar no cemitério, de ver a cara satisfeita da minha avó, cara de dever cumprido, de a recordar num espaço onde se imaginou em vida a seguir o meu avô, quando ele morreu, a guardá-lo como se o ciúme fosse coisa que se levasse para outra qualquer vida, um espaço onde nunca quis ser enterrada, por não se querer debaixo da terra. E não foi, de facto, enterrada. Estão em gavetas próximas, não tanto quanto ela quereria, mas suficiente para que possa talvez descansar. Não acabou o mundo, mas acabou o meu com ela, aquele onde fazíamos caminhos com rosas na mão, onde apenas os dois éramos melhores do que quando estávamos mais, onde me impregnou de superstições, que ainda hoje tenho na pele, onde me ensinou a cozinhar sem se dar conta, onde era carinhosa desde não se notasse muito. Assim se equilibra o mundo na ponta dos dedos.

30/10/17

Nasceu-lhe a filha. Subiu a rua. Contaram-lhe, no meio de felicitações diversas, que só depois desse momento se conhece face a face a incerteza do passo, a dúvida que não se desvanece, o medo da perda, o prazer do encontro do olhar. E ele pensou em como tudo isso ser banal.
Quando tudo é, para ti, banal, até o nascer-te uma filha, talvez não te reste muito a esperar, para além de te saberes morto.

28/10/17

(re)play

Não estará ninguém perto de ti. O prédio onde viveste em criança, a curva que aquele descreve, acompanhando a rua na sua estrutura circular, parecer-te-á, por uns segundos, a tua casa de agora. Ocorrer-te-á o sabor, ao deslizar a ponta da língua nas superfícies, do verniz das janelas, da massa de vidros impregnada do mesmo verniz, na zona mais perto da madeira, o frio do vidro. A rua, a parede do prédio em frente, branca, quase sem janelas, casa vazia de noite, as irregularidades na justaposição das pedras do passeio parecer-te-ão insuportáveis. Jogarás ao berlinde nos sofás de napa verde dos teus avós e perceberás que a casa é já outra e outra ainda, a casa emprestada na cidade da montanha com cruz no topo. Estarás num comício em praça central com árvore centenária, campanha de Ramalho Eanes para presidenciais contra Soares Carneiro, canadiana azul vestida, colecção de calendários no bolso. Contigo, o teu pai e os teus filhos no estádio de Alvalade, vitória sobre o Marítimo com golo de jogador chileno. Perceberás que mudaste de óculos meia dúzia de vezes em meia dúzia de décadas porque mudas pouco, porque isso te assusta mais do que conduzir sem noção de perigos, a demasiados quilómetros por hora, como fazias uns anos atrás antes de, por razões que não interessam agora, começares a conduzir irritantemente devagar e a ouvir programas de rádio sem música. Ontem doía-te o joelho esquerdo, a anca esquerda, ocasionalmente o abdómen, logo abaixo das costelas, às vezes um pouco mais atrás, na zona do rim direito, mas hoje não sentes nada disso, diluíram-se as maleitas nas voltas da pista eléctrica de carrinhos, de marca Polistil, no cheiro do seu transformador quente, ao qual colas o nariz ou no ruído do combóio Märklin sobre os carris, diligentes todos nas suas viagens por caminho conhecido. Hoje, esperarias que não estivesse aqui ninguém e estão todos. E ocorrer-te-á uma poesia que te daria prazer dizer alto, com um sorriso quase feliz, mas a voz não sairá e dir-te-ão que não te canses. Hoje estará aqui quem pode, quem interessa e para esses começaste a cozinhar desde manhã para a carne ficar bem tenra e para, depois do almoço, se descansar de vez, algo como uma sesta.

27/10/17

fraca é a carne

A concepção e construção do talho seguirá a lógica que presidiria à montagem de uma agência bancária: locais de atendimento luminosos, funcionários de fato e gravata, funcionárias com roupa formal, secretárias, com computador ligado em cima e espaço suficiente para que os clientes possam, consultando as brochuras, ponderar as diversas possibilidades: escolha, de entre a carne dos animais disponíveis, de cortes específicos para determinadas finalidades gastronómicas, de preços, de modalidades de pagamento e taxas de juro associadas, incluindo possibilidade de ser feita hipoteca de carne dos próprios clientes como garantia de pagamento das carnes alheias, compradas e a consumir. Haverá um cofre, necessariamente refrigerado, com códigos de acesso complexos e sistemas de abertura retardada, tudo combinado com sistema de vigilância e de alarme destinados a proteger as carnes todas, os fatos todos, os cofres todos, os sangues todos, os que correm desabridamente e os contidos em vasos, em corpos vivos ou nem tão vivos assim, os que não escorrem pelo chão inundando a rua porque tudo está regulamentado e previsto no sentido de isso não aconteça. Detalhe talvez tardio: dentro do cofre, haverá pequenos cofres para que clientes especiais pudessem revisitar peças de carne especiais, raras, carnes dignas de cuidados preparatórios visando futura e insuspeita execução testamentária. Bancos de carne, carne em bancos, bancos de talho, laboração contínua de carnes.

26/10/17

As revoluções fazem-se antes do nascer do sol, antes de permitir a luz solar que se vislumbre fio delicado, fibra ínfima, em contraste com o céu. É essa a hora de prece humilde a um deus que pareça disponível, que não se faça cobrar por tal, que não prometa amar, pela eternidade, reclamando tributo e olhos postos no seu absoluto amor. É essa a hora de agarrar fibras a que a primeira luz do dia dê corpo e de fazer a revolução como ela deve ser feita: frágil e imprudente, de dentes cerrados.Seremos todos filhos dessa urgência de fazer diferente, do impulso mal medido, da coragem fugaz, sempre melhor que a cobardia de ficar por ficar, dos significados construidos a posteriori. E não seremos bastardos, nunca. Ninguém é bastardo de nada ou de alguém, nunca.

Dulce et decorum est pro patria mori *

- Agora, aos quarenta, vais dedicar-te à pintura!?
- Comprei umas coisas para fazer umas experiências...
- Nunca foste grande coisa no desenho...
- Não vou experimentar desenho, quero experimentar algo com as cores e as tintas...
- Nunca foste grande coisa nisso...

Pode-se crescer não se sendo nunca grande coisa em nada. Nem se é grande filho quando o lado para o qual alguém se faz velho, matando um dia após o outro, é celebrado, enquanto o lado para o qual se cresce é sempre o errado, o lado pior da fotografia.

- Gostava de me dedicar à escrita...
- Pois... Sempre foste bom aluno...
 Mas nunca fui grande coisa nisso.

* (Horácio, Odes)


25/10/17

quase-nada-de-natureza quase-morta

O carro é um amontoado de lata velha, sem conforto, sem qualquer interesse para além de uma persistente fiabilidade mecânica. Nele terão sido percorridos muitos quilómetros, muitas sequências de paisagens, muitas caras à beira das estradas ou da ruas, muitas solidões, muitas conversas. Terá esse interesse, o carro, o de se fazer contentor de memórias muitas, protagonista improvável. Ao longe, não muito longe, mais para o fundo da rua, um vizinho aquece um motor de motorizada, também velha de latas e afins, com pequenos golpes de acelerador, supõe-se, pela cadência das subidas e descidas no regime de rotações. Tudo velho e quase sem valor funcional. A meio da rua, os latidos do enorme cão velho de outro vizinho: uma vida de reclusão com vista para o exterior, uma ilusão de liberdade e o direito a fazer aquilo para que se nasce quando se é cão de vizinho que gosta de ter cão a ladrar no jardim. Dialogam profusamente, cão enorme e motorizada estática. O carro, esse faz pouco barulho. Quando chove, o dono sabe que pode ir dois quarteirões mais acima comprar pão. Sai da garagem e nota-se, no seu interior, um ligeiro aroma a terra e cebola, a produtos hortícolas com duas semanas, pendurados por sobre o tejadilho. Começa a ouvir-se o cão jovem de outro vizinho, nas traseiras. Emite um ruído agudo, um ganir mal controlado, algo entre desespero e esperança ingénua. Não sabe ainda ser cão de vizinho que gosta de ter cão a ladrar e uivar em canil exíguo no quintal traseiro, onde raramente vai. Como tudo se aprende e como a submissão é a mãe de toda a convivência indigna, aprenderá que se perspectiva diálogo com rebarbadora madrugadora de um quarto vizinho, coisa de sábados de manhã. A rua existe, assente no pressuposto de que, sem ruído, não há possibilidade de vida e que a felicidade dos vizinhos é poder ter cão ou máquina que fale por eles, à falta de imaginação para ler o mundo de outra forma. Paz às suas almas.

18/10/17

Aos vinte e nove serias um homem maduro. Estarias um adulto feito, daqueles que até votam em eleições para o parlamento europeu, que pagam a sua gasolina e um ou outro jantar em dia de receber ordenado. Ouviríamos falar da S. e de como iriam viver para a casa dela, que era maior. A tua seria alugada e, com esse dinheiro, farias face à prestação no banco e a parte das despesas do colégio do bebé, quando chegasse. Agora, o contrato novo na fábrica, deixa-me mais confiante, dirias. A S iria continuar os estudos e isso também seriam despesas mas valeria a pena. Depois, irias tu fazer a formação, sempre a contra-gosto... Perguntar-me-ias, mais uma vez, de que me serve ter outro carro potente se isso não é evidente aos olhos com o carro parado. E eu diria que estás igual ao miúdo que foi comigo e com o meu pai buscar o meu terceiro carro a Leiria. Depois, dirias que tinhas de ir embora porque querias chegar cedo a casa e concordaríamos. Ficaria combinado que, no fim de semana, porque a M viria de Lisboa e o M e o Z quereriam ver o jogo do Sporting contigo, celebraríamos o dia de ontem, o do teu aniversário, todos juntos como no Natal. Diria que não te preocupasses com a comida e com a bebida porque eu trataria disso e responderias que tu trarias a cerveja porque eu, com a mania dos vinhos elegantes, acabava por estragar irremediavelmente os jantares.

Parabéns, JM.

16/05/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 4.0

16.05.2017

L,

tenho recebido a tua voz amiga como uma rara oportunidade para diálogo, nestes tempos recentes em que temos tido oportunidade para mais do que pôr uma qualquer escrita em dia. Porque as teias com que nos tecemos e nos vamos tecendo uns nos outros serão assim mesmo, é mais comum que os outros sejam um espelho do que uma janela ou uma porta abertas e, logo, é mais usual que nos vejamos envolvidos em monólogos travestidos de outras práticas conversacionais. Nada de perturbador nisto, será assim. Seguem estas palavras, na volta do correio, sem filtro.
Na tomada de consciência de que, a cada segundo, a cada dia, somos o mesmo e o diferente disso, a dúvida sobre o que sou, sentado sobre aquilo que tenho sido, é tranquilizadora. Tenho perdido em certezas, tenho ganho em amplitude; perdi vigor em convicções, ganhei algo em humildade (embora esta afirmação não seja destituída de soberba). Senso comum, evidências tornadas inefáveis revelação, isso de sermos outro e o mesmo... Pode ser. Mas durmo melhor, depois de não dormir anos a fio. Tantos, que talvez me tenha esquecido do que seria dormir uma noite de sono. Ainda acordo vinte vezes por noite, só por acordar, só para ver se ainda cá estou, talvez, como se quisesse controlar a rotação e a translação da terra para não acordar perdido em órbita irreversível. Ou então não é nada disto e ando iludido pelo facto de dormir melhor, como se o universo e, narcisicamente, eu próprio, tivesse erigido algo como um sono razoável à condição de grande demiurgo.  
Não me esqueci de Deus, nisto tudo. Não poderia, nem sequer faz sentido assumir uma atitude de combate, de militância contra o pai, o filho, ou o espírito santo. Contra outras coisas, talvez, mas há outras lutas prioritárias, como estar vivo e contente por isso; não se justifica andar a zurzir comportamentos discutíveis como quem combate o bom combate. Perante Deus, a existir, não nos restaria muito mais que tentar adivinhar com maior ou menor afinação os seus pensamentos, os seus desígnios. Acertaríamos pouco nesse processo de prever resultados a partir do que se conta que foi. E não viria disso mal ao mundo. Na economia desta narrativa, estaríamos apenas a acrescentar mais uma sequência e isso poderia ser bom. Seria bom que a boa nova fosse actualizada a cada dia. Seríamos os mesmos, sendo outros, melhores. E seria bom que, em tempos frios, eu me sentisse aquecido pela ligação ao divino. Seja a história o que for, faço parte dela e isso, para já chegará e não me perturba. Perdendo em conforto do alto, terei ganho alguma paz por me aceitar melhor. Terei perdido na troca, se o foi. Esta formulação em pares que parecem opositivos pode resultar pouco coerente, ou terreno fértil para que se encontrem fendas no discurso, lapsos freudianos em discurso moldado por cartilhas psicanalíticas mal assimiladas. Talvez. Mas durmo melhor. Pelo menos estou convencido disso. Sobretudo, não me apetece dormir para sempre, fosse isso o que fosse. E a procura da coerência não tem de chegar àquilo que mais se parece com ela. Numa péssima e abusiva metáfora, não parece haver coerência numa obra cubista. Ainda assim, não questiono que a sua existência, o podermos interagir com ela, nos faz mais humanos (foi fraco, eu avisei).
Nisto de sermos um, sendo o mesmo de sempre e outro novo a cada dia, nunca saberemos com certeza como se fazem e desfazem os nós que somos. Por isso, não há que esperar por regressos, porque não houve partidas; nem saímos, nem regressamos. Estamos vivos e isso é bom. Às vezes terá de chegar como projecto, a caminho de uma felicidade qualquer iluminada por realidades simples e pouco palpáveis nas quais acredito sem dificuldade, como aqueles que amo, o amor que me devolvem.  Adivinhemos então, façamos prognósticos, querido amigo, e falemos sobre eles, sobre os equívocos que deles emergem, ainda que pelo puro prazer de discutirmos a sua validade, as suas probabilidades de concretização, o aroma que têm, como soam e que com que cores se pintam. E podemos beber um copo ou tratar de um petisco qualquer.

Um abraço e até breve. (Posso estar no exílio, mas cá te espero)
P.S. moralista) Tens que largar as cigarrilhas. Ainda te desafiava para um puro mas nem me tem apetecido, nem acho que te prestasse um bom serviço...

26/04/17

O rio junta-se ao dia por sobre um tampo de secretária. A luz escassa amplifica-se pelo desejo de a ver mais forte. Os dias escorrem pelos tampos das secretárias e pelas cadeiras, pelos copos de água e pelos cafés, pelos diálogos e pelas esperas, pelas obrigações e pelas devoções. Tudo com o mesmo peso, tudo constante no desgaste de água mole sobre pedra pouco dura. E tudo parece equilibrar-se, dando cumprimento a uma qualquer lei da física ou a um conjunto delas, sem outra motivação para além desse feliz casamento entre leis e realidades. Fito tudo isto com um olhar turvo e um entendimento sem convicção. Consta que, em certos dias. a certas horas, nem as metáforas parecem poder salvar. Hoje, porém, espera-se redenção, nem que resulte esta de se dar à luz fraca metáfora. Que assim seja.