01/02/16

um dia, seremos laranjas presas aos ramos
à espera desse ser maduro, do ser-se sumarento.
um dia, no mesmo dia talvez, não diremos coisas com sentido
e isso será libertação sem sofrimento.
muda de ti. muda-te.
como numa promessa eleitoral,
vota em ti, elege-te, nomeia-te para algo sem sentido algum
para além do seres maduro no teu ramo.

deixa-te ficar, sulco na berma da estrada.
Assume-te maiúscula no início do verso, em poema idiota.
escreve-te, desenha carateres no teu corpo, na tua pele.
inventa-te em línguas descobertas para ti.

um dia, seremos circulares e não veremos depreciação nisso.
em dia de fazer o mundo,
não precisaremos de Júpiter para nos proteger de asteroides com cheiro a laranja.

04/01/16

No dia em que nasceu, não havia sapatos para gastar, nem uma vela acesa em parapeito de janela, nem um único som que assinalasse evento algum. Esse foi um dia de vaguear, sem referência nem método, ao longo da margem do lago. Calçou os sapatos e mentiu, porque se mente sempre, especialmente quando se nasce e depois de calçar os sapatos. Acendeu a vela, a custo, com o fósforo húmido. Reverteu com discrição o escuro da noite e vagueou mais e mais até ao limite de si. No dia em que nasceu, foi noite.

30/10/15

Some-se o tempo, cais sobre a voragem de ser o bando de impossibilidades que te definem. 
Os passos fazem-se acompanhar das folhas pisadas pela sola. A luz tolda o entendimento dos ponteiros do relógio. As vozes perseguem-se em bandos de impossibilidades harmónicas mútuas. Tu cumpres-te em escalas de medida pessoais, sem arbitragem externa. Bandos selvagens de impossibilidades múltiplas, em formações, asas expostas à luz gloriosa do entardecer.
Espera pela chuva, em dia de coroação de rainhas e reis na televisão. Fica em suspenso, como ficarias se fosses rei em dia de coroação, refletido em montras das lojas de eletrodomésticos. Olha para o sofá onde se sentava o teu avô e suspende-te nesse último dia, na folha adoentada do pessegueiro com dias contados, na soma de virtudes dos vegetais, no coração do cão a pulsar durante o seu sono, ao fundo do quintal.
Não haverá muito mais a fazer depois disto. Bastará que descanses e te sintas cumprido. Será pouco mas serás tu.

24/04/15

Sob a luz das folhas pareço-me um pedreiro com farda de ócio impossível. Sento-me no pequeno muro que delimita a árvore, detalhe autobiográfico menosprezável. Formulo-me em falácias de viagem digital, acto de fé. Sob as folhas, sou eu, analógico, sem redentores protocolos de compatibilidade.

07/03/15

As estradas sucedem-se, quilómetros em mostrador de relógio.
Sabes-te menos muita coisa, assim dita, sem formulações sofisticadas de caderno para aplausos.
Sucedes-te em estradas, muitas, desenhadas na tua pequena secretária meticulosa.
Pensas-te como avaliação sobre aquilo que fizeste contigo, contas de mercearia sem azeite, nem arroz, nem açúcar, nem farinha, nem aritmética que possas fazer num local que ames.
Medes-te pela forma como respiras, a intensidade do sangue pelo corpo a tentar o seu melhor.
Entregas-te todo em prestações, parcelas, fracções, paradoxos e pulmões sem cartas para jogar, apostas esgotadas e restos de um almoço com teor biográfico em dia de acertar contas.
Desenhas-te em despedidas, traças de ti perfis, cobres a pele de terra e sol, por não haver mais astros.

Virão descansar ao pé de ti, quando descansares. Saberás, nesse dia, que não foste longe porque és aqui.

27/11/14

Hoje é dia de festa.
Hoje é dia de elevar os braços ao alto e proclamar que virá uma revolução. Ela te dará um novo alento, uma capacidade inusitada de levantar o peso do mundo por sobre a tua cabeça, com os teus braços nus. E tu serás um homem feliz, com os braços elevados ao alto, com o mundo entre as tuas mãos.
Hoje é dia de festejar o que apenas se festeja por ser raro.
Hoje é dia de muitas coisas e de dizer que é dia de qualquer coisa, hoje.
Hoje é dia de afirmar que terias sido mais feliz se tivesses ficado a chorar em casa. Se não quiseres festejar apenas por festejar, porque isso te liberta mais do que uma anestesia qualquer que te perca, fica antes em casa, numa qualquer casa.
Hoje é dia de beber, se não conseguires festejar de outra maneira, porque se celebra o dia do rei e da rainha, do presidente, do herói e do escritor, do bandido, daqueles que saíram do país e são comunidade, daqueles que se conseguem rever nas estátuas que lhe erigiram numa rotunda à volta do qual passam carros com bandeiras e esvoaçar, aclamando uma qualquer vitória da nação.
Hoje é dia de ouvires canções entoadas por multidão em uníssono, com as mãos por sobre o peito. E tu podes festejar, porque não tens de cantar, porque não és a multidão, porque a canção te desagrada, porque ela pesa mais do que o mundo entre as tuas mãos, elevadas ao alto, por sobre a tua cabeça.
Hoje é dia de ser incoerente e de celebrar a incoerência. É sempre dia de ser incoerente. É sempre dia de celebrar. Haja festa.

12/11/14

CSTM1

Um dia olhei-te, de joelhos na cadeira, posição de possível conforto para realizar deveres da escola. Cadeiras e mesa de cozinha, revestidas por fórmica azul, padrão a simular azulejos com cenas de quase gente a viver um quotidiano plano.Talvez eu tivesse ainda a roupa que trazia da escola, com o cheiro da escola, com um certo cheiro a suor em pano branco da bata. Agora que penso, não teria eu a bata vestida. Tivesse eu a roupa favorita da altura e vestiria uma blusa de malha, sem mangas, azul escura. O resto seria irrelevante, essa blusa bastaria. Tudo se aceita neste exercício, até à imagem da tua entrada.
Entraste.
A sombra, no pequeno espaço junto à porta da rua, deixava o espaço dividido entre o muito escuro e uma gradação de claridade esverdeada. Entraste e isso equivalia a que ainda não tinhas morrido, não te tinhas suicidado, como tantas vezes anunciaste à laia de refrão matinal, lema de vida. Olhei-te como se existisses, mas não tenho a certeza de teres sido o que quer que fosse. Olho-te agora, nesse momento distante, como se fosses uma espécie de figura em cartão, daquelas que existem hoje a replicar os atores, em tamanho real, à entrada dos cinemas, bidimendional, sem espessura, sem profundidade, sem aquilo que se tem de ter para se ser, algures entre o escuro e o esverdeado do espaço onde paraste e me fitaste, vazia. Fica-se assim, talvez, quando ficam as promessas que fazemos por cumprir. Tu ficaste. Mesmo que a promessa seja um reiterado anúncio de morte com hora e sítio marcado, se não a cumpres, ela cumpre-se sozinha.

25/10/14

O filho diz palavras, repete palavras. O filho repete palavras que o pai não ouve. Não haverá nada a fazer pelas palavras repetidas. Repetem-se palavras repatriadas sem que haja  o mais pequeno ato redentor que possa levá-las para um local melhor, realidade reeditada por filhos e pais, corais e flores raras em ambiente hostil. Hoje não haverá palavras. Veremos como se repatria o silêncio repetido mil vezes até ser verdade.

15/10/14

Não haveria nada de mal em quereres sair antes dos outros, antes que dessem pela tua presença. Sempre foste invisível, pensas. Se reparares bem, não és invisível. A tinta de que és feito tem pouca resistência ao uso e dilui-se com facilidade. Não tem que ser mau, isso. Não tem que haver mal nisso. Estás mais protegido contra a exposição excessiva, embora não te pareça agora que isso é uma virtude, uma vantagem, um ardil de sobrevivência. Querias ser visível por mais tempo. Querias não te desvanecer com tanta ligeireza, não ser apresentado várias vezes à mesma pessoa, sempre o colega de fulano, sempre o primo do outro, sempre o filho da outra, o marido de alguém, o tipo que se parece com o outro, aquele que não se tem a certeza de já ter cumprimentado. Querias ser notado e dizes que não. Querias ficar gravado de forma indelével à primeira vez, ao primeiro encontro, à primeira fala, à mais elementar exposição a ti mas és assim,   quase como a água. Poderias desaparecer e poucos dariam pela tua falta. Melhor, desaparecerias, dariam alguns pela tua falta, outros lamentariam que fulano, a esposa, o pai,a mãe, o filho e o trabalho louvável que fazias sentissem a tua falta. Dias depois, tudo como dantes. Mas não é mesmo assim com tudo e todos? Inodoro, incolor, insípido, informe. Desapareceste e não houve um murmúrio sequer. 

02/11/13

'We have no more beginnings'

Como te sentes hoje? Esta luz, a esta hora... uma bênção, não achas?
E assim se faz deliberadamente conversa, só por fazer. Assim faço conversa por ser esta a conversa que me apetece fazer, a que me dá prazer, a que quero fazer absoluta. Nem sempre grandes sínteses sobre a humanidade ou o grande sentido da tua vida, ou da minha, ou dos outros. Cada vez menos disso em estado puro. Esta é a conversa a fazer, sobre o tempo, por ser o tempo o que temos, mais ou menos. Hoje, temos o dia, esta hora do final da tarde, sol nas paredes brancas da casa do vizinho, o encontro marcado com guião de afectos por levar à cena. Falemos do tempo a olhar para o fim. Hoje não é dia de nascer do sol, essa luz com excesso de esperança, sem a melancolia de quando havia a força, a energia, a vida toda à frente. Hoje, a esta hora, olho-me, olho-te a pôr-me, a nossa luz na parede branca dos vizinhos.
 
'We have no more beginnings' (G. Steiner, Grammars of Creation)

22/10/13

a.b.s.c.

Atravessa o sol as nuvens, há vento, o vento é frio. Por vezes, parece o vento que aqui sopra vir de outros lugares, mais frios. O sol rompe as nuvens e volta a desaparecer, fica mais espessa a camada de nuvens, fica mais frio. Por vezes, parece o frio que aqui se sente vir de lugares mais frios. Sinto eu frio, começa a chover uma chuva mais morna que o vento, menos hostil. Poderia não estar aqui, eu. Poderia ser menos frio, sentir menos frio, fazer menos frio, eu. Poderia ser uma espécie de aurora boreal sem cor, drenado de magnetismo, coisa que poderia ser se fosse, mas não é. Não sou, eu. Faz frio e assim me entrego a ser o que posso, entre as minhas quatro paredes.

18/10/13

De cada vez que fechamos os olhos.

Novo. Volta ao mesmo. Traços descontínuos no asfalto negro. Negro e branco, o motor a trabalhar, o cheiro de urze a entrar pelo vidro do carro, negro e branco e palavras pretensiosas sob o efeito de algo como álcool fora de prazo. A vida vista num segundo como um concerto irrepetível num palco que nunca fui capaz de ocupar. A voz escoa-se, épica, na intimidade do último momento breve. Ficas? Eu sigo a partir daqui.
O coração frio, verdade caladas por bom comportamento, o coro a fazer-se sangue, as veias em plena capacidade. Não há eternidade mas vais voltar outro, sabes isso. Gritas, cantas o que sabes poder ser o último hino de ti e sabes que vales milhões de vozes, as que ouves, as que és. Voltas à terra, sabes-te a terra molhada, ao cheiro dos mortos e dos dias de chuva depois do calor. Ouves nomes de países. Volta ao mesmo e sabes que não podes beber, porque vais pedir o que não podes pedir. Negro sobre branco, sem perdão nem culpa. Bebe. Bebe. Bebe. Bebe-te até ao fim, sem remorsos nem compaixão, sem nada. O futuro não existe, o teu, pelo menos e nem tu sabes se és. Ao longe as luzes da cidade. Mais um lugar comum, para além de ti.
P.S. Fui comprar tabaco para começar a fumar. Como tanto acontece e é previsível, não voltei. Ninguém me sentirá a falta, como a um centro comercial que fecha à meia-noite, depois de quase vinte e quatro horas de serviços irrepreensíveis.

P.S. Gosto de massa folhada. Poderia ser o meu último desejo, com doce de ovos e açúcar crocante como cobertura.

11/06/13


Pede-me a alma anestesia, pede-me o corpo o mesmo, talvez. E eu, o que me peço que me possa dar? Por que razão trago na bagagem estes pedidos? Porque faço dos meus dias frases com pontos de interrogação e reticências?
Tanta pergunta, pergunta a mais para quem passa a vida à espera das migrações dos patos e na esperança de que nasçam tremoços por gostar da cor franca das suas flores. Tanta pergunta para quem transmuta em natureza uma vida à beira de estrada congestionada, sem um fato ou uma gravata em condições para receber o coveiro. Tanta pergunta para quem não sabe sequer se passam os patos em migração, enquanto a flor do tremoço se dá a ver. Tanto fragmento para quem desespera por ver o rosto inteiro, ao espelho. Tanta pergunta para quem tem o rosto em migração constante, sem florir. Faço a vontade à alma, o corpo que sobreviva como lhe aprouver. 

04/06/13

das obrigações contratuais e do fim das mesmas

Faz-se a vida também de placas em estantes de bibliotecas a ordenar silêncio. Fazem-se silêncios como coisas vãs, por decreto.
Vive-se em cidades sem expressões idiomáticas na voz, cidades em rarefacção, texturas erodidas. Sonha-se cerceado; o sonhado é funcional, de legitimação condicionada à confirmação de que também ali, de olhos fechados ou abertos, se vai manter a ligação à vital realidade da lei e da ordem.
Sente-se o corpo, a sua força, a sua capacidade para remover obstáculos, para terraplanar e forçar as entranhas da terra, para forjar armas a partir do metal, para estar sentado numa cadeira a vida toda, em ordem ao progresso cantável em hino, de mão no peito. Vive-se o corpo como se ele não fosse todo feito para prazer e a dor do trabalho um mero acidente, uma contingência. Perde-se, neste pragmatismo compulsivo, a força do corpo que haveria de ser preservada para extenuante, gratificante cinética erótica.
Vive-se como é esperado que se viva, com ligeiras variantes. Não se vive como se quer, porque se sabe que não se pode e, mesmo que se pudesse, pareceria impróprio, seria desonesto, rotulável como incumprimento do contratualizado na hora de comer a liberdade do fruto proibido.
Vive-se sem declaração formal de guerra à escravidão auto-imposta, à existência morna, sem denunciar os contratos perversos celebrados num qualquer acto de criação.

30/05/13

quase-carta sem som


Há algo no hoje que te faz pensar em distância, sem perguntas nem preocupação com possíveis dúvidas. Apenas um passo após o outro, apenas o estar sentado num café de esquina. Na televisão do café, uma bailarina executa uma coreografia sem som. O café seria o café Adler, recorrente nas tuas fantasias de anonimato pelo efeito da distância, recorrente nas suas mesas de mármore gastas e na tinta que julgas recordar nas madeiras, a evocar o aparador da casa da praia em que tantos e tantos anos passaste férias. Podia ser a América e a tua imaginação na proa de um navio-cliché a avistar uma estátua-de-liberdade. Seria indiferente. Preferes o café? Seja. Olhas e sabes que nunca tocaste violino nem piano, que nunca dormiste ao relento, que isso te define, tal como te define, nesta mecânica universal que negas até ao último argumento, a tua relação com o álcool, com o haxixe, com a comida, com as flores. Já há demasiado tempo que, da janela do café, olhas para o rapaz e para a rapariga que estão sentados no passeio, do outro lado da rua. Ele tem um boné a imitar os antigos do exército soviético na mão. Roda-o, experimenta-o. Ambos riem, beijam-se. Ela rouba-lhe o boné e faz o mesmo que ele. Colocam o boné no chão, pose de mendigos. Retiram o boné do chão. Ficam encostados, a cabeça dele sobre o ombro esquerdo dela, a cabeça dela ligeiramente inclinada para a direita, encostada à dele. Nunca tiveste um boné exótico e sabes que isso te define tanto quanto a forma como te encostas na cadeira ao beber um café com leite. Olhas a tua companheira e apetece-te comprar um boné soviético e sentar-te no passeio com ela. Antecipas o prazer que ambos poderiam ter mas não o fazes. Sabes que isso te definiria, tanto quanto o dormir ao relento ou a nudez na praia. Sabias que tudo o que se define se pode redefinir? Sabes mas preferes ser comedido. Seja. Há um tempo para tudo. A vida é breve mas não tem de acabar hoje. Amanhã experimentas outra vez. Já agora, se quiseres dormir ao relento, nu, na praia, posso recomendar-te um sítio. Quanto aos bonés, se quiseres, sei que, perto do café Adler, havia à venda mas, quanto a isso, já não garanto nada.

22/05/13

Sendo tu, não satizfaz o seres outro, talvez. Não satisfaz seres verdadeiro, não teres de te legitimar a ti, ao teu desejo, à tua vontade, com os vapores de uma qualquer moral dita divina. Não satisfaz quereres deixar isso claro, posto em palavras e em tranquilidade, colocado em categorias que te permitam seres tu, sendo novo. Não satisfaz. Sente-lo na esquiva, na evasão, na esperança de que não se retorne ao tema, no assumir de que o que digas possa ser pernicioso, o mau exemplo por pensamentos e palavras, actos e omissões, por tua culpa, tua tão grande culpa. Não satisfaz a tua liberdade porque ela é vista como opressão para quem sente que a paz pode vir do alto. Não satisfaz a tua tranquilidade porque ela é tóxica, porque se infiltra nas frestas da fé, no edifício calafetado do que foi e do que pode ser. Não satisfaz o sismo como oportunidade de fazer novo o que já era porque assusta que possa arrasar o que poderia ser. Não satisfaz que se possa ser aquele que sempre se foi e aquele que se é, sem necessidade de perspectivar a disjunção como forma de articular o ontem e o hoje. Não tem de ser assim mas é assim que é.Talvez leve algum tempo, só isso. Talvez. 

17/05/13

«Rita era um espírito livre. Se isso significa que poderia parecer estranha, correspondia à realidade, fosse isso o que fosse, a realidade.
A realidade é uma merda que impede a fantasia de se converter na totalidade da vida.»
[fragmento da página 101 - M1]

Parece não ter ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas - supondo que haja coisas e relações - são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique, ou ambos as expliquem. Fernando Pessoa, A Hora do Diabo.

29/04/13

sunset candy overdose by the sea: tenho medo de não conseguir ver-te quando for velho e de não te encontrar. E depois?


[‘O que esperas de mim?’ Perguntaste sem sequer mostrares tristeza, apreensão. Foi uma pergunta simples, como ‘Está mais frio hoje, um pouco pelo menos, não te parece?’. Não te respondi logo. De facto, nunca esperei nada. Sempre senti, de uma certa forma (que é o modo seguro de não assumir logo a certeza ou o medo todo), que não serias minha, nunca, que estarias sempre por perto mas nunca seriamos um par daqueles de dar as mãos e rasgar lugares-comuns até esse maior que é a linha do horizonte. Disse-te isso como pude, como consegui. Sorriste. ‘Nunca fui tua?’ Disse-te que não sabia, que não seria bem isso, que sempre tinha sido feliz ao teu lado. ‘Então...’ Então? Gostaria de envelhecer contigo, de pensar que teríamos a eternidade, mesmo que isso fosse lamecha e que a eternidade fosse o que tivesse de ser, talvez só até amanhã de manhã, ao nascer do dia, lá em baixo na praia. ‘E não podemos ter isso? Eu acho que sim. Podemos pegar nos sacos e ir até ali pela maré baixa. Vamos acordar amanhã, ao nascer do dia e, como sonhaste, tivemos a eternidade.’ Sorriu. Sabes que não era isso... ‘Sei. E não te basta?’ Não sei se sei responder. Acho que não. Nunca te disse pois não? ‘Assim, por palavras ditas, não. Nunca gostaste de navegar à vista...’ Não. Sorri. E tu não gostas de planos. ‘Sempre gostei de navegar à vista. Pode ser um plano. Um dia, vais ver que estaremos velhos, a navegar à vista, juntos.’ ‘Sabes que tenho sempre medo, posso já não te ver bem...’]

E o que dizer do insidioso pudor de reproduzir aqui este momento/diálogo, o receio disto e daquilo. O que se pode esperar da beleza de se gostar de alguém que não seja um concentrado de enjoativo açúcar? So what?

25/04/13

private revolutions on revolution day (the markets like it better in english)

As revoluções cheiram-te a queimado. As reuniões de famíla a bolor fugaz, a liturgia convencionada em nome do que pode e do que deve ser.
Não sejas nada do que esperas, não sejas nada de nada que não possa explodir. Não te mostres mais como o pequeno palhaço que serve cafés e anima a festa, à espera do comentário condescendente da tia que nem sabe quem és, da mãe que esperaria que fosses sempre o mesmo de sempre e que se amofina sem que saibas porquê, da sogra que nunca te percebeu e acha que és igual a outro genro qualquer que o mundo pariu em dia de pentecostes, do pai que preferia que não explodisses ou que o levasses com ele, dos filhos que não percebem se queres mesmo explodir ou se te dá apenas prazer o acender do isqueiro, da esposa que gosta de como és, excepto quando ameaças espalhar gasolina, em fio fininho, como quem faz correr um fio de azeite no prato, gastronomia gourmet. Sê um gourmet de reuniões de família. Acende o isqueiro, espalha gasolina. O que sobrar vai ser o melhor de ti, o melhor de todos, sem gorduras saturadas e açúcares em excesso. Explode com tudo, em nome de uma gastronomia familiar saudável. Acende o isqueiro, deixa correr a gasolina.

11/02/13

tomada de decisão parva nº 1

Hoje vou dar uma volta pelos telhados, quando tudo estiver a dormir, pessoas, coisas, gatos, pássaros.  Não será nada como voar e não haverá nada de metafórico neste passeio, apenas algo que se pareça com uma afirmação, determinada apenas pelo que dela e das suas implicações se desconhece. Pela rua, parece-me tudo cada vez mais difícil, mais frases sem predicado, sujeitos bizarros e indefinidos por inferir, gramática que me agarra ao chão, sem gratificação de sentido. Vou pelos telhados, hoje à noite. Darei notícias do que vir e voltarei outro. Nunca se volta igual de um passeio pelos telhados de uma cidade qualquer.