05/07/18

fado: quando passas à minha rua

Hoje vens à minha rua. Vens porque assim calha, porque se interpõe esta rua entre a tua e aquela onde vais comprar pão. Passas, sempre a evitar o esgoto a céu aberto, as tripas de peixe que uma vizinha deitou para a rua, o saco de lixo rasgado pelo cão vadio, os restos de comida que outra vizinha deixa para gatos-de-ninguém, o ruído emanado do anacrónico rádio  de um outro vizinho, portas abertas para intimidades sem higienes íntimas ou públicas. Passas por aqui, como vinha vindimada e eu farejo-te a todas as distâncias, sem pudores. Um destes dias, ofereço-te as minhas chaves da minha rua, em sessão solene, para que possas atravessar o território como uma das nossas, como cão, como eu.

04/07/18

Versículos 35 - 39

35 Haverá, para os dias, algo como marés. Estará o curso de cada volta da terra sujeito a ondulações, de intensidade e cadência diversas, e surgirão homens e mulheres, de todas as idades, que apenas existirão nas praias, como espuma. Na linha da costa, florescerão corpos e haverá habituação a essa terminação de ondas, entre avanços e recuos tornados padrão. 36 Surgirá discussão em torno do fenómeno e concluir-se-á, por via de ciências, que há em tudo o visto, ouvido e intuído, influência da lua e de outros corpos celestes a descrever rotas no vazio. Tudo isto se aceitará, não como fatalidade, mas como conhecimento novo e celebrado. 37 Será subtraída às praias a areia, e ocupado o espaço por epitáfios dispostos sem método dedutível, citações de trechos heróicos a sobrevoar mortes, tranquilidade induzida em consciências inquietas. Todos dormirão sonos diferentes, embalados pela memória do mar. 38 O mar perderá consciência de si e sentir-se-á imensa vala comum representável em partitura para orquestra a definir. Sairá do mar previsível lamento vão, coisa imperceptível, sem valor civilizacional. Ninguém reparará, porque não há reparação possível para além do espanto que causará. O espanto será condição de subsistência e critério de valoração estética. 39 Seremos todos convocados para o tempo do espanto e do lamento vãos.

11/06/18

dos regressos 1

"A rua tinha um padrão semelhante ao de outras tantas." Tantos fragmentos da minha vida têm, no início da sua narração, ao ser recordados, a forma como se aborda o percurso numa rua, fragmento proto-contemplativo nessa ignição de memória. Lembrar-me equivalerá a contar-me a partir da rua que talvez percorresse com mais frequência ou maior intensidade, das sequências dos empedrados, dos cimentos com diferentes tonalidades e consistências perto das portas de algumas casas, do cimento de cada um a personalizar a sua entrada, posto de fronteira entre público e privado, conquista de consoladores centímetros de propriedade duvidosa. Quando se muda de terra à medida que se cresce, transportam-se esses locais como galerias cristalizadas à espera que a imaginação e a memória as actualizem sem pudor e com a fúria de quem regressa a um mundo subitamente subdimensionado. Regressar, após anos, muitos, de ausência, aos lugares da infância, da criança que percorria, a pé ou em fugas sôfregas de bicicleta, espaços intermináveis entre o jardim e a praça, entre a minha casa e o mercado municipal, confronta-me com a insignificância corpórea de então, tornando a respiração da memória quase insuportável, por via da constrição do espaço que a realidade inexoravelmente opera. No regresso, tudo é perto, a tudo se acede em parcos minutos e sem esforço, o murete pelo qual caminhava em frente à biblioteca, despromovido de promontório a degrau, a zona do fundo do jardim público é uma pequena curva no terreno, a enorme igreja das penosas missas é uma quase-capela de pequenas exuberâncias barrocas, algo que sempre me transcendeu por estar concentrado em brincar, nos bancos corridos, com a miniatura do Ford Capri e a do carro de combate verde, com um canhão preto, rotativo, no topo. Todas as batalhas eram sem consequências, a do carro de combate verde em perseguição do Capri vermelho escuro, as dos dois ou três bonecos que escondia no bolso como garantia auto-imposta de que sobreviveria a tanto ritual, as do céu e do inferno que se esgueiravam do alto por entre exortações de que unidos ao universo bendisséssemos ao Senhor Deus do próprio universo e por entre garantias cantadas de que os nossos passos se deteriam às portas de Jerusalém. Vão ficando, como impressões a tender para o indelével, os padrões das ruas, menos erodíveis pelo tempo, pela alteração das escalas, pela percepção de olhos que vêm de outro ponto, que já viram mais, talvez demasiado de umas coisas e tão pouco de outras, pelos medos de quem se fez homem. Faço parágrafos, nas histórias que me conto sobre mim, sobre o que teria sido eu no meu mundo, quando me desdobro e me sobrevoo, ou mergulho em mim, a cada batida seca de porta de carro a fechar. A cada viagem, uma complexa liturgia de paciências, desconfortos, receios e descobertas rumo a outro lugar, reincarnações e eternos retornos.

01/05/18

No tempo em que eu nutria um ódio profundo por Frank Carlucci

No tempo em que eu nutria um ódio profundo por Frank Carlucci, os carros enferrujavam com mais frequência, ao fim de relativamente pouco tempo. Muitas vezes, tudo parecia começar nas embaladeiras, outras vezes nos guarda-lamas. Percebia, melhor do que o ódio a um Carlucci, cujo rosto só conheci muitos anos depois, o surgimento da ferrugem nos carros, sobretudo nos que passavam mais tempo perto do mar, ou nos que tinham de cruzar oceanos em cargueiros para chegarem cá, como se dizia ser comum nos Toyota, vindos do Japão. Percebi sempre, nos silêncios e nas palavras do meu avô, que estaria o crápula do Carlucci feito com o interesseiro do Soares, pelo que, um belo dia, acordaríamos e teríamos os americanos à porta e a CIA 'a tomar conta disto'. Os americanos eram, nas tardes de Verão, os cowboys que tinham dado cabo dos índios, sobretudo dos Sioux e dos Comanche, as minhas tribos favoritas. Quando brincava no imenso faroeste que era o corredor da minha avó, procedia-se à devida reparação de honras e injustiças, por via dos bonecos. Os cowboys eram chacinados em emboscadas ardilosas, desenhadas por bravos índios astutos sem recurso a tantas armas de fogo como os seus inimigos, cobertos de privilégios, tudo isto por entre os caules de patas-de-cavalo e de outras flores aparentadas, em vasos que ladeavam todo aquele território de combates, com cavalos e homens de peles brancas e vermelhas. 
Nessa altura, ouvia falar de reuniões de comissões de moradores e de votações de braço no ar, das quais se fugia ou nas quais se participava com excitação; falava-se de gente que ameaçava os filhos de serem levados por comunistas, caso não comessem diligentemente a sopa,  da emissão da televisão, que abria e fechava, dos desenhos animados, que terminavam muitas vezes com koniec, do filho desta e daquela, que tinham voltado da guerra ou que por lá tinha ficado, mais ou menos inteiros, em ambas as situações.
Ouvi, por esses dias, falar de retornados, como o Severo e a mulher, que chegavam apenas com histórias amargas, relatos da vida boa de África interrompida por tudo aquilo. E decoravam as casas com peças diversas, em madeira escura ou avermelhada, bustos da gente de lá, coisas exóticas. Reparava, por esses dias, que éramos todos brancos e não havia gente de outra cor. Para alguns, isso era uma coisa boa: aquela gente de África era dada à violência porque odiavam os brancos, como se via em Lisboa e como tinham tantos visto antes de fugir. Eu tinha um amigo, na praia, filho do Tomé Alcino, funcionário do Ministério da Fazenda em Angola, e de uma pretinha que ele tinha deixado por lá, em palavras do próprio. Tinha sido melhor assim, segundo a tia, irmã do Tomé, relatava no café. Para ela, o Tomé tinha tido sorte em não a ter trazido numa confusão qualquer em fronteira africana, porque o miúdo, o Rui, era um bom miúdo, apesar de não ter mãe e não tinham aquela situação da outra para gerir. Era bastante escurinho, continuava a tia no seu relato público, mas  era bonitinho, com uma feição fina, muito meigo. Com a educação que lhe tinham dado e estavam a dar, haveria de se fazer um homem. Ele encolhia os ombros e sorriamos porque queríamos sair dali e ir brincar com o resto do pessoal e porque tudo aquilo talvez nos parecesse virar o Rui do avesso. Ainda a propósito de cores de pele, por esses dias, o casal Figueira, com os seus inúmeros filhos, muitos deles encalhados na escola, presos numa vida sombria de casa sem pão e dias confusos, de coisas mal resolvidas e, tantas vezes, mal lavadas, chorava no ombro da minha mãe porque uma das filhas, com aparente propensão para os estudos e parecendo dar surpreendentes sinais de se orientar, estava a querer casar com um preto, de nome impronunciável para ela 'e para qualquer um de nós', acrescentava ela. Um preto que tinha vindo jogar à bola para o clube da terra, duas desgraças, como declarava a Figueira. Eu pensei sempre que poderia ser altura de alguém ter um filho como o Rui, que não teria de deixar a mãe na fronteira com o Zaire mas, aparentemente, os Figueira, perceberam que, de entre os males todos da vida, aquele seria o pior. Não viveu nenhum dos Figueira para testemunhar a casa com pão e paz da filha, escriturária, e do Aristides, reformado de carreira fraca na bola e taxista respeitado.
O tempo do ódio ao Carlucci desconhecido era o tempo ideal para se detestar fascistas sem partido ou simpatizantes do MIRN, para se desconfiar de comunistas que pertenciam a partidos que apareciam e desapareciam, para eu achar que a UDP era melhor do que o MES, apenas talvez porque o Gilberto me dava propaganda colorida que guardava algures por detrás do balcão da repartição de finanças. Era o tempo único para se insultar chefes de estado a golpes de 'Spínola, zarolho, cabeça de repolho', para gritar no recreio 'a terra a quem a trabalha, os ricos que comam palha', para ver passar à janela inúmeras ceifeiras, em atrelados puxados por tractores, a caminho de uma unidade colectiva de produção, o povo a tomar conta daquilo que o Ferreira da Cunha e que o Marques Frazão não tinham conseguido segurar, nem com a ajuda da Guarda Republicana, depois de anos a explorar o povo. Era o momento propício a pensar em mártires como Catarina Eufémia, ou em figuras épicas como Lenine, nos seus sósias lusos, nomeadamente, no Major Vítor Alves e, de forma inegável, em Lopes Cardoso. Foi esta altura, mais coisas menos coisas, momento propício a que tivesse o meu avô, comunista convicto, votado convictamente em Pinheiro de Azevedo, talvez porque o achasse 'um tipo sem papas na língua', ficando em choque quando o facínora fundou o PDC, outro partido de fascistas. Lenine era, na sua pose, um sonhador, que eu imaginava sempre de perfil, com vento no rosto e feição pouco definida, como o Che Guevara estampado na tshirt branca que perdi enquanto saltava de uma rocha para a areia, convencido de que voava, roupa que levei no corpo em dia de rotineira confissão, após catequese, com o austero Monsenhor Correia. Da confissão resultou recado para casa, explicitando que os paizinhos deveriam saber que não era aquela indumentária de visitar a casa do Senhor. Não era o Monsenhor Correia, que o meu avô afirmava, sempre convictamente, ser um impenitente fascista, dado a perceber o fascínio que sonhadores como Lenine ou Che exerciam sobre o miúdo que eu era, ao contrário de tipos sisudos como Fidel ou Estaline. Nunca sonhou o Monsenhor Correia que eu vibrava, nos Jogos Olímpicos, pelos atletas de Leste, ficando particularmente empolgado com o hino da URSS, CCCP, ou que Vasco Gonçalves me enervava na sua agitação televisiva, ao contrário de Joaquim Letria, a fumar durante intermináveis entrevistas e debates vistos em família, ou de Vasco Granja, ou da inefável personagem shakespeariana que era Otelo Saraiva de Carvalho.
Por esses dias, construí, com as folhas do meu cadernos de gramática, uma frota robusta para oferecer ao Almirante Rosa Coutinho, alguém de aparência épica que eu juraria reconhecer de filmes como Os dez mandamentos. Eram barcos de papel, com feitios e tamanhos diversos, segundo os propósitos a que se destinariam e os objectivos que o almirante determinasse, naquilo que ele iria fazer de bom e que não foi nunca o mais relevante nem o mais claro para mim. Foram todos empilhados segundo as suas compatibilidades e armazenados no aparador da sala, por entre umas taças que raramente usámos para beber espumante, até terem sido descobertos pela minha mãe, após denúncia da professora, preocupada com a penúria inexplicável e injustificável de folhas disponíveis para o estudo das regras fundamentais da língua.
Foi o tempo para ver eu assim o meu mundo, antes do tempo em que os comunistas passaram a ser detestáveis e os tipos da KGB o alvo de um ódio que se estendia a Brejnev, Andropov ou Chernenko, por ter achado que percebia tudo sobre as Grandes Guerras, incluindo a Fria. Tudo isto vi, ouvi e pensei eu antes de descobrir a América e antes de achar que o John Kennedy seria um paradigma de sonhador, retratado de perfil e, como se impõe, com vento no rosto, bem antes de Otelo ter passado a bandido infame, em manobra de tragédia clássica.

Permanece, num dos lugares mais recônditos de mim, a sensação de que detesto Frank Carlucci, esse putativo patife cinzento,  lado a lado com a estranheza que emana do ódio tido em criança e mantido numa camada qualquer de ser-se pessoa destinada a isto, a ter ódio a um tipo que não conhecia.

Quando a tua idade perfaz o mesmo número de anos que terá durado uma ditadura, percebes, se não o percebeste antes, que és tu a contradição, alimentada por nós feitos e desfeitos de memórias difusas ou claras, pouco importa. Quando passaste uns anos pela vida, a defender umas coisas, a refutar outras tantas, a defender algumas das que antes refutaste ou a refutar outras tantas das já defendidas, percebes, se não o percebeste ainda, que chegaste ao dia em que as tuas certezas caducaram e os paradoxos sem explicação te povoam e traçam o teu mapa, que pareces precisar incessantemente de justificar. Se, ao sair do teu local de trabalho, em véspera de aniversário de revolução, te oferecem um inadvertido cravo, e com ele ficas a pensar em como o teu território apresenta um relevo irregular, de topografia incoerente e elevado risco sísmico,  factores que não consegues ajustar numa fórmula pacífica, isso pode apenas ser evidência de que estás vivo e de que és um homem com possibilidade de futuro.
Pelo sim, pelo não, vai e não voltes, Frank Carlucci.

26/04/18

Versículos 31 - 34

31 Virá o dia em que as pedras falarão com os homens nas suas línguas e todos sentirão medo. Nesses diálogos, não reconhecerá homem nenhum mais do que padrões geométricos formados na mente, monocromáticos. As palavras serão supérfluas nesse desencontro. 31 Serão as pedras inteligentes e buscarão laranjas acabadas de colher, para que a tradução ocorra e haja esperança de comunicação. Estarão os homens em sono de ópio, de olhos abertos e vontade dependente. 31 Comerão laranjas e abrir-se-ão ao entendimento, com expressões de júbilo e gratidão. 32 Chegarão tarde à possibilidade de entendimento, por caírem as pedras em incompreensão. Pensarão os homens estar perdida a oportunidade de aprender com as pedras e cairão em desânimo irreparável. 33 Esperarão por um deus que promova verdades. 34 Ficarão os homens pedras.

13/04/18

No início éramos nós. Depois, ele chegou e pensámos coisas estranhas sobre ele. Era de fora, andava meio de lado, falava de uma forma estranha a nossa língua. Cheirava a terra molhada, mostrava sorrisos abundantes e pronunciava demoradamente palavras como ‘discernimento’ ou ‘tomilho’. Viera de Oeste, dizia, e ninguém vem de Oeste, dizíamos. A Oeste há o mar e a América, depois dele, novamente o mar e mais continente, depois dele, até termos circundado a Terra inteira com o entendimento possível. Ninguém chega assim a sorrir, vindo de Oeste e amanhã resolvemos isto, dizíamos. Alguns amanhãs depois, ele chegou-nos sem sorrisos, com roupa da nossa, a cheirar a sabão e declarou que lhe restava difusa memória de onde viera. Talvez tivesse chegado do Sul, talvez sempre tivesse estado por ali, sem que dessem pela sua existência. Nesse amanhã, ele foi já um de nós.

05/04/18

do ser-se rua

Mais perto da esquina, a cor da parede e a luz parecem esbater-se. O passeio desfez-se um pouco na borda superior do lancil, à força de tanto ter havido por ali carroças a passar, sendo as ruas estreitas e o ângulo de viragem exigente. Sempre são as zonas de passagem as mais erodidas por acção de rodas, velhos a passear cães, vozes soltas, cães sem dono, bengalas, pássaros sem bando, chuva, maledicência, editais, notícias, bandos de pombos, berlindes perdidos, necrologias, botijas de gás, dejectos, ventanias e granizos, cadáveres em tempo de guerra, gritos em tempo de guerra, refugiados famintos em tempo de guerra. As zonas de passagem assumem um maior apuro dramático em tempo de guerra e o tempo de guerra justifica que se possa destruir sem critério e reconstruir como e onde se pode. Haverá coisas destruídas em tempo de guerra que poderão renascer em outro sítio mais ou menos distante, desmembradas ou por desmembrar. O tempo de guerra é avesso a corpos coerentes, a frases inteligíveis, a roupas lavadas, a suor de prazer. Tudo, até a raiva, se acumula num túnel, ou algo afim, com capacidade para armazenar sofregamente, até ao limite do insuportável, para que haja, quando tudo parece perdido, um salvamento de parte do conteúdo ou a sua asfixia. As percentagens de conteúdo salvo e por salvar são sempre variáveis, em função do tamanho do bigode do homem ou da mulher que comande a agressão e da elasticidade da pele moral do agredido. Por isso, as ruas acolhem, nas frestas dos empedrados, a memória de tudo o que foi e anunciam tudo o que será, ainda que em língua indecifrável. Assim profetizam ingloriamente as ruas há séculos e as guerras acabam por se suceder, à falta de ser compreendida a ladainha de conselhos avisados. Será essa a razão pela qual os soldados, no acto de ocupação, arrastam ruidosas solas de bota pelo chão. As botas de guerra propagam ruído com o objectivo de que as ruas se confundam e, assim, guardem memórias difusas, degeneradas, incapazes de contribuir para progresso na sua capacidade para se fazerem entender. O ruído das solas de soldado evita, se a situação o proporciona, que alguém suficientemente destituído do entendimento comum das coisas possa começar a reconhecer os signos e a fazer uma aproximação fatal à língua das ruas. Isto é plausível para as ruas com o piso em pedras justapostas, mas também para as de terra batida, ou mesmo as asfaltadas ou alcatroadas. Nestas últimas, as memórias são sempre mais minuciosas, mas também mais dispersas, menos fluidas do que nas empedradas. A terra batida, por seu turno, é altamente volúvel e retém com dificuldade memórias, mas consegue, fruto do seu dinamismo, camuflar melhor, ocultar e iludir botas de guerra, homens de guerra. O sangue é como as memórias, para efeito de circulação em piso de ruas. As ruas em que o sangue e as memórias se fundem em proporções muito variáveis expressam-se sempre com um misto de raiva e melancolia na voz, clamando por clássica vingança e expressando lamento sem esperança.

16/03/18

maçãs e afinidades no talho e fora dele

Do balde de latão emana odor a rama de tomate, a figos, a maçãs vermelhas, daquelas pequenas e esbranquiçadas por dentro, que a prima Florbela só usa para os porcos por serem ácidas, mostrando indignação face ao interesse que nelas manifestamos. Destaca a prima que os amendoins foram torrados recentemente e que, na saca de pano, há uma morcela de farinha que deve ser passada, depois de fatiada, pela frigideira, com banha. Nada substitui a banha nestas coisas e noutras parecidas e, sobre isto, parece haver um acordo de sorrisos francos. Sorriem porque gostam uns dos outros, os primos e os avós. A morcela poderá ter vindo ou não do talho do Aristides e da Teresa. Não sei se os primos Florbela e Hernâni gostam das coisas do talho deles, provavelmente não. Comem os bichos que eles próprios matam lá na quinta, por não haver melhor. O avô gosta e tem confiança no Aristides. A mim assustam-me os filhos deles, corpos robustos de homens, olhos de crianças paradas à espera de um crescer que apenas será mensurável pela capacidade de usar facas e cutelos. Pressente-se neles o potencial para executar assaltos e outros crimes, sem sucesso nem remorsos, baixa sensibilidade ao preço da vida. Não é claro para mim porque gosta o avô do Aristides. É mais imediato se pensar nas razões pelas quais gosta a avó da Teresa. Tem um visual de cantadeira de rancho minhoto, nostálgica por efeito de reclusão conjugal no Algarve. Há algo de dramático na rotação do olhar e na forma teatral como arrasta as frases e os brincos longos, diva deslocada que percorre os poucos metros quadrados do talho semi-envolta em algo como xaile negro, fino, até chegar ao cumprimento próximo e caloroso, o abraço demorado à avó. A avó parece confortada com a proximidade lânguida e fraternal, nascida da sua condição de desterradas. Ela, forçada da sua Andaluzia para o Alentejo pela merda da guerra, que a deixou em terra de ninguém, fala como os de Barrancos que, sendo boa gente, segundo diz, não são ela, nem como ela e isso revolta-a. Ali estão e falam, na entrada do talho, acerca da vida, das doenças, das dores, do que seria bom se as coisas fossem como elas desejam, tudo como se o calor da tarde e o cheiro do talho pudessem ter sido transmutados em fresco salão de chá. Os homens entendem-se. Falam do avio, das carnes que convêm, dos cabrões do governo e da guarda republicana, do idiota do cabo do mar, dos maricas que vêm do estrangeiro, com cabelos compridos, motas, drogas e umas gajas à pendura, do preço do gás e da falta de educação da porra dos rapazes novos que querem enrolar-se com as estrangeiras e ter dinheiro, sem querer trabalhar.  O avô é, ao pé do Aristides e não apenas nessa relativização, um homem sofisticado e isso pode ser o que o atrai nestas trocas, ser o organizador do discurso, o elevador de categorias discursivas, o harmonizador das premissas argumentativas pela cartilha dos sindicalistas da empresa, à mistura com a conversa dos jornais bons. O Arménio é relativa e absolutamente rude. Imagino-o como o animal que, em improvável tropeção do destino e em implausível salto qualitativo na evolução das espécies, conquistou carta de alforria, direito a linguagem, uso de língua, passando, por isso apenas, talvez, a governar o talho. No Aristides sente-se essa humanidade recente, de primeira geração. É simpático porque consegue sorrir sob o fino e curto bigode, mas tudo é feito para dentro, tudo nele parece tender para uma implosão que acabará por desaguar em violência descontrolada que simples leis da física ou outras explicariam. A Teresa é, nele, uma espécie de fusível, de dissipador de tormentas que o desliga sempre a horas, excepto se houver briga entre os rapazes e o pai. O avô e o Aristides têm a mesma postura quase altiva, o mesmo queixo elevado, o nariz pronunciado, o hábito de falar com as mãos atrás das costas, elevando o peito ao declarar. O avô consegue fazê-lo em múltiplos contextos, ao contrário do Aristides. Tenho observado que o avô é algo camaleónico na sua capacidade para ir do quase Aristides ao quase Dr. Fialho, mantendo o interlocutor interessado e dando réplica consistente, que não defrauda, qualitativamente e pragmaticamente nivelada. O Aristides só mantém esta postura de homem dado ao diálogo ali, no talho. Fora deste, o Aristides fica acabrunhado, sente-se mal na roupa e, numa camisa branca, intuímos nódoas que lá não estão. Nunca o vi fora do talho e deduzo isto pela forma como olha para o exterior. O talho tem uma montra que deixa ver o outro lado da rua, uma rua pedonal que liga os dois lados da meia-vila, o da igreja e o de trás, a cara e o cu. Será a rua uma coluna vertebral, um espinhaço que tanto faz falta inteiro e erecto na ética da vida, como partido a preceito e salgado de véspera para um cozido de grão. Talvez na vida tudo se resuma a comida, a ossos, aos nossos e aos dos bichos que comemos, a maçãs, as dos porcos e as que comemos nós. Acaba até tudo por ser o mesmo, porque as que não comemos frescas, comemos pela via de ingerirmos atempadamente os porcos. O avô quase que concorda e diz que o amigo Aristides não deixa de ter razão, que agora é tudo uma confusão, homens e mulheres, frangos do campo e de aviário, comunistas e fascistas encapotados e amansados nos partidos. Tudo aquilo cabe no carro, tudo se leva para que haja comida e conversa à mesa durante a semana, sem precisar de ir à vila. Tudo viaja na condição de híbrido ontológico à espera de clarificação. 

05/03/18

do ser-se Carlos

Subi a rua até à estação dos comboios para confirmar a hora a que chegaria a composição do final da tarde. Não queria que Rosa, a nova professora, esperasse por ali, num sítio desconhecido para ela, no qual eu seria o primeiro interlocutor, por falta de disponibilidade da funcionária da junta. Teria eu de acompanhá-la à pensão da D. Leonilde e ter cuidado com as aparências. Uma mulher, na terra pela primeira vez, a circular com um homem pelas ruas, à noite, implicava distâncias bem medidas e manobras evasivas evidentes. Professoras novas, entregues a trágicos acasos do desejo e de pecados de carne, não seriam novidade na terra e disso não queríamos mais, como sempre se dizia a este respeito.
As automotoras partiam e chegavam agora menos, sem que muito se desse por isso. Também a estação não seria já bem uma estação. Talvez tivesse vindo a regredir para condição de apeadeiro, com um pequeno casinhoto ao lado da zona de bilheteira, no exterior do qual o Carlos se sentava com o seu cão. O cão acudia por Rufino, Baltasar ou Cão, mas nada disto era certo porque estou em crer que, por diversas vezes, vi o cão seguir o Carlos depois de este ter dito: 'Sousa, anda, vamos procurar umas sopas.' Tudo variações sobre cenas de quadro já visto. Todos os apeadeiros ou estações de transportes têm, ou estão preparados para ter, o seu Carlos, com o seu Sousa, uma bilheteira ou sucedâneo, um casinhoto onde podem ser vendidos uns refrescos, umas águas, uns pacotes de batatas ou favas fritas e pouco mais. A professora que ali chegara há quase trinta anos, vinda bem do sul, tivera um caso de dez ou doze noites tórridas de Setembro com César Lamarosa,  o tipo do talho e, assim, tinha a aldeia ganho o Carlos, deixado ao cuidado da avó Isaura Lamarosa. Foi Carlos criado entre carcaças, inteiras ou desmanchadas, de bichos por comer e culpas por digerir, a pior das quais, publicamente difundida, resultava de aziaga combinação entre o ser 'feio como a mãe' e 'meio parvo como o pai'. O Padre Francisco Bouça, tenaz no combate ao maligno e amante de formulações nas quais o divino sempre acaba por combater coisas passadas abaixo da cintura, apressara o baptismo de Carlos por "recear que criança concebida à margem das leis de Deus e dos Homens, naquela humidade morna de sangues e carnes mal refrigeradas, com facas e cutelos à vista desde a semente", fosse "presa fácil de demónio atento e atraído por odores baixos."
Começou Carlos, desde muito cedo, a ir ver as automotoras, a olhar para elas talvez, a ficar por ali. Quando a escola desistiu dele, ou ele da escola, facto de apuramento improdutivo, juntou-se a ele um cão, talvez feio como a cadela sua mãe e meio parvo como o cão seu pai. Ambos ficavam à espera que chegasse ou partisse mais alguém, que uma encomenda volumosa fizesse caminho, que o vento arrastasse um saco vazio, que as galinhas da D. Teodolinda passassem a rede, do outro lado da linha, e se lançassem na aventura de desafiar o destino. Proferia Carlos palavras soltas, expressava com veemência cumprimentos a conhecidos e desconhecidos, fazia descrições avulsas do que observava no momento, objectos, movimentos de pessoas ou de pássaros, insectos a fazer a sua vida, tudo isto disparado em frases simples, por vezes justapostas como se delas se tivesse apossado um qualquer método de as tornar uma torneira programada para pingar verdades irrelevantes sem outra coerência que não a de provirem de Carlos. Assim ficava, sentado num tijolo que, ao sair, deixava arrumado atrás da parede, até ao dia seguinte. O cão olhava sempre atentamente, como se bebesse da voz de Carlos algo como entendimento do mundo. Alternava entre olhar para o Carlos e para aquilo que era descrito, ou aqueles que eram cumprimentados. Afirmo que entendia o cão a correspondência entre estes elementos: seria essa a sua função, testemunhar ou corroborar as acções de Carlos..
No luminoso dia em que chegou a Rosa, ao dobrar a última esquina, não vi o Carlos e percebi, sem qualquer dúvida, hesitação ou dramatismo, que o tínhamos perdido. Não precisei das múltiplas confirmações que foram deslizando pelas ruas, cafés, barbeiro, mercearia, tabacaria-papelaria-livraria, invariavelmente associadas a expressões acentuando a perda, falsas ou verdadeiras, outras precedidas de ‘bem se sabia que haveria de acontecer uma coisa destas’. Ninguém soube o que aconteceu, apesar de múltiplas teorias e descrições verosímeis e detalhadas de coisas que poderiam ter acontecido. Estes são os únicos factos reais, alheios a fantasias consoladoras de curiosos e moralistas: o corpo apareceu intacto, a cerca de trinta quilómetros a norte, junto à linha do caminho de ferro;  o cão estava por lá, deitado ao lado do corpo de Carlos, aparentando mimetizar a posição das pernas e braços, até ter sido levado por alguém, cuja identidade não foi revelada. 
Fiquei por ali cerca de uma hora, à espera da Rosa, tentado a ser eu o Carlos, a sentar-me no seu tijolo e a esperar que alguma alteração na paisagem ou na fauna do apeadeiro justificasse uma sumária descrição ou um cumprimento entusiasta. Ocorreu-me que os do talho iriam ficar aliviados, depois de passada a confusão da autópsia e a incontornável despesa do funeral, vertendo umas lágrimas e impando uns suspiros a roçar o sentido. Nunca soube nada da mãe, a professora fugida em desgraça. Ninguém quis nunca saber nada dela. Pensei ainda que talvez se justificasse um obituário para o Carlos, como ele o faria: ‘Aqui fica o Carlos. O Carlos viu tudo o que havia para ver e ensinou o Sousa a ver o mundo. O Sousa ficou grato por toda a eternidade de cão.’
Nesse dia, desceu a Rosa do comboio, olhou para um lado e para o outro e, como nos filmes, quando cruzámos o olhar, ficámos entregues a um amor correspondido até hoje. Nunca falei disto do Carlos com ela, julgo que por receio de que ressudasse o assunto da professora com o tipo do talho e não houvesse como contornar a ideia de que as tardes mornas de Setembro põem corpos em fogo e abrasam as carnes de professoras e tipos com lojas, neste caso, uma tabacaria-papelaria-livraria. Fosse eu dado a misticismos de garrafeira barata, ou aos livros que a D. Leonilde me encomenda para deixar na consola à entrada da sala de pequenos almoços da pensão, e fantasiaria sobre como éramos nós, a Rosa e eu, herdeiros da pura e ingénua alma do desaparecido Carlos, por tudo se ter revelado no mesmo dia: a sua morte e o nascimento do nosso amor. Seria ainda assim tudo estranho, como se fossemos uma indesejável e putativamente promíscua mistura sobrenatural a três, ou a quatro, se nisto incluíssemos o cão. Olharíamos então para o nosso pequeno Silvestre como se fosse o fruto de tudo isto e, em larga medida, o impróprio eco de coisas indevidas.
Acabei por me ir perdendo, muitas manhãs, sentado no tijolo do Carlos, nestas elucubrações sobre amálgamas de carnes e espíritos, tudo disfarçado de momento de pausa após saudável caminhada pela estreita estrada velha, voltas aparentes de corpo são a albergar mente sã. Vejo, às vezes, um ou outro cão a passar e a olhar-me com ar curioso e penso no Sousa, ou Baltasar, ou Rufino, o que quer que fosse, e quase me parece que esperam as minhas explicações, a minha descrição da realidade, o meu cumprimento efusivo aos que passam, uns mais estranhos que outros. 
Vou-me convencendo de que haverá talvez uma arte de ser Carlos, algo que apenas as estações de comboios, ou terminais rodoviários poderão acolher. Um aeroporto não permite que haja cães e tijolos para que alguém se sente e seja Carlos. Um aeroporto será sempre, por isso, um lugar menor.