13/04/18

No início éramos nós. Depois, ele chegou e pensámos coisas estranhas sobre ele. Era de fora, andava meio de lado, falava de uma forma estranha a nossa língua. Cheirava a terra molhada, mostrava sorrisos abundantes e pronunciava demoradamente palavras como ‘discernimento’ ou ‘tomilho’. Viera de Oeste, dizia, e ninguém vem de Oeste, dizíamos. A Oeste há o mar e a América, depois dele, novamente o mar e mais continente, depois dele, até termos circundado a Terra inteira com o entendimento possível. Ninguém chega assim a sorrir, vindo de Oeste e amanhã resolvemos isto, dizíamos. Alguns amanhãs depois, ele chegou-nos sem sorrisos, com roupa da nossa, a cheirar a sabão e declarou que lhe restava difusa memória de onde viera. Talvez tivesse chegado do Sul, talvez sempre tivesse estado por ali, sem que dessem pela sua existência. Nesse amanhã, ele foi já um de nós.

05/04/18

do ser-se rua

Mais perto da esquina, a cor da parede e a luz, parecem esbater-se. O passeio desfez-se um pouco na borda superior do lancil, à força de tanto ter havido por ali carroças a passar, sendo as ruas estreitas e o ângulo de viragem exigente. Sempre são as zonas de passagem as mais erodidas por acção de rodas, velhos a passear cães, vozes soltas, cães sem dono, bengalas, pássaros sem bando, chuva, maledicência, editais, notícias, bandos de pombos, berlindes perdidos, necrologias, botijas de gás, dejectos, ventanias e granizos, cadáveres em tempo de guerra, gritos em tempo de guerra, refugiados famintos em tempo de guerra. As zonas de passagem assumem um maior apuro dramático em tempo de guerra e o tempo de guerra justifica que se possa destruir sem critério e reconstruir como e onde se pode. Haverá coisas destruídas em tempo de guerra que poderão renascer em outro sítio mais ou menos distante, desmembradas ou por desmembrar. O tempo de guerra é avesso a corpos coerentes, a frases inteligíveis, a roupas lavadas, a suor de prazer. Tudo, até a raiva, se acumula num túnel, ou algo afim, com capacidade para armazenar sofregamente, até ao limite do insuportável, para que haja, quando tudo parece perdido, um salvamento de parte do conteúdo ou a sua asfixia. As percentagens de conteúdo salvo e por salvar são sempre variáveis, em função do tamanho do bigode do homem ou da mulher que comande a agressão e da elasticidade da pele moral do agredido. Por isso, as ruas acolhem, nas frestas dos empedrados, a memória de tudo o que foi e anunciam tudo o que será, ainda que em língua indecifrável. Assim profetizam ingloriamente as ruas há séculos e as guerras acabam por se suceder, à falta de ser compreendida a ladainha de conselhos avisados. Será essa a razão pela qual os soldados, no acto de ocupação, arrastam ruidosas solas de bota pelo chão. As botas de guerra propagam ruído com o objectivo de que as ruas se confundam e, assim, guardem memórias difusas, degeneradas, incapazes de contribuir para progresso na sua capacidade para se fazerem entender. O ruído das solas de soldado evita, se a situação o proporciona, que alguém suficientemente destituído do entendimento comum das coisas possa começar a reconhecer os signos e a fazer uma aproximação fatal à língua das ruas. Isto é plausível para as ruas com o piso em pedras justapostas, mas também para as de terra batida, ou mesmo as asfaltadas ou alcatroadas. Nestas últimas, as memórias são sempre mais minuciosas, mas também mais dispersas, menos fluidas do que nas empedradas. A terra batida, por seu turno, é altamente volúvel e retém com dificuldade memórias, mas consegue, fruto do seu dinamismo, camuflar melhor, ocultar e iludir botas de guerra, homens de guerra. O sangue é como as memórias, para efeito de circulação em piso de ruas. As ruas em que o sangue e as memórias se fundem em proporções muito variáveis expressam-se sempre com um misto de raiva e melancolia na voz, clamando por clássica vingança e expressando lamento sem esperança.

16/03/18

maçãs e afinidades no talho e fora dele

Do balde de latão emana odor a rama de tomate, a figos, a maçãs vermelhas, daquelas pequenas e esbranquiçadas por dentro, que a prima Florbela só usa para os porcos por serem ácidas, mostrando indignação face ao interesse que nelas manifestamos. Destaca a prima que os amendoins foram torrados recentemente e que, na saca de pano, há uma morcela de farinha que deve ser passada, depois de fatiada, pela frigideira, com banha. Nada substitui a banha nestas coisas e noutras parecidas e, sobre isto, parece haver um acordo de sorrisos francos. Sorriem porque gostam uns dos outros, os primos e os avós. A morcela poderá ter vindo ou não do talho do Aristides e da Teresa. Não sei se os primos Florbela e Hernâni gostam das coisas do talho deles, provavelmente não. Comem os bichos que eles próprios matam lá na quinta, por não haver melhor. O avô gosta e tem confiança no Aristides. A mim assustam-me os filhos deles, corpos robustos de homens, olhos de crianças paradas à espera de um crescer que apenas será mensurável pela capacidade de usar facas e cutelos. Pressente-se neles o potencial para executar assaltos e outros crimes, sem sucesso nem remorsos, baixa sensibilidade ao preço da vida. Não é claro para mim porque gosta o avô do Aristides. É mais imediato se pensar nas razões pelas quais gosta a avó da Teresa. Tem um visual de cantadeira de rancho minhoto, nostálgica por efeito de reclusão conjugal no Algarve. Há algo de dramático na rotação do olhar e na forma teatral como arrasta as frases e os brincos longos, diva deslocada que percorre os poucos metros quadrados do talho semi-envolta em algo como xaile negro, fino, até chegar ao cumprimento próximo e caloroso, o abraço demorado à avó. A avó parece confortada com a proximidade lânguida e fraternal, nascida da sua condição de desterradas. Ela, forçada da sua Andaluzia para o Alentejo pela merda da guerra, que a deixou em terra de ninguém, fala como os de Barrancos que, sendo boa gente, segundo diz, não são ela, nem como ela e isso revolta-a. Ali estão e falam, na entrada do talho, acerca da vida, das doenças, das dores, do que seria bom se as coisas fossem como elas desejam, tudo como se o calor da tarde e o cheiro do talho pudessem ter sido transmutados em fresco salão de chá. Os homens entendem-se. Falam do avio, das carnes que convêm, dos cabrões do governo e da guarda republicana, do idiota do cabo do mar, dos maricas que vêm do estrangeiro, com cabelos compridos, motas, drogas e umas gajas à pendura, do preço do gás e da falta de educação da porra dos rapazes novos que querem enrolar-se com as estrangeiras e ter dinheiro, sem querer trabalhar.  O avô é, ao pé do Aristides e não apenas nessa relativização, um homem sofisticado e isso pode ser o que o atrai nestas trocas, ser o organizador do discurso, o elevador de categorias discursivas, o harmonizador das premissas argumentativas pela cartilha dos sindicalistas da empresa, à mistura com a conversa dos jornais bons. O Arménio é relativa e absolutamente rude. Imagino-o como o animal que, em improvável tropeção do destino e em implausível salto qualitativo na evolução das espécies, conquistou carta de alforria, direito a linguagem, uso de língua, passando, por isso apenas, talvez, a governar o talho. No Aristides sente-se essa humanidade recente, de primeira geração. É simpático porque consegue sorrir sob o fino e curto bigode, mas tudo é feito para dentro, tudo nele parece tender para uma implosão que acabará por desaguar em violência descontrolada que simples leis da física ou outras explicariam. A Teresa é, nele, uma espécie de fusível, de dissipador de tormentas que o desliga sempre a horas, excepto se houver briga entre os rapazes e o pai. O avô e o Aristides têm a mesma postura quase altiva, o mesmo queixo elevado, o nariz pronunciado, o hábito de falar com as mãos atrás das costas, elevando o peito ao declarar. O avô consegue fazê-lo em múltiplos contextos, ao contrário do Aristides. Tenho observado que o avô é algo camaleónico na sua capacidade para ir do quase Aristides ao quase Dr. Fialho, mantendo o interlocutor interessado e dando réplica consistente, que não defrauda, qualitativamente e pragmaticamente nivelada. O Aristides só mantém esta postura de homem dado ao diálogo ali, no talho. Fora deste, o Aristides fica acabrunhado, sente-se mal na roupa e, numa camisa branca, intuímos nódoas que lá não estão. Nunca o vi fora do talho e deduzo isto pela forma como olha para o exterior. O talho tem uma montra que deixa ver o outro lado da rua, uma rua pedonal que liga os dois lados da meia-vila, o da igreja e o de trás, a cara e o cu. Será a rua uma coluna vertebral, um espinhaço que tanto faz falta inteiro e erecto na ética da vida, como partido a preceito e salgado de véspera para um cozido de grão. Talvez na vida tudo se resuma a comida, a ossos, aos nossos e aos dos bichos que comemos, a maçãs, as dos porcos e as que comemos nós. Acaba até tudo por ser o mesmo, porque as que não comemos frescas, comemos pela via de ingerirmos atempadamente os porcos. O avô quase que concorda e diz que o amigo Aristides não deixa de ter razão, que agora é tudo uma confusão, homens e mulheres, frangos do campo e de aviário, comunistas e fascistas encapotados e amansados nos partidos. Tudo aquilo cabe no carro, tudo se leva para que haja comida e conversa à mesa durante a semana, sem precisar de ir à vila. Tudo viaja na condição de híbrido ontológico à espera de clarificação. 

05/03/18

do ser-se Carlos

Subi a rua até à estação dos comboios para confirmar a hora a que chegaria a composição do final da tarde. Não queria que Rosa, a nova professora, esperasse por ali, num sítio desconhecido para ela, no qual eu seria o primeiro interlocutor, por falta de disponibilidade da funcionária da junta. Teria eu de acompanhá-la à pensão da D. Leonilde e ter cuidado com as aparências. Uma mulher, na terra pela primeira vez, a circular com um homem pelas ruas, à noite, implicava distâncias bem medidas e manobras evasivas evidentes. Professoras novas, entregues a trágicos acasos do desejo e de pecados de carne, não seriam novidade na terra e disso não queríamos mais, como sempre se dizia a este respeito.
As automotoras partiam e chegavam agora menos, sem que muito se desse por isso. Também a estação não seria já bem uma estação. Talvez tivesse vindo a regredir para condição de apeadeiro, com um pequeno casinhoto ao lado da zona de bilheteira, no exterior do qual o Carlos se sentava com o seu cão. O cão acudia por Rufino, Baltasar ou Cão, mas nada disto era certo porque estou em crer que, por diversas vezes, vi o cão seguir o Carlos depois de este ter dito: 'Sousa, anda, vamos procurar umas sopas.' Tudo variações sobre cenas de quadro já visto. Todos os apeadeiros ou estações de transportes têm, ou estão preparados para ter, o seu Carlos, com o seu Sousa, uma bilheteira ou sucedâneo, um casinhoto onde podem ser vendidos uns refrescos, umas águas, uns pacotes de batatas ou favas fritas e pouco mais. A professora que ali chegara há quase trinta anos, vinda bem do sul, tivera um caso de dez ou doze noites tórridas de Setembro com César Lamarosa,  o tipo do talho e, assim, tinha a aldeia ganho o Carlos, deixado ao cuidado da avó Isaura Lamarosa. Foi Carlos criado entre carcaças, inteiras ou desmanchadas, de bichos por comer e culpas por digerir, a pior das quais, publicamente difundida, resultava de aziaga combinação entre o ser 'feio como a mãe' e 'meio parvo como o pai'. O Padre Francisco Bouça, tenaz no combate ao maligno e amante de formulações nas quais o divino sempre acaba por combater coisas passadas abaixo da cintura, apressara o baptismo de Carlos por "recear que criança concebida à margem das leis de Deus e dos Homens, naquela humidade morna de sangues e carnes mal refrigeradas, com facas e cutelos à vista desde a semente", fosse "presa fácil de demónio atento e atraído por odores baixos."
Começou Carlos, desde muito cedo, a ir ver as automotoras, a olhar para elas talvez, a ficar por ali. Quando a escola desistiu dele, ou ele da escola, facto de apuramento improdutivo, juntou-se a ele um cão, talvez feio como a cadela sua mãe e meio parvo como o cão seu pai. Ambos ficavam à espera que chegasse ou partisse mais alguém, que uma encomenda volumosa fizesse caminho, que o vento arrastasse um saco vazio, que as galinhas da D. Teodolinda passassem a rede, do outro lado da linha, e se lançassem na aventura de desafiar o destino. Proferia Carlos palavras soltas, expressava com veemência cumprimentos a conhecidos e desconhecidos, fazia descrições avulsas do que observava no momento, objectos, movimentos de pessoas ou de pássaros, insectos a fazer a sua vida, tudo isto disparado em frases simples, por vezes justapostas como se delas se tivesse apossado um qualquer método de as tornar uma torneira programada para pingar verdades irrelevantes sem outra coerência que não a de provirem de Carlos. Assim ficava, sentado num tijolo que, ao sair, deixava arrumado atrás da parede, até ao dia seguinte. O cão olhava sempre atentamente, como se bebesse da voz de Carlos algo como entendimento do mundo. Alternava entre olhar para o Carlos e para aquilo que era descrito, ou aqueles que eram cumprimentados. Afirmo que entendia o cão a correspondência entre estes elementos: seria essa a sua função, testemunhar ou corroborar as acções de Carlos..
No luminoso dia em que chegou a Rosa, ao dobrar a última esquina, não vi o Carlos e percebi, sem qualquer dúvida, hesitação ou dramatismo, que o tínhamos perdido. Não precisei das múltiplas confirmações que foram deslizando pelas ruas, cafés, barbeiro, mercearia, tabacaria-papelaria-livraria, invariavelmente associadas a expressões acentuando a perda, falsas ou verdadeiras, outras precedidas de ‘bem se sabia que haveria de acontecer uma coisa destas’. Ninguém soube o que aconteceu, apesar de múltiplas teorias e descrições verosímeis e detalhadas de coisas que poderiam ter acontecido. Estes são os únicos factos reais, alheios a fantasias consoladoras de curiosos e moralistas: o corpo apareceu intacto, a cerca de trinta quilómetros a norte, junto à linha do caminho de ferro;  o cão estava por lá, deitado ao lado do corpo de Carlos, aparentando mimetizar a posição das pernas e braços, até ter sido levado por alguém, cuja identidade não foi revelada. 
Fiquei por ali cerca de uma hora, à espera da Rosa, tentado a ser eu o Carlos, a sentar-me no seu tijolo e a esperar que alguma alteração na paisagem ou na fauna do apeadeiro justificasse uma sumária descrição ou um cumprimento entusiasta. Ocorreu-me que os do talho iriam ficar aliviados, depois de passada a confusão da autópsia e a incontornável despesa do funeral, vertendo umas lágrimas e impando uns suspiros a roçar o sentido. Nunca soube nada da mãe, a professora fugida em desgraça. Ninguém quis nunca saber nada dela. Pensei ainda que talvez se justificasse um obituário para o Carlos, como ele o faria: ‘Aqui fica o Carlos. O Carlos viu tudo o que havia para ver e ensinou o Sousa a ver o mundo. O Sousa ficou grato por toda a eternidade de cão.’
Nesse dia, desceu a Rosa do comboio, olhou para um lado e para o outro e, como nos filmes, quando cruzámos o olhar, ficámos entregues a um amor correspondido até hoje. Nunca falei disto do Carlos com ela, julgo que por receio de que ressudasse o assunto da professora com o tipo do talho e não houvesse como contornar a ideia de que as tardes mornas de Setembro põem corpos em fogo e abrasam as carnes de professoras e tipos com lojas, neste caso, uma tabacaria-papelaria-livraria. Fosse eu dado a misticismos de garrafeira barata, ou aos livros que a D. Leonilde me encomenda para deixar na consola à entrada da sala de pequenos almoços da pensão, e fantasiaria sobre como éramos nós, a Rosa e eu, herdeiros da pura e ingénua alma do desaparecido Carlos, por tudo se ter revelado no mesmo dia: a sua morte e o nascimento do nosso amor. Seria ainda assim tudo estranho, como se fossemos uma indesejável e putativamente promíscua mistura sobrenatural a três, ou a quatro, se nisto incluíssemos o cão. Olharíamos então para o nosso pequeno Silvestre como se fosse o fruto de tudo isto e, em larga medida, o impróprio eco de coisas indevidas.
Acabei por me ir perdendo, muitas manhãs, sentado no tijolo do Carlos, nestas elucubrações sobre amálgamas de carnes e espíritos, tudo disfarçado de momento de pausa após saudável caminhada pela estreita estrada velha, voltas aparentes de corpo são a albergar mente sã. Vejo, às vezes, um ou outro cão a passar e a olhar-me com ar curioso e penso no Sousa, ou Baltasar, ou Rufino, o que quer que fosse, e quase me parece que esperam as minhas explicações, a minha descrição da realidade, o meu cumprimento efusivo aos que passam, uns mais estranhos que outros. 
Vou-me convencendo de que haverá talvez uma arte de ser Carlos, algo que apenas as estações de comboios, ou terminais rodoviários poderão acolher. Um aeroporto não permite que haja cães e tijolos para que alguém se sente e seja Carlos. Um aeroporto será sempre, por isso, um lugar menor.

26/02/18

prazeres de Arsénio à beira-rio

A caixa de madeira deixava no ar um expectável cheiro a lenha húmida. Ao pé do rio, tudo parece cheirar a humidade. Junto aos troncos meio submersos, foram enterrados, por inúmeras gerações, os membros da família, todos, excepto os desavindos. Desses nunca se soube que terra lhes terá caído por cima, se alguma caiu. Pensava Arsénio em como não se lembrava de ter visto o rio a subir e a galgar a margem. Desde que tinha consciência de si, ou aquilo que em Arsénio corresponderia a isso, nunca o rio tivera essa ousadia, essa iniciativa, esse ímpeto. Tudo isto eram as coisas em que pensava Arsénio, perdido em equivalências de palavras. 'Um dia teria de acontecer' era algo que lhe ocorria e consumia tempo de cogitação. A possibilidade de saber os seus antepassados a banhos forçados era algo que o fazia sorrir. O que seria daquele desarranjo de ossos, e sabe-se lá de que outros vestígios, por ali a derivar entre água e terra, traçando rotas improváveis na camada de folhas caídas das árvores, com as lápides e as pesadas cruzes em pedra a manterem o formato do jardim da memória familiar? Como seria previsível, ninguém calculava o que tanto levava Arsénio a fazer as suas romagens de saudades e pensamentos agravados àquela zona meio sombria da margem. E ele ia e continuava a ir, só pelo gosto de imaginar que uma enorme cheia poderia ter este ou aquele efeito, patos a nadar na horta, ossos do tio Demóstenes ali soltos, junto das cenouras ou na boca da cadela do Freitas. Por cada pensamento destes, uma pedra mais na caixa de madeira, a substituir outra lançada ao rio. Tudo se transforma. De coisas simples se fazem  prazeres pouco ambiciosos.

17/02/18

doméstico

Emocionam-te as imagens de animais selvagens em jardim zoológico. É condição excêntrica de existência o estar-se confinado, a simular gozo pleno de liberdade. Emocionas-te por evidente auto-comiseração. És sempre tu, em cada tigre imponente. És feroz, a responder ao teu impulso mais primário, rasgando o triplo saco de serapilheira com a carne de cavalo embalada e deixada pelo tratador. Poderias ser símio gracioso e ágil que salta e supera obstáculos para recolher as frutas que o tratador deixou às nove horas da manhã, como habitual. És apenas tão feroz quanto o podes, tão autêntico quanto te deixam. Alimentas a ilusão de que podes dominar o teu território, impregná-lo com os teus cheiros, deixar por todo o lado rastos do sangue das tuas presas, mas sabes que, no final do dia, cai o pano e comes a máscara com a ajuda da água que te puseram na taça. Sabe-te a desinfectante em demasia, a água, e a carne tem o sabor do mel que deixaram para consolar os ursos, ou das ramagens que apanharam, de madrugada, para felicidade de girafas ou de outros bichos quaisquer, que com elas se console e alimente esperanças, se for caso disso. E gostas de rugir abundantemente, mesmo que o faças apenas para confirmar a ilusão, para que as dúvidas se dissipem em trovão bem comportado e destituído de perigo. São rugidos fátuos, pálidos e embalados hermeticamente em saquetas de plástico que poderiam estar em prateleiras de mercearia. És músculo exaurido no vácuo da embalagem. És tu todo assim, feroz doméstico de catálogo.

16/02/18

e comemos gelado de sol nu

Voltaste a sentir o cheiro do sol em cabelos e pele, o seu brilho alvo em paredes. Sol e frio sempre te convocaram para aventuras, para peregrinação feliz por corpos desconhecidos, pela fantasia de poder haver danças nas ruas inclinadas, ou nos largos, ou nas praças, com os casacos e os gorros de todo o inverno a acumular-nos quentes nas suas fibras. Traremos no corpo, sobre o corpo, a nossa arca festiva, o aturdimento do suor nos poros, o desejo despudorado de despir, de retirar camadas evidentes, de revelar coisas íntimas pelas ruas, de voltarmos a sentir nas línguas o sol acre do amor por fazer. Faça-se.

05/02/18

Versículo 30 (pena vs pluma 3º fora-de-formato)

30 Crescer-te-ão inauditas asas, por sobre os ombros. Não saberás o que fazer com elas, nem como acomodar essa realidade ao teu corpo. Não te ocorrerão exemplos na natureza que te possam servir de auxílio, que possas mimetizar. Não são os ombros local de inserção de asas, em insectos ou aves, e as tuas asas serão pequenas, rígidas e cobertas por uma espécie de couro, já curtido, em tom ligeiramente mais escuro que o da tua pele na zona dos ombros. Pensarás no que conheces das representações gráficas de anjos e em como não te parecerás com eles. Ficarás feliz porque não terás de te rebelar e descer aos infernos mas, de facto, já lá estás, apenas por não haver sentido que possas construir em torno das asas grotescas que serão então parte de ti. Pensarás em metamorfoses que conheces, de livros que leste, e continuarás explicações ao alcance de entendimento. Perceberás que podes refrescar-te com o bater suave das asas e sentir-te-ás ridículo porque não carecerias de tais adereços agarrados à carne para te refrescar. Virás a sentir dor nas asas, uma dor pulsátil, em contra-tempo com o ritmo do teu coração e não advirá daí nenhuma paz. Perceberás que o som das asas te é familiar: é o ruído dos bandos de pássaros, que repetidas vezes te irritam no seu voo sem propósito à vista. Falarás com eles, talvez os compreendas, sem que os possas acompanhar. Ficarás sem estatuto definido na Criação, se nela creres, e não te sentirás perdido.

29/01/18

q-n

Avisto-te e sou inelutável marinheiro em dia de um quase-naufrágio que não o meu. Ali estão a distância e o frio, na contemplação de fomes, onda após onda. Tudo em nós se ausenta, excepto o fim da tempestade. Nunca me vês, raramente olhas para mim, ou sabes que estou por ali, em felicidade diferida. Quase somos, nos restos de espuma, nos cabelos tumultuosos, nas pestanas e lábios salgados e em outros lugares-comuns pós-tormenta. Quase seríamos um pouco mais, não fora a fome de tragar tudo em tempestades criadas para contemplação de amores insolventes. 

25/01/18

Versículo 29 (condicional e 2º fora-de-formato)

Serias uma multiplicidade de coisas, se pudesses. Eu proclamaria exactamente o mesmo. Diria eu 'coisas', categoria abrangente em excesso e falha de precisões, como me quero, objectificado. Mas isto seria apenas opção minha e não terias tu de estar de acordo com nada disto. Ser-se coisa não equivaleria a processo de depuração, redução ao essencial, ascese em curso, sageza em perspectiva. Traria o ser-se coisa, ou coisas muitas, sono reparador de ingenuidade despojada, entorpecido o desejo de ser mais, de labor ajardinante de virtudes, valores, profundidades e revelações fundamentadas. Seria eu coisas nos domingos, nas segundas-feiras de manhã, nas quartas-feiras, ao final da tarde. Seria salvo de pretensão mitómana pela inspiração programada de oxigénio coisificante. Seria coisas, causa guardada e defendida. 

23/01/18

Versículos 26-28

26 Contemplarás baleias, elefantes e outros animais majestosos. Com eles aprenderás pouco porque pouca semelhança encontrarás entre eles e tu próprio. Provocarás súbita interrupção do processo por entenderes o sentido de tal contemplação esvaziado. 27 Ouvirás aves em volta do lago, as suas vozes ruídos eivados de perfídia, espadas afiadas na paz do teu silêncio. Ouvirás o som dos bandos a sobrevoar as árvores perto de ti e sentirás a deslocação do ar provocada pelo seu movimento. Sentirás alívio, porque parecem partir, e raiva. porque regressam sem cessar, gorando repetidamente as tuas expectativas. 28 Na qualidade de rei auto-legitimado de uma qualquer criação, pegarás em armas e resolverás tudo o que te perturba. Ficarás em paz apenas contigo.

05/01/18

Versículos 20-25



20 As origens de ti são porta meio fechada com cheiro a madeira acabada de cortar. Serás sempre uma porta sem futuro: feito de madeira acabada de cortar, deformarás e decorrerá tempo infame até que se ajustem as partes, para voltar depois a reinar desordem. 21 Aceitarás a tristeza como sedutor passeio à beira de precipício, ou como corrida ao longo de um promontório de escarpas afiadas, lugares afins rescendendo a maresia e morte. 22 Sentir-te-ás dormente e imerso em notícia vil de ataque terrorista algures, saco de viagem danada contigo lá dentro. 23 Esperarás em vão a emergência de pergunta redentora e terás apenas respostas indesejadas, certezas adjectivadas com opulência e desespero. 24 Não haverá exorcismo à medida do demónio que te possui, da tua desordem, da ausência de liberdade. 25 Sobreviverás ao naufrágio e construirás jangada com madeira acabada de cortar. 


 

31/12/17

ano de dois gumes

Estive à tua espera, estive à espera disto, dos tiros e do gume afiado da faca, a velocidade desgovernada no cruzamento fechado, em mesa de almoço. Talvez possamos fazer algo pelo futuro. Estive à espera de poder dar-te um abraço e penso que tu também. Caem as folhas da última discussão de família, chovemos. Muda o ano, sobrevive-se a dilúvio sem arcas. Amanhã seremos os mesmos, com mais umas cicatrizes, mais transparentes talvez. Demos um abraço na esperança de sermos maiores por nos termos visto à luz da fúria, do ressentimento, da intolerância. Voltámos da viagem, do disparo até essa luz e regressámos - estou eu convencido disso -. Haverá amanhã.

20/12/17

luz de medo

O tigre tinha pelagem inusitada: diversos tons de castanho, listas quase da cor do barro e uma mancha vermelha na zona da boca. Jamais fora avistado qualquer tigre assim nas redondezas. Estavam acostumados a convívio secular com feras vindas da floresta, criaturas mágicas às quais se agrada com tributos de carne e ameaça de fogo. O respeito mútuo crescera e assim prosperou tudo, por muitos anos. Aquele era o primeiro tigre que chegava adulto à aldeia, sem antes ter feito qualquer aparição, e o medo começava a deliquescer em palavras que humedeciam pés, à passagem do chefe e da sua guarda.

Que seria melhor terminar com tudo antes de haver arrependimentos, que não ficariam as criaturas da floresta desiludidas, uma vez que o tigre da boca vermelha não seria uma delas, que o equilíbrio secular entre homens e feras seria desnecessariamente posto à prova, algo como tentar subir à montanha trepando por uma corda a arder, que o forasteiro tinha uma mancha demoníaca na zona da boca, sinal de danação e que com demónios não haveria pactos. 
Que o deixassem andar por ali, com respeito, contestava o ancião. Que lhe dessem a carne, como aos outros e que, se houvesse arrogância nos seus gestos, lhe brandissem uma tocha três vezes à frente dos olhos. Ganharia respeito, caso o não tivesse aprendido ainda, e passariam a sonhá-lo como uma das suas criaturas. 
Que a mancha vermelha seria sangue humano por correr e que haveria de arrepender-se quem desse guarida ao estranho, ao assassino, ao demónio. Haveria algo a fazer: quem estaria por nós? 

Ao longe, o ancião falava com as crianças, palavras sábias sobre respeito, convivência, a beleza de ter chegado ao meio deles, pela primeira vez, um exemplar de tigre diferente, com uma nobre mancha vermelha na zona da boca, um guerreiro por entre os tigres, talvez, que vinha ali depor armas e pedir santuário. Na clareira menor, a leste da aldeia, a pelagem do tigre ficou gradualmente mais vermelha, à medida que foi desligando dos seus o brilho eufórico do olhar humano, o do homem com a lança na mão. Ao longe, o ancião deixava lentamente de respirar e um fio de sangue corria, das suas narinas, pela face e peito, fundindo-se com as fibras da veste vermelha. Ao seu redor, as crianças compreendiam aquela placidez, aprendiam a ler as palavras com que se escrevem as histórias da vida e da morte, os segredos salvíficos e as sementes da guerra, do medo, do sangue que corre apenas para que haja histórias para contar. Sem que se veja, o medo não morre. E, se o fizesse, seria sempre um ténue fragmento de tempo antes da morte da esperança. Assim se tecem as coisas que são de tecer para que não venham tigres de boca vermelha ameaçar o que é conhecido. Assim se protege o que é nosso, com o medo a iluminar caminhos.