21/03/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 2

Barfleur, 27 de Julho de 2007

Caríssimo Álvaro, querido amigo:

Antes que decidas telefonar, gastando o pouco dinheiro que tens numa chamada internacional, envio-te as linhas que lerás de seguida, se tiveres paciência. Não substituem as nossas conversas mas talvez te evitem mais uma passagem pelo espelho sem que te vejas como eu acho que te deverás ver. Pensava em ti, em vocês, à janela, enquanto bebia um copo com a Clara, ao fim da manhã e fui escrevendo. São palavras simples mas são as minhas, para ti, com os meus clichés, que sempre combateste mas que, como sabes, me dão tanto prazer...

Passou-nos a vida por cima e eu acho que a tens gasto a fazer contas. Contas ao dinheiro, sempre exíguo, contas ao mal-amado que te sentes, à falta de reconhecimento alheio, coisas das quais não precisas para ser um homem cumprido, todo. Mas cada um é como é e tu és assim, sempre a querer beber o veneno da vida em pequenas gotas. Ou é o que parece. Sei que não será assim. Pelo menos não será sempre.

"Contas à vida, sabes que estás numa qualquer encruzilhada da mesma. Pareces suspenso e fazes contas de somar, com o cheiro do caderno da escola, da madeira velha da carteira e do sabor da borracha, meio mordida, misturado com o do lápis amolecido pela saliva. E somas tudo, a história do encontro dos teus pais em terras de fronteira, o cabelo do teu pai a cair, o colo meio inseguro da tua mãe, os teus avós e bisavós, todos, as brigas com irmãos pelas coisas estúpidas de sempre, as rivalidades, as brincadeiras. A adição de todas essas parcelas devolve-te o teu perfil, estás convencido disso. Percebes-te também no que assumiste ser a tua linha da frente e isso significa que acabou, para ti, a idade dos prodígios. Ou não. Nesta linha, que ocupas vacilante, podes proceder a outras operações e fazes contas, de novo as aritméticas, sem rigor algum. À tua frente, iluminam-se a tua mulher e os teus filhos que escrevem em ti coisas sobre o presente e o futuro. Tens tu agora menos cabelo na cabeça mas isso não te incomoda: é uma subtracção e não estás a treinar isso agora. Atrás de ti, vês outros ramos da árvore que te pariu, os teus irmãos e as suas linhas da frente. Vês ao fundo os troncos das árvores que morreram de pé, lugar-comum. Receias que, em breve, a soma das parcelas te revele o que não queres saber, quanto tempo tem o teu mundo. Talvez o tenha todo mesmo mas não tens suficiente fé em nada. Receias tanto que te sentes tentado a viciar as contas. E começas e recomeças, divides, multiplicas, como se apenas brincasses com os números, numa retórica algébrica qualquer. Que não pensas nisso, dizes tu. Pois profetizo, sem dom para tal, que dias virão nos quais sentirás a dor da perda e outros nos quais terás alegrias. Tudo simples, como vês. Na tua contabilidade da vida terás sempre o cheiro das casas que habitaste, o volume daqueles que abraçaste, os sabores que sempre aprendeste que a água não tinha, as feridas nos joelhos, repetidas de tanto tentar descrever a curva que descia da muralha para a rua dos teus avós em velocidade crescente, o plátano gigante em terra onde só passaste dois anos, a serra que te deslumbrou com quase-neve, a planície e o cheiro infinito a calor insuportável, os ninhos das andorinhas no Inverno, os cabelos brancos dos teus filhos, a mão na tua da tua terna companheira, avó-rochedo, os túmulos dos teus pais e avós, o colo inseguro da vida a dizer-te que está na hora de seres um homem. Profecia final, para que possas ir jantar tranquilo: serás."

Teu amigo sempre, Isidro.

20/03/17

excertos de 'Cartas Exiladas' 1

Meu caro,

há. Pode haver. Não te digo que não. Pode existir uma razão, ou uma dúzia ou duas de razões, para sentires que deves fazer algo por mim. Estás cansado destas cartas, destas interpelações em sintaxe pobre e semântica embotada por vício de auto-comiseração. Preferirias talvez falar de mim apenas...
E, afinal, sempre te vou pedir o tal elogio, seja ele em que fase da vida for. Se for o último, para mim, se anteceder o luto e o esquecimento de quem era, faz o que tens a fazer. Diz, a quem tiver ficado, que fui cansativo. um bom amigo mas cansativo. É justo que o digas, porque é a verdade e esta missiva é disso prova cabal. Peço-te que fales do muro branco, de como o senti sempre até ao fim, de como cá dentro é mais fácil viver, de como fui um eremita fechado sobre mim próprio, confinado ao meu universo em contracção. 
Nada disto, nem estas palavras que trocamos agora, é interessante. É sentimentalismo do mais puro, do mais balofo, dirás. E dizes bem, de forma exemplar até. Talvez devêssemos interromper bruscamente esta aventura epistolar da nossa amizade. Ou não. Tive medo de tudo menos de escrever, de me escrever, de escrever aos amigos, de os escrever em longas frases com adjectivos a mais e excesso de advérbios, de lhes deixar estes lamentos insuportáveis ou despidos de significado. Tantas vezes encontrei, numa pálida resposta eivada de compreensível condescendência, o alento para adormecer outro dia, um dia mais. Nunca me foquei o suficiente no futuro para ter esperança de redenção. Nunca me entreguei demasiado ao passado para pensar como teria valido a pena cada hora. Palmilhei um presente, lugar-comum a que chamei terra de ninguém. Tudo, ou quase tudo, me parece fora do espaço e do tempo devidos, desde o ar que me violenta os pulmões, aos significados exilados, reféns de expectativas infundadas em relação à grandeza do mundo e da capacidade dos olhos para ver. Talvez tenha chegado a hora de, aqui mesmo, sem retorno possível aos meus, do outro lado do oceano, me entregar a isso de ser assumida e depuradamente coberto pela terra que pisei, neste lugar padrasto, sem pontos cardeais em vigor. Tudo aqui parece ter prescrito excepto tu, que me ouves, eu próprio, cansado de me ouvir, e o mar, que também  parece ir-se mostrando exaurido de paciência. 
Peço-te apenas que não te esqueças do elogio, ao que quiseres, não terá de ser a mim. É até melhor que não o seja. Um dia poderás recordá-lo e perceber que te serve, que parece ter sido feito à medida para ti. Então, vesti-lo-ás e terás feito essa descoberta ainda a tempo.

Despeço-me de ti, com serenidade e gratidão. 
Transmite, por favor, as minhas saudades à tua doce Maria Helena e à vossa menina.
Ramiro
Antofagasta, 12/12/1983



13/03/17

species had not been independently created: avé maria puríssima

O homem mau tinha fama disso, de ser mau. Não era mau como alguma coisa que se pega, chegando de mansinho e espalhando o seu odor por debaixo da porta, antes de se instalar com carnes e ossos. Era mau como um bloco de peçonha que se abate pesado sobre o tecto de uma casa e a atravessa, rebentando o chão e penetrando até às fundações. Nunca soube se ele era assim, nem o vi fazer nada, nem conheci sequer quem o tivesse visto fazer o que quer que fosse de mau. Ainda assim, afastava-me dele por superstição ou porque a minha avó me teria dito que não poderíamos, de forma alguma, cruzar-nos com ele na rua e seguir ao resto da nossa vida, como se nada fosse. É homem para dar cabo da vida dos outros e ir para casa beber um copo de água em paz, dizia. Entre as superstições e a convicções da minha avó acerca do mal e dos diabos, tudo coisas tratadas a poder de três repetições de 'Avé Maria Puríssima', não haveria terra suficiente para que nascesse a mais estreita fronteira. Ao longo da minha vida, encontrei sempre pensamentos e palavras, actos e omissões dos quais me afastei porque deles e delas era sabido que faziam mal, que destruíam, que não deixariam consolidar os meus pés de barro no altar. Sabendo do mal, não o evitar seria pecar, por minha culpa, minha tão grande culpa. Em proto-iconoclástico acto de contrição, presto hoje, aqui, uma homenagem de homem mau a tudo isso, aos demónios de poderes não comprovados, ostracizados por suposição de passarem a vida a cheirar a enxofre. Serão estes demónios de aviário, à espera de consumo fácil, com pele crocante e molho de gengibre. Não me terei cruzado com eles e seguido com a minha vida, como se nada fosse, bebendo um copo de água, em paz.

In considering the origin of species, it is quite conceivable that a naturalist, reflecting on the mutual affinities of organic beings, on their embryological relations, their geographical distribution, geological succession, and other such facts, might come to the conclusion that species had not been independently created, but had descended, like varieties, from other species. Nevertheless, such a conclusion, even if well founded, would be unsatisfactory, until it could be shown how the innumerable species, inhabiting this world have been modified, so as to acquire that perfection of structure and coadaptation which justly excites our admiration.

(Charles Darwin, On the Origin of Species)

07/02/17

+ citrinos em jardim de paraíso - natureza não-morta

Se o fim do mundo sucedesse aqui e agora, colheria limões. Estão a ficar maduros, o amarelo começa a triunfar sobre o verde. Gostaria que estivesse calor e poderíamos estar nus, a pele morna e húmida. Acabaria o mundo e estaríamos a saborear o prazer de sentirmos o calor da pele um do outro. Nem pensaríamos, às tantas, nos limões. São lindos, os limões, sobretudo se os contemplarmos no dia em que o mundo está a acabar. O mundo a acabar é a hipérbole salvífica de qualquer cena banal.
Um dia poderá ser assim: "Esqueço-me de ti, à medida que o Inverno passa e os dias menos frios dão lugar a outros que o são menos. Reconforta-se a pele com o ar menos frio. Esqueço-me também de tanta coisa, quando os dias começam, de novo, a ficar mais frios. Espera a pele ser confortada com algo que a cubra e parece esquecer-se também do que é ter o ar mais frio a tocá-la. Resta sempre a face e ficam, se se quiser, as mãos para guardar essa sensação. Tudo é circular, é o que apetece concluir. O que fica quando se esquece tudo? Nestas idas e voltas de frio, não faltará muito para que olhe o espelho e apenas o veja a ele, espelho, e àquela cara que ainda sabe o que é sentir o ar a percorrê-la mas não sabe já que sou eu. Talvez o esquecer seja uma espécie de cancro benfazejo, algo como o morrer do que fomos, apesar de nós. Talvez o esquecer nos salve, apesar de nós. Talvez o esquecer nos proteja da chuva, se mais não fizer. E será bom podermos ir no caminho, sem que nos molhemos demasiado. Talvez o esquecer seja o absurdo que queremos ser, apesar de nós."

Coisas 79,3% verdadeiras de que me lembro

O meu tio Gumersindo era, até há pouco tempo, o único irmão da minha avó materna vivo. Muitos foram, em momentos distintos, desaparecendo. Algumas dessas notícias foram recebidas pela minha avó na minha presença. Recordo-me de receber a notícia da morte de tio Cândido, na casa da praia do Monte Clérigo, trazida pelo tio Furtado na sua motorizada, um homem bom, a alma da farmácia da terra, pescava sagos como poucos, tocava guitarra portuguesa e tinha coleções de banda desenhada. A morte do tio Cândido, ou a notícia dela, cheira, nas minhas memórias, a gás butano, àquele cheiro de borracha e redutor velhos, metal meio oxidado. Estaríamos na cozinha e, pela porta de trás, infiltrou-se a notícia, declarou-se, fez-se explosão em lamentos muitos, todos da minha avó, os outros a tentar que ela recuperasse os sentidos. Eu estaria por ali, a ver e a ouvir e a pensar em como os próximos dias seriam meio cinzentos e em como a morte do tio Cândido me roubaria uns dias de praia por ter que se ir a funerais e fazer viagens para Espanha, o que não veio a suceder. Estaria no canto onde cheiraria a gás, ali sentado numa pequena cadeira com fundo de buinho. Estaria eu a tentar desfazer pacientemente o fundo da cadeira, como de costume.
Depois da morte da minha avó, terão morrido os meus tios Prudencia, Angeles e Gumersindo. Não tenho a certeza disto mas não terá sido muito diferente. Não vi, portanto, a minha avó a reagir à notícia que anunciava as suas perdas. Para a minha avó, Prudência era uma amiga tranquila e bonacheirona, Angeles, Angelita, a rival, talvez por ser a mais próxima, tanto que as idades se lhes confundiam e Gumersindo o menino, o mais novo, a cria mais frágil da ninhada, filho de todas as irmãs, na cabeça de todas as irmãs. Gumersindo foi o menino que, na Guerra civil, teria sido escondido pela irmã mais velha, Natividad, numa salgadeira, por entre as peças de carne e toucinho, para que o não levassem. Era Natividad dada a salvamentos heróicos, segundo rezam as artesanais lendas caseiras, tendo salvo de afogamento quase certo num poço o irmão, Gumersindo. Aparentemente, Gumersindo seria dado a ser salvo heroicamente.
Gumersindo salvou a continuidade intergeracional da família e não fui ao seu funeral porque tive um inadiável compromisso profissional. Um inadiável compromisso profissional, no dia em que desce à terra o último dos nossos tios de quem se guarda memória de conforto, é uma prova de responsabilidade ou, como me parece quando nisto me vejo ao espelho, uma ostensiva falta de coragem para mandar o que não importa nada à merda. 

03/02/16

coisas 94,6% verdadeiras de que me lembro

Não me lembro de quando morreu o meu tio Pepe.
O meu tio Pepe tinha, no seu quintal estreito, ao qual se acedia pela cozinha, julgo que ao fundo da casa, um perdigão. Estava dentro de uma gaiola e, por vezes, tenho a impressão de que o ouvi falar, ao perdigão. Ao meu tio Pepe, tenho a certeza de o ter ouvido. Falava muito comigo, mais do que eu com ele.
O meu tio Pepe era casado com a minha tia Prudência, irmã da minha avó Casimira e de mais uma dezena de irmãos. Teria agora de contá-los para ter a certeza de quantos foram, entre os que morreram em pequenos, os que viveram até eu os ter conhecido, e não me apetece fazer isso agora porque me apetece listar factos e coisas do género sobre o meu tio Pepe. É um estimável património de tios que julgo não estimar o suficiente, não ficando, contudo, a alimentar culpas por isso. Faria agora um manifesto sobre o facto de não ter de ser a vida, a minha, o capítulo esquecido de Crime e Castigo. Não o faço apenas porque tenho de continuar, porque assinaria o manifesto mesmo sem o escrever, porque a culpa, sobretudo a que é mal parida, corrói até ao osso.
O meu tio Pepe tinha uns óculos com lentes verdes, o cabelo penteado para trás, escrupulosamente. Tinha levado um tiro, alegadamente na Guerra de Marrocos, na qual, também alegadamente, tinham participado os meus tios e cunhados dele, Alonso e Felipe.
O uso de 'alegadamente' deve-se ao facto de poder eu falhar na componente factual do relato e não quero que comece a emergir a suspeita de falsidade em alguém que não eu próprio.
O tiro na perna obrigava-o a coxear. Com o tempo, deixei de reparar que ele tinha de fazer aquele movimento circular com a perna. Hoje não sei se seria a perna esquerda ou direita. Assumiria que era a esquerda, pela imagem que agora me ocorre dele a descer a rua. Juraria que trazia uma bengala preta, lacada.
O meu tio Pepe dava-me sempre pesetas na hora de regressar a Portugal. Talvez mil, mil e duzentas pesetas, umas vezes mais, outras menos.
O meu tio Pepe expulsou um miúdo da minha idade de um carrossel, nas festas de Encinasola, apenas porque ele me disse, de forma insidiosa 'Sai daqui Português!'. Ser Português ou Espanhol nunca foi para mim, nem para o meu tio Pepe, algo em que se pensasse como sendo traço distintivo de qualquer um. 
O meu tio Pepe dava beijos barulhentos aos sobrinhos na hora da chegada e na hora da partida.
O meu tio Pepe acabou por ser uma espécie de planeta despromovido sem critério do meu sistema familiar e eu recupero-o agora em grande pompa pessoal. Recuperarei mais destes corpos celestes sempre que me apetecer, sem disso dar justificações, se as não quiser dar.

01/02/16

um dia, seremos laranjas presas aos ramos
à espera desse ser maduro, do ser-se sumarento.
um dia, no mesmo dia talvez, não diremos coisas com sentido
e isso será libertação sem sofrimento.
muda de ti. muda-te.
como numa promessa eleitoral,
vota em ti, elege-te, nomeia-te para algo sem sentido algum
para além do seres maduro no teu ramo.

deixa-te ficar, sulco na berma da estrada.
Assume-te maiúscula no início do verso, em poema idiota.
escreve-te, desenha carateres no teu corpo, na tua pele.
inventa-te em línguas descobertas para ti.

um dia, seremos circulares e não veremos depreciação nisso.
em dia de fazer o mundo,
não precisaremos de Júpiter para nos proteger de asteroides com cheiro a laranja.

04/01/16

No dia em que nasceu, não havia sapatos para gastar, nem uma vela acesa em parapeito de janela, nem um único som que assinalasse evento algum. Esse foi um dia de vaguear, sem referência nem método, ao longo da margem do lago. Calçou os sapatos e mentiu, porque se mente sempre, especialmente quando se nasce e depois de calçar os sapatos. Acendeu a vela, a custo, com o fósforo húmido. Reverteu com discrição o escuro da noite e vagueou mais e mais até ao limite de si. No dia em que nasceu, foi noite.

30/10/15

Some-se o tempo, cais sobre a voragem de ser o bando de impossibilidades que te definem. 
Os passos fazem-se acompanhar das folhas pisadas pela sola. A luz tolda o entendimento dos ponteiros do relógio. As vozes perseguem-se em bandos de impossibilidades harmónicas mútuas. Tu cumpres-te em escalas de medida pessoais, sem arbitragem externa. Bandos selvagens de impossibilidades múltiplas, em formações, asas expostas à luz gloriosa do entardecer.
Espera pela chuva, em dia de coroação de rainhas e reis na televisão. Fica em suspenso, como ficarias se fosses rei em dia de coroação, refletido em montras das lojas de eletrodomésticos. Olha para o sofá onde se sentava o teu avô e suspende-te nesse último dia, na folha adoentada do pessegueiro com dias contados, na soma de virtudes dos vegetais, no coração do cão a pulsar durante o seu sono, ao fundo do quintal.
Não haverá muito mais a fazer depois disto. Bastará que descanses e te sintas cumprido. Será pouco mas serás tu.

24/04/15

Sob a luz das folhas pareço-me um pedreiro com farda de ócio impossível. Sento-me no pequeno muro que delimita a árvore, detalhe autobiográfico menosprezável. Formulo-me em falácias de viagem digital, acto de fé. Sob as folhas, sou eu, analógico, sem redentores protocolos de compatibilidade.

07/03/15

As estradas sucedem-se, quilómetros em mostrador de relógio.
Sabes-te menos muita coisa, assim dita, sem formulações sofisticadas de caderno para aplausos.
Sucedes-te em estradas, muitas, desenhadas na tua pequena secretária meticulosa.
Pensas-te como avaliação sobre aquilo que fizeste contigo, contas de mercearia sem azeite, nem arroz, nem açúcar, nem farinha, nem aritmética que possas fazer num local que ames.
Medes-te pela forma como respiras, a intensidade do sangue pelo corpo a tentar o seu melhor.
Entregas-te todo em prestações, parcelas, fracções, paradoxos e pulmões sem cartas para jogar, apostas esgotadas e restos de um almoço com teor biográfico em dia de acertar contas.
Desenhas-te em despedidas, traças de ti perfis, cobres a pele de terra e sol, por não haver mais astros.

Virão descansar ao pé de ti, quando descansares. Saberás, nesse dia, que não foste longe porque és aqui.

27/11/14

Hoje é dia de festa.
Hoje é dia de elevar os braços ao alto e proclamar que virá uma revolução. Ela te dará um novo alento, uma capacidade inusitada de levantar o peso do mundo por sobre a tua cabeça, com os teus braços nus. E tu serás um homem feliz, com os braços elevados ao alto, com o mundo entre as tuas mãos.
Hoje é dia de festejar o que apenas se festeja por ser raro.
Hoje é dia de muitas coisas e de dizer que é dia de qualquer coisa, hoje.
Hoje é dia de afirmar que terias sido mais feliz se tivesses ficado a chorar em casa. Se não quiseres festejar apenas por festejar, porque isso te liberta mais do que uma anestesia qualquer que te perca, fica antes em casa, numa qualquer casa.
Hoje é dia de beber, se não conseguires festejar de outra maneira, porque se celebra o dia do rei e da rainha, do presidente, do herói e do escritor, do bandido, daqueles que saíram do país e são comunidade, daqueles que se conseguem rever nas estátuas que lhe erigiram numa rotunda à volta do qual passam carros com bandeiras e esvoaçar, aclamando uma qualquer vitória da nação.
Hoje é dia de ouvires canções entoadas por multidão em uníssono, com as mãos por sobre o peito. E tu podes festejar, porque não tens de cantar, porque não és a multidão, porque a canção te desagrada, porque ela pesa mais do que o mundo entre as tuas mãos, elevadas ao alto, por sobre a tua cabeça.
Hoje é dia de ser incoerente e de celebrar a incoerência. É sempre dia de ser incoerente. É sempre dia de celebrar. Haja festa.

12/11/14

CSTM1

Um dia olhei-te, de joelhos na cadeira, posição de possível conforto para realizar deveres da escola. Cadeiras e mesa de cozinha, revestidas por fórmica azul, padrão a simular azulejos com cenas de quase gente a viver um quotidiano plano.Talvez eu tivesse ainda a roupa que trazia da escola, com o cheiro da escola, com um certo cheiro a suor em pano branco da bata. Agora que penso, não teria eu a bata vestida. Tivesse eu a roupa favorita da altura e vestiria uma blusa de malha, sem mangas, azul escura. O resto seria irrelevante, essa blusa bastaria. Tudo se aceita neste exercício, até à imagem da tua entrada.
Entraste.
A sombra, no pequeno espaço junto à porta da rua, deixava o espaço dividido entre o muito escuro e uma gradação de claridade esverdeada. Entraste e isso equivalia a que ainda não tinhas morrido, não te tinhas suicidado, como tantas vezes anunciaste à laia de refrão matinal, lema de vida. Olhei-te como se existisses, mas não tenho a certeza de teres sido o que quer que fosse. Olho-te agora, nesse momento distante, como se fosses uma espécie de figura em cartão, daquelas que existem hoje a replicar os atores, em tamanho real, à entrada dos cinemas, bidimendional, sem espessura, sem profundidade, sem aquilo que se tem de ter para se ser, algures entre o escuro e o esverdeado do espaço onde paraste e me fitaste, vazia. Fica-se assim, talvez, quando ficam as promessas que fazemos por cumprir. Tu ficaste. Mesmo que a promessa seja um reiterado anúncio de morte com hora e sítio marcado, se não a cumpres, ela cumpre-se sozinha.

25/10/14

O filho diz palavras, repete palavras. O filho repete palavras que o pai não ouve. Não haverá nada a fazer pelas palavras repetidas. Repetem-se palavras repatriadas sem que haja  o mais pequeno ato redentor que possa levá-las para um local melhor, realidade reeditada por filhos e pais, corais e flores raras em ambiente hostil. Hoje não haverá palavras. Veremos como se repatria o silêncio repetido mil vezes até ser verdade.

15/10/14

Não haveria nada de mal em quereres sair antes dos outros, antes que dessem pela tua presença. Sempre foste invisível, pensas. Se reparares bem, não és invisível. A tinta de que és feito tem pouca resistência ao uso e dilui-se com facilidade. Não tem que ser mau, isso. Não tem que haver mal nisso. Estás mais protegido contra a exposição excessiva, embora não te pareça agora que isso é uma virtude, uma vantagem, um ardil de sobrevivência. Querias ser visível por mais tempo. Querias não te desvanecer com tanta ligeireza, não ser apresentado várias vezes à mesma pessoa, sempre o colega de fulano, sempre o primo do outro, sempre o filho da outra, o marido de alguém, o tipo que se parece com o outro, aquele que não se tem a certeza de já ter cumprimentado. Querias ser notado e dizes que não. Querias ficar gravado de forma indelével à primeira vez, ao primeiro encontro, à primeira fala, à mais elementar exposição a ti mas és assim,   quase como a água. Poderias desaparecer e poucos dariam pela tua falta. Melhor, desaparecerias, dariam alguns pela tua falta, outros lamentariam que fulano, a esposa, o pai,a mãe, o filho e o trabalho louvável que fazias sentissem a tua falta. Dias depois, tudo como dantes. Mas não é mesmo assim com tudo e todos? Inodoro, incolor, insípido, informe. Desapareceste e não houve um murmúrio sequer. 

02/11/13

'We have no more beginnings'

Como te sentes hoje? Esta luz, a esta hora... uma bênção, não achas?
E assim se faz deliberadamente conversa, só por fazer. Assim faço conversa por ser esta a conversa que me apetece fazer, a que me dá prazer, a que quero fazer absoluta. Nem sempre grandes sínteses sobre a humanidade ou o grande sentido da tua vida, ou da minha, ou dos outros. Cada vez menos disso em estado puro. Esta é a conversa a fazer, sobre o tempo, por ser o tempo o que temos, mais ou menos. Hoje, temos o dia, esta hora do final da tarde, sol nas paredes brancas da casa do vizinho, o encontro marcado com guião de afectos por levar à cena. Falemos do tempo a olhar para o fim. Hoje não é dia de nascer do sol, essa luz com excesso de esperança, sem a melancolia de quando havia a força, a energia, a vida toda à frente. Hoje, a esta hora, olho-me, olho-te a pôr-me, a nossa luz na parede branca dos vizinhos.
 
'We have no more beginnings' (G. Steiner, Grammars of Creation)

22/10/13

a.b.s.c.

Atravessa o sol as nuvens, há vento, o vento é frio. Por vezes, parece o vento que aqui sopra vir de outros lugares, mais frios. O sol rompe as nuvens e volta a desaparecer, fica mais espessa a camada de nuvens, fica mais frio. Por vezes, parece o frio que aqui se sente vir de lugares mais frios. Sinto eu frio, começa a chover uma chuva mais morna que o vento, menos hostil. Poderia não estar aqui, eu. Poderia ser menos frio, sentir menos frio, fazer menos frio, eu. Poderia ser uma espécie de aurora boreal sem cor, drenado de magnetismo, coisa que poderia ser se fosse, mas não é. Não sou, eu. Faz frio e assim me entrego a ser o que posso, entre as minhas quatro paredes.

18/10/13

De cada vez que fechamos os olhos.

Novo. Volta ao mesmo. Traços descontínuos no asfalto negro. Negro e branco, o motor a trabalhar, o cheiro de urze a entrar pelo vidro do carro, negro e branco e palavras pretensiosas sob o efeito de algo como álcool fora de prazo. A vida vista num segundo como um concerto irrepetível num palco que nunca fui capaz de ocupar. A voz escoa-se, épica, na intimidade do último momento breve. Ficas? Eu sigo a partir daqui.
O coração frio, verdade caladas por bom comportamento, o coro a fazer-se sangue, as veias em plena capacidade. Não há eternidade mas vais voltar outro, sabes isso. Gritas, cantas o que sabes poder ser o último hino de ti e sabes que vales milhões de vozes, as que ouves, as que és. Voltas à terra, sabes-te a terra molhada, ao cheiro dos mortos e dos dias de chuva depois do calor. Ouves nomes de países. Volta ao mesmo e sabes que não podes beber, porque vais pedir o que não podes pedir. Negro sobre branco, sem perdão nem culpa. Bebe. Bebe. Bebe. Bebe-te até ao fim, sem remorsos nem compaixão, sem nada. O futuro não existe, o teu, pelo menos e nem tu sabes se és. Ao longe as luzes da cidade. Mais um lugar comum, para além de ti.
P.S. Fui comprar tabaco para começar a fumar. Como tanto acontece e é previsível, não voltei. Ninguém me sentirá a falta, como a um centro comercial que fecha à meia-noite, depois de quase vinte e quatro horas de serviços irrepreensíveis.

P.S. Gosto de massa folhada. Poderia ser o meu último desejo, com doce de ovos e açúcar crocante como cobertura.

11/06/13


Pede-me a alma anestesia, pede-me o corpo o mesmo, talvez. E eu, o que me peço que me possa dar? Por que razão trago na bagagem estes pedidos? Porque faço dos meus dias frases com pontos de interrogação e reticências?
Tanta pergunta, pergunta a mais para quem passa a vida à espera das migrações dos patos e na esperança de que nasçam tremoços por gostar da cor franca das suas flores. Tanta pergunta para quem transmuta em natureza uma vida à beira de estrada congestionada, sem um fato ou uma gravata em condições para receber o coveiro. Tanta pergunta para quem não sabe sequer se passam os patos em migração, enquanto a flor do tremoço se dá a ver. Tanto fragmento para quem desespera por ver o rosto inteiro, ao espelho. Tanta pergunta para quem tem o rosto em migração constante, sem florir. Faço a vontade à alma, o corpo que sobreviva como lhe aprouver.