07/02/17

+ citrinos em jardim de paraíso - natureza não-morta

Se o fim do mundo sucedesse aqui e agora, colheria limões. Estão a ficar maduros, o amarelo começa a triunfar sobre o verde. Gostaria que estivesse calor e poderíamos estar nus, a pele morna e húmida. Acabaria o mundo e estaríamos a saborear o prazer de sentirmos o calor da pele um do outro. Nem pensaríamos, às tantas, nos limões. São lindos, os limões, sobretudo se os contemplarmos no dia em que o mundo está a acabar. O mundo a acabar é a hipérbole salvífica de qualquer cena banal.
Um dia poderá ser assim: "Esqueço-me de ti, à medida que o Inverno passa e os dias menos frios dão lugar a outros que o são menos. Reconforta-se a pele com o ar menos frio. Esqueço-me também de tanta coisa, quando os dias começam, de novo, a ficar mais frios. Espera a pele ser confortada com algo que a cubra e parece esquecer-se também do que é ter o ar mais frio a tocá-la. Resta sempre a face e ficam, se se quiser, as mãos para guardar essa sensação. Tudo é circular, é o que apetece concluir. O que fica quando se esquece tudo? Nestas idas e voltas de frio, não faltará muito para que olhe o espelho e apenas o veja a ele, espelho, e àquela cara que ainda sabe o que é sentir o ar a percorrê-la mas não sabe já que sou eu. Talvez o esquecer seja uma espécie de cancro benfazejo, algo como o morrer do que fomos, apesar de nós. Talvez o esquecer nos salve, apesar de nós. Talvez o esquecer nos proteja da chuva, se mais não fizer. E será bom podermos ir no caminho, sem que nos molhemos demasiado. Talvez o esquecer seja o absurdo que queremos ser, apesar de nós."

Coisas 79,3% verdadeiras de que me lembro

O meu tio Gumersindo era, até há pouco tempo, o único irmão da minha avó materna vivo. Muitos foram, em momentos distintos, desaparecendo. Algumas dessas notícias foram recebidas pela minha avó na minha presença. Recordo-me de receber a notícia da morte de tio Cândido, na casa da praia do Monte Clérigo, trazida pelo tio Furtado na sua motorizada, um homem bom, a alma da farmácia da terra, pescava sagos como poucos, tocava guitarra portuguesa e tinha coleções de banda desenhada. A morte do tio Cândido, ou a notícia dela, cheira, nas minhas memórias, a gás butano, àquele cheiro de borracha e redutor velhos, metal meio oxidado. Estaríamos na cozinha e, pela porta de trás, infiltrou-se a notícia, declarou-se, fez-se explosão em lamentos muitos, todos da minha avó, os outros a tentar que ela recuperasse os sentidos. Eu estaria por ali, a ver e a ouvir e a pensar em como os próximos dias seriam meio cinzentos e em como a morte do tio Cândido me roubaria uns dias de praia por ter que se ir a funerais e fazer viagens para Espanha, o que não veio a suceder. Estaria no canto onde cheiraria a gás, ali sentado numa pequena cadeira com fundo de buinho. Estaria eu a tentar desfazer pacientemente o fundo da cadeira, como de costume.
Depois da morte da minha avó, terão morrido os meus tios Prudencia, Angeles e Gumersindo. Não tenho a certeza disto mas não terá sido muito diferente. Não vi, portanto, a minha avó a reagir à notícia que anunciava as suas perdas. Para a minha avó, Prudência era uma amiga tranquila e bonacheirona, Angeles, Angelita, a rival, talvez por ser a mais próxima, tanto que as idades se lhes confundiam e Gumersindo o menino, o mais novo, a cria mais frágil da ninhada, filho de todas as irmãs, na cabeça de todas as irmãs. Gumersindo foi o menino que, na Guerra civil, teria sido escondido pela irmã mais velha, Natividad, numa salgadeira, por entre as peças de carne e toucinho, para que o não levassem. Era Natividad dada a salvamentos heróicos, segundo rezam as artesanais lendas caseiras, tendo salvo de afogamento quase certo num poço o irmão, Gumersindo. Aparentemente, Gumersindo seria dado a ser salvo heroicamente.
Gumersindo salvou a continuidade intergeracional da família e não fui ao seu funeral porque tive um inadiável compromisso profissional. Um inadiável compromisso profissional, no dia em que desce à terra o último dos nossos tios de quem se guarda memória de conforto, é uma prova de responsabilidade ou, como me parece quando nisto me vejo ao espelho, uma ostensiva falta de coragem para mandar o que não importa nada à merda. 

03/02/16

coisas 94,6% verdadeiras de que me lembro

Não me lembro de quando morreu o meu tio Pepe.
O meu tio Pepe tinha, no seu quintal estreito, ao qual se acedia pela cozinha, julgo que ao fundo da casa, um perdigão. Estava dentro de uma gaiola e, por vezes, tenho a impressão de que o ouvi falar, ao perdigão. Ao meu tio Pepe, tenho a certeza de o ter ouvido. Falava muito comigo, mais do que eu com ele.
O meu tio Pepe era casado com a minha tia Prudência, irmã da minha avó Casimira e de mais uma dezena de irmãos. Teria agora de contá-los para ter a certeza de quantos foram, entre os que morreram em pequenos, os que viveram até eu os ter conhecido, e não me apetece fazer isso agora porque me apetece listar factos e coisas do género sobre o meu tio Pepe. É um estimável património de tios que julgo não estimar o suficiente, não ficando, contudo, a alimentar culpas por isso. Faria agora um manifesto sobre o facto de não ter de ser a vida, a minha, o capítulo esquecido de Crime e Castigo. Não o faço apenas porque tenho de continuar, porque assinaria o manifesto mesmo sem o escrever, porque a culpa, sobretudo a que é mal parida, corrói até ao osso.
O meu tio Pepe tinha uns óculos com lentes verdes, o cabelo penteado para trás, escrupulosamente. Tinha levado um tiro, alegadamente na Guerra de Marrocos, na qual, também alegadamente, tinham participado os meus tios e cunhados dele, Alonso e Felipe.
O uso de 'alegadamente' deve-se ao facto de poder eu falhar na componente factual do relato e não quero que comece a emergir a suspeita de falsidade em alguém que não eu próprio.
O tiro na perna obrigava-o a coxear. Com o tempo, deixei de reparar que ele tinha de fazer aquele movimento circular com a perna. Hoje não sei se seria a perna esquerda ou direita. Assumiria que era a esquerda, pela imagem que agora me ocorre dele a descer a rua. Juraria que trazia uma bengala preta, lacada.
O meu tio Pepe dava-me sempre pesetas na hora de regressar a Portugal. Talvez mil, mil e duzentas pesetas, umas vezes mais, outras menos.
O meu tio Pepe expulsou um miúdo da minha idade de um carrossel, nas festas de Encinasola, apenas porque ele me disse, de forma insidiosa 'Sai daqui Português!'. Ser Português ou Espanhol nunca foi para mim, nem para o meu tio Pepe, algo em que se pensasse como sendo traço distintivo de qualquer um. 
O meu tio Pepe dava beijos barulhentos aos sobrinhos na hora da chegada e na hora da partida.
O meu tio Pepe acabou por ser uma espécie de planeta despromovido sem critério do meu sistema familiar e eu recupero-o agora em grande pompa pessoal. Recuperarei mais destes corpos celestes sempre que me apetecer, sem disso dar justificações, se as não quiser dar.

01/02/16

um dia, seremos laranjas presas aos ramos
à espera desse ser maduro, do ser-se sumarento.
um dia, no mesmo dia talvez, não diremos coisas com sentido
e isso será libertação sem sofrimento.
muda de ti. muda-te.
como numa promessa eleitoral,
vota em ti, elege-te, nomeia-te para algo sem sentido algum
para além do seres maduro no teu ramo.

deixa-te ficar, sulco na berma da estrada.
Assume-te maiúscula no início do verso, em poema idiota.
escreve-te, desenha carateres no teu corpo, na tua pele.
inventa-te em línguas descobertas para ti.

um dia, seremos circulares e não veremos depreciação nisso.
em dia de fazer o mundo,
não precisaremos de Júpiter para nos proteger de asteroides com cheiro a laranja.

04/01/16

No dia em que nasceu, não havia sapatos para gastar, nem uma vela acesa em parapeito de janela, nem um único som que assinalasse evento algum. Esse foi um dia de vaguear, sem referência nem método, ao longo da margem do lago. Calçou os sapatos e mentiu, porque se mente sempre, especialmente quando se nasce e depois de calçar os sapatos. Acendeu a vela, a custo, com o fósforo húmido. Reverteu com discrição o escuro da noite e vagueou mais e mais até ao limite de si. No dia em que nasceu, foi noite.

30/10/15

Some-se o tempo, cais sobre a voragem de ser o bando de impossibilidades que te definem. 
Os passos fazem-se acompanhar das folhas pisadas pela sola. A luz tolda o entendimento dos ponteiros do relógio. As vozes perseguem-se em bandos de impossibilidades harmónicas mútuas. Tu cumpres-te em escalas de medida pessoais, sem arbitragem externa. Bandos selvagens de impossibilidades múltiplas, em formações, asas expostas à luz gloriosa do entardecer.
Espera pela chuva, em dia de coroação de rainhas e reis na televisão. Fica em suspenso, como ficarias se fosses rei em dia de coroação, refletido em montras das lojas de eletrodomésticos. Olha para o sofá onde se sentava o teu avô e suspende-te nesse último dia, na folha adoentada do pessegueiro com dias contados, na soma de virtudes dos vegetais, no coração do cão a pulsar durante o seu sono, ao fundo do quintal.
Não haverá muito mais a fazer depois disto. Bastará que descanses e te sintas cumprido. Será pouco mas serás tu.

24/04/15

Sob a luz das folhas pareço-me um pedreiro com farda de ócio impossível. Sento-me no pequeno muro que delimita a árvore, detalhe autobiográfico menosprezável. Formulo-me em falácias de viagem digital, acto de fé. Sob as folhas, sou eu, analógico, sem redentores protocolos de compatibilidade.

07/03/15

As estradas sucedem-se, quilómetros em mostrador de relógio.
Sabes-te menos muita coisa, assim dita, sem formulações sofisticadas de caderno para aplausos.
Sucedes-te em estradas, muitas, desenhadas na tua pequena secretária meticulosa.
Pensas-te como avaliação sobre aquilo que fizeste contigo, contas de mercearia sem azeite, nem arroz, nem açúcar, nem farinha, nem aritmética que possas fazer num local que ames.
Medes-te pela forma como respiras, a intensidade do sangue pelo corpo a tentar o seu melhor.
Entregas-te todo em prestações, parcelas, fracções, paradoxos e pulmões sem cartas para jogar, apostas esgotadas e restos de um almoço com teor biográfico em dia de acertar contas.
Desenhas-te em despedidas, traças de ti perfis, cobres a pele de terra e sol, por não haver mais astros.

Virão descansar ao pé de ti, quando descansares. Saberás, nesse dia, que não foste longe porque és aqui.

27/11/14

Hoje é dia de festa.
Hoje é dia de elevar os braços ao alto e proclamar que virá uma revolução. Ela te dará um novo alento, uma capacidade inusitada de levantar o peso do mundo por sobre a tua cabeça, com os teus braços nus. E tu serás um homem feliz, com os braços elevados ao alto, com o mundo entre as tuas mãos.
Hoje é dia de festejar o que apenas se festeja por ser raro.
Hoje é dia de muitas coisas e de dizer que é dia de qualquer coisa, hoje.
Hoje é dia de afirmar que terias sido mais feliz se tivesses ficado a chorar em casa. Se não quiseres festejar apenas por festejar, porque isso te liberta mais do que uma anestesia qualquer que te perca, fica antes em casa, numa qualquer casa.
Hoje é dia de beber, se não conseguires festejar de outra maneira, porque se celebra o dia do rei e da rainha, do presidente, do herói e do escritor, do bandido, daqueles que saíram do país e são comunidade, daqueles que se conseguem rever nas estátuas que lhe erigiram numa rotunda à volta do qual passam carros com bandeiras e esvoaçar, aclamando uma qualquer vitória da nação.
Hoje é dia de ouvires canções entoadas por multidão em uníssono, com as mãos por sobre o peito. E tu podes festejar, porque não tens de cantar, porque não és a multidão, porque a canção te desagrada, porque ela pesa mais do que o mundo entre as tuas mãos, elevadas ao alto, por sobre a tua cabeça.
Hoje é dia de ser incoerente e de celebrar a incoerência. É sempre dia de ser incoerente. É sempre dia de celebrar. Haja festa.

12/11/14

CSTM1

Um dia olhei-te, de joelhos na cadeira, posição de possível conforto para realizar deveres da escola. Cadeiras e mesa de cozinha, revestidas por fórmica azul, padrão a simular azulejos com cenas de quase gente a viver um quotidiano plano.Talvez eu tivesse ainda a roupa que trazia da escola, com o cheiro da escola, com um certo cheiro a suor em pano branco da bata. Agora que penso, não teria eu a bata vestida. Tivesse eu a roupa favorita da altura e vestiria uma blusa de malha, sem mangas, azul escura. O resto seria irrelevante, essa blusa bastaria. Tudo se aceita neste exercício, até à imagem da tua entrada.
Entraste.
A sombra, no pequeno espaço junto à porta da rua, deixava o espaço dividido entre o muito escuro e uma gradação de claridade esverdeada. Entraste e isso equivalia a que ainda não tinhas morrido, não te tinhas suicidado, como tantas vezes anunciaste à laia de refrão matinal, lema de vida. Olhei-te como se existisses, mas não tenho a certeza de teres sido o que quer que fosse. Olho-te agora, nesse momento distante, como se fosses uma espécie de figura em cartão, daquelas que existem hoje a replicar os atores, em tamanho real, à entrada dos cinemas, bidimendional, sem espessura, sem profundidade, sem aquilo que se tem de ter para se ser, algures entre o escuro e o esverdeado do espaço onde paraste e me fitaste, vazia. Fica-se assim, talvez, quando ficam as promessas que fazemos por cumprir. Tu ficaste. Mesmo que a promessa seja um reiterado anúncio de morte com hora e sítio marcado, se não a cumpres, ela cumpre-se sozinha.

25/10/14

O filho diz palavras, repete palavras. O filho repete palavras que o pai não ouve. Não haverá nada a fazer pelas palavras repetidas. Repetem-se palavras repatriadas sem que haja  o mais pequeno ato redentor que possa levá-las para um local melhor, realidade reeditada por filhos e pais, corais e flores raras em ambiente hostil. Hoje não haverá palavras. Veremos como se repatria o silêncio repetido mil vezes até ser verdade.

15/10/14

Não haveria nada de mal em quereres sair antes dos outros, antes que dessem pela tua presença. Sempre foste invisível, pensas. Se reparares bem, não és invisível. A tinta de que és feito tem pouca resistência ao uso e dilui-se com facilidade. Não tem que ser mau, isso. Não tem que haver mal nisso. Estás mais protegido contra a exposição excessiva, embora não te pareça agora que isso é uma virtude, uma vantagem, um ardil de sobrevivência. Querias ser visível por mais tempo. Querias não te desvanecer com tanta ligeireza, não ser apresentado várias vezes à mesma pessoa, sempre o colega de fulano, sempre o primo do outro, sempre o filho da outra, o marido de alguém, o tipo que se parece com o outro, aquele que não se tem a certeza de já ter cumprimentado. Querias ser notado e dizes que não. Querias ficar gravado de forma indelével à primeira vez, ao primeiro encontro, à primeira fala, à mais elementar exposição a ti mas és assim,   quase como a água. Poderias desaparecer e poucos dariam pela tua falta. Melhor, desaparecerias, dariam alguns pela tua falta, outros lamentariam que fulano, a esposa, o pai,a mãe, o filho e o trabalho louvável que fazias sentissem a tua falta. Dias depois, tudo como dantes. Mas não é mesmo assim com tudo e todos? Inodoro, incolor, insípido, informe. Desapareceste e não houve um murmúrio sequer. 

02/11/13

'We have no more beginnings'

Como te sentes hoje? Esta luz, a esta hora... uma bênção, não achas?
E assim se faz deliberadamente conversa, só por fazer. Assim faço conversa por ser esta a conversa que me apetece fazer, a que me dá prazer, a que quero fazer absoluta. Nem sempre grandes sínteses sobre a humanidade ou o grande sentido da tua vida, ou da minha, ou dos outros. Cada vez menos disso em estado puro. Esta é a conversa a fazer, sobre o tempo, por ser o tempo o que temos, mais ou menos. Hoje, temos o dia, esta hora do final da tarde, sol nas paredes brancas da casa do vizinho, o encontro marcado com guião de afectos por levar à cena. Falemos do tempo a olhar para o fim. Hoje não é dia de nascer do sol, essa luz com excesso de esperança, sem a melancolia de quando havia a força, a energia, a vida toda à frente. Hoje, a esta hora, olho-me, olho-te a pôr-me, a nossa luz na parede branca dos vizinhos.
 
'We have no more beginnings' (G. Steiner, Grammars of Creation)

22/10/13

a.b.s.c.

Atravessa o sol as nuvens, há vento, o vento é frio. Por vezes, parece o vento que aqui sopra vir de outros lugares, mais frios. O sol rompe as nuvens e volta a desaparecer, fica mais espessa a camada de nuvens, fica mais frio. Por vezes, parece o frio que aqui se sente vir de lugares mais frios. Sinto eu frio, começa a chover uma chuva mais morna que o vento, menos hostil. Poderia não estar aqui, eu. Poderia ser menos frio, sentir menos frio, fazer menos frio, eu. Poderia ser uma espécie de aurora boreal sem cor, drenado de magnetismo, coisa que poderia ser se fosse, mas não é. Não sou, eu. Faz frio e assim me entrego a ser o que posso, entre as minhas quatro paredes.

18/10/13

De cada vez que fechamos os olhos.

Novo. Volta ao mesmo. Traços descontínuos no asfalto negro. Negro e branco, o motor a trabalhar, o cheiro de urze a entrar pelo vidro do carro, negro e branco e palavras pretensiosas sob o efeito de algo como álcool fora de prazo. A vida vista num segundo como um concerto irrepetível num palco que nunca fui capaz de ocupar. A voz escoa-se, épica, na intimidade do último momento breve. Ficas? Eu sigo a partir daqui.
O coração frio, verdade caladas por bom comportamento, o coro a fazer-se sangue, as veias em plena capacidade. Não há eternidade mas vais voltar outro, sabes isso. Gritas, cantas o que sabes poder ser o último hino de ti e sabes que vales milhões de vozes, as que ouves, as que és. Voltas à terra, sabes-te a terra molhada, ao cheiro dos mortos e dos dias de chuva depois do calor. Ouves nomes de países. Volta ao mesmo e sabes que não podes beber, porque vais pedir o que não podes pedir. Negro sobre branco, sem perdão nem culpa. Bebe. Bebe. Bebe. Bebe-te até ao fim, sem remorsos nem compaixão, sem nada. O futuro não existe, o teu, pelo menos e nem tu sabes se és. Ao longe as luzes da cidade. Mais um lugar comum, para além de ti.
P.S. Fui comprar tabaco para começar a fumar. Como tanto acontece e é previsível, não voltei. Ninguém me sentirá a falta, como a um centro comercial que fecha à meia-noite, depois de quase vinte e quatro horas de serviços irrepreensíveis.

P.S. Gosto de massa folhada. Poderia ser o meu último desejo, com doce de ovos e açúcar crocante como cobertura.

11/06/13


Pede-me a alma anestesia, pede-me o corpo o mesmo, talvez. E eu, o que me peço que me possa dar? Por que razão trago na bagagem estes pedidos? Porque faço dos meus dias frases com pontos de interrogação e reticências?
Tanta pergunta, pergunta a mais para quem passa a vida à espera das migrações dos patos e na esperança de que nasçam tremoços por gostar da cor franca das suas flores. Tanta pergunta para quem transmuta em natureza uma vida à beira de estrada congestionada, sem um fato ou uma gravata em condições para receber o coveiro. Tanta pergunta para quem não sabe sequer se passam os patos em migração, enquanto a flor do tremoço se dá a ver. Tanto fragmento para quem desespera por ver o rosto inteiro, ao espelho. Tanta pergunta para quem tem o rosto em migração constante, sem florir. Faço a vontade à alma, o corpo que sobreviva como lhe aprouver. 

04/06/13

das obrigações contratuais e do fim das mesmas

Faz-se a vida também de placas em estantes de bibliotecas a ordenar silêncio. Fazem-se silêncios como coisas vãs, por decreto.
Vive-se em cidades sem expressões idiomáticas na voz, cidades em rarefacção, texturas erodidas. Sonha-se cerceado; o sonhado é funcional, de legitimação condicionada à confirmação de que também ali, de olhos fechados ou abertos, se vai manter a ligação à vital realidade da lei e da ordem.
Sente-se o corpo, a sua força, a sua capacidade para remover obstáculos, para terraplanar e forçar as entranhas da terra, para forjar armas a partir do metal, para estar sentado numa cadeira a vida toda, em ordem ao progresso cantável em hino, de mão no peito. Vive-se o corpo como se ele não fosse todo feito para prazer e a dor do trabalho um mero acidente, uma contingência. Perde-se, neste pragmatismo compulsivo, a força do corpo que haveria de ser preservada para extenuante, gratificante cinética erótica.
Vive-se como é esperado que se viva, com ligeiras variantes. Não se vive como se quer, porque se sabe que não se pode e, mesmo que se pudesse, pareceria impróprio, seria desonesto, rotulável como incumprimento do contratualizado na hora de comer a liberdade do fruto proibido.
Vive-se sem declaração formal de guerra à escravidão auto-imposta, à existência morna, sem denunciar os contratos perversos celebrados num qualquer acto de criação.

30/05/13

quase-carta sem som


Há algo no hoje que te faz pensar em distância, sem perguntas nem preocupação com possíveis dúvidas. Apenas um passo após o outro, apenas o estar sentado num café de esquina. Na televisão do café, uma bailarina executa uma coreografia sem som. O café seria o café Adler, recorrente nas tuas fantasias de anonimato pelo efeito da distância, recorrente nas suas mesas de mármore gastas e na tinta que julgas recordar nas madeiras, a evocar o aparador da casa da praia em que tantos e tantos anos passaste férias. Podia ser a América e a tua imaginação na proa de um navio-cliché a avistar uma estátua-de-liberdade. Seria indiferente. Preferes o café? Seja. Olhas e sabes que nunca tocaste violino nem piano, que nunca dormiste ao relento, que isso te define, tal como te define, nesta mecânica universal que negas até ao último argumento, a tua relação com o álcool, com o haxixe, com a comida, com as flores. Já há demasiado tempo que, da janela do café, olhas para o rapaz e para a rapariga que estão sentados no passeio, do outro lado da rua. Ele tem um boné a imitar os antigos do exército soviético na mão. Roda-o, experimenta-o. Ambos riem, beijam-se. Ela rouba-lhe o boné e faz o mesmo que ele. Colocam o boné no chão, pose de mendigos. Retiram o boné do chão. Ficam encostados, a cabeça dele sobre o ombro esquerdo dela, a cabeça dela ligeiramente inclinada para a direita, encostada à dele. Nunca tiveste um boné exótico e sabes que isso te define tanto quanto a forma como te encostas na cadeira ao beber um café com leite. Olhas a tua companheira e apetece-te comprar um boné soviético e sentar-te no passeio com ela. Antecipas o prazer que ambos poderiam ter mas não o fazes. Sabes que isso te definiria, tanto quanto o dormir ao relento ou a nudez na praia. Sabias que tudo o que se define se pode redefinir? Sabes mas preferes ser comedido. Seja. Há um tempo para tudo. A vida é breve mas não tem de acabar hoje. Amanhã experimentas outra vez. Já agora, se quiseres dormir ao relento, nu, na praia, posso recomendar-te um sítio. Quanto aos bonés, se quiseres, sei que, perto do café Adler, havia à venda mas, quanto a isso, já não garanto nada.

22/05/13

Sendo tu, não satizfaz o seres outro, talvez. Não satisfaz seres verdadeiro, não teres de te legitimar a ti, ao teu desejo, à tua vontade, com os vapores de uma qualquer moral dita divina. Não satisfaz quereres deixar isso claro, posto em palavras e em tranquilidade, colocado em categorias que te permitam seres tu, sendo novo. Não satisfaz. Sente-lo na esquiva, na evasão, na esperança de que não se retorne ao tema, no assumir de que o que digas possa ser pernicioso, o mau exemplo por pensamentos e palavras, actos e omissões, por tua culpa, tua tão grande culpa. Não satisfaz a tua liberdade porque ela é vista como opressão para quem sente que a paz pode vir do alto. Não satisfaz a tua tranquilidade porque ela é tóxica, porque se infiltra nas frestas da fé, no edifício calafetado do que foi e do que pode ser. Não satisfaz o sismo como oportunidade de fazer novo o que já era porque assusta que possa arrasar o que poderia ser. Não satisfaz que se possa ser aquele que sempre se foi e aquele que se é, sem necessidade de perspectivar a disjunção como forma de articular o ontem e o hoje. Não tem de ser assim mas é assim que é.Talvez leve algum tempo, só isso. Talvez.