24-05-2009

Gosto de começar muitas destas pequenas tentativas de textos por "Um dia..." Se calhar encarna a minha frustração pelo que ainda não é, mais do que a esperança no que está por vir. Pouco importa, não é? Um dia sentirei menos a gravidade, o seu peso, a forma como encurta a distância entre o céu e a terra, como os fará inexoravelmente colidir. E tudo isto me faz ter vontade de correr para um mar em tons de azul e chumbo e mergulhar, enquanto a chuva cai torrencialmente, água sobre água, ficar por lá. Atrás de mim, todo o mundo, sem que isso importe.
Quando me olho e vejo o que sou no dia-a-dia, nunca sei se tema se agradeça. Estreita é a fronteira entre a sanidade e a loucura, seja lá isso o que for, e todos os dias essa fronteira muda, se dissolve, se materializa em outros sítios, formas, contextos. Penso nisto quando vejo as marcas que as ondas deixam na areia antes de recuar, depois de terem percorrido a sua viagem final. Fica aquela linha, irregular que podemos seguir com o olhar ou com os nossos passos. Logo vem outra e outra e outra. Será sempre assim. Lugar comum? Claro, como tantos outros que aqui deixo. Paciência. Fica sempre a dúvida: entre a melancolia mais funda e dolorosa e a euforia mais exuberante e excêntrica, tem de haver uma postura séria de adulto maduro, previsível? Talvez. Talvez um dia cheguemos a uma praia qualquer, à nossa praia, caminhemos descalços na areia ainda húmida da noite. Sentar-nos-emos a observar esse lugar onde as ondas têm a sua petite mort e, se o que virmos forem marcas de linhas rectas, correctas na sua intenção e geometria, nesse dia tentarei voar, só ainda não faço ideia como. Um dia, mais uma vez, um dia saberei isto tudo, ou talvez não.

03-04-2009

Por onde anda o nosso coração quando tudo se confunde?
Que faremos quando se ressuscita menos do que se morre e que diremos, frente ao espelho, ao nosso olhar impenitente, à nossa vontade de desistir?
Que palavras escolheremos para dizer no nosso último sopro de vida, ou de que silêncio faremos nós palavras?
Por onde vagueia o nosso coração intranquilo?
Escreveremos vagarosa e indignamente o nosso obituário, letra a letra, dia após dia.

29-03-2009

Faltam-me as palavras todas, as palavras para tudo. Sinto-me vazio e dói-me esta luz intensa. Chegará o Verão e, com ele, a obrigação de sentir a felicidade da luz e da pele afagada pelo ar tépido e pelo suor. Chegará o Verão e, com ele, direi, hipocritamente, que lhe sentia a falta e ficarei por ali a fazer conversas de Verão. E seremos todos um pouco mais felizes porque chegou um Verão mais, com a sua luz intensa que regenera.

13-03-2009

Passava, hoje, ao fim da tarde, a hora de pôr-de-sol, a ponte Vasco da Gama, rumo ao Sul. E a espessa neblina acumulada por sobre a água que não se via, formava um campo de três ou mil tonalidades indescritíveis, sobre o qual apetecia correr até cair esgotado e sentir-se redimido, imune aos perigos, atirado nos braços de um pai que nos segura sempre. Apeteceu-me correr por ali.
A vida é curta demais para que percamos estes momentos.
"Talvez um dia possamos mesmo correr por ali", segredou-me alguém ternamente ao ouvido ao fim do dia. Agradeço, ternamente. É a espera que me atormenta, é o procurar em cada dia o pequeno momento de glória em que atingimos o objectivo, cumprimos o horário, fomos sérios, politicamente correctos. A vida é curta demais para esperas. "Quem espera, sempre alcança" e morre a seguir. Não seremos ingloriamente mortais. A vida é curta demais para que percamos o irrepetível.

02-01-2009

road movie 2

Saiu pela porta, o café bebido. Lera-lhe nos olhos um 'tenho medo de morrer sozinho.'
Ambos perceberam que terá sido ali que ele a amou pela primeira vez, ou se deu conta disso, naquele fechar de portas, a da casa e a do carro.
O café, que deveria ter sabido a um veneno qualquer, foi chuva na sua terra árida de há muito.
O motor do carro, a dilacerar a solidão futura, lembrou-lhe que o futuro era já e não lhe pertencia. Por aquela estrada seguia a confirmação de que nem os gatos vivem o número de vezes que deles se diz.
Afastou-se, embriagada pela tinta com que podia finalmente escrever no branco de algumas das suas páginas. Seguiu sem destino certo, o clássico de quem tem uma ideia daquilo que o faz fugir e pouco mais do que isso. Adormeceria talvez mais confortada pela suposta coragem mas descobriria, na manhã seguinte, que tinha havido Pai Natal, com presentes e tudo, mas o mundo não se reinventara apenas por isso, tal como um brinquedo não mata a fome a uma criança faminta. Da tampestade à bonança, da bonança ao vazio. Teria ainda de fazer muito caminho, literalmente. Ganharia uma vida, mas à força de distância percorrida, de ver àrvores e postes a passar ao lado, na voragem de revelar ao novo ano um admirável mundo não tão novo assim.
De costas para a porta que se fechara, acendeu mais um dos muitos cigarros que ainda fumaria. Ficaria por ali mais uns anos, passar-lhe-iam umas mulheres sombrias pelo quarto e pelo corpo, mais rotina que prazer, mais reflexo que conforto. Beberia bastante, até se deixar consumir nos braços de todo o tempo perdido, sem lucidez nem remorsos. Encontrá-lo-iam um dia deitado e cobri-lo-iam de terra e da dignidade do esquecimento.
E na estrada percorrida se cumpririam aniversários, muitos mais depois do fechar das duas portas e do café envenenado que soube à água da chuva torrencial que tudo lava.
"Nem tudo será Inverno, nem Verão, nem Primavera, nem Outono." Consta que estaria escrito, com o carvão de um resto de torrada, ao lado de um pequeno copo de bagaço no qual nem teria já tocado. Consta muita coisa quando nada se sabe. No seu último sonho teria escrito, a tinta vermelha, numa folha alvíssima: "Quando percebi que eras o pássaro dourado que procurei a vida toda, resisti a que te deixasses aprisionar. Ganhei com isso o único tempo de paz. Voa." E seria previsível, de gosto duvidoso, final de novela barata. Pois que fosse. A terra por cima guardaria tudo no seu sortilégio, até sonhos improváveis, testamentos invalidáveis e vidas em vão.

01-01-2009

road movie 1

O que te levou a pensar que havia algo de novo por aqui? O Novo a seguir ao Ano? Não desperdices o teu tempo. Saberás sempre tarde demais que regressar aqui é perda de tempo e que voltar a casa, a esta que nunca foi tua, nunca será renovar o que quer que seja. Regressar será teres sempre na cabeça a mesma música viciada, a mesma humidade nas paredes perto do fogão, o mesmo calor na cama desconfortável e demasiado usada. Por isso, entra, bebe um café ou um chá quente que te conforte para o resto da viagem que terás de fazer. Não te iludas com a chama da lareira nem com a penumbra lânguida que vês ao fundo. Não te sintas tentada a iludir o teu corpo com o cansaço e com a necessidade de parar para retemperar forças. Feliz Ano Novo, tenho café acabado de fazer. Senta-te uns minutos e volta à estrada. Em breve a lareira terá apenas cinza, fumo. Na cama dormirá alguém que te levará a pensar, dentro de uns anos, que o desejo é uma coisa estranha. Será alguém que nunca te respeitou a não ser hoje. Aproveita. Não costuma haver presentes de Ano Novo e o teu valerá o resto da tua vida.

30-12-2008

Finais de dia com sabor a fim VI

Saíu da cama, sentiu que era tarde demais. Abriu a janela e sentiu o frio cortante. Vestiu-se à pressa e saltou. Correu toda a noite pela cidade. Buscou-a por todos os recantos, seguiu-lhe o cheiro, o riso, a fala, a cor das roupas. Correu até ser dia, até não sentir-se mais. Adormecera no momento errado e dormira em excesso. Restava-lhe agora o sonhar acordado e o dar de beber à dor de uma insónia sem fim.

28-12-2008

podia ser uma carta... gostava que fosse



"Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua." (F. Pessoa)

Começo assim esta carta, com palavras que não são minhas. Nenhumas são. Algumas tomo-as como se bebe o leite da mãe pela primeira vez. Essas sabem a futuro e esperança, ou ao acre da vida que nos acompanhará, ou a tudo isso doce e dolorosamente misturado e, por isso, sabem, inefáveis, a vida. Tomo assim as palavras e, com elas, irei, talvez pretensiosamente, escrevendo cartas.

Esta, escrevo-a em particular para o meu avô materno. Do meu avô paterno, elo que não cheguei a conhecer pessoalmente, ouvi repetidas vezes a narração da sua trágica e precoce partida e tenho observado, pela vida fora, as réplicas dessa sísmica perda nas resilientes estruturas do meu pai. Por falta de referências visuais e para que a memória do que construísse não me fosse atraiçoando, fundi-o integralmente no meu pai, a quem escrevo muitas cartas, algumas das quais ele lerá.
Partiu o meu avô materno pouco menos de duas semanas antes do Natal de 1998.
"Lembro-me, avô, de que, tão direito quanto possível, entrou pelo seu pé no hospital de onde não voltou a sair, com a sua pequena mala e a também sua pouca esperança na possibilidade de adiar a grande viagem, que pressentia com resignação. Falámos muitas vezes, outras tantas discutimos, em algumas ocasiões desabridamente, como dois adolescentes inseguros. Reconstruímos sempre o caminho pedregoso que nos permitia fazer ao menos a metade que, nem que fosse teoricamente competia a cada um, de igual para igual. Estou convencido disso.
Lembro-me de lhe contar os meus sucessos, sempre valorizados, as minhas angústias, cuja superação era um dado adquirido, o estarmos calados, somente a moer um pouco de tempo no nosso almofariz, à vez. Fiz muitas vezes o caminho até à sua casa, sabendo que a minha simples presença seria suficiente para lhe pôr no rosto um sorriso quase de reconhecimento. Recordo o momento em que lhe apresentei aquela que seria minha mulher, do carinho com que a recebeu e do respeito que me fez prometer naquele compromisso. Sabe que não quero ser injusto para a avó, que me aguardava e escutava com o mesmo carinho e que igualmente quereria aqui ao meu lado, agora, mas sinto que o tempo foi mais cruel para connosco pelo tanto que tinhamos ainda que falar.
Ainda assim, no limite das suas forças, recordo a forma enternecedora como se despediu da nossa primeira filha que nasceria em Abril com um firme 'já não a vejo mas cuidem bem dela'. Tentou, como sempre, esconder a emoção e a lucidez de que seria o último adeus.
Encontrámo-nos logo nessa noite, quando, já de viagem, cruzou o meu sonho, onde eu já o aguardava. E estivemos por alguns momentos, os necessários para que ficasse clara a natureza da visita, na praia do Monte Clérigo, do lado certo das 'Margaridas' e, vigilante, observava a forma como eu, para aí com uns sete ou oito anos, saltava destemido e dominador as ondas, seguindo as normas, bom aprendiz.
E, com os seus calções azuis escuros e o seu cabelo branco a começar a aparecer e a cobrir-lhea cabeça e o corpo como a espuma de uma qualquer maré, as mãos atrás das costas, despedimo-nos. Acordei a meio da noite, com os olhos rasos de lágrimas ou de toda aquela água salgada e, pela manhã, nada foi surpresa.
Também o tenho ido fundindo no meu pai, quer pelo que foram um para o outro, quer porque necessito de todos, os que cá estão e os que já não posso abraçar fisicamente, cada vez mais perto. A sua partida não me deixou mágoa. E tenho acordado, ao longo destes anos, com a memória de sonhos reconfortantes mas estranhos, porque quase do dia-a-dia, nos quais falamos, ou porque chego a casa e estão lá os dois, e me desabafa os mais recentes caprichos da avó ou porque eu ou nós vos fomos visitar e ficamos a conversar um bocadinho neste mesmo sítio em que agora escrevo e onde tanta coisa de bom se passa cá em casa. "Tens a certeza que não queres comer nada?" "Tenho... acha que eu só penso em comer?" "Pronto, já estás a desconversar, não tens remédio!"
Um beijo, um abraço e, não lhe dou novidade nenhuma mas faço questão de dizer que sentirei sempre a sua falta."

(a foto foi tirada por mim em fevereiro de 2008. o sonho descrito decorreu exactamente ali, naquele cenário e não em outro qualquer, parecido. as rochas estavam, como em muitos outras alturas, muito menos cobertas de areia: detalhes...)

25-12-2008

É dia de Natal. Apesar de tudo, é dia de Natal. Apesar da lareira apagada, da manta húmida por sobre os joelhos a fingir o calor, a simular um conforto feito de nada. Ficou para trás o naco de pão e a malga com o caldo enregelado. Vem-lhe à memória a abundância de que ouvira falar na catequese, no banco duro da escola: o ouro, o incenso e a mirra. Se deram valor àquilo, é porque já teriam comida, mesmo que fosse apenas o leite da vaca ou da burra, ou de alguma cabra ou ovelha que tivesse vindo mirar o menino nascido no meio das bestas e do seu calor, e do seu cheiro, com o enlevo e a devoção possíveis a uma cabra ou a uma ovelha. Lembra-se depois de outra coisa que o Menino prometeu mas... ensinaram-lhe que tinha sido na Páscoa. Era igual, palavra de Deus, Homem ou Menino, não tem época nem tempo propícios, como a fruta, como as tangerinas no pino do Inverno frio. "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso." Sabe-lhe a redenção, esta frase. Ecoa-lhe como 'glória a Deus' sob o brilho prenhe de vida da estrela que trouxe ouro e insenso e tudo o resto. Amanhã, acordará, talvez no paraíso, com uma estrela que guiará até si gente vinda de todas as partes a dar-lhe coisas, um beijo que seja, um abraço. E, Páscoa ou Natal, terá sido tudo o mesmo porque a vida e a morte correm lado-a-lado, como dois companheiros de escola, no recreio, com as mãos a cheirar a casca de tangerina.

23-12-2008

não é bem uma carta...

Nunca te perguntei certas coisas. Nem sei mesmo se o farei agora, não te quero magoar. Seria sempre de forma não intencional mas, ainda assim, não quero correr o risco. Já é suficientemente penosa a ideia de que, em breve, mais depressa do que todos pensamos, estaremos todos, de uma forma ou de outra, impedidos de nos abraçarmos e de dizermos quão importantes fomos uns para os outros. Por isso, não te quero perguntar por que razão te fechavas no quarto e, pela mesma fresta que me deixava entrever a hera do lado de lá da janela, no jardim do vizinho, te via com uma almofada por sobre a cabeça, o corpo de bruços, prostrado. Não te pergunto também porque, fechada a porta, gemias e gritavas contra uma qualquer dilacerante dor que nunca soube ser do corpo ou da alma mas tão funda era que ainda hoje me dói o ter que esperar que passasse e não perceber a assumida impotência para te libertar.
Sabes que não te pergunto as razões de tudo isso, se é que as conheceste alguma vez, porque também eu já me abriguei debaixo de uma almofada parecida e, de bruços sobre a cama, já gritei do mais fundo de mim sem saber se era do corpo, da alma ou de ambos o que me rasgava a vida, ali. E também eu já li nos olhos dos que me espreitam pela fresta da porta essa mesma impotência, essa espera que para sempre dialogará connosco. Também tu tiveste a tua fresta por onde espreitar e será esse o nosso cordão umbilical, aquele que, se calhar, nunca cortaremos.
Há outras coisas que nunca te perguntei. Iremos falando, porque ainda temos tempo, não sabemos quanto, receio sempre que pouco...

08-12-2008

da importância de ir escrevendo cartas

Caíam gotas de água errante, chuva ambiente. Os semáforos, o cruzamento, testemunhos de toda a gente a querer ir para todos os lados e todos sob um mesmo céu cinzento. Tomava-o a inércia, essa pouca vontade de sobreviver mais um dia. Sentado no carro, enquanto esperava, deixava qua as gotas se acumulassem, paulatinamente, no vidro e apeteceu-lhe que fosse essa a metáfora dos seus últimos dias. Cada vez menos detalhe, cada vez mais difuso e caleidoscópico, cada vez mais longe. Ouvira em fado antigo que gaivota que não voa, esmorece e cai no mar. Apetecia-lhe também que fosse essa outra metáfora dos seus últimos dias, povoados de abundante autocomiseração e água mole. Escreveria uma carta.

14-10-2008

Perde-se em folhas o que se ganha em raízes.
Gosto das manhãs cinzentas, de chuva mansa. Gosto desse carinho sobre a pele, do desconforto da roupa lentamente molhada no corpo e das gotas a escorrer pelas pálpebras. Lava e cura como as lágrimas, sem o sabor cortante do sal. Gosto de pestanejar lentamente, deixando os olhos fechados por um par de segundos. Abro-os depois e o cinzento do céu fica de um quase branco, luminoso, de braços abertos. Como tudo muda, gosto de manhãs cinzentas, de chuva mansa, pela certeza de que virão outras cores, outra luz, outra água, com sal ou não.
- De pé se morre, às vezes, como este castanheiro.
- ... lentamente e em paz.
- ... até ao último fio.


- Amen.

12-10-2008

Gostaria que olhasses para mim e fosses sempre capaz de me ver, até ao fim.
Gostaria de fechar os olhos e sentir as minhas feridas a fechar em paz, só por te saber por perto, a ver-me. E isso bastaria, isso e tudo o resto, a longa lista de sempre, de todas as partidas e regressos.
Às vezes, tantas, envergonha-me a ternura, o dizer que senti a tua falta e outras coisas que me apeteceria dizer. Depois, penso que a vida é curta demais para que percamos tempo com terrenos sinuosos e declives desnecessários.

20-09-2008

Sei que hoje é o teu dia. Urdiste com paciência o teu plano e vais evadir-te sem qualquer hesitação, sem remorso algum. Ainda te lembras daquilo que me disseste no dia em que decidiste sair? "Olhei para o espelho e vi outra vez o mesmo eu de sempre, o de há anos, o de ontem. Decidi que não será o de amanhã. A vida é curta demais: inspiras, expiras, suspiras e já passou mais de metade. Os gatos têm sete vidas porque correm riscos, talvez, porque se superam em cada muro que deixam para trás, em cada telhado que conquistam, talvez. Não quero sete, mas esta, a que me trouxe até este hoje, a que me adormeceu na vertigem do tempo, esta não será a última." Um abraço.

20-08-2008

Contas, recontas, escreves, reescreves. E, nas tuas palavras, quem ouve e lê confunde memória, ficção, alteridade e introspecção. Serás sempre palimpsesto, condenado a fazer e desfazer apesar de ti próprio. Não lutes pela tua credibilidade. Quem não compreende não distingue e apenas lê o mais recente. Tu és mais do que isso no teu jogo vital.

21-07-2008

Desenhas linhas no papel,
Como estradas.
Desenhas, por sobre a mesa velha, de madeira velha,
Estradas direitas e tortas, que se entercruzam
Como uma teia impossível.
Vais forrando a parede cinzenta com esse mapa.
Será o teu mapa que levará ao teu tesouro.
Será um tesouro saqueado vezes demais,
Partilhado até nada mais ressoar do seu fundo,
Apenas o estertor da tua dignidade moribunda.
Ficarás por aí, traçando no céu do teu universo
Linhas sobre o papel,
Como estradas na tua galáxia inóspita.
E farás essas viagens.
Viajarás, sempre, enquanto passo na rua e te imagino aí,
Por detrás dessa janela, percorrendo resignado a tua teia.

21-06-2008

Porquê? Podes sempre prerguntar porquê. A mim não me incomoda. Já o fiz, também. Porque não estiveste naquele almoço, ou jantar? Porque não constas daquela fotografia onde todos sorriem e ostentam as suas felicidadezinhas. Todos menos tu. Eu estava lá, naquele Natal e tu também mas ficaste de fora. Por que razão te excluiste ou te excluíram daquele momento de fervor e zelo, daquele pequeno altar de família feliz. Voavas, já? Como sempre, voavas acima de todos e de tudo, eras mais do céu do que da terra. E, quando parecia que eras tanto da terra, o rebelde sem causa rumo a uma qualquer perdição, quando tudo o que ocorria era perguntar porquê, tudo o que tu não sabias era responder. Foste a pergunta, essa pergunta. Continuas a ser, um pouco todos os dias, mesmo que o rosto não seja o teu, nem os silêncios.