16/05/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 4.0

16.05.2017

L,

tenho recebido a tua voz amiga como uma rara oportunidade para diálogo, nestes tempos recentes em que temos tido oportunidade para mais do que pôr uma qualquer escrita em dia. Porque as teias com que nos tecemos e nos vamos tecendo uns nos outros serão assim mesmo, é mais comum que os outros sejam um espelho do que uma janela ou uma porta abertas e, logo, é mais usual que nos vejamos envolvidos em monólogos travestidos de outras práticas conversacionais. Nada de perturbador nisto, será assim. Seguem estas palavras, na volta do correio, sem filtro.
Na tomada de consciência de que, a cada segundo, a cada dia, somos o mesmo e o diferente disso, a dúvida sobre o que sou, sentado sobre aquilo que tenho sido, é tranquilizadora. Tenho perdido em certezas, tenho ganho em amplitude; perdi vigor em convicções, ganhei algo em humildade (embora esta afirmação não seja destituída de soberba). Senso comum, evidências tornadas inefáveis revelação, isso de sermos outro e o mesmo... Pode ser. Mas durmo melhor, depois de não dormir anos a fio. Tantos, que talvez me tenha esquecido do que seria dormir uma noite de sono. Ainda acordo vinte vezes por noite, só por acordar, só para ver se ainda cá estou, talvez, como se quisesse controlar a rotação e a translação da terra para não acordar perdido em órbita irreversível. Ou então não é nada disto e ando iludido pelo facto de dormir melhor, como se o universo e, narcisicamente, eu próprio, tivesse erigido algo como um sono razoável à condição de grande demiurgo.  
Não me esqueci de Deus, nisto tudo. Não poderia, nem sequer faz sentido assumir uma atitude de combate, de militância contra o pai, o filho, ou o espírito santo. Contra outras coisas, talvez, mas há outras lutas prioritárias, como estar vivo e contente por isso; não se justifica andar a zurzir comportamentos discutíveis como quem combate o bom combate. Perante Deus, a existir, não nos restaria muito mais que tentar adivinhar com maior ou menor afinação os seus pensamentos, os seus desígnios. Acertaríamos pouco nesse processo de prever resultados a partir do que se conta que foi. E não viria disso mal ao mundo. Na economia desta narrativa, estaríamos apenas a acrescentar mais uma sequência e isso poderia ser bom. Seria bom que a boa nova fosse actualizada a cada dia. Seríamos os mesmos, sendo outros, melhores. E seria bom que, em tempos frios, eu me sentisse aquecido pela ligação ao divino. Seja a história o que for, faço parte dela e isso, para já chegará e não me perturba. Perdendo em conforto do alto, terei ganho alguma paz por me aceitar melhor. Terei perdido na troca, se o foi. Esta formulação em pares que parecem opositivos pode resultar pouco coerente, ou terreno fértil para que se encontrem fendas no discurso, lapsos freudianos em discurso moldado por cartilhas psicanalíticas mal assimiladas. Talvez. Mas durmo melhor. Pelo menos estou convencido disso. Sobretudo, não me apetece dormir para sempre, fosse isso o que fosse. E a procura da coerência não tem de chegar àquilo que mais se parece com ela. Numa péssima e abusiva metáfora, não parece haver coerência numa obra cubista. Ainda assim, não questiono que a sua existência, o podermos interagir com ela, nos faz mais humanos (foi fraco, eu avisei).
Nisto de sermos um, sendo o mesmo de sempre e outro novo a cada dia, nunca saberemos com certeza como se fazem e desfazem os nós que somos. Por isso, não há que esperar por regressos, porque não houve partidas; nem saímos, nem regressamos. Estamos vivos e isso é bom. Às vezes terá de chegar como projecto, a caminho de uma felicidade qualquer iluminada por realidades simples e pouco palpáveis nas quais acredito sem dificuldade, como aqueles que amo, o amor que me devolvem.  Adivinhemos então, façamos prognósticos, querido amigo, e falemos sobre eles, sobre os equívocos que deles emergem, ainda que pelo puro prazer de discutirmos a sua validade, as suas probabilidades de concretização, o aroma que têm, como soam e que com que cores se pintam. E podemos beber um copo ou tratar de um petisco qualquer.

Um abraço e até breve. (Posso estar no exílio, mas cá te espero)
P.S. moralista) Tens que largar as cigarrilhas. Ainda te desafiava para um puro mas nem me tem apetecido, nem acho que te prestasse um bom serviço...

26/04/17

O rio junta-se ao dia por sobre um tampo de secretária. A luz escassa amplifica-se pelo desejo de a ver mais forte. Os dias escorrem pelos tampos das secretárias e pelas cadeiras, pelos copos de água e pelos cafés, pelos diálogos e pelas esperas, pelas obrigações e pelas devoções. Tudo com o mesmo peso, tudo constante no desgaste de água mole sobre pedra pouco dura. E tudo parece equilibrar-se, dando cumprimento a uma qualquer lei da física ou a um conjunto delas, sem outra motivação para além desse feliz casamento entre leis e realidades. Fito tudo isto com um olhar turvo e um entendimento sem convicção. Consta que, em certos dias. a certas horas, nem as metáforas parecem poder salvar. Hoje, porém, espera-se redenção, nem que resulte esta de se dar à luz fraca metáfora. Que assim seja.

18/04/17

Coisas 49% verdadeiras de que me lembro

As imagens têm uma componente a cores e uma outra em escala de cinzentos. A esta última parece poder ajustar-se, ocasionalmente, o verde muito escuro, crescente em imperceptível gradação no espaço-instante em que a sombra se instale. Tudo parece ser visível apenas pela porta que, da marquise-quase-corredor, envidraçada à esquerda, dá acesso à cozinha. A cena ter-se-ia passado aí, na cozinha, por incapacidade minha para a recriar em outro lugar. As descrições confeccionadas pela minha avó materna, bem como as narrativas por ela tecidas, uma e outra vez, a partir de cenas protagonizadas pelos seus sogros, foram sempre por mim visualizadas como tendo ocorrido ali, naquela cozinha, a da minha avó, mas vistas de fora, pela porta, ou melhor, pela meia porta. A sobreposição dos espaços não seria completa por, em quadros passados, o padrão algo hipnótico dos mosaicos permanecer oculto. O chão, os seus padrões geométricos a evocar abismos e plataformas guardiãs de infinitos,  parecia desvanecer-se nessas sequências registadas em plano contra-picado, de profundidade reduzida, como se tudo fosse presenciado a uma altura ligeiramente inferior à dos meus olhos. 
Sempre, entre nós, se fez intensa a experiência da fronteira, essa linha de pó trilhada por contrabandistas, que nunca vi, guardas fiscais, de quem desconfiei, e de carabineiros que, com o tempo, aprendi a temer menos. Esse era o espaço seminal, a separar Portugal de Espanha, de onde se acedia ao mundo da minha avó, a estrangeira. Ventos e casamentos, que sopram de onde se sabe que não vem boa coisa, transmutam-se diligentemente em searas de outras fronteiras, espessas, difusas, perversas. 

O que vi: "O meu bisavô Manuel Bento, figura bondosa, interage fisicamente com a sua esposa, e minha bisavó, Delmira, figura não tão bondosa assim, de quem eu recebi colo com o dom de me adormecer, motivo de enlevo intergeracional, para os meus pais, e de suspeitas de encantamento duvidoso, para a minha avó. Tudo isto se faz chama a florescer, emanação de fronteira. Provoca então Manuel a queda de Delmira de cima de uma cadeira, que estaria, por seu turno, sobre uma mesa. Estaria ela nesse lugar a tentar limpar algo a que, de outra forma, não poderia aceder. Não se faz luz sobre a agenda suspeita que teria levado a tal empresa elevatória, aparentemente injustificada. Manuel, sempre bondoso, teria entrado em casa etilizado e teria empurrado a cadeira para que, propositadamente, ela, raramente bondosa, dali se precipitasse. Ele, ou melhor, o álcool que nele agia, ludibriando a sua responsabilidade em quaisquer actos, teria assim permitido que alguma justiça fosse feita, por se ver compensado o esposo de queixas diversas e integralmente validáveis por qualquer um que por ali andasse, como por exemplo a minha avó. A saber: a secura da mulher; a sua acrimónia para com o pobre homem que brincava pueril, doce e cumplicemente com a neta; a inflexibilidade na hora de ralhar com ele por, alegadamente, consumir com bonomia açúcar, directamente do açucareiro, igualmente na companhia da neta; a capacidade para induzir no filho o desejo de encontrar a sua própria mulher sobre uma cadeira colocada em cima de uma mesa, a limpar algo, e o desejo maior ainda de, entrando ele, eventualmente etilizado, ilibado portanto de responsabilidade, e estando ela a limpar algo, como boa esposa que era, derrubar a minha pobre avó; o silêncio ferino usado, já em viúva, para induzir no filho a impressão de que a sua mãe estivera a sofrer em silêncio no seu cativeiro, devendo ser libertada por actos ou palavras das as forças da opressão doméstica, do seu exílio em horário de expediente. Estas duas últimas dimensões não serão isentas de redundância mas tudo se justifica na abnegada peleja pela justiça."

Assim se traçam as linhas nos mapas, assim se cresce a saber por onde ir, sempre no respeito àquilo que se oculta na linha curva que se fecha, fazendo-se caminho, e no temor daquilo que se aprende a ver no lado oculto dos olhos, em plano contra-picado, o mais fechado possível, para evitar dispersão. Assim é a realidade a fazer-se de tecidos filtrados pela voz do amor e da doçura de quem nos quer e, por isso, a pôr-nos em guarda sobre o veneno ardiloso de quem não nos quer. Assim se faz contrabando de sombra, se fiscaliza a luz e se dá seriedade à vida, cobrindo-a com um ridículo chapéu de carabineiro, enquanto se espera pela conta dos direitos alfandegários pagos ou devidos por tudo o que se traficou ou se venha a traficar. 

17/04/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 1,1

Donostia. 22 de Janeiro de 1984


Ramiro,


não percebo que coisa é essa de me pedires um elogio (deduzo que fúnebre...). És um tipo cansativo, um bom amigo mas cansativo, sim. Não vejo contudo porque iria isso constar de um qualquer elogio, como me pedes. E és cansativo porque queres controlar tudo, até a tua partida para outro munco qualquer ou para debaixo da terra. Farei, se partir antes de ti, os elogios que quiser, a olhar metaforicamente para o teu caixão, seja lá em que circunstância for. Não devo fazer a viagem real até vós, nessa ocasião. Para mais, palpita-me que os teu filhos, com toda a propriedade, quererão uma daquelas cerimónias religiosas muito cheias de cânticos e de orações, flores e fanfarras, com os mestres das coisas deles a oficiar e não teria eu lugar aí. nem quereria ter, como sabes. Se o teu pedido era literal, e apeteceu-me entendê-lo assim, esquece isso. E, se queres saber, não vou falar das coisas de que me falaste, da tua profunda e constante melancolia, desse quase não estares neste mundo, dos muros brancos e negros que transpuseste ou não. Não foste apenas uma espécie de eremita: as pessoas perderam a paciência para te ver, para interagir contigo, para aceitar as tuas divagações, as alterações de humor... Eu aceitei talvez porque fui ficando longe fisicamente e as distâncias tornam as coisas más suportáveis e as boas desejáveis, como dizia o meu tio Júlio, de quem te lembrarás. O eremita fui eu, afinal. Ficaste tu, as nossas cartas, a lembrar-me parte do que fui, enquanto aí estive nesse país de merda, antes de me julgarem por ser comunista e por ser fascista e por ser uma série vergonhosa de coisas que nunca fui. E fugi para onde não lembra o demónio e, sobretudo, para onde ninguém me pergunta como chegámos, porque chegámos, porque não recebemos visitas, de onde me vem o dinheiro, porque só ando de bicicleta e, no carro, quem conduz é a Helena, porque leio poesia na esplanada como um turista e não me vou embora no final da época balnear, porque converso com os meus dois vizinhos, José e Luis, como se os conhecesse de toda a vida, longamente, porque me sinto protegido num país que me ensinaram a detestar desde pequeno, terra de gente feroz. Farias aqui longos poemas sem esperança, porque és assim. Eu vou tentando conquistar a redenção a golpes de palavra, escrevendo pequenos contos felizes, com finais felizes. Como calculas, acho-os impublicáveis... Começo a pensar que os julgo impublicáveis porque são felizes e têm finais felizes... Queres que te envie um deles? Posso enviar-te o menos feliz, se isso te anima....
Espero resposta e não despedidas! Ou então, arranja uns trocos e vem até cá, um exilado a visitar o outro. Às tantas, isto pode ter ares de lugar onde tudo, como eu próprio, se esvai e se oculta. Enfim, acabemos com os nossos narcisistas lamentos...

Até breve!
Um forte abraço

16/04/17

Se tivesses um cavalo e to matassem com um tiro, vindo da floresta, seco, único, directo ao coração do animal, o que farias?
O que farias se tivesses um cavalo, o teu cavalo, e viesse da floresta, em disparo seco, uma única bala que o matasse?
Se tivesses apenas uma pergunta para fazer a alguém e esta fosse "Se tivesses um cavalo e to matassem com um tiro vindo da floresta, seco, único, directo ao coração do animal, o que farias?", porque a farias? 
Se tudo isto te ocorresse num domingo de Páscoa, assim, em disparos secos vindos do fundo da floresta, o que farias?

12/04/17

Inventa | rio

Não há chávenas de porcelana penduradas no armário. Tem este duas portas envidraçadas e, na prateleira central, uma fila de objectos diversos, sem qualquer organização expectável. Parecem ser visíveis um abre-latas cromado, na segunda prateleira, no qual estão alinhados, por um furo central, cinco dados de póquer, um canivete de cabo cor de safira e lâmina ferrugenta, enrolado num pedaço de papel pardo, uma caixa de comprimidos para a angina de peito, uma caneca com a imagem de um lobo da Alsácia no topo de uma montanha, um lenço branco dobrado, com bordado monocromático da ilha da Madeira virado para cima. Tudo isto são coisas soltas, categorias rebeldes, frases sem predicado, sujeitos indeterminados, gramática de objectos estranhos. O pó no chão era denso, todos os passos ficaram para memória futura. Ao lado, uma braseira adiada, com alguma cinza e dois ou três pedaços de carvão. Sendo exígua, toda a casa era um espaço de clausura a perder de vista. Escreveu, com um dos pedaços de carvão, uma tentativa de frase territorial. Fê-lo, sem se dar conta, apenas na parede virada a sul. Queria afirmar-se, declarar 'estou aqui', mas apenas se perceberia um pouco do 'aqui'. 
Não se herde nada que não queiramos ver nosso.

11/04/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 3.0

Cetara, 23/09/2016
Velho amigo velho, como passas?
Por aqui estou, velho, como tu, a ver os dias passar. As obras estão quase acabadas e a casa está a ficar bonita. A vista é como te descrevi na última carta. Temos dois quartos de sobra e o convite está feito.
A tua última visita, ainda estava eu por aí, como te lembras, foi meio estranha, deixou-me um travo a diospiro verde na boca, nada mais do que isso. E sabes que gosto de diospiros, em todos os seus estádios de maturação, mas os verdes são aqueles diabos... E assim foi quando me visitaste, em Novembro do ano passado. Trocámos uma mão cheia de cartas, entretanto, mas não há meio de amadurecer o raio do diospiro e fico sempre com a boca a precisar de dizer mais.
Sei que toda a tua preocupação com a eficácia do mundo, a que nele está patente e a que tu matarias para que se manifestasse em todo o seu esplendor, esbarra na minha preocupação em lutar contra o excesso de preocupação com a eficácia, sobretudo, porque o faço com uma displicência que te exaspera. O meu mundo não tem o rigor cartesiano do teu, o teu não tem a deriva caótica do meu, és um revolucionário do plano, eu sou um revolucionário dos acasos. Mesmo que isto seja uma impossibilidade, é assim que vejo a revolução. Assim estamos, nisto, e assim nos temos ido fazendo velhos, a oferecer pedaços de diospiro verde um ao outro no final da refeição partilhada, da conversa, do vinho. E a isto têm assistido os nossos, nesta nossa família alargada, que o é, mas apenas porque a distância nos deixa espaço para a sanidade. Um dia, poderemos estar mais tempo juntos, todos. Poderemos comprar duas casas em terrenos contíguos, com duas hortas, trocaremos sementes de pimentos e de malaguetas picantes, laranjas e tangerinas, diospiros. E esperaremos que estes amadureçam, não te parece?
Quando o teu César voltar de Valência, diz-lhe que tenho aqui uma aguardente especial à espera dele. Ele que se meta no avião e corra para cá, porque vale a pena. Eu vou buscá-lo ao aeroporto e, em menos de uma hora estamos aqui. Os autocarros são um inferno dispensável. A Joana vai fazer a conversa do costume, que ele tem tanto para ver e fazer aqui sem ser sentar-se com o velho a molhar a conversa na bebida. Eu não discordo, mas estou convicto de que a aguardente justifica a vinda. E vou mandar, por ele, uns biscoitos de azeite e limão, diferentes dos da tua mãe mas muito bons mesmo. A ver o que me dizes deles... A aguardente, se quiseres, vem cá bebê-la! Não vou aí com a garrafa porque sabes que não consigo voltar aí. Não vou voltar nunca... Este é, agora, e até mudar de opinião, o meu lugar para sempre. Também se vive sem as raízes na terra, quando a terra onde nascemos se revela ácida e inabitável.
Um abraço, dá notícias e não faças demasiadas birras à Augusta.
Celso

21/03/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 2.0

Barfleur, 27 de Julho de 2007

Caríssimo Álvaro, querido amigo:

Antes que decidas telefonar, gastando o pouco dinheiro que tens numa chamada internacional, envio-te as linhas que lerás de seguida, se tiveres paciência. Não substituem as nossas conversas mas talvez te evitem mais uma passagem pelo espelho sem que te vejas como eu acho que te deverás ver. Pensava em ti, em vocês, à janela, enquanto bebia um copo com a Clara, ao fim da manhã e fui escrevendo. São palavras simples mas são as minhas, para ti, com os meus clichés, que sempre combateste mas que, como sabes, me dão tanto prazer...

Passou-nos a vida por cima e eu acho que a tens gasto a fazer contas. Contas ao dinheiro, sempre exíguo, contas ao mal-amado que te sentes, à falta de reconhecimento alheio, coisas das quais não precisas para ser um homem cumprido, todo. Mas cada um é como é e tu és assim, sempre a querer beber o veneno da vida em pequenas gotas. Ou é o que parece. Sei que não será assim. Pelo menos não será sempre.

"Contas à vida, sabes que estás numa qualquer encruzilhada da mesma. Pareces suspenso e fazes contas de somar, com o cheiro do caderno da escola, da madeira velha da carteira e do sabor da borracha, meio mordida, misturado com o do lápis amolecido pela saliva. E somas tudo, a história do encontro dos teus pais em terras de fronteira, o cabelo do teu pai a cair, o colo meio inseguro da tua mãe, os teus avós e bisavós, todos, as brigas com irmãos pelas coisas estúpidas de sempre, as rivalidades, as brincadeiras. A adição de todas essas parcelas devolve-te o teu perfil, estás convencido disso. Percebes-te também no que assumiste ser a tua linha da frente e isso significa que acabou, para ti, a idade dos prodígios. Ou não. Nesta linha, que ocupas vacilante, podes proceder a outras operações e fazes contas, de novo as aritméticas, sem rigor algum. À tua frente, iluminam-se a tua mulher e os teus filhos que escrevem em ti coisas sobre o presente e o futuro. Tens tu agora menos cabelo na cabeça mas isso não te incomoda: é uma subtracção e não estás a treinar isso agora. Atrás de ti, vês outros ramos da árvore que te pariu, os teus irmãos e as suas linhas da frente. Vês ao fundo os troncos das árvores que morreram de pé, lugar-comum. Receias que, em breve, a soma das parcelas te revele o que não queres saber, quanto tempo tem o teu mundo. Talvez o tenha todo mesmo mas não tens suficiente fé em nada. Receias tanto que te sentes tentado a viciar as contas. E começas e recomeças, divides, multiplicas, como se apenas brincasses com os números, numa retórica algébrica qualquer. Que não pensas nisso, dizes tu. Pois profetizo, sem dom para tal, que dias virão nos quais sentirás a dor da perda e outros nos quais terás alegrias. Tudo simples, como vês. Na tua contabilidade da vida terás sempre o cheiro das casas que habitaste, o volume daqueles que abraçaste, os sabores que sempre aprendeste que a água não tinha, as feridas nos joelhos, repetidas de tanto tentar descrever a curva que descia da muralha para a rua dos teus avós em velocidade crescente, o plátano gigante em terra onde só passaste dois anos, a serra que te deslumbrou com quase-neve, a planície e o cheiro infinito a calor insuportável, os ninhos das andorinhas no Inverno, os cabelos brancos dos teus filhos, a mão na tua da tua terna companheira, avó-rochedo, os túmulos dos teus pais e avós, o colo inseguro da vida a dizer-te que está na hora de seres um homem. Profecia final, para que possas ir jantar tranquilo: serás."

Teu amigo sempre, Isidro.

20/03/17

Excertos de 'Cartas Exiladas' 1.0

Meu caro,

há. Pode haver. Não te digo que não. Pode existir uma razão, ou uma dúzia ou duas de razões, para sentires que deves fazer algo por mim. Estás cansado destas cartas, destas interpelações em sintaxe pobre e semântica embotada por vício de auto-comiseração. Preferirias talvez falar de mim apenas...
E, afinal, sempre te vou pedir o tal elogio, seja ele em que fase da vida for. Se for o último, para mim, se anteceder o luto e o esquecimento de quem era, faz o que tens a fazer. Diz, a quem tiver ficado, que fui cansativo. um bom amigo mas cansativo. É justo que o digas, porque é a verdade e esta missiva é disso prova cabal. Peço-te que fales do muro branco, de como o senti sempre até ao fim, de como cá dentro é mais fácil viver, de como fui um eremita fechado sobre mim próprio, confinado ao meu universo em contracção. 
Nada disto, nem estas palavras que trocamos agora, é interessante. É sentimentalismo do mais puro, do mais balofo, dirás. E dizes bem, de forma exemplar até. Talvez devêssemos interromper bruscamente esta aventura epistolar da nossa amizade. Ou não. Tive medo de tudo menos de escrever, de me escrever, de escrever aos amigos, de os escrever em longas frases com adjectivos a mais e excesso de advérbios, de lhes deixar estes lamentos insuportáveis ou despidos de significado. Tantas vezes encontrei, numa pálida resposta eivada de compreensível condescendência, o alento para adormecer outro dia, um dia mais. Nunca me foquei o suficiente no futuro para ter esperança de redenção. Nunca me entreguei demasiado ao passado para pensar como teria valido a pena cada hora. Palmilhei um presente, lugar-comum a que chamei terra de ninguém. Tudo, ou quase tudo, me parece fora do espaço e do tempo devidos, desde o ar que me violenta os pulmões, aos significados exilados, reféns de expectativas infundadas em relação à grandeza do mundo e da capacidade dos olhos para ver. Talvez tenha chegado a hora de, aqui mesmo, sem retorno possível aos meus, do outro lado do oceano, me entregar a isso de ser assumida e depuradamente coberto pela terra que pisei, neste lugar padrasto, sem pontos cardeais em vigor. Tudo aqui parece ter prescrito excepto tu, que me ouves, eu próprio, cansado de me ouvir, e o mar, que também  parece ir-se mostrando exaurido de paciência. 
Peço-te apenas que não te esqueças do elogio, ao que quiseres, não terá de ser a mim. É até melhor que não o seja. Um dia poderás recordá-lo e perceber que te serve, que parece ter sido feito à medida para ti. Então, vesti-lo-ás e terás feito essa descoberta ainda a tempo.

Despeço-me de ti, com serenidade e gratidão. 
Transmite, por favor, as minhas saudades à tua doce Maria Helena e à vossa menina.
Ramiro
Antofagasta, 12/12/1983



13/03/17

species had not been independently created: avé maria puríssima

O homem mau tinha fama disso, de ser mau. Não era mau como alguma coisa que se pega, chegando de mansinho e espalhando o seu odor por debaixo da porta, antes de se instalar com carnes e ossos. Era mau como um bloco de peçonha que se abate pesado sobre o tecto de uma casa e a atravessa, rebentando o chão e penetrando até às fundações. Nunca soube se ele era assim, nem o vi fazer nada, nem conheci sequer quem o tivesse visto fazer o que quer que fosse de mau. Ainda assim, afastava-me dele por superstição ou porque a minha avó me teria dito que não poderíamos, de forma alguma, cruzar-nos com ele na rua e seguir ao resto da nossa vida, como se nada fosse. É homem para dar cabo da vida dos outros e ir para casa beber um copo de água em paz, dizia. Entre as superstições e a convicções da minha avó acerca do mal e dos diabos, tudo coisas tratadas a poder de três repetições de 'Avé Maria Puríssima', não haveria terra suficiente para que nascesse a mais estreita fronteira. Ao longo da minha vida, encontrei sempre pensamentos e palavras, actos e omissões dos quais me afastei porque deles e delas era sabido que faziam mal, que destruíam, que não deixariam consolidar os meus pés de barro no altar. Sabendo do mal, não o evitar seria pecar, por minha culpa, minha tão grande culpa. Em proto-iconoclástico acto de contrição, presto hoje, aqui, uma homenagem de homem mau a tudo isso, aos demónios de poderes não comprovados, ostracizados por suposição de passarem a vida a cheirar a enxofre. Serão estes demónios de aviário, à espera de consumo fácil, com pele crocante e molho de gengibre. Não me terei cruzado com eles e seguido com a minha vida, como se nada fosse, bebendo um copo de água, em paz.

In considering the origin of species, it is quite conceivable that a naturalist, reflecting on the mutual affinities of organic beings, on their embryological relations, their geographical distribution, geological succession, and other such facts, might come to the conclusion that species had not been independently created, but had descended, like varieties, from other species. Nevertheless, such a conclusion, even if well founded, would be unsatisfactory, until it could be shown how the innumerable species, inhabiting this world have been modified, so as to acquire that perfection of structure and coadaptation which justly excites our admiration.

(Charles Darwin, On the Origin of Species)

07/02/17

+ citrinos em jardim de paraíso - natureza não-morta

Se o fim do mundo sucedesse aqui e agora, colheria limões. Estão a ficar maduros, o amarelo começa a triunfar sobre o verde. Gostaria que estivesse calor e poderíamos estar nus, a pele morna e húmida. Acabaria o mundo e estaríamos a saborear o prazer de sentirmos o calor da pele um do outro. Nem pensaríamos, às tantas, nos limões. São lindos, os limões, sobretudo se os contemplarmos no dia em que o mundo está a acabar. O mundo a acabar é a hipérbole salvífica de qualquer cena banal.
Um dia poderá ser assim: "Esqueço-me de ti, à medida que o Inverno passa e os dias menos frios dão lugar a outros que o são menos. Reconforta-se a pele com o ar menos frio. Esqueço-me também de tanta coisa, quando os dias começam, de novo, a ficar mais frios. Espera a pele ser confortada com algo que a cubra e parece esquecer-se também do que é ter o ar mais frio a tocá-la. Resta sempre a face e ficam, se se quiser, as mãos para guardar essa sensação. Tudo é circular, é o que apetece concluir. O que fica quando se esquece tudo? Nestas idas e voltas de frio, não faltará muito para que olhe o espelho e apenas o veja a ele, espelho, e àquela cara que ainda sabe o que é sentir o ar a percorrê-la mas não sabe já que sou eu. Talvez o esquecer seja uma espécie de cancro benfazejo, algo como o morrer do que fomos, apesar de nós. Talvez o esquecer nos salve, apesar de nós. Talvez o esquecer nos proteja da chuva, se mais não fizer. E será bom podermos ir no caminho, sem que nos molhemos demasiado. Talvez o esquecer seja o absurdo que queremos ser, apesar de nós."

Coisas 79,3% verdadeiras de que me lembro

O meu tio Gumersindo era, até há pouco tempo, o único irmão da minha avó materna vivo. Muitos foram, em momentos distintos, desaparecendo. Algumas dessas notícias foram recebidas pela minha avó na minha presença. Recordo-me de receber a notícia da morte de tio Cândido, na casa da praia do Monte Clérigo, trazida pelo tio Furtado na sua motorizada, um homem bom, a alma da farmácia da terra, pescava sagos como poucos, tocava guitarra portuguesa e tinha coleções de banda desenhada. A morte do tio Cândido, ou a notícia dela, cheira, nas minhas memórias, a gás butano, àquele cheiro de borracha e redutor velhos, metal meio oxidado. Estaríamos na cozinha e, pela porta de trás, infiltrou-se a notícia, declarou-se, fez-se explosão em lamentos muitos, todos da minha avó, os outros a tentar que ela recuperasse os sentidos. Eu estaria por ali, a ver e a ouvir e a pensar em como os próximos dias seriam meio cinzentos e em como a morte do tio Cândido me roubaria uns dias de praia por ter que se ir a funerais e fazer viagens para Espanha, o que não veio a suceder. Estaria no canto onde cheiraria a gás, ali sentado numa pequena cadeira com fundo de buinho. Estaria eu a tentar desfazer pacientemente o fundo da cadeira, como de costume.
Depois da morte da minha avó, terão morrido os meus tios Prudencia, Angeles e Gumersindo. Não tenho a certeza disto mas não terá sido muito diferente. Não vi, portanto, a minha avó a reagir à notícia que anunciava as suas perdas. Para a minha avó, Prudência era uma amiga tranquila e bonacheirona, Angeles, Angelita, a rival, talvez por ser a mais próxima, tanto que as idades se lhes confundiam e Gumersindo o menino, o mais novo, a cria mais frágil da ninhada, filho de todas as irmãs, na cabeça de todas as irmãs. Gumersindo foi o menino que, na Guerra civil, teria sido escondido pela irmã mais velha, Natividad, numa salgadeira, por entre as peças de carne e toucinho, para que o não levassem. Era Natividad dada a salvamentos heróicos, segundo rezam as artesanais lendas caseiras, tendo salvo de afogamento quase certo num poço o irmão, Gumersindo. Aparentemente, Gumersindo seria dado a ser salvo heroicamente.
Gumersindo salvou a continuidade intergeracional da família e não fui ao seu funeral porque tive um inadiável compromisso profissional. Um inadiável compromisso profissional, no dia em que desce à terra o último dos nossos tios de quem se guarda memória de conforto, é uma prova de responsabilidade ou, como me parece quando nisto me vejo ao espelho, uma ostensiva falta de coragem para mandar o que não importa nada à merda. 

03/02/16

coisas 94,6% verdadeiras de que me lembro

Não me lembro de quando morreu o meu tio Pepe.
O meu tio Pepe tinha, no seu quintal estreito, ao qual se acedia pela cozinha, julgo que ao fundo da casa, um perdigão. Estava dentro de uma gaiola e, por vezes, tenho a impressão de que o ouvi falar, ao perdigão. Ao meu tio Pepe, tenho a certeza de o ter ouvido. Falava muito comigo, mais do que eu com ele.
O meu tio Pepe era casado com a minha tia Prudência, irmã da minha avó Casimira e de mais uma dezena de irmãos. Teria agora de contá-los para ter a certeza de quantos foram, entre os que morreram em pequenos, os que viveram até eu os ter conhecido, e não me apetece fazer isso agora porque me apetece listar factos e coisas do género sobre o meu tio Pepe. É um estimável património de tios que julgo não estimar o suficiente, não ficando, contudo, a alimentar culpas por isso. Faria agora um manifesto sobre o facto de não ter de ser a vida, a minha, o capítulo esquecido de Crime e Castigo. Não o faço apenas porque tenho de continuar, porque assinaria o manifesto mesmo sem o escrever, porque a culpa, sobretudo a que é mal parida, corrói até ao osso.
O meu tio Pepe tinha uns óculos com lentes verdes, o cabelo penteado para trás, escrupulosamente. Tinha levado um tiro, alegadamente na Guerra de Marrocos, na qual, também alegadamente, tinham participado os meus tios e cunhados dele, Alonso e Felipe.
O uso de 'alegadamente' deve-se ao facto de poder eu falhar na componente factual do relato e não quero que comece a emergir a suspeita de falsidade em alguém que não eu próprio.
O tiro na perna obrigava-o a coxear. Com o tempo, deixei de reparar que ele tinha de fazer aquele movimento circular com a perna. Hoje não sei se seria a perna esquerda ou direita. Assumiria que era a esquerda, pela imagem que agora me ocorre dele a descer a rua. Juraria que trazia uma bengala preta, lacada.
O meu tio Pepe dava-me sempre pesetas na hora de regressar a Portugal. Talvez mil, mil e duzentas pesetas, umas vezes mais, outras menos.
O meu tio Pepe expulsou um miúdo da minha idade de um carrossel, nas festas de Encinasola, apenas porque ele me disse, de forma insidiosa 'Sai daqui Português!'. Ser Português ou Espanhol nunca foi para mim, nem para o meu tio Pepe, algo em que se pensasse como sendo traço distintivo de qualquer um. 
O meu tio Pepe dava beijos barulhentos aos sobrinhos na hora da chegada e na hora da partida.
O meu tio Pepe acabou por ser uma espécie de planeta despromovido sem critério do meu sistema familiar e eu recupero-o agora em grande pompa pessoal. Recuperarei mais destes corpos celestes sempre que me apetecer, sem disso dar justificações, se as não quiser dar.

01/02/16

um dia, seremos laranjas presas aos ramos
à espera desse ser maduro, do ser-se sumarento.
um dia, no mesmo dia talvez, não diremos coisas com sentido
e isso será libertação sem sofrimento.
muda de ti. muda-te.
como numa promessa eleitoral,
vota em ti, elege-te, nomeia-te para algo sem sentido algum
para além do seres maduro no teu ramo.

deixa-te ficar, sulco na berma da estrada.
Assume-te maiúscula no início do verso, em poema idiota.
escreve-te, desenha carateres no teu corpo, na tua pele.
inventa-te em línguas descobertas para ti.

um dia, seremos circulares e não veremos depreciação nisso.
em dia de fazer o mundo,
não precisaremos de Júpiter para nos proteger de asteroides com cheiro a laranja.

04/01/16

No dia em que nasceu, não havia sapatos para gastar, nem uma vela acesa em parapeito de janela, nem um único som que assinalasse evento algum. Esse foi um dia de vaguear, sem referência nem método, ao longo da margem do lago. Calçou os sapatos e mentiu, porque se mente sempre, especialmente quando se nasce e depois de calçar os sapatos. Acendeu a vela, a custo, com o fósforo húmido. Reverteu com discrição o escuro da noite e vagueou mais e mais até ao limite de si. No dia em que nasceu, foi noite.

30/10/15

Some-se o tempo, cais sobre a voragem de ser o bando de impossibilidades que te definem. 
Os passos fazem-se acompanhar das folhas pisadas pela sola. A luz tolda o entendimento dos ponteiros do relógio. As vozes perseguem-se em bandos de impossibilidades harmónicas mútuas. Tu cumpres-te em escalas de medida pessoais, sem arbitragem externa. Bandos selvagens de impossibilidades múltiplas, em formações, asas expostas à luz gloriosa do entardecer.
Espera pela chuva, em dia de coroação de rainhas e reis na televisão. Fica em suspenso, como ficarias se fosses rei em dia de coroação, refletido em montras das lojas de eletrodomésticos. Olha para o sofá onde se sentava o teu avô e suspende-te nesse último dia, na folha adoentada do pessegueiro com dias contados, na soma de virtudes dos vegetais, no coração do cão a pulsar durante o seu sono, ao fundo do quintal.
Não haverá muito mais a fazer depois disto. Bastará que descanses e te sintas cumprido. Será pouco mas serás tu.

24/04/15

Sob a luz das folhas pareço-me um pedreiro com farda de ócio impossível. Sento-me no pequeno muro que delimita a árvore, detalhe autobiográfico menosprezável. Formulo-me em falácias de viagem digital, acto de fé. Sob as folhas, sou eu, analógico, sem redentores protocolos de compatibilidade.

07/03/15

As estradas sucedem-se, quilómetros em mostrador de relógio.
Sabes-te menos muita coisa, assim dita, sem formulações sofisticadas de caderno para aplausos.
Sucedes-te em estradas, muitas, desenhadas na tua pequena secretária meticulosa.
Pensas-te como avaliação sobre aquilo que fizeste contigo, contas de mercearia sem azeite, nem arroz, nem açúcar, nem farinha, nem aritmética que possas fazer num local que ames.
Medes-te pela forma como respiras, a intensidade do sangue pelo corpo a tentar o seu melhor.
Entregas-te todo em prestações, parcelas, fracções, paradoxos e pulmões sem cartas para jogar, apostas esgotadas e restos de um almoço com teor biográfico em dia de acertar contas.
Desenhas-te em despedidas, traças de ti perfis, cobres a pele de terra e sol, por não haver mais astros.

Virão descansar ao pé de ti, quando descansares. Saberás, nesse dia, que não foste longe porque és aqui.

27/11/14

Hoje é dia de festa.
Hoje é dia de elevar os braços ao alto e proclamar que virá uma revolução. Ela te dará um novo alento, uma capacidade inusitada de levantar o peso do mundo por sobre a tua cabeça, com os teus braços nus. E tu serás um homem feliz, com os braços elevados ao alto, com o mundo entre as tuas mãos.
Hoje é dia de festejar o que apenas se festeja por ser raro.
Hoje é dia de muitas coisas e de dizer que é dia de qualquer coisa, hoje.
Hoje é dia de afirmar que terias sido mais feliz se tivesses ficado a chorar em casa. Se não quiseres festejar apenas por festejar, porque isso te liberta mais do que uma anestesia qualquer que te perca, fica antes em casa, numa qualquer casa.
Hoje é dia de beber, se não conseguires festejar de outra maneira, porque se celebra o dia do rei e da rainha, do presidente, do herói e do escritor, do bandido, daqueles que saíram do país e são comunidade, daqueles que se conseguem rever nas estátuas que lhe erigiram numa rotunda à volta do qual passam carros com bandeiras e esvoaçar, aclamando uma qualquer vitória da nação.
Hoje é dia de ouvires canções entoadas por multidão em uníssono, com as mãos por sobre o peito. E tu podes festejar, porque não tens de cantar, porque não és a multidão, porque a canção te desagrada, porque ela pesa mais do que o mundo entre as tuas mãos, elevadas ao alto, por sobre a tua cabeça.
Hoje é dia de ser incoerente e de celebrar a incoerência. É sempre dia de ser incoerente. É sempre dia de celebrar. Haja festa.