Seremos todos assim: o cabelo sob luz amarelada, dourada, cairá sem grandes pudores sobre a testa, as costas arqueadas e as mãos em busca de búzios pequenos na areia. Buscaremos então, como outrora, búzios sem propósito, pelo menos sem outro propósito que o de nos imaginarmos a encher frascos de búzios. Seremos apenas um de muitos enchedores de frascos com búzios e os meios justificarão um fim adiado. Os frascos de búzios terão odor de putrefação, ao fim de um tempo e haverá que encher o frasco com álcool, nova etapa na vida de búzio morto de encher frasco. A transição indolor para búzios ébrios e acumulados em frascos ocultará coleção de vidas em conchas e outros vícios sem propósito.
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27/12/19
03/12/19
Versículo 49 (7º fora do formato)
A igreja terá coluna azul com
capitel, no altar. A meio da
coluna, de lugar como casa de pássaros, sairão borboletas, leveza expectável e cores por inventar em incontáveis partículas voláteis.
Ascenderão assim almas a céus, tudo feito de cores que não alcançaremos nunca, por
razões que desconheceremos ou nos serão indiferentes.
Haverá flores, no teu dia, apesar de ti. Serás, caso a eternidade esteja nos teus planos, pétala-asa comprada em florista feita posto dos correios pela voragem pragmática do tempo económico. Ascenderás à paz final liberto de arranjos compostos para apodrecer em tumba fria e será assim o primeiro dia da tua glória entre os esplendores da luz perpétua.
Haverá flores, no teu dia, apesar de ti. Serás, caso a eternidade esteja nos teus planos, pétala-asa comprada em florista feita posto dos correios pela voragem pragmática do tempo económico. Ascenderás à paz final liberto de arranjos compostos para apodrecer em tumba fria e será assim o primeiro dia da tua glória entre os esplendores da luz perpétua.
20/10/19
Versículo 48 (6º fora do formato)
Pouco a pouco, passo a passo, virá a morte, como sabes, ou virás tu.
Serás como um destino que se olha ao espelho,
algo que se espera sem outro desejo que o da liberdade.
Passo a passo, virá a morte,
escrevendo memórias e futuros,
obituários e epígrafes, frutos e paradoxos,
para que conste de um qualquer relatório que tenha a morte obrigação de apresentar.
Ou virás tu, com gestos novos,
formas voluptuosas,
desejos, amores e outros elementos de redenção,
para que tudo isso conste do teu caderno de boas acções.
Um destes dias, chegarei a mim,
antes da morte, ou antes que me mostres tu quem sou.
Será algo como epifania discreta,
para que conste ter eu procurado chegar.
Só para que conste.
Serás como um destino que se olha ao espelho,
algo que se espera sem outro desejo que o da liberdade.
Passo a passo, virá a morte,
escrevendo memórias e futuros,
obituários e epígrafes, frutos e paradoxos,
para que conste de um qualquer relatório que tenha a morte obrigação de apresentar.
Ou virás tu, com gestos novos,
formas voluptuosas,
desejos, amores e outros elementos de redenção,
para que tudo isso conste do teu caderno de boas acções.
Um destes dias, chegarei a mim,
antes da morte, ou antes que me mostres tu quem sou.
Será algo como epifania discreta,
para que conste ter eu procurado chegar.
Só para que conste.
12/11/18
Versículo 47 (5º fora de formato)
47
Cubro-me hoje de um desespero quieto
daqueles de andar por aí a perder penas e pedaços de nuvem
Partiu-se-me hoje um ramo do limoeiro
e fiquei a sentir-lhe a dor de não mais sermos os mesmos
No dia que se seguirá a hoje
aportaremos
outros
a terra húmida com sabor a limão
Cubro-me hoje de um desespero quieto
daqueles de andar por aí a perder penas e pedaços de nuvem
Partiu-se-me hoje um ramo do limoeiro
e fiquei a sentir-lhe a dor de não mais sermos os mesmos
No dia que se seguirá a hoje
aportaremos
outros
a terra húmida com sabor a limão
24/10/18
Versículo 46 (4º fora de formato)
46
Florescem mortos em metódicas embarcações viradas por mar
São os teus mortos tranquilos
pés em mar quase firme
olhar firme em terra
Cortas canas e cordas
evocas jangadas
vigorosas nas suas caudas-leme
esquivas
Tomaremos refrescos
em homenagem aos que partiram sem vela iluminante de fé
Digo-te
enquanto esperas
que não haverá planos de contingência para o dia em que chegar a notícia.
Floresceremos
apesar de nós
viola tricolor
em qualquer lugar de vento propício
Florescem mortos em metódicas embarcações viradas por mar
São os teus mortos tranquilos
pés em mar quase firme
olhar firme em terra
Cortas canas e cordas
evocas jangadas
vigorosas nas suas caudas-leme
esquivas
Tomaremos refrescos
em homenagem aos que partiram sem vela iluminante de fé
Digo-te
enquanto esperas
que não haverá planos de contingência para o dia em que chegar a notícia.
Floresceremos
apesar de nós
viola tricolor
em qualquer lugar de vento propício
18/09/18
Versículos 40-45
40 Chamam-nos pelo nome, o nosso, o de cada um, e somos nomeados crianças, o melhor do mundo enquanto a ingenuidade beberá de um trago duas a três bebidas reconfortantes. Será declarada a emergência de fitas e adornos ternos, sem sal nem terra, sem cor nem luz. Com isso, criaremos o barro diáfano e teremos merecidos véus a adensar-nos futuros.
41 Não virão adorar-Vos, Senhor, quaisquer povos da Terra. Não os tereis, Senhor, a Vossos pés, suplicantes de redenções. 42 Virão os animais ferozes perguntar-Vos o quanto podem ainda dilacerar carnes inocentes antes da sua perdição, da sua longa marcha penitente para o fundo do teu poço de chamas embrulhadas em papel de Natal. 43 Não tereis respostas, as que nunca sonhastes e sempre parecem ecoar nos Vossos céus. 44 Escrevereis listas de milagres normativos a declamar em dias de aflição, os braços caídos e os olhos no chão, perdida a esperança no poeta criador. 45 Oremos pela salvação das feras, pela germinação de paraísos. E renovareis a face da Terra.
04/07/18
Versículos 35 - 39
35 Haverá, para os dias, algo como marés. Estará o curso de cada volta da terra sujeito a ondulações, de intensidade e cadência diversas, e surgirão homens e mulheres, de todas as idades, que apenas existirão nas praias, como espuma. Na linha da costa, florescerão corpos e haverá habituação a essa terminação de ondas, entre avanços e recuos tornados padrão. 36 Surgirá discussão em torno do fenómeno e concluir-se-á, por via de ciências, que há em tudo o visto, ouvido e intuído, influência da lua e de outros corpos celestes a descrever rotas no vazio. Tudo isto se aceitará, não como fatalidade, mas como conhecimento novo e celebrado. 37 Será subtraída às praias a areia, e ocupado o espaço por epitáfios dispostos sem método dedutível, citações de trechos heróicos a sobrevoar mortes, tranquilidade induzida em consciências inquietas. Todos dormirão sonos diferentes, embalados pela memória do mar. 38 O mar perderá consciência de si e sentir-se-á imensa vala comum representável em partitura para orquestra a definir. Sairá do mar previsível lamento vão, coisa imperceptível, sem valor civilizacional. Ninguém reparará, porque não há reparação possível para além do espanto
que causará. O espanto será condição de subsistência e critério de
valoração estética. 39 Seremos todos convocados para o tempo do espanto e do lamento vãos.
26/04/18
Versículos 31 - 34
31 Virá o dia em que as pedras falarão com os homens nas suas línguas e todos sentirão medo. Nesses diálogos, não reconhecerá homem nenhum mais do que padrões geométricos formados na mente, monocromáticos. As palavras serão supérfluas nesse desencontro. 31 Serão as pedras inteligentes e buscarão laranjas acabadas de colher, para que a tradução ocorra e haja esperança de comunicação. Estarão os homens em sono de ópio, de olhos abertos e vontade dependente. 31 Comerão laranjas e abrir-se-ão ao entendimento, com expressões de júbilo e gratidão. 32 Chegarão tarde à possibilidade de entendimento, por caírem as pedras em incompreensão. Pensarão os homens estar perdida a oportunidade de aprender com as pedras e cairão em desânimo irreparável. 33 Esperarão por um deus que promova verdades. 34 Ficarão os homens pedras.
05/02/18
Versículo 30 (pena vs pluma 3º fora-de-formato)
30 Crescer-te-ão inauditas asas, por sobre os ombros. Não saberás o que fazer com elas, nem como acomodar essa realidade ao teu corpo. Não te ocorrerão exemplos na natureza que te possam servir de auxílio, que possas mimetizar. Não são os ombros local de inserção de asas, em insectos ou aves, e as tuas asas serão pequenas, rígidas e cobertas por uma espécie de couro, já curtido, em tom ligeiramente mais escuro que o da tua pele na zona dos ombros. Pensarás no que conheces das representações gráficas de anjos e em como não te parecerás com eles. Ficarás feliz porque não terás de te rebelar e descer aos infernos mas, de facto, já lá estás, apenas por não haver sentido que possas construir em torno das asas grotescas que serão então parte de ti. Pensarás em metamorfoses que conheces, de livros que leste, e continuarás explicações ao alcance de entendimento. Perceberás que podes refrescar-te com o bater suave das asas e sentir-te-ás ridículo porque não carecerias de tais adereços agarrados à carne para te refrescar. Virás a sentir dor nas asas, uma dor pulsátil, em contra-tempo com o ritmo do teu coração e não advirá daí nenhuma paz. Perceberás que o som das asas te é familiar: é o ruído dos bandos de pássaros, que repetidas vezes te irritam no seu voo sem propósito à vista. Falarás com eles, talvez os compreendas, sem que os possas acompanhar. Ficarás sem estatuto definido na Criação, se nela creres, e não te sentirás perdido.
25/01/18
Versículo 29 (condicional e 2º fora-de-formato)
Serias uma multiplicidade de coisas, se pudesses. Eu proclamaria exactamente o mesmo. Diria eu 'coisas', categoria abrangente em excesso e falha de precisões, como me quero, objectificado. Mas isto seria apenas opção minha e não terias tu de estar de acordo com nada disto. Ser-se coisa não equivaleria a processo de depuração, redução ao essencial, ascese em curso, sageza em perspectiva. Traria o ser-se coisa, ou coisas muitas, sono reparador de ingenuidade despojada, entorpecido o desejo de ser mais, de labor ajardinante de virtudes, valores, profundidades e revelações fundamentadas. Seria eu coisas nos domingos, nas segundas-feiras de manhã, nas quartas-feiras, ao final da tarde. Seria salvo de pretensão mitómana pela inspiração programada de oxigénio coisificante. Seria coisas, causa guardada e defendida.
23/01/18
Versículos 26-28
26 Contemplarás baleias, elefantes e outros animais majestosos. Com eles aprenderás pouco porque pouca semelhança encontrarás entre eles e tu próprio. Provocarás súbita interrupção do processo por entenderes o sentido de tal contemplação esvaziado. 27 Ouvirás aves em volta do lago, as suas vozes ruídos eivados de perfídia, espadas afiadas na paz do teu silêncio. Ouvirás o som dos bandos a sobrevoar as árvores perto de ti e sentirás a deslocação do ar provocada pelo seu movimento. Sentirás alívio, porque parecem partir, e raiva. porque regressam sem cessar, gorando repetidamente as tuas expectativas. 28 Na qualidade de rei auto-legitimado de uma qualquer criação, pegarás em armas e resolverás tudo o que te perturba. Ficarás em paz apenas contigo.
05/01/18
Versículos 20-25
20 As origens de ti são porta meio fechada com
cheiro a madeira acabada de cortar. Serás sempre uma porta sem futuro: feito de
madeira acabada de cortar, deformarás e decorrerá tempo infame até que se ajustem as
partes, para voltar depois a reinar desordem. 21 Aceitarás a tristeza como
sedutor passeio à beira de precipício, ou como corrida ao longo de um promontório de escarpas afiadas, lugares afins rescendendo a maresia e morte. 22 Sentir-te-ás dormente e imerso em notícia vil de ataque terrorista algures, saco de viagem danada contigo lá dentro. 23 Esperarás em vão a emergência de pergunta redentora e terás apenas respostas indesejadas, certezas adjectivadas com opulência e desespero. 24 Não haverá exorcismo à medida do demónio que te possui, da tua desordem, da ausência de liberdade. 25 Sobreviverás ao naufrágio e construirás jangada com madeira acabada de cortar.
15/12/17
Versículo 19. (retrospectivo e 1º fora-de-formato)
19.
Trocavam versos japoneses de 1947, a vida suspensa em cada flor das inúmeras cerejeiras dispersas pelas colinas. Sentiam o papel quente, natureza púdica, surpresa primaveril, desejo de sabedoria estampado em faces por arder. Toda a terra arde, comentavam. Todos iremos neste imenso braseiro dos deuses, todos nos perderemos, sem que haja caminhos de volta, porque o vazio tomará conta das nossas existências. Oravam poesias-preces, eflorescências piedosas implorando misericórdia, suavidade na hora da partida, honra no momento, solenidade na leitura de palavras belas que pudessem redimir os seus mundos todos. Contemplavam objectos dispostos em casas, pessoas a dormir, crianças a sonhar futuros fabricados, lojas assoladas por pedaços de poema nas montras, projectados por ventos inomináveis. Seria, tudo isso, uma forma de passagem de barcos por entre solidões, em rotas convergentes. Fariam donativos aos pobres, dariam esmolas aos mendigos sentados nas árvores, à espera. Estariam todos à espera, com versos na mão, sem outra certeza para além de coisas escritas em suportes perecíveis. Chamar-lhe-iam flores, ou frutos, segundo a liberdade da boca que procedesse à vocação. Seriam chamados à presença de todas as palavras contidas no entendimento humano e a luz não os alcançaria. Talvez tudo arda, comentavam. Talvez possamos contemplar-nos por escrito e sentir que tudo terminou com a palavra esperada.
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22/11/17
Versículos 14-18
14 Sempre te parecerá ridículo aquilo que escreves, na forma e no conteúdo, quando procuras rever-te nessas palavras. 15 Amadurecerás, escreverás palavras que te parecerão mais maduras, mais ponderadas, mais depuradas e sempre as verás, depois, como inelutavelmente ridículas. 16 Não haverá para isso qualquer redenção: as únicas palavras perfeitas e de que não terias vergonha são as que escreverias no auge da tua maturidade. 17 Serás maduro quando a morte te colher e nunca antes disso. 18 Sobreviverás sem ver.
13/11/17
versículos 5-13
6 O respeito pela ordem estabelecida e pelos bons costumes conduz os teus passos a uma qualquer cidade celeste de que ouviste falar. Por ela entrarás, sem que seja notada a tua presença e sairás incólume dessa experiência. 7 A teu lado, irão aqueles que não desistem de crer em ti, na ordem e nos bons costumes, os que vos são fiéis. 8 Serão um só, a ordem, os bons costumes e tu mesmo. Nessa trindade, encontrarás a liberdade de te saberes inscrito em algo maior do que tu, mesmo que não seja algo de tão grandioso assim. 9 Olharás as estrelas, em busca do reflexo da transcendência e nelas verás ordem e desordem, toda a sorte de formas de pensar, de actuar, de te encarar, de te negar. A frustração tomará conta de ti e quererás, por uma questão de justiça e por amor a um futuro perfeito, destruir as estrelas, as cidades que nelas estão reflectidas, as pessoas que parecem inflamá-las de vida. 10 Olharás à tua volta e perceberás que ficaste só, que tudo, até as portas da cidade, se tornaram pó, um pó que nem acede a colar-se às solas dos teus sapatos. Sem que nada se perca, tudo se transforma, excepto tu, a tua certeza, a tua falácia. 11 Ficarás convencido de que chegaste inadvertidamente a um céu, de que terás sido O Justo, salvo de um Apocalipse menor e levado à presença de um Absoluto pessoal. 12 A tua fé ter-te-á salvo de tudo, excepto de ti e passará tempo até que o conhecimento disso te atinja e te atire ao pó. 13. Então verás.
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naturezas presas por fios
06/11/17
versículos 1-5
«1 Não se perderá um só pingo de chuva na tua pele. Não se encontrará vestígio de ti nessa água.
Crescerás rebento de arbusto cativo. Os teus dias serão feitos de lamentos sem justificação e contemplação absurda do sol, esperando cegueira que se instale e te dite nova condição ontológica, que adoptarás até ordem diferente.
2 Encontrar-me-ás à tua porta, para te dar de beber, e não me reconhecerás. Desconhecerás três vezes quem sou e porque dei passos até ali. Não responderei a qualquer pergunta, porque tu és a resposta para todas as perguntas formuladas e por formular. 3 Sairemos desta chuva sem que haja desejo à vista e tudo será mais claro, sem desejo. O desejo não é digno de feitos grandiosos, não deve ser alimento de epopeias, não pode ser celebrado em cerimónia que o torne memória. 4 Pelo contrário, a chuva, como tudo o que nos leve para debaixo da terra, será glorificada pelos séculos dos séculos. A chuva e deus, a arder em arbustos, dilúvio de fogos apagados, eclipse de sangue fervente. Assim serão os tempos quando tudo estiver completo. 5 Verás.»
(Colheremos os maduros frutos da aurora, Aulus Martialis, 23 d.c.)
[eco improvável:]
- Seria perfeito se pudessem coexistir, num dado momento, a melancolia da chuva e o brilho inebriante de um dia de céu limpo e sol resplandecente.
- Impõe-se que discorde. Isso seria apenas uma ideia pequena, de concretização indesejável. - Seria perfeito se pudessem coexistir, num dado momento, a melancolia da chuva e o brilho inebriante de um dia de céu limpo e sol resplandecente.
(Colheremos os maduros frutos da aurora, Aulus Martialis, 23 d.c.)
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