29/06/07

Entre o ir e o ficar, o sentir-se prisioneiro e o tão vulgar soltar das amarras, pouco resta, nada dista. Nada pára à nossa espera e essa impossibilidade de suspender o mundo, enquanto se decide o próximo passo, torna-nos senhores de nós mesmos, rasgando os tratados, fulminando a ponderação a golpes de aventura, gritando ao desconhecido ainda que seja apenas para o não ouvirmos, por temermos o escuro que nos dizem que seguramente encontraremos. Seremos sempre ingénuos e crédulos anarquistas, sem escolha nem redenção, de coração dilacerado, talvez, mas vivos, talvez.

Apetece-me, hoje, reler...

"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura. [...]"

Excerto de Orpheu Rebelde, Miguel Torga

13 comentários:

CNS disse...

Obrigada por este momento. Torga também.

João Cordeiro disse...

Belo trecho... e um Senhor da letras como Torga... bela simbiose.

Obrigado pela visita


O sonhador

un dress disse...

tão das pedras.tão torga...





beijO

Rhiannon disse...

Entre o ir e o ficar "Canto como possesso...a ver se o meu canto compromete..." este doer moído

Luís Galego disse...

Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.


que se passa baldoino???? a dôr anda latente nos teus textos e naqueles que citas. Um abraço

Luís Galego disse...

baudolino, desculpa...

Yayo Salva disse...

Palabras sentidas en el corazón, las tuyas y las de Torga.
Saludos.

vida de vidro disse...

Um grito visceral. Porque assim se vive. **

cm disse...

...quem contra o tempo e a vida desfere sua energia só pode estar vivo e desperto...mesmo dorido

um abraço

Daniela disse...

não conhecia este texto. muito bom.

**

jguerra disse...

Confesso que não aprecio muito a poesia de Torga... aliás de poucos poetas portugueses. Formação com certeza.

Mas... quanto a dias mágicos, o meu será a 26 e não a 27. falamos do mesmo?

Abraço.

PS: É verdade que tenho andado distraído. tem toda a razão.

verde disse...

e entre o ir e o ficar às vezes passa tanto tempo.... :)

blue disse...

um post que é bom ler.
:)