03/07/07

As pedras acutilantes, pedras de dois gumes por debaixo dos pés.
A sombra do murmúrio das folhas por sobre o cinzento do betão,
Por entre ferros retorcidos de fundações adiadas,
Por sobre o vermelho suicida do crepúsculo.
Paraste sobre as águas, ou sobre um floco de uma neve impossível,
Quente,
Sôfrega do teu calor.
Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento.
Mais uma palavra e tudo estará consumado,
Mais duas grilhetas, apenas duas, o que te falta para poderes falar.
Mais uma raíz para sempre na terra infértil,
Mais um ramo à espera
Talvez de ser queimado pelo fogo,
Um fogo qualquer que nunca ninguém terá visto.
Acabou, podes dizê-lo com a tua boca,
Com todas as nuances da tua voz,
Como quiseres.
Paraste porque não tens alternativa.
Esgotaste o sentido do movimento,
Exauriste-o sem qualquer glória, sem um vislumbre de nobreza.
Deixaste que tudo fluísse rumo ao centro da terra
E se fundisse.
Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste.
Fala, se quiseres, mas sê lúcido como a morte mais cínica.
Acabou e podes dizê-lo, se te restar alguma forma de o fazeres.
Estás morto, já to disse, acabou.

16 comentários:

lua de inverno disse...

e assim num repente sai-me todo o ar dos pulmões e respiro as palavras, sentindo-as minhas, sabendo-as da minha cor, lendo-as como se nas minhas mãos

(é bela a magia que se faz com a poesia).

rtp disse...

Mágico, de facto!

Isabel Moreira disse...

obrigada por todos os comentários, mas sobretudo obrigada pelo último..e parabéns por este texto

filipelamas disse...

Boa sorte para o embate do final do mês!
Abraço académico!

jguerra disse...

Baudolino!

Claro que me divirto com as pistas. Acho isso bem giro e até já voltei atrás nos posts anteriores para reler os comentários. Ah! É verdade... não gosto por aí além de Arcade Fire. A melodia é boa, mas a cantar deixa a desejar... no Funeral, até "grita" demais para meu gosto.

Quanto ao texto: Acabou! Não pode! Nada acaba. Fica na memória, mesmo que nós não queiramos. Persegue-nos, por vezes, quando menos esperamos. Tentamos colocar um ponto final numa história, mas apenas ficam reticências.

Grande abraço.
PS: Não vou dando resultados sobre as pistas deliberadamente... mas acho que ainda estou "frio, a ficar para o morno". LOL

Fernando Pinto disse...

Gostei muito do início!

Abraço,
FM

Anónimo disse...

No sé si lo entendí del todo. Mada acaba definitivamente, sólo se detiene en un instante único, que puede o no ser repetitivo (lo que llaman Dejá vu), pero no creo que acabe, pervive en otros foros, con otras formas.
Un abrazo.

Claudia Sousa Dias disse...

"C'est toi!

C'est moi!" (Carmen e D. José in "Carmen" de Bizet) - é o que me faz lembrar este teu poema...

Ana Paula disse...

Olá! Agradeço a visita ao meu blog. Ao passar aqui para retribuir, encontro um blog repleto de textos interessantes e bem seleccionados. Parabéns!

ARV disse...

ainda estou a ruminar sobre um ou outro texto que precedem este...

un dress disse...

também se lê com a pele ...






abraÇo*

J. disse...

Parabéns pelos bons textos, com profundidade de sentimentos. Obgd pela visita.

Subterranian \ Ultravioleta disse...

texto poderoso, as palavras implacáveis parecem nao querer oferecer perdoa.

parabéns.

xana disse...

"Paraste, sem que nada o fizesse prever,
Sem que as cores dos teus lábios dissessem algo sobre ti,
Sobre a tua agitação, sobre o teu sofrimento."

adoro este versos, especialmente. gosto mesmo de passar por cá e ler o que escreves, é realmente e simplesmente bonito. *

Daniela disse...

senti mt este texto, palavras belas de tão triste.

*

luísa disse...

"Entregaste-te na vertigem de um buraco negro,
Nu e frio como o natal do amor que nunca viste."

acho que nunca li palavras que se sentissem tanto por dentro. obrigada*