02/01/09

road movie 2

Saiu pela porta, o café bebido. Lera-lhe nos olhos um 'tenho medo de morrer sozinho.'
Ambos perceberam que terá sido ali que ele a amou pela primeira vez, ou se deu conta disso, naquele fechar de portas, a da casa e a do carro.
O café, que deveria ter sabido a um veneno qualquer, foi chuva na sua terra árida de há muito.
O motor do carro, a dilacerar a solidão futura, lembrou-lhe que o futuro era já e não lhe pertencia. Por aquela estrada seguia a confirmação de que nem os gatos vivem o número de vezes que deles se diz.
Afastou-se, embriagada pela tinta com que podia finalmente escrever no branco de algumas das suas páginas. Seguiu sem destino certo, o clássico de quem tem uma ideia daquilo que o faz fugir e pouco mais do que isso. Adormeceria talvez mais confortada pela suposta coragem mas descobriria, na manhã seguinte, que tinha havido Pai Natal, com presentes e tudo, mas o mundo não se reinventara apenas por isso, tal como um brinquedo não mata a fome a uma criança faminta. Da tampestade à bonança, da bonança ao vazio. Teria ainda de fazer muito caminho, literalmente. Ganharia uma vida, mas à força de distância percorrida, de ver àrvores e postes a passar ao lado, na voragem de revelar ao novo ano um admirável mundo não tão novo assim.
De costas para a porta que se fechara, acendeu mais um dos muitos cigarros que ainda fumaria. Ficaria por ali mais uns anos, passar-lhe-iam umas mulheres sombrias pelo quarto e pelo corpo, mais rotina que prazer, mais reflexo que conforto. Beberia bastante, até se deixar consumir nos braços de todo o tempo perdido, sem lucidez nem remorsos. Encontrá-lo-iam um dia deitado e cobri-lo-iam de terra e da dignidade do esquecimento.
E na estrada percorrida se cumpririam aniversários, muitos mais depois do fechar das duas portas e do café envenenado que soube à água da chuva torrencial que tudo lava.
"Nem tudo será Inverno, nem Verão, nem Primavera, nem Outono." Consta que estaria escrito, com o carvão de um resto de torrada, ao lado de um pequeno copo de bagaço no qual nem teria já tocado. Consta muita coisa quando nada se sabe. No seu último sonho teria escrito, a tinta vermelha, numa folha alvíssima: "Quando percebi que eras o pássaro dourado que procurei a vida toda, resisti a que te deixasses aprisionar. Ganhei com isso o único tempo de paz. Voa." E seria previsível, de gosto duvidoso, final de novela barata. Pois que fosse. A terra por cima guardaria tudo no seu sortilégio, até sonhos improváveis, testamentos invalidáveis e vidas em vão.

7 comentários:

Luísa disse...

texto fantástico...
feliz 2009*

Lana disse...

Bom ano Baudolino e que continue a nos brindar com estes excelentes textos e pensamentos.

1 sorriso mm mto luminoso
Lana

isabel mendes ferreira disse...

texto TOCANTE.érrimo.



abraço.



e


um excelente ano....assim a juntar as palavras....tão bem.

Lana disse...

eu tenho medo de morrer sozinha...
e as vezes muito acompanhada é o mesmo que sozinha
1 sorriso mto luminoso e obg por tudo
Lana

jguerra disse...

Deixar voar os outros é a essência do nosso próprio voo. Ficaremos sempre presos na gaiola uns dos outros?

PS: Não tenho estado bem, parti um dedo da mão direita e daí não poder vir com a regularidade necessária nem visitar o teu blog como desejaria.

Vieira Calado disse...

Gostei deste seu texto.

Um abraço

Fernando Pinto disse...

"Nem tudo será Inverno, nem Verão, nem Primavera, nem Outono." Consta que estaria escrito, com o carvão de um resto de torrada

Gostei muito!

Abraço