30/04/07

Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

Deixarmo-nos ondular pelo vento, tão simples como tudo o que nasce, seja das nossas mãos, seja do coração, seja da terra que nos acolhe sempre, generosa.

4 comentários:

Lana disse...

Olá Baudolino,
percebo que a perda momunental se instalou no seu coração e até "a terra que nos embala" tem sabor a "sózinho".
É muito dificil, por muitos amigos que tenhamos, por muitas palavras de alento que nos sejam dirigidas, encararmos a perda e sobretudo enfrentarmos o caminho sem tudo o que perdemos.
O tempo cura dizem, mas esse tempo de que se tanto fala não cura, apenas faz com que saibamos lidar melhor com essa saudade e essa terrivel solidão com que ficámos.
Não desista viva a sua perda, faça o seu luto, chore e ria a um tempo, grite e agite as profundas águas do seu ser quantas vezes lhe apetecer e depois, ou ao meso tempo, partilhe a dor pois falar é mais fácil do que reter na alma e ajuda a levar o caminho de uma forma melhor e mais "agradável" ( se é esta a palavra correcta).
E lembre-se que sempre que precisar há um sitio com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma e com uma vontade de o escutar atentamente à sua espera.
1 sorriso luminoso e até breve
Lana

Rui Luís Lima disse...

olá Baudolino!
obrigado pela visita e comentário ao nosso blogue de cinema.
Este poema do Miguel Torga dá-nos a sua visão do mundo. Se pararmos um minuto por dia e olhármos o que nos rodeia tranquilamente, certamente iremos encontrar uma paisagem muito diferente.
um abraço cinéfilo
paula e rui lima

rtp disse...

Aprecio profundamente a prosa e a poesia de Miguel Torga! Adoro tudo o que escreve - as mensagens que nos deixou e a forma como no-las transmitiu.
Assim como gosto muito das reflexões que o Baudolino vai tecendo aos poemas que, neste belo espaço, nos vai deixando.
Ondulemos, então, pelo vento!
Um beijinho da RTP.

Claudia Sousa Dias disse...

Belíssimo!

CSD