01/10/07

Nos sonhos de sua mãe, nunca foi feia, nunca foi má, nunca acordou com a necessidade de se lavar para que dela saísse o cheiro da miséria, da dignidade perdida. Aos olhos de sua mãe, foi sempre a mesma, criança indefesa, esperança, mistério, candura, enlevo deitado num colo feito ninho. No leito de sua mãe jazem todas as esperanças, mortas, as últimas a morrer, diz o povo. Nos olhos fechados de sua mãe ficam os sonhos, encerrados, história terminada, resgate negado ad eternum. Nas mãos de sua mãe, placidamente colocadas sobre o peito, nas veias que a pele deixa ver e onde apenas o frio corre, fica o segredo, o sortilégio de uma doçura ainda possível, feita de lágrimas, transmutadas nos sonhos de sua mãe.

9 comentários:

Lana disse...

Humm que bonito...
sempre melancólico mas com muita verdade pelo meio.
espero que tenha tudo corrido bem no trabalho que desenvolveu para apresentação e defesa ( sei que sabe do que falo :)) e que tenha obtido o sucesso que esperava.
voltarei como sempre com 1 sorriso mto luminoso e obg. pelas suas palavras que no meu blog têm um efeito reparador da minha alma ... talvez porque são em qualidade e não em quantidade?
até breve
Lana

cljp disse...

Os sonhos alteram a percepção da realidade. Também eles, como morfina, aliviam a dor.

Blas Torillo disse...

Bau... Tenía mucho tiempo que no leía un homenaje a la relación madre - hijo.

Es hermoso esto que escribes y lo que has provocado es que vaya esta tarde a ver a mi madre anciana, que bien merece ella que le lea esto que has escrito.

Un abrazo.

turbolenta disse...

Um olhar triste sobre a relação mãe-filho,mas que, no fundo não deixa de ser verdadeira.E uma mãe vê sempre o filho com olhos diferentes.
Voltarei
bom fim de semana

Carol Bonando disse...

adorei...
tenho passado por aqui mas nunca deixei recado...
qlker dia, pode passar no meu bloguinho, está convidado!
abraço e até logo.

un dress disse...

fixo-me:

na

doçura

ainda

possível


.



beijO

Rhiannon disse...

Sentido texto.
Quando a minha avó morreu, ouvi o meu pai sussurar à minha mãe: nunca mais voltarei a ser criança.
Com ela foram os sonhos que o tornavam a criança indefesa.

jguerra disse...

Olá Baudolino.
A lua esteve bem contigo parece!
tenho leituras em atraso, e que leituras. Como sempre, escreves bem, transporto-me em cada palavra e expressão.
Um abraço e votos de boa semana.

APC disse...

Não há miséria nos sonhos.
A miséria chega quando esses se vão.

Um abraço.