29/01/08

obituário

Com mil rituais, enterramos os nossos mortos. Fazemos embrulhos, com caixinhas numa madeira que parece sempre brilhante, plastificada, forrada de uns cetins baratos pagos, tantas vezes, ao preço da glória, se esta o tivesse. Rodeamos os mortos de flores, de uma overdose de flores, com cartões debruados a negro e com dizeres exdrúxulos de uma saudade que se afirma ali, no branco do cartão, eterna. Rodeamo-los com fitinhas, como em embrulhos de oferta, de um kitsch barroco até à náusea. Depois fechamos e abrimos as caixinhas da tal madeira brilhante, olhamos e desolhamos o corpo mirrado, a figura que parece de cera, purgada já de vida, mostramos ou ocultamos lágrimas de dor e de outras coisas, encomendamos uma alma que já não precisa de encomendação, que já está livre da sua prisão de beleza fugaz e passa por ali tentando perceber o que resta dela em tudo aquilo. Depois marchamos, pequeninos e devotos soldadinhos de uma dor, sentida ou não, e vemos a terra seca e dura cobrir o nosso embulho, como se enterrássemos um tesouro secreto mas publicando o mapa num qualquer jornal.
Ainda assim, dói sempre. Dói-nos a memória de quem só revemos nesse acto. Dói-nos o sortilégio de sabermos que vivos vamos encontrar e como isso nos evoca uma quase festa. Dói-nos o futuro, o sabermos que também um dia irão fazer um embrulhinho connosco, com vénias e mesuras.
Ao pó tornaremos. Que seja em paz.

10 comentários:

filipelamas disse...

Tanto e tanto me diz este seu - sempre - belíssimo texto!
Forte abraço!

luísa disse...

a consciência da morte é o pior defeito de se ser humano*

Claudia Sousa Dias disse...

Um abraço, querido amigo.

Tudo o que eu possa dizer será sup
erfluo...


CSD

x disse...

a morte, toca-nos sempre. o meu avô faleceu há pouco tempo, e lembro-me te ter tido sentimentos parecidos aso que materializas aqui.e, mais do que tudo aquilo que possa dizer... talvez 'percebo' seja o mais...
escreves incrivelmente bem, nunca vou cansar-me de te dizer. *

un dress disse...

ashes to ashes.

ash wednesday at undress...






.beijO

José disse...

Que bom seria se nos pudéssemos libertar desse supérfluo embrulinho, quando sabemos que já não nos faz falta.
É duro, mas é preciso que venha a senhora morte libertar-nos.
Escxreveste mesmo o que eu penso.
Gosto tanto de ler sa tuas reflexões !......
Silampos

Baudolino disse...

obrigado aos que comentaram.
josé, benvido a estas lides. Não terá de vir a 'senhora morte' libertar-nos nem a vida é dura. Estranha, surpreendente, dolorosa, talvez... Nascemos sem embrulho mas com um vale para vivermos tudo a que temos direito, uns mais, outros menos. Se a morte liberta... talvez também. Esperar por ela como única redenção é solidão, pura e dura, é desespero cru, é rasgar o vale que recebemos à saída do útero das nossas mães, bem antes do tempo, não lhe parece?
Sugiro-lhe que não fique à espera que a maré suba e o engula, lenta ou violentamente, como só a maré sabe. Vá recuando, devagar. Quando a maré subir tudo e já não tiver mais espaço atrás de si... se calhar já viveu tudo. Por mim, ainda tentaria subir a falésia. Quem sabe não começaria a descer outra vez, a maré...

J. disse...

Agora já não sei se hei-de comentar o post ou o comentário, magnífico! Parece-me que a consciência da morte - que só de vez em quando nos desperta - nos ajuda a aceitar e viver melhor a vida. É um pouco como as férias, se não trabalhassemos o ano todo, teriam o sabor doce que têm? A vida não será isso mesmo? umas curtas férias da morte? Na realidade, todos nós passaremos muito mais tempo mortos que vivos... se calhar o melhor é aproveitar bem, aceitar as nossas perdas. Nunca sabemos quando as férias acabam. É chavão, mas vem mesmo a calhar: Carpe diem
(obrigada, P.)

Lana disse...

Olá!
uma coisa aprendi há muito tempo. todos temos de fazer o nosso luto e, mesmo assim, vamos sempre nos sentir como descreves.
1 sorriso muito luminoso e até breve.
Lana
ps: obg. pelo teu comentário ... acho que regressei mas nada está a ser fácil.

CNS disse...

Maquilhamos a realidade com uma série de rituais absurdos que não servem mais do que um ponto de fuga numa esquadria onde morremos por dentro.