20/03/17

excertos de 'Cartas Exiladas' 1

Meu caro,

há. Pode haver. Não te digo que não. Pode existir uma razão, ou uma dúzia ou duas de razões, para sentires que deves fazer algo por mim. Estás cansado destas cartas, destas interpelações em sintaxe pobre e semântica embotada por vício de auto-comiseração. Preferirias talvez falar de mim apenas...
E, afinal, sempre te vou pedir o tal elogio, seja ele em que fase da vida for. Se for o último, para mim, se anteceder o luto e o esquecimento de quem era, faz o que tens a fazer. Diz, a quem tiver ficado, que fui cansativo. um bom amigo mas cansativo. É justo que o digas, porque é a verdade e esta missiva é disso prova cabal. Peço-te que fales do muro branco, de como o senti sempre até ao fim, de como cá dentro é mais fácil viver, de como fui um eremita fechado sobre mim próprio, confinado ao meu universo em contracção. 
Nada disto, nem estas palavras que trocamos agora, é interessante. É sentimentalismo do mais puro, do mais balofo, dirás. E dizes bem, de forma exemplar até. Talvez devêssemos interromper bruscamente esta aventura epistolar da nossa amizade. Ou não. Tive medo de tudo menos de escrever, de me escrever, de escrever aos amigos, de os escrever em longas frases com adjectivos a mais e excesso de advérbios, de lhes deixar estes lamentos insuportáveis ou despidos de significado. Tantas vezes encontrei, numa pálida resposta eivada de compreensível condescendência, o alento para adormecer outro dia, um dia mais. Nunca me foquei o suficiente no futuro para ter esperança de redenção. Nunca me entreguei demasiado ao passado para pensar como teria valido a pena cada hora. Palmilhei um presente, lugar-comum a que chamei terra de ninguém. Tudo, ou quase tudo, me parece fora do espaço e do tempo devidos, desde o ar que me violenta os pulmões, aos significados exilados, reféns de expectativas infundadas em relação à grandeza do mundo e da capacidade dos olhos para ver. Talvez tenha chegado a hora de, aqui mesmo, sem retorno possível aos meus, do outro lado do oceano, me entregar a isso de ser assumida e depuradamente coberto pela terra que pisei, neste lugar padrasto, sem pontos cardeais em vigor. Tudo aqui parece ter prescrito excepto tu, que me ouves, eu próprio, cansado de me ouvir, e o mar, que também  parece ir-se mostrando exaurido de paciência. 
Peço-te apenas que não te esqueças do elogio, ao que quiseres, não terá de ser a mim. É até melhor que não o seja. Um dia poderás recordá-lo e perceber que te serve, que parece ter sido feito à medida para ti. Então, vesti-lo-ás e terás feito essa descoberta ainda a tempo.

Despeço-me de ti, com serenidade e gratidão. 
Transmite, por favor, as minhas saudades à tua doce Maria Helena e à vossa menina.
Ramiro
Antofagasta, 12/12/1983



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